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sábado, 5 de setembro de 2026

ANDRÉ ROSINHA – ERMO (Sintoma)

Apesar da sua centralidade na história do jazz e da música improvisada, pelas suas características sonoras é difícil o contrabaixo assumir-se como protagonista. Terá sido por isso que o primeiro álbum solo de contrabaixo só tenha surgido em 1969, gravado pelo norte-americano Barre Phillips: “Unaccompanied Barre”, posteriomente reeditado com os títulos “Basse Barre” e “Journal Violone”; poucos anos depois, Phillips gravaria ainda outro marco na história do instrumento: “Music from Two Basses”, gravado em duo com Dave Holland.

Duas figuras históricas do jazz português, Carlos Bica e Carlos Barretto, têm-se afirmado como “músicos de grupo”: lideram os seus projetos, sempre envolvidos em diferentes coletivos com diferentes músicos; mas ambos, apesar dos amplos percursos e discografias, trataram também de registar o som dos seus contrabaixos em formato solo. Bica editou em 2005 o solo “Single (Bor Land)”; Barretto lançou em 2002, pela CBTM, o histórico “Solo Pictórico”, tendo editado em 2024 ao formato solo, com “Lonely Dog”. Também o contrabaixista portuense Miguel Ângelo arriscou um disco a solo, em 2017: “I Think I'm Going to Eat Dessert (edição da Creative Sources)”.

Não sendo um desafio fácil, o contrabaixista André Rosinha aventura-se agora nesta empreitada desacompanhado. Se Rosinha já se tinha afirmado como acompanhante muito sólido, a acompanhar músicos como Salvador Sobral, Júlio Resende ou João Barradas, tem consolidado uma discografia em nome próprio cada vez mais inescapável. Em 2018 estreou com Pórtico, ao leme de um quinteto com Albert Cirera, João Barradas, Eduardo Cardinho e Bruno Pedroso; formou depois um trio com o pianista João Paulo Esteves da Silva e o baterista Marcos Cavaleiro, com quem gravou três álbuns muito sólidos: “Árvore (2019)”, “Triskel (2022)” e “Raiz (2025)”. E, em trio com Beatriz Nunes (voz) e Paula Sousa (piano), editou os álbuns “À Espera do Futuro (2021)” e “A Céu Aberto (2025), num processo de partilha democrática.

Editado pela Sintoma, o novo álbum “Ermo" abre em registro solene, com umas breves pinceladas com o arco (“Kyrie”). Ao segundo tema, "Gotama", Rosinha exibe o pizzicato ágil. E em seguida vem um dos momentos mais marcantes do álbum: “Kokoro” com uma melodia irresistível, que arrebata. Se nos trabalhos autoriais anteriores se salientava atenção particular à melodia, este registro sem rede confirma essa veia melodista. Ao longo de onze temas (todos curtos, nenhum chega aos quatro minutos), Rosinha não se perde em explorações nem divagações; desenhou os temas (todos originais, à exceção de um tradicional) e interpreta-os com muito rigor, sobrando pouco espaço para invenção no momento.

Repescada do seu disco inaugural, “Árvore”, a composição “Ré” brilha em todo o esplendor, apesar de mais despida, revelando profundidade. Em “O carpinteiro ilegal” chega um inesperado balanço. Outro momento muito bem conseguido é a revisão de “Minha mãe, lá vem o Jorge”, uma música tradicional portuguesa, aqui trabalhada pelo pizzicato, que explora o seu eixo melódico, indo à raiz. Quase a terminar, “Tripa coração” surge como espécie de anticlímax: estávamos mergulhados no ambiente austero do contrabaixo e de repente a voz de Salvador Sobral tira-nos o tapete. A voz de Salvador é imaculada e o tema é belíssimo; contudo, não destoará demasiado do resto do material no álbum? Obriga-nos a sair do mundo onde tínhamos mergulhado.

Confirmando definitivamente Rosinha como músico em toda a amplitude, este disco eleva o contrabaixista a um novo patamar. O disco não se inscreve na tradição histórica mais radical, mas, apesar da escassez de recursos, a abordagem torna o álbum muito acessível, revelando profunda musicalidade. Um solo de contrabaixo poderia ser um salto no escuro. Rosinha aterrou seguro.

