playlist Music

quinta-feira, 21 de maio de 2026

MURIEL GROSSMANN - MGQ LIVE IM KING GEORG, KÖLN (Dreamlandrecords)

Muriel Grossmann consolidou-se firmemente no universo do jazz groove espiritual. Com seu 19º lançamento como líder, a saxofonista nascida em Paris e criada em Viena — atualmente radicada na Espanha — apresenta sua primeira gravação ao vivo. Acompanhada por seu grupo de longa data, o MGQ, que inclui o guitarrista sérvio Radomir Milojkovic e o baterista Uros Stamenkovic, além do organista espanhol de Hammond B3, Abel Boquera, o quarteto apresenta um show eletrizante: doze faixas estendidas na versão em CD e sete no LP.

A música foi gravada em 11 de novembro de 2022, no clube de jazz King Georg, em Colônia, coincidindo com o início da temporada de carnaval da cidade, conhecida localmente como "os dias loucos". A julgar pela resposta entusiasmada do público, a sala estava pronta para celebrar, e o quarteto de Grossmann não decepcionou.

Todas as peças selecionadas fazem parte do repertório já consolidado do quarteto, gravado anteriormente em estúdio. Mas, nesse contexto ao vivo, a música ganha nova vitalidade, impulsionada pela eletricidade do ambiente e pela energia pura dos músicos. O trabalho inicia com "Clarity", do álbum "Universal Code (Dreamlandrecords)”, lançado em 2022, onde o saxofone soprano de Grossmann entrelaça linhas melódicas intrincadas com os balanços de órgão emotivos de Barceló e os riffs (NT: frase musical curta, cativante e repetitiva, geralmente tocada por guitarra, baixo ou piano, que forma a base rítmica e harmônica de uma música, especialmente no rock, blues e metal) de guitarra precisos de Milojkovic. O ritmo permanece onipresente, especialmente em "Interconnection", que pulsa com uma intensidade hipnótica. Grossmann recua um passo, enquanto Milojkovic desencadeia um solo vibrante, à la Wes Montgomery, seguido pela manipulação lúdica de Boquera no andamento e no timbre.

"African Call", outra composição original de Grossmann, sintoniza o espírito da lenda sul-africana Louis Moholo-Moholo, enquanto "Happiness" se aventura no sul profundo dos Estados Unidos com um diálogo blues entre saxofone tenor, guitarra com influências de música folk e órgão com toques de gospel. A noite culmina em "Traneing In", que faz referência a "India", de John Coltrane. Grossmann retorna ao soprano, e o quarteto segue uma onda crescente e envolvente, impulsionada pelo órgão pulsante de Boquera e pelo ritmo contagiante de Stamenkovic.

Impulsionado pelo fervor carnavalesco e pela chama espiritual, este espetáculo ao vivo captura a banda não apenas em performance, mas em plena comunhão, entre si, com o público e com a própria música.

Faixas: Clarity - MGQ live im King Georg, Koeln; African Call - MGQ live im King Georg, Koeln; Interconnection - MGQ live im King Georg, Koeln; Calm - MGQ live im King Georg, Koeln; Sundown - MGQ live im King Georg, Koeln; Happiness - MGQ live im King Georg, Koeln; Traneing In - MGQ live im King Georg, Koeln.

Músicos: Muriel Grossmann (saxofones tenor, alto e soprano, percussão, composições); Radomir Milojkovic (guitarra elétrica); Abel Boquera (orgão, Hammond B3); Uros Stamenkovic (bateria).

