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terça-feira, 24 de março de 2026

IBRAHIM ELECTRIC - FAST FIRE (Sleeve)

O trio instrumental Ibrahim Electric, de Copenhague, tem surfado uma onda de calor musical em 2025, eletrizando o público em festivais de jazz por toda a Europa neste verão, realizando uma série de concertos em miniatura transmitidos ao vivo e extremamente energéticos com instrumentos pequenos durante o outono e, finalmente, lançando seu primeiro álbum de estúdio completo em cinco anos. “Fast Fire”, com lançamento em 6 de dezembro na plataforma sleeve.fm e disponível em formato digital e vinil, este é o trabalho mais explosivo do grupo, que tem 23 anos de carreira. O programa de 10 faixas explora a energia contagiante e vibrante dos shows ao vivo do Ibrahim Electric, entregando a mistura intensa e característica da banda de soul, R&B, rock, punk, afrobeat, jazz tradicional, free jazz, baladas dramáticas e a energia pura de uma jam band. Estes três veteranos instrumentistas dinamarqueses — o guitarrista Niclas Knudsen, o organista de Hammond B-3 Jeppe Tuxen e o baterista Stefan Pasborg — consolidaram suas reputações na Europa como músicos extremamente versáteis em seus respectivos instrumentos. Juntos, a química entre eles é simplesmente explosiva, como pude presenciar no início deste ano durante as apresentações no Bohemia Jazz Festival em Praga e Plzeň, na República Tcheca, onde o público, de todas as idades, não conseguia ficar parado quando a banda começava a tocar. Extrovertidos e apaixonados, os integrantes da Ibrahim Electric trazem tudo o que têm à tona: ondas de John Scofield, Mike Stern, Ali Farka Touré, Jimi Hendrix Experience, Santana, James Brown, Booker T. and the MG’s, The Doors, John Coltrane, Stanley Turrentine, surf music dos anos 50, Oscar Pettiford, Jimmy Smith, Roy Haynes e Art Blakey, tocam sua alma e ressoam profundamente em seu corpo. A abordagem vibrante do trio, que abraça a liberdade, ao apresentar material original é estimulante e contagiante, com uma atmosfera descontraída e acolhedora. Dos riffs (NT: frase musical curta e repetitiva [de notas ou acordes] que forma a base ou um acompanhamento marcante em uma música, especialmente no rock, jazz e blues cativantes e vibrantes) de “Shuffle Corn” à paisagem sonora galopante e em tom menor do Velho Oeste de “Cheyenne”, passando pelos tons misteriosos e linhas intrincadas de “Hidden Bandit”, o encanto futurista e sedutor de “Flambino” ou o caldeirão borbulhante de hard bop da faixa-título, “Fast Fire” oferece muita música envolvente e gratificante para atiçar sua chama interior, aquecer seu coração e satisfazer aquele apetite ardente por uma dose fumegante de jazz revigorante com tudo o que você possa imaginar.

Faixas

1 Shuffle Corn 4:11

2 Cheyenne 3:31

3 Hidden Bandit 4:23

4 Hungarian Feelgood 6:23

5 Fast Fire 3:52

6 Prima 2:35

7 Long Haul 4:19

8 Flambino 2:43

9 Allegretto Surf 3:18

10 Synth64 4:30

Músicos: Niclas Knudsen (guitarra); Stefan Pasborg (bateria); Jeppe Tuxen (Hammond organ).

Para conhecer um pouco deste trabalho, assistam ao vídeo abaixo:

https://www.youtube.com/watch?v=NA6JnUGk1mw

Fonte: Ed Enright (DownBeat)  

 

ANIVERSARIANTES - 24/03

Alfred Winters (1931) – trombonista,

Chelsea Baratz (1986) – saxofonista,

Dave Douglas (1963) – trompetista (na foto e vídeo) http://www.youtube.com/watch?v=z1v0VmJKP-k,