Faixas

1.Kyrie 00:44

2.Gotama 03:24

3.Kokoro 03:35

4.Dias 02:35

5.O carpinteiro ilegal 01:35

6.Ré 03:55

7.Pasárgada 02:14

8.Canção para uma nuvem 03:26

9.Minha mãe lá vem o Jorge 02:24

10.Tripa coração 02:47

11.Desfecho 01:22

Músicos: André Rosinha – contrabaixo; Salvador Sobral— voz.

Fonte: Nuno Catarino (jazz.pt)

 

ANIVERSARIANTES - 05/09

Albert Mangelsdorff (1928-2005) - trombonista,

Bjorn Meyer (1965) – baixista,

Bruce Harris (1979) - trompetista,

Eddie Preston (1928) – trompetista,

Lars Danielsson (1958) – baixista (na foto e vídeo) http://www.youtube.com/watch?v=OE0Avd0uV1g,

Richie Powell (1931-1956) - pianista,

Ryojiro Furusawa 1945-2011) – baterista,

Sunnyland Slim (1907-1995) – pianista,vocalista 

 

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

WIN PONGSAKORN - TIME HAS CHANGED (Cellar Music Group)

“Time Has Changed” é a segunda gravação como líder do trompetista Win Pongsakorn, que nasceu em Bangkok, Tailândia, mas está firmemente ligado ao jazz contemporâneo de estilo americano desde que começou a tocar trompete aos quatorze anos, em 2011. Assim como em seu álbum de estreia, “Yes, It Is! (Cellar Music, 2020)”, Pongsakorn conta com o apoio de uma seção rítmica estelar, supervisionada pelo aclamado pianista David Hazeltine, com Paolo Benedettini no baixo e Jason Brown na bateria.

Diferentemente daquele projeto inicial, no qual Pongsakorn compôs sete das oito músicas, desta vez ele escreveu apenas quatro (de dez), incluindo as quatro seguintes em sequência após o tema de abertura de Glen Ballard e Sarah Garrett, o elegante e charmoso "Homem no Espelho". Além da graciosa canção que dá título ao álbum, o repertório inclui a valsa "Pensri", a suave "Hummingbirds at Balata Garden" e a animada "Caipirinha". Em seguida, Pongsakorn explora outros temas com resultados em grande parte admiráveis, interpretando "Will You Still Love Me Tomorrow", de Carole King, o clássico "You're Getting to Be a Habit with Me", a reflexiva "Theme for Ernie", de Fred Lacey, e "Imagination" (que não é um clássico), antes de encerrar com a elegante e reluzente "Pearls", de Hazeltine.

Grande parte da justificativa para a avaliação elogiosa reside na capacidade singular de Pongsakorn de captar e realçar a essência e a alma de qualquer canção, devido à sua abordagem perspicaz e comovente. Nas críticas ao seu álbum anterior, Pongsakorn foi comparado a mestres como Blue Mitchell, Carmell Jones e Bobby Shew, entre outros, e ele não oferece motivos para mudar essa opinião. As frases são lógicas e claras, o timbre é puro e as improvisações são incisivas e perspicazes. Um ouvinte imparcial poderia argumentar que Pongsakorn toca com uma maturidade superior à sua idade, que ainda não chegou aos trinta anos.

Ponsakorn também se beneficia da experiência de sua seção rítmica, que não só oferece um apoio firme e preciso, como também divide os solos na maioria das faixas, com Hazeltine, como sempre, especialmente de forma criativa e agradável. Quem esperava uma queda de rendimento de Pongsakorn em seu segundo álbum não encontrará nenhum sinal disso aqui. Sim, “Time Has Changed” (NT:Os tempos mudaram)”, mas essa alteração não diminuiu em nada as habilidades ou o comportamento de Pongsakorn. De fato, com base nas evidências aqui apresentadas, pode-se argumentar de forma convincente que ele está se tornando um artista ainda mais focado e inventivo com o passar do tempo.

Faixas: Man in the Mirror; Pensri; Hummingbirds at Balata Garden; Time Has Changed; Caipirinha; Will You Still Love Me Tomorrow; You’re Getting to Be a Habit with Me; Theme for Ernie; Imagination; Pearls.

Músicos: Win Pongsakorn (trompete); David Hazeltine (piano); Paolo Benedettini (baixo); Jason Brown (bateria).