Fonte: Mark Corroto (AllAboutJazzz)

 

ANIVERSARIANTES - 21/05

Bill Holman (1927-2024)- saxofonista,líder de orquestra,

David Hofstra (1953) – baixista,

Fats Waller (1904-1943) - pianista,

Jota Moraes (1948) – pianista,vibrafonista,

Jota P. (1984) – saxofonista,

Larance Marable (1929) – baterista,

Lew Barnes (1955) – trompetista,

Marc Ribot (1954) – guitarrista,

Matthew Von Doran (1960) – guitarrista,

Sylvia Bennett (1956) – vocalista (na foto e vídeo) http://www.youtube.com/watch?v=9RzeoHsSSP4,

Tommy Bryant (1930-1982) - baixista 

 

quarta-feira, 20 de maio de 2026

MARTIN WIND – STARS (Newvelle)


 O baixista Martin Wind não joga limpo. Na verdade, ele manipula as cartas. E por isso, todos nós deveríamos estar felizes. Para seu lançamento mais recente, “Stars (Newvelle)”, Wind conta com um grupo de colaboradores de primeira linha, incluindo o baterista Matthew Wilson, a clarinetista Anat Cohen e o pianista Kenny Barron. O quê? Isso mesmo, o alemão Wind, que agora mora na cidade de Nova York, recrutou três dos melhores músicos de jazz para acompanhá-lo em "Stars".

Como você deve imaginar, os resultados são incríveis. Desde que se mudou da Alemanha para Nova Iorque na década de 1990, Wind tem colaborado com esses e muitos outros artistas talentosos, tornando-se um músico de apoio requisitado e um líder habilidoso por mérito próprio.

Com “Stars”, Wind dá início à nova Newvelle Ten Collection, o primeiro de cinco álbuns que a gravadora lançará este ano para celebrar seu 10º aniversário. “Stars” eleva o padrão da coleção com uma combinação de talento musical incrível e inegável camaradagem.

O repertório começa com “Passing Thoughts”, uma música menos conhecida do também baixista Aaron Bell, que tocou com Duke Ellington, Billie Holiday, Buck Clayton e muitos outros. É um ritmo lento que se desenvolve com calma e precisão, típico do blues. Kenny Barron emociona, preenchendo o espaço nos lugares certos com a dose certa de tempero. Também são emocionantes os solos de Anat Cohen, com uma facilidade que poucos conseguem dominar no clarinete e um timbre simplesmente arrasador. Com a seção rítmica em perfeita sintonia, quase se pode ver Wilson e Wind, colaboradores frequentes, sorrindo, resultando em um delicioso blues noir.

O conjunto inclui três belas melodias compostas por Wind, incluindo a doce "Life" e "Moody", uma homenagem comovente à memória do saxofonista James Moody, com quem Wind colaborou antes de o saxofonista falecer em 2010. Mas “Standing At The Window Waving Goodbye” é uma das favoritas, uma ode à sua falecida avó. A melodia transborda memórias nostálgicas, uma canção que é ao mesmo tempo simples e complexa, desafiando os músicos a serem contidos, mas criativos.

Além dessas, há duas ótimas interpretações de músicas de Ellington. “Black Butterfly” tem um charme moderno e clássico. É leve e alegre, um passeio “no lado ensolarado da rua”. Wind conduz o baixo com uma confiança suave. Wilson toca com perfeição. Barron está majestoso e Cohen interpreta a melodia com uma intensidade romântica indescritível. “The Feeling Of Jazz” surge como uma recriação magistral em andamento médio da obra de Duke.

Além disso, "Wail", de Bud Powell, apresenta Wind e Cohen dobrando magicamente a melodia. “Pra Dizer a Deus”, de Edu Lobo, dá a Wind a oportunidade de tocar seu baixo com uma delicada e carinhosa técnica de arco. A partir daí, a música se transforma numa experiência perfeita para ouvir num pequeno clube, com um coquetel ao fundo, emoldurada pelo toque impecável de Barron e pelo talento de Cohen para dar um toque romântico à melodia, especialmente uma melodia brasileira, um de seus estilos favoritos.

O trabalho termina com “Stars Fell From Alabama”, a clássica canção de Mitchel Parish e Frank Perkins, imortalizada nas vozes de Ella Fitzgerald e Louis Armstrong. Serve como o complemento perfeito para este álbum encantador e cheio de reflexões. O arranjo explora os pontos fortes dos três músicos na música (Wilson não participa desta) — o bom gosto de Barron, requintado; o clarinete de Cohen, impecável; e a linha de baixo de Wind, rica em estilo, alegria e graça.