Dave Goldberg (1971) – saxofonista,

Dave Rempis (1975) -saxofonista,

Gianluca Renzi (1975) – baixista,

Jeff Campbell (1963) – baixista,

Joe Fiedler (1965) – trombonista,

John Kolivas (1961) – baixista,

Kim Plainfield (1954-2017) – baterista,

Paul McCandless (1947) - saxofonista,

Renee Rosnes (1962) - pianista,

Sherman Irby(1968) – saxofonista,

Steve Kuhn (1938) - pianista,

Steve LaSpina (1954) - baixista 

 

segunda-feira, 23 de março de 2026

GABRIELA MACHADO - EQUILIBRANDO NO ACUPE

A popularidade do Choro está em ascensão. Nos Estados Unidos, campus como o Brazil Camp, o Choro Northwest (também conhecido como Centrum Choro Workshop), o Choro Camp New England e programas como o Brazilian Music Workshop de Antônio Adolfo atraíram os melhores artistas-professores, e alunos entusiasmados trouxeram o gênero de volta para suas comunidades locais. “Equilibrando no Acupe”, um programa de composições inéditas de choro, nasceu neste mercado global do século XXI, com fãs dentro e fora do Brasil.

Gabriela Machado vive em Salvador na Bahia, onde ela está concluindo um doutorado em Educação Musical pela Universidade Federal e ensinando práticas de performance em choro e estilos rítmicos para estudantes de música. Nascida em São Paulo, ela permaneceu lá até 2022, estabelece um perfil sólido como intérprete, músico de estúdio, de orquestra e estudiosa de coral. Ela divide seu tempo entre as duas cidades, um ato de equilíbrio que reflete no título de sua estreia como compositora e líder de banda, “Equilibrando no Acupe” (Equilibrando no Acupe, seu bairro em Salvador).

“Equilibrando no Acupe” é um projeto de choro mainstream, mas com um toque contemporâneo. Logo de cara, ouvimos o timbre vibrante do French Horn de Celso Benedito, uma novidade. O contraponto do choro inspirado em Pixinguinha está presente na baixaria maravilhosamente fluida de Emiliano Castro, e Machado cobre as bases do subgênero incluindo choro samba/gafieira ("Equilibrando no Acupe"), maxixe ("Filho do Tango, Maxixe É?" e "Salada de Maxixe"), valsa ("Valsinha pra Você"), polca ("Segura a Polca"), baião ("Baiãozinho Sertanejo"), frevo ("Passistiné") e samba ("Pras Mestras") na mistura.

As melodias, estruturas e ritmos de Machado pertencem ao contexto do choro clássico, mas ela incorpora oportunidades para improvisação solo em suas composições, tornando-os sutilmente mais jazzísticos. Nesse aspecto, ela se alinha com chorões brasileiros influenciados pelo jazz, como o guitarrista de 7 cordas Douglas Lora (que trabalha com Anat Cohen, Trio Brasileiro e outros grupos) e o flautista e saxofonista Edu Neves (em gravações como No Balanço do Choro-Samba, de Stephen Guerra, entre outras). A esta lista, adicionem-se pianistas como Amilton Godoy e Adolfo, no âmbito do jazz/música instrumental brasileira, e, na vertente do jazz estadunidense, os pianistas Cliff Korman e Renée Rosnes, o baterista Alex Kautz, Hamilton de Holanda e Gonzalo Rubalcaba, entre outros.

Não se trata exatamente do choro da sua avó, mas a compositora Chiquinha Gonzaga o reconheceria como choro, mesmo sem as pequenas citações que Machado fornece. Porém, um aficionado do século 21 pode perceber um toque de jazz em seus arranjos, no clarinete de Nailor Proveta Azevedo, no piano de Debora Gurgel, na bateria de Douglas Alonso e Guegué Medeiros, até no acordeão de Matheus Kleber. E o trabalho da cavaquinista Camila Silva acrescenta ressonância ao reconhecimento sonoro do conjunto das raízes africanas e indígenas do idioma.

