Nos poucos lançamentos da banda na última década, o grupo Being
& Becoming, de Peter Evans, definiu-se por um padrão de influência
incomum. Como ex-líder do quarteto de vanguarda de estrelas Mostly Other People
Do the Killing, Evans sempre desempenhou o papel de agitador, um artista
autoral e intransigente de múltiplas facetas, desafiador tanto no intelecto
sonoro quanto na prática propriamente dita. Ele está firmemente inserido no
jazz, mas bebe intensamente do repertório clássico para cornet, da música
devocional antiga e de fontes tão díspares quanto o techno de Detroit e a
música carnática do sul da Índia. Sua filosofia musical pode ser bem
representada por um caixote de discos de vinil encharcado, no fundo de uma
bodega do East Village.
“Ars Ludicra” exibe o cosmopolitismo musical de Evans em sua
plenitude. Com a participação de rostos conhecidos como Joel Ross e Nick
Jozwiak, e contando com a última atuação de Michael Shekwoaga Ode no grupo
antes da aclamada entrada de Tyshawn Sorey, o Being and Becoming nunca
foi tão fiel ao seu nome misterioso. "Ars Memoria" (em português, a
arte da memória), de 2023, apesar de um experimentalismo desenfreado e da
atmosfera inquietante característica de Ross, foi um disco essencialmente
analógico. Os sintetizadores de Jozwiak são mantidos em um mínimo relativo, um
eco barroco à união extática de Ode. O álbum “Ars Ludicra”, produzido de forma
independente e cujo título significa literalmente "arte do brincar",
embora Evans o traduza em entrevistas como "arte do jogo", permite a
Jozwiak explorar um território mais amplo. Com exceção de "Malibu",
todas as faixas explodem com arpejadores e guinchos sustentados, muitas vezes
em sincronia ou em oposição ativa às frases extensas de Evans.
Mais do que apenas uma mudança na sinergia da banda, os
sintetizadores onipresentes rompem com a filosofia de experimentação de todos
os músicos. A gravação situa-se em solo sagrado: o estúdio de Van Gelder, em
meio às árvores de Jersey Shore, onde grande parte das bases do jazz enquanto
gênero rapidamente se expandiu e floresceu. O estúdio confere até mesmo a
gravações recentes uma espécie de imediatismo viçoso e terroso. Especialmente
no caso do trompete, as oitavas mais agudas soam mais incisivas, enquanto as
mais graves mostram-se majestosas e eloquentes. Grande parte do calor
expressivo e envolvente das primeiras gravações de Lee Morgan pode ser
atribuída às paredes revestidas de carvalho e à engenharia de som marcante de
Van Gelder, assim como, também, aos traços de Morgan, Miles Davis e Donald Byrd
presentes na maneira de tocar de Evans nesta ocasião. Os sintetizadores e Moogs
de Jozwiak foram todos gravados em sobreposição, nenhum deles foi produzido
durante a gravação inicial. Os timbres estranhos e etéreos de "Hank's"
e as vocalizações efusivas de "Pulsar" são todos incrivelmente
precisos e surgem genuinamente do nada, intrusivos e sem grandes indícios
prévios por parte do restante do grupo.
Tal iniciativa é arriscada, especialmente em um disco que se
preocupa com a liberdade absoluta de seus componentes e com a imediatez de suas
improvisações. Porém, em vez de sufocar as texturas instrumentais, apresenta um
embate empolgante entre dois sons contraditórios. O efusivamente digital e o
analógico nostálgico espiralam um em direção ao outro, forçando o outro a
seguir direções perpendiculares. Os pontos e traços sugeridos pelo trabalho de
baquetas sincopado de Ode são preenchidos pelos sintetizadores, como um intenso
sombreamento a carvão. A sobreposição de gravações de Jozwiak não interfere na
liberdade da banda, mas a reconstitui. Em "Images", o zumbido grave é
tão incisivo e arrebatador quanto um set de Jeff Mills no Boiler Room,
oscilando em meio à ambiência do estúdio com a precisão de um beija-flor. Ao
contrário de muitas iniciativas do gênero, Being & Becoming
concentra-se em tapeçarias entrelaçadas de corais. Os sintetizadores
proporcionam uma extensão da polifonia do disco, como uma soprano elegante que
se destaca em uma composição de Thomas Tallis. Essa polifonia é tanto o modus
operandi do disco quanto o de Evans. Todo o conhecimento musical é
unificado sob a sua direção, mesmo que à força. “"Ars Ludicra" não se
refere apenas à alegria de brincar e experimentar, mas também à imensa coleção
de "brinquedos" sob o domínio da banda. Entrelaçamentos sonoros que
rompem tempos e mundos, retornando exatamente ao ponto de origem.
Faixas: Malibu;
Pulsar; Hank's; My Sorrow Is Luminous; Images.
Músicos: Peter Evans (trompete); Joel Ross (vibrafone); Nick
Jozwiak (baixo); Michael Shekwoaga Ode (bateria).
Para conhecer um pouco deste trabalho, assistam ao vídeo
abaixo:
https://www.youtube.com/watch?v=DQr1Sqrg-gM
Fonte: Fran
Kursztejn (AllAboutJazz)