Martin Wind pode não jogar limpo com essa seleção de músicos de jazz de primeira linha, e isso é ótimo. Ele simplesmente toca maravilhosamente bem, assim como toda a banda neste excelente conjunto de músicas.

Observação: A edição digital contém duas faixas bônus incríveis: “Blues With Two Naturals”, composta por Wind, Barron e Wilson, e “Marc’s Moments” de Wind.

Fonte: Frank Alkyer (DownBeat) 

 

ANIVERSARIANTES - 20/05

Alfredo Dias Gomes (!960) – baterista,

Bob Florence (1932-2008) - pianista,arranjador,líder de orquestra,

Bobby Enriquez (1943-1996) – pianista,

Bradley Jones (1963) – baixista,

Charles Davis (1933-2016) – saxofonista,

Dino Saluzzi (1935) - bandoneonista,banjoísta,

Ed Petersen (1952) – saxofonista, flautista,

Fredera (1945) – guitarrista,

Hélio Delmiro (1947) – guitarrista (na foto e vídeo) http://www.youtube.com/watch?v=IEtnL1NMeFs,

Karlis Auzins (1988) – saxofonista,

Louis Smith (1931-2016)- trompetista,

Ralph Peterson, Jr. (1962-2021) – baterista,

Renato Teixeira (1945) – cantor,compositor,

Sheryl Bailey (1966) – guitarrista,

Tiziano Zanotti (1964) – baixista,

Tore Brunborg (1960) – saxofonista,

Victor Lewis (1950) - baterista,

Wajdi Cherif (1975) - piano 

 

terça-feira, 19 de maio de 2026

JIMMY FARACE - HOURS FLY, FLOWERS DIE (Shifting Paradigm Records)

Desde que Charlie Parker experimentou essa ideia há muitos anos, já foram feitas inúmeras gravações de saxofones acompanhados por seções de cordas. A maioria delas contou com saxofonistas tenor ou alto. No entanto, em seu álbum de estreia, Jimmy Farace demonstra como o saxofone barítono pode se destacar lindamente nesse formato.

A formação instrumental completa deste grupo apresenta Farace à frente de um quinteto, que também inclui guitarra e piano, em conjunto com o Quarteto de Cordas KAIA. Os dois elementos se harmonizam bem, com as cordas nunca se sobrepondo ao som do quinteto. KAIA realça sutilmente a potência estrondosa do barítono de Farace em "Growing Pains" e deixa bastante espaço para o pianista Julius Tucker e o baterista Dana Hall explorarem seus solos. O quarteto também oferece um acompanhamento harmonioso para o samba caloroso de "Prophetic Dreams" e para a delicada canção folclórica "Ferson Creek", onde seu trabalho em pizzicato se destaca em contraste com a melodia plácida de Farace. Ele também assina todos os arranjos do álbum, e dois de seus melhores trabalhos são em músicas mais antigas. "My Ship", de Kurt Weill, começa com as cordas assumindo a melodia antes do barítono e do piano entrarem com elegância. Enquanto isso, "Single Petal of a Rose", de Duke Ellington, também se destaca com sua poderosa fusão de cordas e saxofone.

Nem tudo aqui é só romance exuberante. "Backyard Bobcat" é uma alegre canção soul em que Farace toca sua buzina com entusiasmo e Dana Hall acompanha com a energia de um baterista de funk dos anos setenta. "Signs of Spring" começa de forma caótica, mas logo se transforma em uma atmosfera latina suave, com Farace e o guitarrista Kenny Reichert murmurando baixinho sobre a base fértil de KAIA. Em "Directionally Challenged", os instrumentos de corda se desfazem completamente, numa animada incursão do quinteto onde Farace toca com a mesma intensidade e velocidade de Pepper Adams. A faixa mais surpreendente é "Hours Fly, Flowers Die", onde todo o grupo executa com maestria uma imponente melodia de jazz-progressivo com Farace à frente, antes de Reichert entrar com um solo de guitarra elétrica arrebatador e Hall explodir na bateria.