"Pras Mestras" está no cerne do projeto, como uma "valorização e gratidão às minhas referências femininas". Machado dedica o álbum às muitas mulheres que a inspiraram. Em conversa com a AAJ, ela expressou sua satisfação por ter conseguido reunir três gerações de mestras da música para a gravação: Gurgel, a mais velha; Silva, a mais jovem; Machado a intermediária. Ao longo dos anos, muitas de suas professoras foram mulheres, e ela trabalhou com muitas musicistas, incluindo o grupo Choronas, que fundou em 1994 com a cavaquinista Ana Cláudia César, a guitarrista Paola Picherzky e a percussionista Roseli Câmara.

Ainda há trabalho a ser feito para alcançar a paridade para as mulheres na área, afirma ela, mas menciona "um movimento" no Brasil, onde as mulheres se apoiam mutuamente como compositoras, intérpretes e professoras. Ela descreve com prazer a obra como uma espécie de "ação afirmativa", uma correção que abre o campo e, como atesta "Equilibrando no Acupe", enriquece a estética.

Faixas: Equilibrando no Acupe; Filho de Tango, Maxixe É?; Espinhaço; Valsinha pra Você; Salada de Maxixe; Choro Não É Fake; Segura a Polca; Baiãozinho Sertanejo; Pras Mestras; Tutu; Serelepes; Passistiné.

Músicos: Gabriela Machado (flauta); Matheus Kleber (acordeão); Emiliano Castro (violonista); Douglas Alonso (bateria); Debora Gurgel (piano); Nailor Proveta (clarinete); Celso Benedito (french horn); Guegué Medeiros (percussão); Camila Silva (cavaquinho).

Para conhecer um pouco deste trabalho, assistam ao vídeo abaixo:

https://www.youtube.com/watch?v=bYDZQigHx4c

Fonte: Katchie Cartwright (AllAboutJazz)

 

ANIVERSARIANTES - 23/03

Dave Frishberg (1933-2021) – pianista,vocalista,

Dave Pike (1938) - vibrafonista,

Eric Jekabson (1973) – trompetista,

Eivind Aarset 1961) – guitarrista,

Gerry Hemingway (1955) baterista,percussionista,

Greg Diamond (1977) – guitarrista,

John McNeil (1948) – trompetista,

Johnny Guarnieri (1917-1985) - pianista,

Leszek Mosdzer (1971) – pianista,

Michael Nickolas (1962) – guitarrista,

Nelson Faria (1963) – guitarrista (na foto e vídeo) http://mais.uol.com.br/view/disphtmqfdd6/nosso-trio--vera-cruz-040266C0C11366,

Stefon Harris (1973) – vibrafonista,

Zaac Harris (1978) - guitarrista 

 

domingo, 22 de março de 2026

HYEONSEON BAEK – LONGING (You&Me Music)

Qualquer vocalista que pode recorrer a talentos de primeira linha para apoiar sua gravação de estreia, então, vale a pena ouvir. Hyeonseon Baek não é exceção. A vocalista sul coreana, que estudou na Maastricht University na Holanda e na New England Conservatory, já estabeleceu as ligações que lhe deverão permitir distinguir-se no mundo do jazz. Auxiliado pelo pianista Kevin Hays, pela baixista Linda May Han Oh e pelo baterista Jochen Rueckert, junto com o convidado, o saxofonista tenor Lucas Pino, em algumas faixas, “Longing” revela um promissor talento em ascensão.

Em poucos compassos na abertura,"Caravan", ficamos impressionados com o tenor aveludado de Baek, flutuando sobre o balanço flexível fornecido pelo grupo, conforme ele encorpa a perfeita combinação de despreocupação e admiração. Baek não se arrisca muito, mas seu comando é inconfundível, possuindo cada frase e oferecendo o floreio ocasional necessário para colocar sua marca na peça. A seleção de clássicos está presente em todo o disco. A interpretação ágil de Baek em "Black Narcissus" de Joe Henderson é absolutamente convincente, aprimorado por seus vocais sem palavras em diálogo próximo com Oh e Hays. A "Duke Ellington's Sound of Love" de Charles Mingus recebe um tratamento comovente, incrementado por Hays, cujos comentários sensíveis e solo alegre adicionam a quantidade certa de sentimento à peça. "Lush Life" de Billy Strayhorn e Jimmy Rowles e "A Timeless Place" de Norma Winstone são apenas habilmente interpretadas, tomadas em andamentos deliberados que Baek lida com facilidade. A bela balada de Horace Silver, "Peace", é apresentada pela melodiosa abertura em rubato de Oh, inspirando Baek a algumas de suas ruminações mais sinceras do álbum.

