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terça-feira, 16 de junho de 2026

FABIA MANTWILLl ORCHESTRA - IN.SIGHT (GroundUP Music)

Cordas lentas e envolventes conduzem os ouvintes ao ambicioso álbum "In.Sight" da Fabia Mantwill Orchestra. Esta ousada declaração envolve uma orquestra de 32 músicos com seis solistas virtuosos, interpretando composições coescritas por Mantwill, Michael League do Snarky Puppy e da compositora grega Magdalini Giannikou.

O álbum abre com "Satoyama", onde aquelas cordas melancólicas gradualmente se transformam em passagens melódicas brilhantes. A peça percorre uma paisagem sonora que entrelaça jazz, música clássica e drama cinematográfico, antes que o expressivo saxofone tenor de Mantwill emerja como a voz principal. Cada composição foi elaborada para destacar seu solista principal, e a guitarra lap steel de Roosevelt Collier é totalmente envolvente no ritmo moderno de "Whirl The Wheel". A faixa pulsa com orquestrações exuberantes, seções de metais e sopros afiadas como navalha e o drama arrebatador de uma trilha sonora clássica de filme de espionagem.

A artista berlinense Mantwill recebeu elogios generalizados por seu álbum de estreia de 2021, “Em.Perience (XJazz Music)”, e “In.Sight” demonstra seu contínuo desenvolvimento artístico, evitando quaisquer problemas que pudessem surgir com um segundo álbum. Ela aprimorou sua fusão de paletas orquestrais e liberdade de improvisação, resultando em algo ao mesmo tempo sofisticado e imediatamente acessível. Sua voz composicional se expande por meio de sua colaboração com League, cujo trabalho com grandes grupos inclui sua parceria com a Metropole Orkest , e pela integração, por Giannikou, de tradições folclóricas latino-americanas e gregas em uma estrutura de jazz contemporâneo.

Com a kora (NT: é um instrumento tradicional da África Ocidental [Mali, Senegal, Gâmbia], construído com uma grande cabaça, couro e 21 cordas, produzindo som semelhante à harpa) de Momi Maiga, as transições rápidas de "Circular" combinam cordas vibrantes, metais pulsantes e uma boa dose de drama. Em "Sleeping Giant", com sua sonoridade celta, a trompa de Morris Kliphuis dialoga de forma reflexiva com o acordeón de Goran Stevanovich. Em contraste, o clarinete de Anat Cohen quase rouba a cena em "Olhos", uma peça que canaliza a sofisticação de Henry Mancini através de seu ritmo suave. As magníficas contribuições dos solistas chegam ao fim com o trabalho arrebatador de Kurt Rosenwinkel na guitarra elétrica, com influência do rock, na excelente "Fairy Glen". Embora o foco inevitavelmente recaia sobre os solistas, as contribuições individuais da orquestra e a orientação do maestro não devem ser negligenciadas.

Há uma mistura de precisão e improvisação nas composições de Mantwill. Seus arranjos conseguem transmitir uma sensação simultaneamente grandiosa e intimista. As transições fluidas entre as passagens, juntamente com a variedade instrumental, tornam a paisagem sonora envolvente, com texturas profundamente entrelaçadas extraídas de diversas tradições musicais. Com cada faixa oferecendo uma aventura melódica aliada a uma excelente composição em grupo, este é um álbum fácil de recomendar.

Músicos: Satoyama; Whirl the Wheel; Circular; Sleeping Giant; Olhos; Fairy Glen.

Músicos: Fabia Mantwill (compositor / maestro, voz. sax tenor (1-6)); Anne-Sophie Bereuter: violino (1-6); Luiza Labouriau: violino(1-6); Marit Behnke: violino (1-6); Annabelle Dugast: violino (1-6); Julia Czerniawska: violino(1-6); Almut Wolfart: violino(1-6); Johanna Hempen: violino(1-6); Valerie Leopold: violino(1-6); Leonie Flaksman: violino(1-6); Christina Döring: violino(1-6); Çiğdem Tunçelli: violino(1-6); Alexina Hawkins: viola(1-6); Marc Kopitzki: viola(1-6); Yağmur Atagür: viola(1-6); Johann-Vincent Slawinsk: viola(1-6); Liron Yariv: cello(1-6); Tabea Schrenk: cello(1-6); Mireia Peñalver: cello(1-6); Tilmann Dehnhard: flautas, sax alto (1-6); Matthew Halpin: sax tenor, flauta, clarinete(1-6); Daniel Buch: sax barítono, clarinete baixo (1-6); Jo Hermans: trompete, flugelhorn (1-6); Johannes Böhmer: trompete, flugelhorn (1-6); Jan Landowski: trombone(1-6); Tobias Herzog: trombone baixo, tuba(1-6); Teresa Emilia Raff: harpa(1-6); David Soyza: vibrafone, marimba(1-6); Charis Karantzas: guitarra (1-6); Igor Spallati: baixo (1-6); Marcio Doctor: percussão(1-6); Fabian Rösch: bateria(1-6); Jochen Neuffer: maestro(1-6); Roosevelt Collier: lap steel guitar(2); Momi Maiga: kora(3); Goran Stevanovich: acordéon(4); Morris Kliphuis: French horn(4); Anat Cohen: clarinete (5); Kurt Rosenwinkel: guitarra(6).

