Lançado há menos de uma semana, "Honora", de Flea,
já está sob o nível habitual de controvérsia interna. Mais um milionário do
pop, diletante do jazz! De repente, ele toca trompete! E vai para a capa da
DownBeat! Ele tem a mínima ideia do que está fazendo? Será que isso é mesmo
jazz? De qualquer forma, será que pode ser bom mesmo?
Vamos responder primeiro à segunda pergunta: Não sei, mas
não posso descartar essa possibilidade. Flea (famoso como o aclamado baixista
do Red Hot Chili Peppers) provavelmente não começará a frequentar clubes ou jam
sessions tão cedo. Porém, “Honora” está no mesmo patamar que álbuns de artistas
como Thundercat ou Mark de Clive-Lowe, ambos também já analisados
nestas páginas. Grande parte disso é inclasificável. Melhor dizer que se
situa algures no espectro do jazz.
Voltando à primeira pergunta, se ele sabe o que está fazendo:
Na verdade não, mas essa é a questão. “Honora” é um experimento, Flea tentando
algo novo e fora de sua zona de conforto. E ele tem uma ótima orientação. Flea
é um iniciante relativo aqui, especialmente no trompete (que ele tocava quando
criança), ele certamente não se considera um Clifford Brown. No entanto,
acompanhantes como o guitarrista Jeff Parker, o saxofonista Josh Johnson (que
também produz, com uso liberal de efeitos eletrônicos), o flautista Ricky
Washington e a também instrumentista Anna Butterss possuem credenciais de jazz
vanguardistas inegáveis, e o mantêm no ponto certo em peças como a atmosférica
composição original de fusão "Frailed"; a lenta, porém impactante e
emblemática "Free As I Want to Be", também original; e a
surpreendentemente delicada "Wichita Lineman" (com o roqueiro Nick
Cave em um vocal trêmulo, mas estranhamente apropriado). Flea confirma que sabe
tocar swing em sua própria composição bebop "Morning Cry" e em
"Traffic Lights", uma faixa quase pós-bop, mas também com influências
de hip-hop (com Thom Yorke, do Radiohead, nos vocais). Há também alguns gestos
sutis de swing em uma versão eletrônica e sombria de "Willow Weep
For Me", embora estejam bem disfarçados em uma matriz rítmica de verso
branco.
Finalmente, a última pergunta, aquela que te trouxe aqui: É
bom? É sim. Tudo isso é levado a sério, mas com um espírito de aventura. Se ele
não é um trompetista virtuoso (como é no baixo, usando esse instrumento para
dar um toque funk sutil em "A Plea"), Flea se dedicou bastante ao
trompete, e demonstra isso com uma interessante mistura de reverência e malícia.
Essa mistura levanta algumas dúvidas em relação à versão dele de "Maggot
Brain", do Funkadelic. Originalmente uma plataforma de improvisação para o
guitarrista Eddie Hazel, Flea apresenta uma transcrição literal para trompete
da primeira metade do solo de Hazel (com suaves acompanhamentos de flauta e
vibrafone). É uma homenagem sincera, uma debochada "apropriação
cultural" de uma obra-prima da música negra americana, uma demonstração de
suas habilidades em desenvolvimento, ou tudo isso ao mesmo tempo? De qualquer
forma, é bonito, mas também é a única coisa aqui que parece uma mera novidade.
Faixas
1.Golden
Wingship 01:01
2.A Plea
07:38
3.Traffic
Lights (feat. Thom Yorke) 05:41
4.Frailed
10:50
5.Morning
Cry 03:31
6.Maggot
Brain 04:52
7.Wichita
Lineman (feat. Nick Cave) 04:22
8.Thinkin
Bout You 04:10 vídeo
9.Willow
Weep for Me 03:53
10.Free
As I Want to Be 05:13
Fonte: Michael J. West (DownBeat)

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