Para conhecer um pouco deste trabalho, assistam ao vídeo abaixo:

https://www.youtube.com/watch?v=qK7_GNMw8xo

Fonte: Jack Bowers (AllAboutJazz)

 

ANIVERSARIANTES - 04/09

Biréli Lagrène (1966) – guitarrista,

Dave Liebman (1946) saxofonista(na foto e vídeo) http://www.youtube.com/watch?v=5Y882pCNDEo,

Gene Ludwig (1937) - organista,

Gerald Wilson (1918-2014) - trompetista,líder de orquestra,

Jan Savitt (1913-1948) – violinista,líder de orquestra,

Julius Rodriguez (1998) – pianista,

Kenny Davis (1961) – baixista,

Lonnie Plaxico (1960) - baixista,

Meade Lux Lewis (1905-1964) - pianista,

Patrick Cornelius (1978)-saxofonista,

Samuel Torres (1976) - percussionista 
 

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

JAN BANG - ARVE HENRIKSEN - AFTER THE WILDFIRE (Punkt Editions)

Jan Bang é um músico, compositor e produtor musical que nasceu em agosto de 1968, em Denver, Colorado, mas cresceu em Kristiansand, na Noruega. Arve Henriksen é um trompetista, vocalista e compositor nascido em março de 1968, em Stranda, na Noruega. Para a 42ª edição do Skopje Jazz Festival, em 2023, Bang e Henriksen foram convidados a colaborar na criação de novas músicas. O resultado foi “After the Wildfire”. A obra foi apresentada pela primeira vez no festival com Bang no live sampling e eletrônica, Henriksen no trompete e voz, além do guitarrista Eivind Aarset e do percussionista Ingar Zach, acompanhados pela Orquestra do Instituto FAMES e vozes macedônias, com arranjos e regência de Dzijan Emin. Essa estreia revelou uma música situada entre gêneros — ambiente, folk e sinfônico —, tendo como principais características a inovação e a criatividade.

O álbum em si, “After The Wildfire (Punkt Editions, 2025)”, evoluiu significativamente em relação à versão do festival, mantendo, no entanto, todos os seus elementos. O álbum traz gravações adicionais realizadas no estúdio Punkt por Aarset, Bang e Henriksen, incluindo a faixa de abertura, "Seeing (Eyes Closed)", a faixa que abre o segundo lado, "Halfway Between Noon and Sunset", e a faixa de encerramento, "Remnants". "Seeing (Eyes Closed)" destaca o trompete etéreo de Henriksen e proporciona um início caloroso e envolvente. "Acadia" transborda emoções diversas, sejam elas tristeza, amor, perda ou aconchego. "Meridian Moon" sintetiza as emoções daqueles que contemplam o céu noturno — ou diurno — em busca de padrões ou de algum significado. "Grassland" é tensa e espaçosa: uma caçada silenciosa, um rosnado grave e o som abafado das patas de um predador. É uma música de vastas paisagens, onde a quietude esconde predadores que se movem furtivamente sob a grama alta.

No segundo lado, "Halfway Between Noon and Sunset" pulsa com uma inevitabilidade quase mecânica, precisa, porém assombrosa, enquanto "Pehlivan Fighters" irrompe com energia extasiada: heróis populares da alma erguendo-se diante de uma multidão invisível, o embate ritualístico como celebração comunitária, o ritmo como músculo e espírito. "Abandoned Cathedral II" é a desconfiguração da própria arquitetura, onde o presente assombra o passado e o passado assombra o presente, cada um racionalizando-se por meio de uma revisitação da perda. Por fim, "Remnants" deixa apenas um brilho tênue, o cintilar da luz sobre águas escuras, onde o que é definido se dissolve em sugestão. Escassa e frágil, é a imagem residual que permanece após um incêndio. Entrelaçada em toda a obra, encontra-se uma meditação sobre a força da natureza frente à impermanência dos empreendimentos humanos.

Faixas: Seeing (Eyes Closed); Acacia; Miriidian Moon; Grassland; Halfway Between Noon And Sunset; Pehlivan Fighters; Abandoned Cathedral II; Remnants.

Músicos: Jan Bang (live sampling, programação); Arve Henriksen (trompete, eletrônica,voz); Eivind Aarset (guitarra, eletrônica); Ingar Zach (percussão); Vera Josofovska Milosevska (vocal); Anastasija Ilievska (vocal); Jovana Bogdanoska (vocal); Milan Ninkovic (cello); Dzijan Emin (condução); Fames Institute Orchestra; Mario Kuzev: tapan [é um tambor tradicional de dupla face muito usado na música folclórica do Leste Europeu (Macedônia, Bulgária e Romênia)]; Andrej Trajikovski (kaval, zurla); Ropert Angelovski (kaval, zurlu).