Fonte: Neil Duggan (AllAboutJazz)

 

ANIVERSARIANTES - 16/06

Albert Dailey (1939-1984) - pianista,

Clarence Shaw (1926-1973) –trompetista,

Damion Reid (1979) – baterista,

Dominique Eade (1958) – vocalista,

Fredy Studer (1948) - baterista percussionista,

Ivan Lins(1945) – pianista, vocalista,compositor,

Javon Jackson (1965)- saxofonista,

Lucky Thompson (1924-2005) - saxofonista,

Mike Baggetta (1979) – guitarrista,

Paul White (1973) – saxofonista, 

Perna Fróes (1944-2023) – pianista,

Ryan Keberle (1980) – trombonista,

Sérgio Barrozo (1942) – baixista,

Tom Harrell (1946) - trompetista,flugelhornista(na foto e vídeo) http://www.youtube.com/watch?v=o2F9AGdVn3U

Tom Malone (1947) – trombonista,saxofonista,trompetista 

 

segunda-feira, 15 de junho de 2026

MICHAEL BISIO – NuMBq (Mahakala Music)

Michael Bisio toma emprestada a frase "e agora algo completamente diferente" de “Flying Circus” do Monty Python, para descrever seu novo quarteto, NuMBq. Ao baixista se juntam Jay Rosen, colaborador de longa data na bateria, e dois músicos tradicionalmente ligados à música clássica: a violista Melanie Dyer e a trompista Marianne Osiel. Com “NuMBq”, Bisio apaga a linha entre música de câmara e jazz, mas não vamos limitar esta sessão à categoria da Terceira Via.

Os primeiros híbridos de jazz e música clássica, como “Charlie Parker with Strings (Clef Recordings, 1955)”, muitas vezes pareciam uma tentativa de encaixar um pino quadrado em um buraco redondo. Experimentos posteriores de Gunther Schuller, Miles Davis e Gil Evans enfatizaram o contraste entre os dois estilos em vez de sua fusão. As composições de Bisio adotam uma abordagem diferente, alinhando-se mais de perto com “Prime Design/Time Design (Caravan of Dreams, 1986)” de Ornette Coleman, em que improvisação e estrutura coexistem perfeitamente.

A faixa de abertura do álbum, "Elegy for MG", começa com os pratos brilhantes e a bateria delicada de Rosen antes de se estabelecer em uma atmosfera de câmara, com o baixo com arco de Bisio guiando a viola, a trompa inglesa e os sinos sutis de Rosen. À medida que a peça se desenvolve, a improvisação surge naturalmente no fluxo das composições de Bisio. Essa interação refinada contrasta com a energia inquieta de "Densities Roy G Biv", uma improvisação de grupo livre repleta de texturas em camadas. "Going Home/Amazing Grace" é a faixa mais intimista do álbum, apresentando uma conversa lírica entre o baixo expressivo de Bisio e a viola de Dyer, enquanto eles entrelaçam duas melodias tradicionais. Enquanto isso, a tempestuosa "Vib Gyor" constrói uma densa tensão dinâmica, à medida que notas individuais perfuram o turbilhão. "Broken Waltz" carrega uma urgência semelhante, evocando o caos de navegar pelo trânsito pesado.

Bisio e seu quarteto não fundem simplesmente jazz e música de câmara - eles remodelam os limites de ambos, criando um som que é tão imprevisível quanto cativante.

Faixas: Elegy For MG; Broken Waltz; Going Home/Amazing Grace; AC 2.0NU; Vib Gyor; Medicaid Melancholy; Densities Roy G Biv; Improv #1091.

Músicos: Michael Bisio (baixo acústico, composições); Melanie Dyer (viola); Marianne Osiel (trompa inglesa); Jay Rosen (bateria, percussão).

