O saxofone alto alcançou proeminência no jazz nos anos 1940,
sob a influência de Charlie Parker e o nascimento do bebop. Importantes
instrumentistas como Art Pepper, Lee Konitz e Ornette Coleman tomou os instrumentos
em suas próprias direções, criando vozes distintas de saxofone alto. Movendo-se
à frente do novo milênio, nenhum saxofonista alto entrou na tradição com mais
estilo e elegância do que Miguel Zenón. Seu “Alma Aldentro: The Puerto Rican
Songbook (Marsalis Music, 2011)”, “Tipico (Miel Music, 2017)” e “Yo Soy El
Tradicion (Miel Music, 2018)” são marcos latinos da arte de Zenón.
“Golden City”, contratado pela SFJAZZ e pela Hewlett
Foundation, celebra San Francisco, um assunto no qual Zenon se aprofundou,
explorando a história da cidade desde suas comunidades nativas americanas
pré-europeias, passando pelos assentamentos mexicanos até a Corrida do Ouro, os
dias da imigração chinesa e além, a gentrificação contínua da cidade e a
influência da alta tecnologia e seu status de "Cidade Santuário",
resultando em uma suíte temática de 11 peças.
Temática e instrumentalmente desafiante e complexo, apresentando
um noneto pesado nos metais (trombones, tuba, trompete), “Golden City” é um
triunfo. Os arranjos de instrumentos de sopro — apoiando o sax alto, piano
(Matt Mitchell), guitarra (Miles Okazaki), seção rítmica de baixo/bateria, incrementados
pela percussão latina de Daniel Diaz —traz Gil Evans à mente, e a obra-prima
menor de Herbie Hancock, “Speak Like A Child (Blue Note, 1968)”.
Iniciando com melancolia, a triste "Sacred Land",
o saxofone de Zenón chora para o povo original nativo estadunidense de São
Francisco antes de passar para um animado e firme balanço. O implacável
"Rush" fala da queda final destes povos nativos, na forma da corrida
do ouro que trouxe o ataque europeu para a Cidade do Ouro. Os instrumentos de
sopro misturam e lutam com tons escuros. "Acts Of Exclusion" refere-se
à Lei de Exclusão Chinesa de 1882, surgiu por meio da pesquisa de Zenón sobre a
comunidade sino-americana da Bay Area. O saxofonista parece invocar
Charlie Parker com uma reviravolta ácida que dá lugar ao solo de guitarra
pungente de Okazaki. "9066" fala sobre a ordem executiva de Franklin Delano
Roosevelt que forçou milhares de nipo-americanos a irem para campos de
concentração. Apresenta o vigoroso e agourento solo de baixo de Chris Tordini
em frente ao hábil trabalho de piano de Mitchell. Então Zenón sopra elegíaco
diante de um acompanhamento orquestral de metais.
"Sanctuary City" celebra a decisão de São
Francisco de acolher os andarilhos, que muitas vezes vagueiam e mudam-se por
razões políticas e de perseguição. Santuário para os menos afortunados encontra
resistência com uma porcentagem significativa de eleitores estadunidenses. A
maioria dos habitantes de São Francisco provavelmente não se importa com a
resistência do tipo odioso.
“Golden City” é um exame erudito de camadas da história de
São Francisco, descasca alguns dos sofismas de relações públicas dos livros de
história, que muitas vezes cobrem os males e injustiças da evolução da
sociedade americana. O álbum mostra que Miguel Zenón está no auge da sua
criatividade. Uma experiência auditiva fascinante. E, cara, estes instrumentos
de sopro….
Faixas: Sacred
Land; Rush; Acts of Exclusion; 9066; Displacement and Erasure; SRO; Wave of
Change; Sanctuary City; Cultural Corridor; The Power of Community; Golden.
Músicos:
Miguel Zenón (saxofone alto); Matt Mitchell (piano); Chris Tordini (baixo
acústico); Dan Weiss (bateria); Miles Okazaki (guitarra); Daniel Diaz
(percussão); Diego Urcola (trompete, trombone de válvula); Alan Ferber
(trombone); Jacob Garchik (trombone,tuba).
Fonte: Dan
McClenaghan (AllAboutJazz)

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