As habilidades composicionais de Baek são substanciais. Duas versões de "West 4th St." são incluídas. O tributo da peça ao panteão dos grandes nomes do jazz é igualmente fantástico, seja cantado em coreano ou em inglês, e o seguro scat de Baek apresentado nas duas interpretações é verdadeiramente seu próprio Esperanto. "Longing" é outra vencedora, com um solo fluído de Hays e mais vocais apaixonados e sem palavras de Baek no final da faixa. "My Temptation", que deve ser o número mais contagiante do álbum, com um balanço ágil ancorado por Oh e Rueckert, que traz à tona o lado mais alegre de Baek, sem mencionar um solo brilhante de Pino.

Exalando confiança e autoridade, a estreia de Baek é uma audição agradável e envolvente, e um início auspicioso para o que deveria ser uma longa e frutífera jornada musical.

Faixas: Caravan; Black Narcissus; Duke Ellington's Sound of Love; West 4th St (Kor); Longing; My Temptation; Lush Life; A Timeless Place; Peace; West 4th St (Eng).

Músicos: Hyeonseon Baek (vocal); Lucas Pino (saxofone); Kevin Hays (piano); Linda May Han Oh (baixo acústico); Jochen Rueckert (bateria).

Fonte: Troy Dostert (AllAboutJazz)

 

ANIVERSARIANTES - 22/03

Bob Mover (1952) - saxofonista,

David Linx (1965) – vocalista,

George Benson (1943) - guitarrista,

Jackie King (1944) – guitarrista,

Jan Lundgren (1966) – pianista,

Jorge Ben Jor (1942) – vocalista,

Melvin Sparks (1946-2011) – guitarrista,

Steinar Raknes (1975) – baixista,

Walmir Gil (1957)- trompetista (na foto e vídeo) http://www.youtube.com/watch?v=vAJHoVM04r4  

 