Jimmy Farace deixa uma mensagem forte neste álbum de estreia. Sua execução com o barítono é excelente e ele também se mostra um arranjador criativo. Ao longo dos anos, muitos álbuns com saxofone e cordas foram lançados, mas a variedade e a pura beleza da música neste álbum são especiais.

Faixas: Growing Pains; Ferson Creek; Prophetic Dreams; Directionally Challenged; My Ship; Signs of Spring; Hours Fly, Flowers Die; Single Petal of a Rose; Backyard Bobcat.

Músicos: Jimmy Farace (saxofone barítono, composições, arranjos); Kenny Reichert (guitarra); Julius Tucker (piano); Clark Sommers (baixo); Dana Hall (bateria); Victoria Moreira (violino); Susan Bengtson Price (viola); Hope Shepherd Decelle (cello); Naomi Culp (violino).

Fonte: Jerome Wilson (AllAboutJazz) 

 

ANIVERSARIANTES - 19/05

Allen Farham (1961) – piano,

Alma Cogan (1932-1966) – vocalista,

Canhoto da Paraíba (1928-2008) – violonista,

Cecil McBee (1935)- baixista,

Geoff Stradling (1955) – pianista,

Georgie Auld (1919-1990)- saxofonista,líder de orquestra,

Johnny Alf (1929-2010) – pianista,vocalista(na foto e vídeo) http://www.youtube.com/watch?v=stRTgRT2NKY,

Henry Butler (1949) – pianista,

Kyle Eastwood (1968) – baixista,

Luis Carlos Vinhas (1940-2001) - pianista,

Michael Blake (1964) – saxofonista,

Mike Thompson (1949) – baterista,

Rex Cadwallader (1946) – pianista,

Richard Teitelbaum (1939-2020) – pianista,

Sonny Fortune (1939-2018) - saxofonista,

Tom Scott (1948) - saxofonista 
 

segunda-feira, 18 de maio de 2026

CRAIG TABORN / NELS CLINE / MARCUS GILMORE - TRIO OF BLOOM (Pyroclastic Records)

