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sexta-feira, 16 de outubro de 2026

CHAD LB - THE SHADOW OF YOUR SMILE

Chad LB (Lefkowitz-Brown), um talento brilhante e virtuoso do saxofone que já gravou um álbum inteiro com acompanhamento de cordas, utiliza esse recurso em apenas uma faixa (o hino "Ave Maria") no disco “The Shadow of Your Smile”, liderando um quarteto competente durante o restante desta gravação de estúdio, que, de modo geral, é muito agradável.

Embora suas escolhas de repertório sejam variadas (incluindo Eric Clapton, Bill Withers, Johnny Mandel, Buck Ram e J.S. Bach), Chad LB mantém sua identidade em qualquer contexto, tocando um saxofone tenor post-bop preciso e perspicaz, sempre com um objetivo claro em mente. Algumas de suas passagens vertiginosas pelas chaves do sax são impressionantes. Outras, simplesmente difíceis de acreditar. Em todas as situações, ele mantém o controle absoluto e um foco total.

Por falar em algo difícil de acreditar, a técnica impressionante de Chad LB torna difícil compreender sua predileção por andamentos mais lentos (três das sete faixas). Por outro lado, o show é dele, e ele tem o direito de montar o repertório e tocar o que bem entender. Ainda que LB seja um intérprete de baladas refinado, teria sido muito bem-vinda uma intensidade semelhante à de faixas como "Layla" ou "Change the World" (de Clapton) e "Just the Two of Us" (de Withers), ou, especialmente, a charmosa canção de abertura do álbum: "It Could Happen to You", o alerta romântico de Johnny Burke e Jimmy van Heusen.

Vale ressaltar que a "Ave Maria" de Bach não é o hino que a maioria dos ouvintes está acostumada a ouvir, aquele cantado de forma tão maravilhosa por Bing Crosby no papel do encantador Padre O'Malley e ouvido por milhões no filme “Going My Way (1944)”, vencedor do Oscar. Embora encantador à sua própria maneira, o tema de Bach é bastante diferente daquela versão da "Ave Maria". Portanto, não se surpreenda quando a melodia mais familiar não aparecer.

Voltando ao que interessa: a pianista Liya Grigoryan executa solos brilhantes em três faixas, o baixista Ben Tiberio faz o mesmo em "Change the World" e, juntos, eles ajudam o baterista Mike Piolet a manter o ritmo fluindo com suavidade o tempo todo. O sucesso do álbum, no entanto, reside nas mãos hábeis e na imaginação fértil de Chad LB, que impressiona de forma consistente.

Faixas: It Could Happen to You; Layla; The Shadow of Your Smile; Change the World; Ave Maria; Just the Two of Us; Only You.

Músicos: Chad Lefkowitz-Brown (saxofone tenor); Liya Grigoryan (piano); Ben Tiberio (baixo); Mike Piolet (bateria); Francesca Dardani (violino); Sasha Ono (cello).

Pra conhecer um pouco deste trabalho, assistam ao vídeo abaixo:

https://www.youtube.com/watch?v=HeAslTnVXiU

Fonte: Jack Bowers (AllAboutJazz)

 

 

ANIVERSARIANTES - 16/10

David C. Clark (1969) – saxofonista,

Gene Jackson (1961) – baterista,

John Mayer (1977) – guitarrista,

Leila Pinheiro (1960) – vocalista,

Mark Walker (1961) - baterista,

Ray Anderson (1952) - trombonista,

Roy Hargrove (1969-2018) - trompetista, flugelhornista (na foto e vídeo) http://www.youtube.com/watch?v=PiToV-TpsiE,

Rubens Barsotti(1932-2020) – baterista,

Sean Rickman (1970) – baterista,guitarrista,baixista,vocalista,

Tim Berne (1954) - saxofonista

 

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

KONRAD CIESIELSKI – KONIEC (Mindses Music)

Konrad Ciesielski parece um homem de contradições: um baterista de “extreme metal” (NT: é um termo coletivo para subgêneros do heavy metal marcados por alta agressividade sonora, letras sombrias e forte estética underground), que também toca “stoner rock” (NT: é um subgênero do rock e do heavy metal que mistura o peso do doom metal com a psicodelia do acid rock e o groove do blues-rock) do sul dos EUA paralelamente; alguém que é barulhento e poderoso, mas dotado de uma graça fluida, e que agora faz sua estreia solo com o título “Koniec (The End)”. Representando uma mudança de rumo em relação à sua trajetória anterior, trata-se de um panorama musical abrangente, de escala verdadeiramente vasta. No entanto, ao final desse filme virtual para os ouvidos, todas essas coisas nem sequer parecem contradições. O panorama é simplesmente vasto e abrangente o suficiente para comportar um pouco de tudo.