sábado, 21 de março de 2026

DUO XL – VIBIN

Consultas ao admirável mundo da inteligência artificial e aos cartapácios que estoicamente resistem na estante não permitem dissipar convenientemente todas as dúvidas. Mas parece seguro concluir que duetos estáveis tuba-piano, num contexto jazzístico — tomado numa acepção abrangente e não estereotipada —, são uma raridade, para não dizer uma inexistência prática. Isso mesmo é confirmado à jazz.pt por Sérgio Carolino (nascido em 1973), um dos mais reputados tubistas da atualidade e grande conhecedor do panorama global do volumoso instrumento. «Até ao momento, não conheço nenhum duo tuba-piano que desenvolva uma linguagem com ligação ao jazz e à improvisação.» Pois é essa a singularidade do Duo XL, que junta Carolino ao pianista Telmo Marques (nascido em 1963) e que acaba de editar o seu terceiro álbum, “Vibin”, na editora japonesa Octavia Records. O novo registo é composto, como tem acontecido noutras ocasião, por obras originais escritas e dedicadas ao tubista, mas desta vez subordinadas a um conceito musical focado na linguagem e no fraseado jazzísticos. «Muitos bons tubistas com formação acadêmica na área da música erudita poderão encontrar neste trabalho, para além de um excelente repertório original, uma motivação para aprender e desenvolver as suas capacidades técnico-musicais, explorando a linguagem e o fraseado próprios da música de carácter improvisado», refere Sérgio Carolino. «O disco também estimula a descoberta de outras qualidades musicais no instrumento, como a sonoridade, o espectro dinâmico e o alcance de registo.» O Duo XL conta com uma carreira internacional, dezenas de apresentações e dois discos:” Portuguese Music for Tuba & Piano”, de 2014, e “Game Over”, de 2022. O seu sucesso no Japão é tal que por lá já tocaram para grandes audiências em Hamamatsu, Osaka e Tóquio; o duo também já atuou na Islândia, Eslovênia, Espanha e, claro, em Portugal. Muitos compositores portugueses já escreveram obras para o duo: António Pinho Vargas, Bernardo Sassetti, Carlos Azevedo, Filipe Raposo; e também figuras internacionais como Jean-Marie Machado, Didier Goret, Mico Nissim, David Dahlgren, Jim Self, Jerry Grant, Howie Smith, Paul Terracini e Andrew Batterham, para apenas mencionar alguns. Premiado internacionalmente em inúmeras ocasiões, Carolino, alcobacense de nascimento e cidadão do mundo, tem um percurso notável como tubista virtuoso, eclético, curioso, aventureiro. Quer como solista, quer como docente, tem deixado uma marca viva por onde passa. Desdobrando-se numa atividade tentacular, integra os magníficos TGB — com o guitarrista Mário Delgado e o baterista Alexandre Frazão, com quatro títulos editados pela Clean Feed —, para além de outras formações como o duo TUBAX Duo — com o saxofonista Mário Marques —, o duo TUBAB (com o baterista/percussionista Jorge Queijo), R’B & Mr. SC, The Postcard Brass Band, Surrealistic Discussion (com o acordeonista João Barradas), Duo AR com Maria João, SubWoof3r, Tuba&Drums Double Duo com o também tubista Oren Marshall, Tuba Trio — com Anthony Caillet (eufônio) e François Thuillier (tuba) —, Conical Brass com o trompista francês Jeff Nelsen e o Crossfade Ensemble do pianista e compositor Daniel Bernardes, seu conterrâneo, entre muitos outros. É fundador e diretor artístico do Gravíssimo! – Festival e Academia Internacional de Metais Graves de Alcobaça (a edição de 2025 acontece entre 26 e 29 de agosto). Natural do Porto, Telmo Marques é um pianista, compositor e arranjador que tem cruzado diferentes universos estilísticos com igual mestria. Concluiu o Conservatório Superior de Música do Porto e formou-se em piano na portuense Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo (ESMAE). Concluiu um Mestrado em Artes na Roehampton University, no Reino Unido, e um programa de Doutoramento em Música Computacional na Universidade Católica Portuguesa. Como compositor, recebeu encomendas para orquestra, solistas, música de câmara, música para teatro, documentários e publicidade. O seu nome consta da ficha técnica de mais de uma centena de gravações, nas várias vertentes da sua atividade. É docente na ESMAE e membro integrado do CEIS20 - Centro de Investigação da Universidade de Coimbra.