Os desígnios da aritmética musical são insondáveis. Explico: formações em que por mais que as parcelas sejam figuras relevantes e inatacáveis sob o ponto de vista criativo, a sua articulação gera forças contrárias que diminuem ou até anulam o melhor cômputo possível (Conhecemos bem diversos exemplos de interações musicais negativas). Outras existem, porém, que de formulação inusitada ou inesperada espoletam sinergias que confrontam estas aritméticas, resultando o valor final superior à soma das partes (embirro, confesso, com a expressão “supergrupo”). É isto que acontece no “Trio of Bloom” (o nome da formação é muito adequado, já lá vamos) para o qual convergem o tecladista Craig Taborn, o guitarrista Nels Cline e o baterista e percussionista Marcus Gilmore, três artistas ousados, três vozes singulares que se movem à vontade em diferentes tabuleiros do jazz mais aventureiro e de outras músicas criativas, mais ou menos conexas. Taborn é amplamente reconhecido tanto como pianista quanto como músico eletrônico, há quase três décadas, compondo e atuando em uma ampla variedade de situações, incluindo jazz, rock e noise. Tocou e gravou com figuras referenciais como Roscoe Mitchell, Wadada Leo Smith, Dave Holland, Tim Berne, John Zorn, Chris Potter, Vijay Iyer e Kris Davis, entre uma infinidade de outros. Conhecido sobretudo nos últimos 20 anos como guitarrista dos Wilco, Nels Cline é um verdadeiro polímata da guitarra, cuja obra abrange jazz, rock, punk e música experimental, tendo sido nomeado pela revista Rolling Stone como um dos 100 guitarristas mais influentes de todos os tempos. Lidera o trio Nels Cline Singers e os Nels Cline 4, tem um duo de guitarras com Julian Lage e recentemente estreou o seu Consentrik Quartet, com Ingrid Laubrock, Chris Lightcap e Tom Rainey, pela Blue Note. Marcus Gilmore já trabalhou também com um vasto rol de músicos como Chick Corea, Pharoah Sanders, Vijay Iyer, Robert Glasper, Flying Lotus, Herbie Hancock e Pat Metheny, apenas para mencionar alguns. Esta é a primeira colaboração entre os três músicos. O registo de estreia da formação acaba de ver a luz do dia pela mão da Pyroclastic Records, editora fundada pela pianista Kris Davis em 2016. Uma primeira colaboração que, de tão natural e apurada, mais parece o trabalho de uma banda com trabalho contínuo. Uma química especial emerge entre Taborn, Cline e Gilmore, que aqui exploram tanto zonas a que os associamos como outras que desafiam as respetivas bolhas. A inspiração inicial para o trio veio do produtor e poeta David Breskin, colaborador de longa data dos três músicos, que imaginou que faíscas brotariam quando se encontrassem num projeto partilhado. «Estou sempre à procura de maneiras de promover o intercâmbio e preencher lacunas», explica Breskin. «Gosto de apresentar pessoas que podem admirar-se mutuamente à distância, mas que nunca se cruzaram. Não sabia como soaria essa combinação, o que é o aspeto mais emocionante para mim.» O Trio of Bloom remete para um momento acontecido há quase quatro décadas, em 1987, com o lançamento de Strange Meeting, o único álbum do trio Power Tools, que juntou o guitarrista Bill Frisell, o baixista Melvin Gibbs e o baterista Ronald Shannon Jackson. Esta formação, também instigada e produzida por Breskin, teve um impacto formativo em muitos hibridizadores de estilos, incluindo Cline e Taborn. «O precedente sem categorias, aberto e rock dessa música foi uma inspiração muito libertadora para mim», refere Cline. O cardápio sonoro do Trio of Bloom é amplo e incorpora elementos de um jazz mais vulcânico, do afrobeat e inputseletrônicos, num fluxo que tanto pode ser pleno de vigor e energia ou de uma serenidade planante. Taborn é mestre na criação de paisagens sonoras; com os seus riffs (Nota: frase musical curta, melódica ou harmônica, que se repete ao longo de uma canção, criando sua identidade marcante, muito comum no rock, blues e jazz), Cline injeta eletricidade e Gilmore aporta uma camada rítmica em constante efervescência.