Fonte: Mark Corroto (AllAboutJazz)

 

ANIVERSARIANTES - 15/06

Alix Combelle (1912-1978) - saxofonista,clarinetista,

Erroll Garner (1921-1977) – pianista(na foto e vídeo) http://www.dailymotion.com/video/x18iuu_erroll-garner-all-the-things_music,

Jaki Byard (1922-1999) - pianista,

Joe Abba (1976) – baterista,

John Hart (1961) – guitarrista,

Nancy King (1940) – vocalista,

Nando Duarte (1977) – guitarrista,

Nasheet Waits (1971) – bateria,

Tony Oxley (1938) – baterista,

Paul Urbanek (1964) – pianista,

Phil Haynes (1961) - baterista 

 

domingo, 14 de junho de 2026

JOHN ALVEY - LOFT GLOW (Jazz Music City

Tal é a proliferação de álbuns na década de 2020 que estão levando o jazz em direções novas e emocionantes —veja os melhores álbuns de Jazz do All About Jazz de 2024 — que é fácil ignorar álbuns que têm os pés firmemente plantados na tradição, e que não mostram nenhuma ambição de redefini-la, mas que são, sob quaisquer padrões, um jazz fresco e de primeira classe. Tal álbum é a estreia do baterista de Nashville, John Alvey, “Loft Glow”.

Nesta carta de amor ao hard bop, os cossignatários de Alvey são os companheiros da Music City, o trombonista Roland Barber, o saxofonista alto Jovan Quallo, o saxofonista tenor Joel Frahm, o pianista Matt Endahl e o baixista Jacob Jezioro. Três das seis faixas são para sexteto, as outras três para quinteto nas quais um outro saxofonista não participa.

Como alguém pode suspeitar, mais que poucos membros do All About Jazz, uma das inspirações iniciais de Alvey foi “Moanin' (Blue Note, 1958)” de Art Blakey. Porém, não é Blakey tanto quanto o saxofonista tenor Benny Golson que soou o sino para Alvey. É a sofisticada tomada hard bop de Golson com seu The Jazztet, em álbuns tais como “The Jazztet At Birdhouse (Argo, 1961)”, que “Loft Glow’, de forma bem sucedida, emula.

"Terminal 1" de Golson é uma das três reinterpretações em “Loft Glow”. As outras são a sombria "Baby Man" de John Stubblefield e "Blues For D.P" de Ron Carter (um tributo ao arranjador/produtor da Blue Note, Duke Pearson). As outras três faixas são da casa: "Azure" de Alvey, "June 23" de Quallo e a valsa crepuscular de Barber, "Winslow Nocturne".

Todas três faixas inéditas são sólidas, e "Winslow Nocturne" de Barber é forte o bastante para vir a ser um padrão hard bop moderno. Instrumentalmente, também, Barber é uma presença estelar no álbum com seus solos viscerais, às vezes direto. Verifique o uso do êmbolo surdinado em “Baby Man”. Barber também traz para o álbum conexões com Blakey's Jazz Messengers e The Jazztet através do trombonista Curtis Fuller, com quem estudou. Os arranjos são de Alvey, Barber e Quallo, juntos e separadamente.

Costuma-se dizer que os segundos álbuns são particularmente difíceis de realizar, e Alvey estabeleceu um padrão elevado para si mesmo com o Loft Glow. Porém, com uma formação tão talentosa e coerente como esta, ele tem todas as chances de ter sucesso.

Faixas: Azure; Winslow Nocturne; Baby Man; Terminal 1; June 23; Blues for D.P.

Músicos: John Alvey (bateria); Roland Barber (trombone); Joel Frahm (saxofone tenor); Jovan Quallo (saxofone alto); Matt Endahl (piano); Jacob Jezioro (baixo acústico).

Para conhecer um pouco deste trabalho, assistam ao vídeo abaixo:

https://www.youtube.com/watch?v=IAlZmEp0fls

Fonte: Chris May (AllAboutJazz)

 

ANIVERSARIANTES - 14/06

Becca Steven (1984) – vocalista, guitarrista,

Burton Greene (1937-2021) – pianista,

Chuck Berghofer (1937) – baixista,

Darius Brubeck (1947) – pianista,

Daryl Sherman (1950) – vocalista,

Gary Husband (1960) – baterista,

John Simmons (1918-1979) - baixista,

Kenny Drew, Jr.(1958-2014) – pianista,

Linda Sikhakhane (1992) – saxofonista,

Loren Stillman (1980) – saxofonista (na foto e video) http://www.youtube.com/watch?v=Gf6xJoRXvf4,

