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quarta-feira, 8 de abril de 2026

ANTHONY BRAXTON - TRILLIUM X (PMP)

Trabalhando diligentemente em sua própria zona expressiva marginal, o complexo operístico “Trillium” de Anthony Braxton, impossível de categorizar — nascido nos anos 80 — atingiu um novo ápice com o lançamento de uma poderosa gravação ao vivo e em estúdio de sua épica obra de quatro horas, “Trillium X (PMP; 453:37)”. Embora esta seja a sexta ópera de seu ciclo contínuo, a execução precisa e convincente de “Trillium X” pela Orquestra de Performance Musical de Praga (PMP), regida por Roland Dahinden, parceiro de longa data de Braxton, marca um momento triunfante.

A tempo do 80º aniversário de Braxton, uma caixa especial com oito CDs inclui tanto a estreia mundial de 2023, em Praga, quanto uma gravação de estúdio feita em Darmstadt, na Alemanha. O documento é a melhor manifestação até agora da aventura operística de Braxton, uma década depois de ele ter terminado de escrever a ópera em 2014.

A escala importa aqui. Braxton segue o exemplo de seus heróis criadores de telas gigantescas, Richard Wagner, famoso pelo ciclo de quatro óperas do Ring Cycle, e Stockhausen, cuja série de óperas Licht, onde "quanto maior, melhor", chegou a 29 horas de duração. Para o público, o compromisso com a experiência completa de X pode ser transformador. Com a mentalidade correta, a experiência total do ouvinte com a obra épica de Braxton se transforma em um reino hipnótico que expande o tempo e a mente, em grande escala.

Musicalmente, X opera em uma linguagem pós-moderna entre tonalidade e atonalidade, em um estilo vagamente inspirado pelo serialista Alban Berg, cujas óperas Wozzeck e Lulu fizeram parte da obsessão de Braxton pela ópera por volta dos 40 anos. Em X, os cantores, uniformemente impressionantes e dedicados, frequentemente interpretam seus textos sinuosos em uma espécie de formato de canção-falada no estilo singspiel (NT: é um gênero de drama musical alemão, considerado um tipo de ópera, caracterizado pela alternância entre diálogos falados e números musicais como árias, canções e conjuntos, com tramas geralmente cômicas ou românticas, muitas vezes com elementos de fantasia, como em "A Flauta Mágica" de Mozart, sua obra mais famosa). O ambiente geral de intensidade intelectual e cerebral é periodicamente pontuado por doses de humor, ora banais, ora bizarras: "se isto é uma ovelha, eu sou George Washington", "e aí, gata!?" e "no futuro, todos vão adorar a indústria da gaita de foles... Estou aberto ao brilho, mas primeiro as coisas mais importantes".

Piadas internas também aparecem, como na frase bem colocada "X marca o lugar", "considerando tudo, acho que o diretor fez um ótimo trabalho" e "o que temos aqui é um caso de certeza idiomática". O senso de humor subestimado de Braxton está intacto e é usado de forma astuta ao longo de X.

Como estrutura narrativa, X segue um caminho sinuoso e decididamente não linear, com comentários espirituosos inseridos em um libreto elaborado. A "narrativa" se transforma, passando de um navio pirata no mar, liderado pela capitã Helen (interpretada com maestria por Eva Esterkova), para um confronto com robôs malfeitores que subvertem o sistema financeiro (pressagiando cibercrimes da IA?). O Act III retrata um casamento triplo entre ladrões de banco, e o Act IV transita das forças bélicas da Casa Branca para um local de orgia. Vários colapsos acontecem ao longo do caminho.

De certa forma, a proposta da ópera de mesclar texturas surreais de ficção científica, fluxo associativo livre, linguagem metafísica e surpreendentes referências à cultura pop evoca paralelos com o clássico romance de Robert Heinlein, "A Lua é uma Amante Cruel (The Moon is a Harsh Mistress)", que faz referências à proto-inteligência artificial, e com as óperas experimentalistas e lúdicas com a linguagem de Robert Ashley, "Perfect Lives" e "Now Eleanor's Idea". Mas a marca registrada de Braxton, como criador musical e pensador rebelde, nunca está longe da superfície.

O jazz, como tal, surge sorrateiramente, com uma breve improvisação de saxofone no início do segundo ato, a inserção da pianista Hildegard Kleeb interpretando uma composição já existente de Braxton e, no terceiro ato, "Three Sisters", uma aparição repentina de um segmento fugaz e um tanto embriagado de big band. Este último aspecto evoca o espírito aventureiro e desconstruído das big bands do projeto Creative Orchestra Music de Braxton, que remonta à década de 1970. Em outra referência cruzada, uma variação vertiginosa da "Wedding March" de Lohengrin, que encerra o Ato III, presta uma homenagem um tanto embriagada a Wagner.