Sem se prender a um gênero específico, Ciesielski mantém o foco central no ritmo e se deleita ao explorar uma variedade de sonoridades eletrônicas futuristas. Padrões melódicos, muitas vezes minimalistas, ainda evocam um drama genuíno, por vezes, capaz de fazer o coração disparar, sem recorrer a teatralidade exagerada. Suas raízes no metal transparecem em sua disposição para soar alto ou agressivo; a faixa cyberpunk "Miscommunication Land" sobrepõe cantos quase mecânicos a um sintetizador de timbre zumbidor que ressoa e despenca com o peso de um buraco negro. No momento mais orgânico do álbum, "Labyrinthine" martela um transe de percussão tribal saído dos pesadelos de Peter Gabriel.

Embora a ambientação de ficção científica pudesse facilmente soar distópica, Koniec preserva insistentemente algo humano em meio à frieza. "Out of Gravity" gira em torno de uma voz incongruentemente fofa que divaga, em inglês, sobre devaneios celestiais. O balanço com um leve toque de rock progressivo de "Kamdra" dá lugar a um monólogo em polonês, suficientemente sereno para soar quase filosófico. Várias passagens apresentam um saxofone ou trompete criando cânions de eco, como se ressoassem pelo espaço sideral. Esses momentos evocam intensamente a atmosfera etérea e psicodélica do Portico Quartet, combinada a uma sonoridade de escala cinematográfica que remete à vertente mais grandiosa da obra tardia de Ryuichi Sakamoto.

Cada uma dessas peças parece habitar um mundo próprio, que continua a existir para além dos poucos minutos que podemos ouvir. A experiência parece constantemente tingida por algo estranho, mas quase sempre mantém uma pulsação orgânica palpável para impulsionar o motor de dobra. Com ambição e imaginação de sobra, espera-se que este Fim se mostre apenas o começo de coisas ainda mais fascinantes.

Faixas: Out of Gravity; Miscommunication Land; Taganana; Kamdra; Labyrinthine; Znaczenie; To Beginning.

Músicos: Konrad Ciesielski (bateria); Patrycja Tempska (saxofone); Dawid Lipka (trompete); Gabriela Wasilewska(vocal); Joanna Gośniowska-Budzisz (vocal); Jan Galbas (piano); Wojciech Łącki (baixo); Krzysztof Traczyk (vocal); Konrad Ciesielski e Maciej Stendek (mixagem e produção).

Para conhecer um pouco deste trabalho, assistam ao vídeo abaixo:

https://www.youtube.com/watch?v=x779Sp-5dEo

Fonte: Geno Thackara (AllAboutJazz)

 

ANIVERSARIANTES - 15/10

Bill Charlap (1966) – pianista (na foto e vídeo) http://www.youtube.com/watch?v=4Og-DP_kaAg&feature=related,

Freddy Cole (1931-2020) – pianista,vocalista,

Herman Chittison (1908-1967) - pianista,

Keith Javors (1971) - pianista,

Lisa Ullen ((1964) – pianista,

Palle Danielsson (1946) – baixista,

Reid Anderson (1970) - baixista,

Victoria Spivey (1906-1976) - pianista,vocalista 

 

quarta-feira, 14 de outubro de 2026

BETO PACIELLO - THE STOIC SUITE (11 Moons Arts)

Beto Paciello toca piano em “The Stoic Suite”. Misteriosamente, ele não é creditado por essa participação em nenhum lugar da capa do álbum. Talvez o brasileiro relativamente desconhecido queira enfatizar o calibre de seus colaboradores: John Patitucci, John Ellis, Rogério e Anne Boccato e Eric Harland? Você não quer ouvir isso logo?