Gravado no Centro de Alto Rendimento Artístico (CARA), em Matosinhos, “Vibin” é quase inteiramente constituído por música original escrita para o tubista e para o duo, explorando as polinizações cruzadas entre a linguagem jazzística, a música erudita contemporânea, o funk e até a pop, tudo envolvido pelo manto do balanço que a tuba traz. «Trata-se de um verdadeiro crossover de estilos musicais», realça o tubista. Sérgio Carolino trabalha com alguns destes compositores há mais de 15 anos. «São amigos, conhecem bem o meu percurso e a minha abordagem musical. Todos são artistas ecléticos, com uma visão abrangente, alinhada com o meu conceito e filosofia no mundo da música: abrangência e criatividade musical.» O trabalho da dupla, que esbate fronteiras, tantas vezes artificiais, vai muito para além do virtuosismo, transmitindo liberdade e paixão e equilibrando o rigor das composições com a frescura das improvisações (a frescura das composições e o rigor das improvisações também é válido). «Neste álbum, com o objetivo de motivar outros tubistas a explorar uma linguagem jazzística, pedi aos compositores que escrevessem todas as partes, incluindo aquelas que, em certas secções, poderiam ser improvisadas. Isso permite maior clareza na compreensão do texto musical e possibilita que mais músicos se interessem em interpretar estas obras», explica Carolino. «No geral, embora cada compositor tenha a sua própria linguagem e um conceito musical bem definido, todas as peças exploram os dois instrumentos de forma virtuosa e orgânica, trazendo frescura, interesse na audição e transmitindo sempre uma sensação de liberdade e fluidez musical.» A obra inaugural, “Interplay II” — escrita em 1996 (a versão para tuba é de 2022) pelo compositor norte-americano Jerry Grant (nascido em 1936) —, surge segmentada em três partes e logo exponencia a interação entre os dois instrumentos, integrando material angular com raízes no bebop. O “Prelúdio” tem início sereno e melodia ampla, que a dado momento adquire outro vigor, para, no final, tudo voltar à quietude; uma segunda parte, “Invention”, após a exposição do tema-base, piano e tuba repartem papéis equitativos, explorando as suas linhas até à sucinta reexposição final. “Aria”, a derradeira parte, denota influências impressionistas e assenta num motivo repetitivo exposto pelo piano, que a tuba vem indagar, instalando uma bela melodia, que ambos os instrumentos desenvolvem. Encomendada por Sérgio Carolino ao compositor australiano Andrew Batterham (nascido em 1968), “Salamander”, peça escrita em 2019, procura retratar as qualidades míticas deste anfíbio, num dinâmico jogo contrapontístico, de ações e reações, aproximações e distanciamentos, em movimento permanente. Várias ideias musicais nascem e renascem de diferentes maneiras, antes de um retorno à atmosfera funk original. Saída da pena de Telmo Marques, “Tropia” — escrita em 2018 para trombone e piano, daí o título, e que ganhou uma segunda vida na versão para tuba e piano, dedicada a Carolino — começa com as notas solenes da tuba, expandindo-se de modo dinâmico e expressivo, com explorações harmónicas, ritmos vívidos e um particular lirismo. Os dois instrumentos alternam entre papéis principais e secundários, com Carolino a convidar o piano a percorrer caminhos inusitados, nunca olvidando a bela melodia, sublinhada por Marques com requinte harmónico e textural. Outra encomenda de Carolino, “Frivol I Tease” — para tuba solo (ou trombone baixo) e piano —, composição do norte-americano Jim Self (nascido em 1943), surge dividida em dois andamentos contrastantes; o primeiro, intitulado “Modal I Tease”, começa com uma breve introdução modal: segue-se um swing ameno, em tempo de valsa, com uma figura estática do piano a encontrar a melodia de Carolino. O motivo exposto na introdução da peça é retomado no seu ocaso. O segundo andamento, dito “Complex I Tease”, abre espaço ao virtuosismo de ambos os músicos, com o piano a colocar-se no centro e a tuba a gravitar ao seu redor, num verdadeiro tour-de-force para Carolino. A fechar o álbum, “Blues for Schubert”, do saxofonista e compositor suíço Daniel Schnyder (nascido em 1961) — escrita para o seu NYC Trio, que se completa com David Taylor no trombone baixo e o já desaparecido Kenny Drew Jr. no piano — peça que integra a suíte Worlds Beyond, de 2002 — é, como o título da peça logo denuncia, um blues inspirado pelo universo do compositor austríaco (sobretudo obras como Moments Musicaux e Winterreise), marcado pela opulência do piano (por vezes vertida em cascatas imprevisíveis), a que se junta uma bela melodia desenhadas pelo saxofone soprano de Mário Marques e a tuba discreta, a pontuar. À maneira dos blues do Delta do Mississípi, o resultado é um cadinho emocional onde cabem tristeza, alegria, beleza e esperança. Sérgio Carolino e Telmo Marques perseveram na sua missão de esbatimento de fronteiras entre universos musicais, com excelência e paixão.

Músicos: Sérgio Carolino— tuba; Telmo Marques— piano; Mário Marques— saxofone soprano em "Blues for Schubert".

Fonte: António Branco (jazz.pt)