A vasta paisagem sensorial de X atinge um ponto final estranhamente gracioso, à medida que uma onda atonal de som se transforma suavemente em um tema cíclico melancólico para cordas graves, passando para um clarinete solo que se desvanece. O tema de 21 notas retorna à introdução da ópera, de forma semelhante à estrutura de frases que vão da última à primeira, presente em Finnegans Wake, de James Joyce.

X é um mundo onírico e lógico em si mesmo, um lugar para se perder por algumas horas, como Wagner, mas estritamente de acordo com as regras de ordem e exploração de Braxton.

Faixas

1.Anthony Braxton: Trillium X: Act 1 (Prague) - Act 1: Voyage to the New Worlds (Prague) 01:02:13 vídeo

2.Act 2: Robots versus Humans (Prague) 43:37

3.Act 3: The Three Sisters (Prague) 47:17

4.Act 4: Four Disasters (Prague) 01:17:25

5.Act 1: Voyage to the New Worlds (Darmstadt) 59:17

6.Act 2: Robots versus Humans (Darmstadt) 41:24

7.Act 3: The Three Sisters (Darmstadt) 47:09

8.Act 4: Four Disasters (Darmstadt)

 Fonte: Josef Woodward (DownBeat)

 

ANIVERSARIANTES - 08/04

Carmen McRae (1920-1994) - vocalista,pianista,

Chico Batera (1943)- baterista,

Derek Hogg (1928) – baterista,

Mark Patterson (1960) – trombonista,

Moacir Santos (1926-2006) – saxofonista,clarinetista, maestro (na foto e vídeo) http://www.youtube.com/watch?v=tU2hi6-XdBE&feature=related,

Rodrigo Botter Maio(1967) - flautista


terça-feira, 7 de abril de 2026

CLAIRE COPE - EVERY JOURNEY (Adhyâropa Records)

Considere a pianista, compositora e líder de banda britânica Claire Cope. Ela estreou como artista completa com seu excelente álbum de septeto “Small World (Self Produced, 2020)”, um híbrido de jazz e música clássica habilmente construído. Em sua segunda gravação, o álbum em questão, "Every Journey", ela emprega um conjunto de onze músicos, expandindo a atmosfera de sua estreia, pintando camadas translúcidas e tecendo uma rede fluida de texturas em paisagens sonoras magníficas e expansivas. Tendo a compositora e líder de banda Maria Schneider como uma importante referência, Cope cria arranjos luminosos. Ela cita "Sky Blue" de Schneider (ArtistShare, 2007), mas o álbum que a lançou ao estrelato, "Concert In the Garden (ArtistShare, 2004)”, também poderia ser considerado, levando em conta os vocais sem palavras de Luciana Souza, que realçam a atmosfera das harmonias etéreas e leves do compositor.

Cope conta com Brigitte Beraha nos vocais, adicionando uma calidez, um elemento que transcende o humano, um toque angelical que torna as palavras desnecessárias. Os arranjos translúcidos são frescos e arejados, impregnados de tons pastel suaves, um som exuberante, porém leve, que remete ao trabalho do trompetista Kenny Wheeler com arranjos para metais.

Quando um compositor se apropria de um tema, isso pode conferir gravidade à obra artística. Cope explora os primeiros passos de cada jornada, especificamente as jornadas de mulheres pioneiras pouco reconhecidas, que lutaram contra as adversidades sociais para realizar grandes feitos. A composição "Flight" presta homenagem a Bessie Coleman, a primeira mulher de ascendência africana e indígena a obter sua licença de piloto nos EUA. "Isabel" celebra Isabel Godín des Odonais, a primeira mulher a percorrer toda a extensão do Rio Amazonas. "The Nabongo Feeling" celebra as explorações da intrépida viajante moderna Jessica Nabongo, a primeira mulher negra documentada a visitar os 195 países do mundo. Toda essa música festiva em um momento, 2025, em que há um grosseiro nos EUA. O presidente se esforça ao máximo para apagar dos registros públicos as realizações de qualquer mulher e de qualquer pessoa de pele morena. Em um mundo sensato, Cope e artistas como ela podem servir de antídoto para as tendências racistas e misóginas malignas, que irromperam nas bases da sociedade como cogumelos venenosos brotando da terra. A música de Cope é como um campo de flores silvestres desabrochando na primavera. Assim como o trabalho de Pat Metheny em “From This Place” (Nonesuch Records, 2019) ou o ambicioso “Highway Rider” (Nonesuch Records, 2010) do pianista Brad Mehldau, “Every Journey”, de Cope, é uma experiência inspiradora : grandiosa e ambiciosa, complexa, mas acessível. Música tão bela quanto a música pode ser.