Ou talvez, Paciello esteja mais interessado em se apresentar como compositor, o que ele é, em todas as sete faixas de "The Stoic Suite". As composições certamente merecem atenção. Se é jazz brasileiro propriamente dito, não o é explicitamente. É mais como um pós-bop tradicional com um toque brasileiro. “Sunset Skies” é a faixa que mais se aproxima do som mais pesado, com Harland e Rogerio combinando-se em um ritmo de samba vibrante (ou pelo menos algo próximo ao samba), com o soprano de Ellis, o piano de Paciello e os vocais sem palavras de Anne Boccato expressando uma melodia à la Jobim. Entretanto, fiel ao seu nome, “Mar Mediterrâneo” revela um toque italiano com seu ritmo de valsa e melodia de clarinete baixo. “Tempus Fugit” (sem relação com o clássico de Bud Powell) é uma música ousada e quadrada, temperada por uma melodia doce, porém arrebatadora, para o clarinete baixo e a flauta de Ellis, e para os vocais de Boccato. Todas se distinguem pela melodia envolvente do compositor e pela rica e magnífica harmonia. Porém, também há solos estelares: Ellis está particularmente bem com sua flauta em "Tempus Fugit", Patitucci magnífico em "Sunset Skies".

Ainda assim, Paciello também merece mais crédito como pianista do que ele mesmo se dá. Seu solo harmonicamente ousado e com toques de tango na faixa de abertura “Amor Fati” é um dos destaques do álbum, e sua introdução (em parceria com um Patitucci com arco) em “Memento Mori” é uma passagem sensível que habilmente prepara o terreno para a linha melódica de Boccato. Ele participa da comovente faixa de encerramento “Nostalgia (For My Mother)”, então não lhe falta autoestima, mesmo assim, “The Stoic Suite” merece ser celebrado.

Faixas:

1 Amor Fati 07:18

2 Tempus Fugit 03:58

 3 Memento Mori 05:12

4 Eternal Love (For My Father) 07:08

5 Sunset Skies 07:37

6 Mediterranean Sea 04:47

7 Nostalgia (For My Mother) 04:01

 Músicos: Beto Paciello (piano); John Patitucci (baixo); Eric Harland (baterista); John Ellis (guitarrista); Rogério Boccato (percussionista); Anne Boccato (vocalista, percussionista).

Fonte: Michael J. West (DownBeat) 

 

 

ANIVERSARIANTES - 14/10

Aaron Aranita (1955) – saxofonista,pianista,

Andreas Stensland Lowe (1983) – pianista,

Dan DeChellis (1970) - pianista,

Dusko Gojkovic (1931-2023) - trompetista,flugelhornista (na foto e vídeo) http://www.youtube.com/watch?v=RE7wNjaF3zU,

Eduardo Gudin(1950) – violonista,compositor,

Garrison Fewell (1953-2015) - gutarrista,

James Carney (1963) - pianista,

Jewell "Babe" Stovall (1907-1974) – guitarrista,vocalista,

John Graas (1924-1962)- frenchornista,

Kazumi Watanabe (1953) – guitarrista,

Matthew Parrish (1969) - baixista,

Spencer Williams (1889-1965) - pianista
 

terça-feira, 13 de outubro de 2026

LUKE BERGMAN, JASON BURGER MARTIN NEVIN - LUKE BERGMAN, JASON BURGER MARTIN NEVIN

Basear o tema de um álbum na soma de seus intérpretes dificilmente é uma ideia nova, mas é uma abordagem que, ainda assim, oferece inúmeras possibilidades de expressão, visto que as personalidades são sempre únicas. A dinâmica entre Luke Bergman, Jason Burger e Martin Nevin nesta gravação homônima não foge à regra, mas reflete os aspectos mais positivos de priorizar o conceito em detrimento das necessidades individuais de cada integrante. Juntos, eles unem suas mentes e apresentam um conjunto de arranjos de foco preciso e suave, admiravelmente pacientes e extremamente ricos em personalidade e atmosfera, ao adotar uma fusão minimalista de blues, swing e folk, impregnada da emoção típica dos filmes de estrada de Wim Wenders