Marcus Miller (1959) – baixista,

Wilson das Neves (1936-2017) - baterista 

 

sábado, 13 de junho de 2026

JOÃO LENCASTRE - PARALLEL REALITIES II (Timbuktu Records)

A Teoria (ou Interpretação) dos Muitos Mundos, proposta pelo físico norte-americano Hugh Everett III (1930-1982), sugere que o universo se ramifica constantemente em infinitos universos paralelos a cada evento quântico, onde todas as possibilidades se concretizam em diferentes ramos, sem que haja colapso da função de onda. Em vez de um único resultado acontecer, como na interpretação tradicional, esta teoria postula que todos os resultados acontecem, cada um num universo separado, formando um vasto multiverso de realidades não comunicantes. É neste quadro que surgem as chamadas “realidades paralelas”, múltiplos universos coexistentes com aquele no qual vivemos, onde diferentes versões da realidade podem existir, variando desde pequenos detalhes quânticos até leis físicas completamente diferentes. A ideia tem ecos tanto na física quântica como na ficção científica, sugerindo que cada decisão ou possibilidade pode gerar uma nova linha temporal ou universo, cada qual constituindo uma versão alternativa. Esta ideia de ramificações da realidade, a cada instante, assenta bem no modus operandi deste quinteto liderado pelo baterista, compositor e improvisador João Lencastre que, seis anos após a estreia discográfica homônima, editada pela FMR, está de volta com “Parallel Realities II”, desta feita com selo da Timbuktu Records. Lencastre é figural central no panorama do jazz nacional da última vintena de anos. O seu trabalho multímodo tanto o posiciona na área do jazz mais conservatorial e afeito à tradição, como, de modo crescente, nos domínios da música improvisada exploratória, e tudo no ínterim, deixando sempre marca indelével nos projetos e grupos que lidera ou em que participa decisivamente. Como em equipe que ganha não se mexe, João Lencastre manteve a mesma formação do primeiro álbum: Albert Cirera nos saxofones tenor e soprano, Rodrigo Pinheiro no piano, Pedro Branco na guitarra e João Hasselberg no baixo elétrico e eletrônicas. «A ideia geral deste grupo é explorar diferentes caminhos de improvisação, que se cruzam e acabam por se encontrar», começa por dizer João Lencastre à jazz.pt. «É evitar o óbvio da interação, é procurar contrastes, mas que ao mesmo se complementam entre eles.» Fica claro que os cinco músicos aportam diferentes elementos para o cômputo, fruto de referências e percursos distintos. «Todos nós temos variadas e diversificadas influências, falando só de influências musicais. Eu, por exemplo, tanto posso ouvir um disco de música clássica, como um disco de reggae, metal, jazz, afro beat ou hip hop, etc. Essas influências poderão surgir quando tocamos e improvisamos, ainda que não de uma forma propositada ou racional, é algo que está no nosso ADN e que surge naturalmente», sublinha o baterista. Parallel Realities II foi registado nos Estúdios Timbuktu, em Lisboa, e misturado e masterizado por André Fernandes. Em oito temas — três da autoria de Lencastre e cinco improvisações coletivas — o quinteto prossegue na busca e exploração de contrastes, alternando explosões caóticas com momentos mais delicados. A formação pretende, diz Lencastre, «levar o ouvinte numa viagem na busca do incerto e do infinito.» Não esquecer que o baterista acaba de lançar um outro álbum, ”This Is Not A Jazz Record”, em que apresenta uma curiosa exploração de música eletrônica dancefloor, no qual tocou e gravou todos os instrumentos. Antes, havia lançado na Robalo Music Free Celebration (2024), no qual celebrou não apenas a música de três figuras inescapáveis da história do jazz — Thelonious Monk, Herbie Nichols e Ornette Coleman — como também a liberdade para interpelar criativamente a riqueza destes legados de forma descomplexada e sem balizas estilísticas. Mais atrás fora a vez de títulos inescapáveis como “Safe In Your Own World” e “Studio Adventures”, ambos editados em 2022, “Unlimited Dreams”, de 2021, e “No Gravity”, de 2000. Sendo a continuação natural do primeiro tomo lançado pelo projeto, “Parallel Realities II” explora novas possibilidades, sem, contudo, perder um certo fio condutor que sempre o tem guiado ao longo do seu rico e diversificado percurso. «Tento que cada disco seja um conto, e este é mais um capítulo da minha história, diferente dos outros, mas que mantém a identidade», explica João Lencastre. «Em relação ao primeiro “Parallel Realities”, é uma continuação, onde a exploração e a procura de diferentes cores e texturas prossegue em termos de improvisação, apesar de haver algumas coisas escritas e alguma direção.»