Qual será o próximo passo na jornada de Claire Cope? Quem sabe. Cordas? Eletrônica? Por enquanto, Claire Cope tem presença marcante. “Every Journey” encanta e inspira o espírito.

Faixas: Every Journey; Flight; The Birch And the Larch; Isabel; Amboseli; The Nabongo Feeling; Home.

Músicos: Claire Cope (piano); Freddie Gavita (trompete); Mike Soper (trompete); Anoushka Nanguy (trombone); Matt Carmichael (saxofone tenor); Rob Cope (saxofone soprano); Ant Law (guitarra elétrico); Gavin Barras (baixo acústico); Jon Ormston (bateria); Jack McCarthy (percussão); Brigitte Beraha (vocal).

Fonte: Dan McClenaghan (AllAboutJazz)

 

ANIVERSARIANTES - 07/04

Alexander Von Schlippbenbach (1938) – pianista,

Alex Brown (1987) – pianista,

Antonia Bennett (1974) - vocalista,

Billie Holiday (1915-1959) - vocalista,

Bob Berg (1951-2002) – saxofonista,

Freddie Hubbard (1938-2008) - trompetista,flugelhornista(na foto e vídeo) http://www.youtube.com/watch?v=DPygsuz90vw,

Juergen Reiter (1970) – baixista,

Keith Wesby (1963) – baixista,

Luiz Avellar (1956) – pianista,

Maria de La Riva (1973) – vocalista,

Mongo Santamaria (1922-2003) - percussionista,

Pat LaBarbera (1944) - saxofonista,clarinetista, flautista,

Peanuts Hucko (1918-2003) - clarinetista,saxofonista,

Pete La Roca (1938-2012) - baterista,

Ravi Shankar (1920-2012) – citarista,

Victor Feldman (1934-1987) - percussionista,vibrafonista,baterista,pianista

 

segunda-feira, 6 de abril de 2026

KEN PEPLOWSKI - LIVE AT MEZZROW (Cellar Music Group)

Quando alguém é diagnosticado com mieloma múltiplo, como o especialista em instrumentos de sopro Ken Peplowski disse em junho de 2021, há basicamente duas alternativas: ou aceita a decisão e joga a toalha ou escolhe lutar e redobrar esforços para fazer o que o mantém ativo e esperançoso, neste caso realizando bela música que suínga. Obviamente, como exemplificado pelo álbum “Live at Mezzrow”, Peplowski escolheu o último caminho e, três anos depois, aparentemente venceu a batalha, ao menos por agora, conforme o câncer está em remissão e a música de Peplowski é tão elegante e charmosa como sempre.

Este é um trabalho do quarteto, gravado ao vivo em Fevereiro de 2023 no clube de jazz de Spike Wilner em Nova York City, o Mezzrow, e Peplowski não poderia ter escolhido um conjunto de músicos mais forte ou compatível do que o pianista Ted Rosenthal, o baixista Martin Wind e o baterista Willie Jones III, cada um dos quais não é apenas um esplêndido acompanhante, mas também um solista estelar. Peplowski, um mestre de cada instrumento de sopro de palheta, desliza facilmente do sax tenor para o clarinete neste trabalho, escolhendo tenor em quatro dos dez números da sessão, clarinete nos outros, incluindo os últimos quatro.

O repertório é delicioso, espalhados igualmente entre composições originais impressionantes e standards duradouros do cancioneiro estadunidense. Especialmente bem-vindas são as adoráveis e esperançosas "Cabin in the Sky" (do filme de 1943 de mesmo nome) e "Bright Mississippi", a revisão solar de "Sweet Georgia Brown" de Thelonious Monk. "Prisoner of Love", "All the Things You Are" e "The Shadow of Your Smile" deslizam para a frente em sua marcha baixa habitual, assim como o hino comovente de Artie Butler e Phyllis Molinary, "Here's to Life". Completando o programa atraente estão "Beautiful Love", "Like Young", de Andre Previn e Paul Francis Webster, além do final animado, "Who Knows", de Duke Ellington.

Peplowski é tipicamente impressionante do começo ao fim, nunca minimizando uma nota ou frase enquanto revela e realça o núcleo emocional em cada número. Rosenthal não é menos impressionante, massageando suavemente as baladas e acariciando alegremente os suingadores, enquanto Wind e Jones não apenas emprestam apoio rítmico incansável, mas também tocam solos com perspicácia e entusiasmo sempre que necessário. Felizmente, Peplowski não é apenas “Live at Mezzrow”, ele está vivo e bem, e tocando tão habilmente e prazerosamente como sempre.

Faixas: Vignette; Prisoner of Love; Beautiful Love; All the Things You Are; Like Young; The Shadow of Your Smile; Cabin in the Sky; Bright Mississippi; Here’s to Life; Who Knows.

Músicos: Ken Peplowski (instrumentos de sopro de palhetas); Ted Rosenthal (piano); Martin Wind (baixo acústico); Willie Jones III (bateria).