Bergman, Burger e Kevin trazem, cada um, sensibilidades artísticas maduras e marcadas por vivências diversas ao álbum. Originário do estado de Washington, Bergman desenvolveu uma musicalidade impecável em diversos instrumentos, destacando-se especialmente ao tocar baixo com nomes como Bill Frisell, Cuong Vu e Ted Poor. Aqui, sua arma de escolha é o pedal steel (NT: é uma guitarra elétrica horizontal apoiada em pés), que lhe permite abordar o repertório, composto majoritariamente por versões de outras músicas sob uma perspectiva diferente. De fato, a qualidade da sonoridade mais lenta e crescente do pedal steel é fundamental para que o álbum transmita, em sua totalidade, uma sensação de algo inerentemente antigo e suave, ainda que levemente ambíguo. O baixo de Nevin, de maneira semelhante, ancora o trio com notável delicadeza, sempre ativo, porém ponderado e focado na tarefa em questão. Burger, que integrou as bandas de Andrew Bird, Big Thief e Kenny Werner, também demonstra habilidade ao escolher com precisão os gestos e momentos em que sua contribuição pode melhor apoiar o esforço conjunto do grupo. Juntos, esses artistas soam como três sábios que preferem observar a descrever seu objeto.

A música não é meramente uma homenagem, apesar de transmitir uma impressão decididamente clássica. Névoa, poeira e tons de sépia vêm à mente ao ouvir, mas sem se enquadrar em nenhuma tradição específica. Ao escolherem músicas de Duke Ellington, Kurt Weill e Roy Orbison para expressar o que pensam, esses três não tentam evocar tempos supostamente mais simples. O diálogo entre eles ocorre no tempo presente, como amigos que compartilham impressões livres de julgamentos, intenções ocultas ou reatividade, mantendo um espaço de respeito mútuo e em relação a cada peça que escolhem. Em outras palavras, todos esses instrumentistas chegaram preparados para deixar o momento fluir, sem interferir nem sentir necessidade de chamar a atenção para si mesmos. As coisas simplesmente existem e se movem por conta própria, como microcenas ao estilo de Rockwell.

Cada peça é reinterpretada de modo a permitir que emoções e impressões muito específicas se manifestem. Começando com a suave "Reflections in D", de Ellington, a sequência de faixas desenrola-se como os acontecimentos de um dia comum, retratando o mundo ondulante de um filme rodado à mão que desperta lentamente para a vida. As peças são todas tratadas de tal forma que parecem cenas distintas, porém relacionadas, do mesmo dia. Os solos nunca parecem interrupções, e a responsabilidade pela forma e estrutura, embora algo evidente, parece assumida com leveza. As coisas simplesmente surgem e desaparecem. A versão do grupo para "So Long, Frank Lloyd Wright", de Simon & Garfunkel, transporta a música original para uma atmosfera de lentidão diurna, como uma manhã que não precisa ter fim, sendo tudo isso emoldurado por uma releitura introspectiva de "Don't Let It Bring You Down", de Neil Young, que atravessa a noite em solidão, sem qualquer perspectiva de amanhecer. Há a sensação de que as apresentações começam e terminam apenas devido às limitações do processo de gravação.

Composta predominantemente em meados do século XX por compositores estadunidenses, é difícil não sentir uma leve ponta de saudade ou nostalgia, talvez, mas considere a mensagem por trás da seleção deste repertório como se essa fosse a única música que já existiu. As canções, então, definiriam umas às outras tanto quanto a si mesmas, e essas associações conferem nova vida a todas as partes e ao todo. A inclusão de "A Figure Descends", a única obra original de Nevin, sugere que o grupo, ao menos em parte, se concebe inserido em uma espécie de continuidade com esse mundo imaginado, em vez de simplesmente prestar algum tipo de homenagem a tempos passados. Cada peça foi originalmente composta por diferentes compositores, em locais e épocas distintos, e em diferentes momentos de suas respectivas carreiras. No entanto, a visão deste trio permite que nuances únicas emerjam da música e que cada peça soe como momentos de uma única conversa prolongada entre amigos. Assim como o suave nascer do sol da faixa de abertura de Ellington, o grupo finalmente atenua as luzes com um arranjo de encerramento para "The Voice of Love", de Angelo Badalamenti, música do filme “Fire Walk With Me”, de David Lynch. Todas as nuances tonais das faixas anteriores começam a se fundir, formando um arco-íris carregado de emoção e de qualidades inexprimíveis, antes de se dissiparem suavemente nas últimas notas do acorde final de Bergman.      

Faixas: Reflections in D; So Long, Frank Lloyd Wright; Goodbye Pork Pie Hat; Boplicity; Don't Let It Bring You Down; West Wind; A Figure Descends; Just Let Me Make Believe; Blood Count; The Voice of Love

Músicos: Luke Bergman(multi-instrumentista); Martin Nevin (baixo); Jason Burger (bateria).

Fonte: Max Kutner (AllAboutJazz)