Para conhecer um pouco deste trabalho, assista ao vídeo abaixo:

https://www.youtube.com/watch?v=v5fP0qrn-v0

Fonte: John Eyles (AllAboutJazz)

 

ANIVERSARIANTES - 03/09

Amaro Freitas (1991) – pianista,

Bill Stokes (1954) – violinista,

Chris Jonas (1966) – saxofonista,

Clyde Hurley (1916-1963) - trompetista,

David Sánchez (1968) – saxofonista (na foto e vídeo) http://www.youtube.com/watch?v=Gafh1u9if2k,

Frank Christian (1897-1973) - trompetista,

Fred Hess(1944) - saxofonista,

Freddie King (1934) - guitarrista,

Ilhan Ersahin (1965) – saxofonista,

James Dapogny (1940)- pianista,líder de orquestra,

Josh Brown (1973) - trombonista,

Judy Bady (1956) - vocalista,

Memphis Slim (1915-1988) – pianista,vocalista,

Mickey Roker (1932-2017) - baterista,

Onaje Allan Gumbs (1949) - pianista,

Peter Bernstein (1967) - guitarrista,

Toby Koenigsberg (1974) – pianista,

Todd Cochran (1951) – pianista
 

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

BRIA SKONBERG – BRASS (Cellar Music)

Bria Skonberg é frequentemente questionada se é trompetista ou vocalista em primeiro lugar. Uma pergunta que se torna irrelevante quando se vê o quanto ela se diverte fazendo as duas coisas no palco. Em “Brass”, ela é, antes de tudo, trompetista. De fato, há apenas uma faixa vocal em todo o álbum, no medley final "Comin' Home Baby/You'd Be So Nice To Come Home To" (Ela toca a primeira e canta a segunda). O restante faz jus ao título direto do álbum, com Skonberg demonstrando sua considerável habilidade no trompete. Ela certamente desenvolveu uma voz única, que combina o timbre seco e cristalino de Miles Davis (embora com um pouco mais de vibrato) com uma boa dose de vivacidade e técnica. A técnica fica mais evidente quando ela usa surdinas, como em seu rosnado estridente em "New Orleans Bump" de Jelly Roll Morton e na surpreendentemente espirituosa Harmon em "Between The Devil And The Deep Blue Sea" (onde ela insere alguns trinados deliciosamente ascendentes que parecem um cartão de visitas). O entusiasmo é evidente em todos os lugares, desde a batalha de trompetes no estilo jump blues (com a participação especial de Kellin Hanas) em “Brotherhood Of Man” até a balada “Somewhere Out There” (do filme de animação de 1986, An American Tail). Skonberg não improvisa aqui, cuidando da melodia escrita e deixando o pianista Luther Allison para o solo, mas ela não precisa. Sua interpretação doce e as sutis nuances de blues fazem dela uma declaração marcante.

O jazz quente — tradicional e suingante — continua sendo a especialidade de Skonberg; “Somewhere Out There” poderia facilmente ser transposta para um solo de trompete em um repertório de big band. Mas também há um toque de modernidade: a própria "Of Liberty" da líder é o principal exemplo, baseada em harmonias sofisticadas e detalhes rítmicos que proporcionam a Allison, ao baixista Eric Wheeler e ao baterista Darrian Douglas uma ótima oportunidade para brilhar. Há também ecos de Sonny Rollins (incluindo uma paráfrase de “St. Thomas”) na faixa de abertura, em estilo calipso,“Markham Sunrise”. É muita coisa para abordar, e Skonberg dá conta de tudo sem nem parecer suar.

Faixas

1.Markham Sunrise 03:13

2.New Orleans Bump 04:25

3.Between the Devil and the Deep Blue Sea 04:10

4.Dolly Jones 04:14

5.So It Goes 06:35

6.El Choclo 05:04

7.Somewhere Out There (From An American Tale) 04:25

8.Of Liberty 09:58

9.Brotherhood of Man 04:58

10.Comin’ Home Baby/You’d Be So Nice to Come Home To 04:33

Músicos: Bria Skonberg: trompete e vocal; Luther Allison: piano, B3; Eric Wheeler: baixo; Darrian Douglas: bateria, percussão; Kellin Hanas: trompete (em “Brotherhood of Man”).

 Fonte: Michael J. West (DownBeat)