NR: Lamentavelmente, em 02/02/2026, Ken Peplowski veio a falecer.

Fonte:  Jack Bowers (AllAboutJazz)

 

ANIVERSARIANTES - 06/04

Andre Previn (1929-2019) - pianista,

Art Taylor (1929-1995) - baterista,

Bill Hardman (1933-1990) - trompetista, flugelhornista,

Charlie Rouse (1924-1988) - saxofonista,

Dorothy Donegan (1924-1998) - pianista,

Gene Bertoncini (1937) - guitarrista,

Gerry Mulligan (1927-1996) – saxofonista (na foto e vídeo) http://www.youtube.com/watch?v=hpkTNa2iioE,

Gerry Niewood (1943-2009) – saxofonista,

Greg Wolfram (1989) – baixista,

Horace Tapscott (1934-1999) – pianista,

Jack Pribek (1964) – guitarrista,

John Pizzarelli (1960) - guitarrista, vocalista,

Pete Benson (1978) – organista,

Randy Weston (1926-2018) - pianista

 

domingo, 5 de abril de 2026

KAROLINA STRASSMAYER, DRORI MONDLAK AND DAVID FRIEDMAN – SPEAK YOUR TRUTH (Lilypad Music)

O duo criativo da saxofonista/flautista Karolina Strassmayer e do baterista Drori Mondlak tem feito músicas emocionantes há mais de duas décadas. O par funde perfeitamente o composto e o improvisado em seus lançamentos envolventes, que são, usualmente, em quarteto com configuração intimista. “Speak Your Truth” é uma despedida de seus trabalhos passados, ainda que uma evolução lógica dele, pois é um conjunto totalmente improvisado.

Unido a Strassmayer e Mondlak nesta jornada estimulante está o intrépido vibrafonista David Friedman. Juntos o trio constrói a sublime peça central deste álbum uniformemente excelente, "Dream in Three Movements". Em um ambiente noturno, o sax alto melancólico e ansioso de Strassmayer flutua sobre os sinos ressonantes dos percussionistas e farfalha suave. Friedman assume o centro do palco, primeiro com um toque de melancolia. Então, com a cadência animada de Mondlak conduzindo a música, Friedman toca uma melodia brilhante. Strassmayer entra com seus refrões líricos aumentando a exuberância da performance, que termina com toques caribenhos.

"Drum Roll, Please" é um dueto caprichoso de Mondlak e Friedman. Os dois músicos exibem seus virtuosismos em seus respectivos instrumentos o tempo todo mantendo uma conversa inteligente e espirituosa. Os tons nítidos de Friedman refletem as batidas trovejantes de Mondlak com agilidade e elegância. Suas trocas de tirar o fôlego chegam a uma conclusão naturalmente serena.

A faixa título, que também inicia a gravação, é reflexiva e apresenta Strassmayer tecendo um conto poético com seu saxofone choroso e musculoso. A bateria estrondosa de Mondlak adiciona uma expectante dimensão, enquanto eles animam as frases encorpadas da saxofonista. O baterista antecipa as ideias da sua parceira e apresentam suas respostas com perfeita sinergia.

Strassmayer inicia a sublime "New Dawn Light" com suas linhas de flauta esvoaçantes. Friedman adiciona outra camada melódica à peça com suas baquetas rolantes. Mondlak estabelece uma estrutura rítmica em tons escuros, que torna esta improvisação uma reflexão harmoniosa de três vias, imbuída de espiritualidade sutil.

Intercalada entre peças mais longas e belas joias de solos curtos como a improvisação da flauta de Strassmayer, a lindamente cinematográfica "Casting Shadows". Outra coisa intrigante é a pepita brilhante de "Cymbalese" desacompanhado de Mondlak. Nele, o Mondlak extrai nuances surpreendentemente sutis de seu instrumento.

“Speak Your Truth” é um trabalho imaginativo de espontaneidade, virtuosismo e camaradagem. Beneficia-se imensamente da visão artística compartilhada entre os membros do trio. Igualmente acessível e deliciosamente imprevisível, é o melhor trabalho de Strassmayer e Mondlak até hoje.

Faixas: Speak Your Truth; Calling For You; Casting Shadows; Dream In Three Movements; Drum Roll, Please!; New Dawn Light; Cymbalese; Pause And Effect; Leave No Footprint; An Exchange Of Views; Motion Perpetual; Bursts Of Time.

Músicos: Karolina Strassmayer (saxofone alto); Drori Mondlak (bateria); David Friedman (vibrafone).

Para conhecer um pouco deste trabalho, assistam ao vídeo abaixo:

https://www.youtube.com/watch?v=69d-EK0s9kI

Fonte: Hrayr Attarian (AllAboutJazz)