João Lencastre sentiu a necessidade de fazer um novo disco com este grupo porque ficou satisfeito com a forma como soa o primeiro e, com uma pandemia a interpor-se, não conseguiu apresentá-lo com pretendia. «Quando tudo voltou à normalidade já era “old news”», refere. Lencastre escreveu alguns temas e levou para estúdio algumas “realidades paralelas” que foram experimentadas durante a sessão de gravação. A música em muito beneficiou dos predicados dos membros da formação. «Para além de bons amigos, são todos músicos incríveis, muito versáteis e com uma grande facilidade de improvisar e adaptação a cada momento.» Não obstante o material escrito e as ideias que trazia na cabeça, concedeu-lhes margem bastante para input criativo. O som do grupo acomoda elementos orgânicos e eletrônicos, algo que lhe interessa continuar a explorar. No que engendram coletivamente coabitam atmosferas planantes e enigmáticas com outras mais energéticas e abrasivas. Desenvolvida em várias camadas que se entrecruzam, a música da formação é ampla, não apenas em termos sonoros, como também emocionais. «É isso que procuro em cada disco, contar uma história que passe por diferentes ambientes, e que leve o ouvinte numa viagem de diferentes emoções.» Na exploração daquilo a que chama o «não óbvio», são muitos os detalhes que podem passar despercebidos numa primeira audição, o que torna o álbum particularmente desafiante. Cada peça funciona como uma experiência individual, com o seu caráter, permitindo que cada ouvinte crie a sua própria narrativa e ligação emocional. Tema composto, “Flying To The Unknown” vem envolto numa atmosfera misteriosa, desde logo marcada pelas notas solenes do piano de Rodrigo Pinheiro, a que se juntam as eletrônicas decisivamente discretas de Hasselberg, o saxofone multímodo de Cirera, a guitarra abrasiva de Pedro Branco, a bateria irrequieta do líder. No final, tudo coalesce para a ordem. De início sereno, mas inquietante, como se algo estivesse na iminência de acontecer, “The Silence Between”, outra composição de Lencastre, traz de novo uma camada eletrônica que é interpelada pela bateria e pelo piano e, adiante, pelo saxofone. A massa sonora rarefeita permite, como o título deixava antever, que o silêncio se imiscua por entre as notas, sendo parte decisiva no que se escuta. Uma das peças centrais do álbum é “The Weight Of Nothing/The Weight Of Sound” na qual mergulhamos num mar sonoro etéreo, interpelado apenas por pequenos sons, por vezes de proveniência incerta ou ignota. O que aqui se escuta é tão importante como o inaudível. A dado momento instala-se um diálogo entre guitarra e bateria, banhado em eletricidade, que acumula tensão, sublinhada pelo piano, até tudo se esvair num tênue fio de som, como que num retomar das condições pristinas. “Triggered” é uma peça de teor esdruxulamente camerístico, turbilhão de sons, catarse coletiva. Tudo acalma na mais enigmática “Imagination Is Free”, outra peça composta pelo baterista, em que avulta a relojoaria minuciosa; Cirera tece no soprano um belíssimo fio melódico e Lencastre espanta pela contenção ou, melhor dito, pela contensão, no sentido de concentração mental, no esforço de manter foco. “Reality Shifting” é outro momento instável, que deixa o ouvinte no limbo da expetativa do que vai acontecer. A triangulação saxofone-piano-bateria explora várias possibilidades, sempre com extrema atenção aos detalhes. “Time Fracture” começa com as percussões etéreas de Lencastre a que se juntam outros sons como que saídos de uma caixa de música alienígena, seja o piano minucioso, as ruminações exploratórias do saxofone ou a guitarra planante. “Echoes From The Past” é sucinto epílogo, que embaralha e volta a dar sem que nada fique como dantes.

Faixas

1.Flying To The Unknown 05:32

2.The Silence Between 05:34

3.The Weight of Nothing/ The Weight Of Sound 12:39

4.Triggered 03:48

5.Imagination Is Free 05:15

6.Reality Shifting 04:40

7.Time Fracture 06:53

8.Echoes From The Past 01:24

Músicos: João Lencastre— bateria e percussão eletrônica; Albert Cirera— saxofones tenor e soprano; Rodrigo Pinheiro— piano; Pedro Branco— guitarra; João Hasselberg— baixo elétrico e eletrônicas.

Fonte: António Branco (jazz.pt)