Da Teoria dos Conjuntos vem o diagrama de Venn, conceito muito útil para destacar semelhanças e diferenças entre grupos. A sobreposição entre as formas representa os elementos comuns (a interseção), e o espaço externo aquilo que não pertence a nenhum dos conjuntos. Apesar de estes três experimentadores nunca se terem encontrado, os seus respectivos círculos de atividade são vastos o suficiente para confundir qualquer tentativa de esquiçar um tal diagrama. Cline nunca tinha tocado com nenhum dos outros dois, em nenhum contexto; Taborn e Gilmore haviam partilhado o palco em algumas ocasiões em bandas lideradas por Chris Potter e Jakob Bro, mas nunca, para usar as palavras de Taborn, «numa interação criativa com a música um do outro». Então, quando Breskin aventou a ideia, acabou por ser uma decisão fácil para si. «Todos nós partilhamos a mais ampla gama de influências possíveis», prossegue Taborn. «Queria apoiar-me nelas, em vez de delimitar um determinado espaço. Estava muito ciente de como todos tocavam, então a verdadeira questão passou a ser qual seria a assinatura geral. Tentei deixar as possibilidades em aberto e abordar cada peça nos seus próprios termos». Também Cline partilha esta ideia: «O meu pensamento inicial foi uma combinação de entusiasmo e medo», disse. «Estes tipos são verdadeiros magos. Não sabia qual seria o modus operandi, mas encontramos muitos pontos em comum e afinidades partilhadas». O baterista também verbaliza as qualidades criativas dos outros dois. «O Nels tem um vasto conhecimento musical. O Craig toca a um nível muito elevado e também tem um conhecimento musical muito abrangente. É emocionante estar rodeado de pessoas assim, porque se aprende muito», acrescenta Gilmore. Breskin pediu a cada um dos três que trouxesse uma seleção de composições originais, novas e reaproveitadas, bem como uma versão que pudesse ser alvo de adaptação pelo trio. A abrir o álbum, a versão escolhida por Taborn, “Nightwhistlers” — original de Ronald Shannon Jackson, do álbum Eye On You (1980), a estreia da banda do baterista, Decoding Society — eleva os níveis energéticos ao vermelho, com a bateria de Gilmore a fornecer uma rotação elevada, a que se junta a eletricidade da guitarra multímoda de Cline. Se o tema se baseia num shuffle texano (Nota: é um ritmo de bateria enérgico e com suíngue, popularizado no blues texano por bateristas como Chris Layton) , aqui todo um cenário jazz-rock se abre diante de nós, com passagens mais ásperas a coexistirem com outras de uma luminosidade diáfana. “Unreal Light”, original do tecladista, envolve-nos numa atmosfera onírica e muito bela. Soam ecos longínquos de experiências floydianas do início doa anos setenta, como um curioso travo a África, numa mistura saudavelmente inclassificável. De uma beleza fantasmagórica, “Breath” tem as notas cristalinas de Taborn suportadas pelas texturas propostas pelo guitarrista e pela bateria delicada e prenhe de pormenores. Irresistível é “Queen King”, de Cline (que ecoa o riff de “King Queen”, do álbum “Initiate”, de 2010, dos Nels Cline Singers, produzido por Breskin), de novo impulsionada pelo balanço de Gilmore, a que o órgão de Taborn, deambulando livremente, acrescenta uma infinidade de novas cores; a guitarra traz um motivo que agita corpo e alma. A festa dura e dura. Gilmore sugeriu “Diana” — fruto da colaboração entre Wayne Shorter e Milton Nascimento no álbum “Native Dancer”, de 1975 — numa interpretação etérea que potencializa as possibilidades criativas do estúdio, com Taborn a tocar celesta, Cline a aportar loops telegráficos e Gilmore exemplar na afinação a cada mudança de rumo da peça (Gilmore referiu, a propósito: «É uma melodia realmente linda, mas é assustadora. Não se pode tentar melhorá-la, porque já é perfeita. Então, tivemos que torná-la diferente.»). Ao longo de dez minutos de improvisação livre, “Bloomers”, construída em diferentes camadas, com os efeitos de Taborn e Cline e os ritmos instáveis de Gilmore, hipnotiza e confunde real e imaginário, presente e futuro. Outro original do guitarrista, “Eye Shadow Eye” é um monumento melódico que Taborn introduz, e a qual guitarrista e baterista reagem com elegância e recato. O pianista traz o melodismo desafiante que é pilar da sua abordagem. A certo ponto, a peça muda de direção e ganha um viço quase rock’n’roll. Nervosa e urgente, “Why Canada”, outra peça de Taborn, espevita os sentidos num funk aguçado. Exercício que convoca os King Crimson e a Mahavishnu Orchestra, “Forge” assenta num motivo lento e arrastado, acumula uma tensão que acaba por nunca se dissipar verdadeiramente. Original do guitarrista norueguês Terje Rypdal — que encontramos no álbum “What Comes After”, lançado pela ECM em 1973 —, “Bend It”, a escolha de Cline para versão, traz consigo uma atmosfera misteriosa, com os três músicos a entregarem-se a complexos jogos interativos, agindo e reagindo a estímulos, sem perderem o fio de Ariadne. “Gone Bust” é curto epílogo de uma jornada caleidoscópica e revigorante.

 Faixas: Nightwhistlers; Unreal Light; Breath; Queen King; Diana; Bloomers; Eye Shadow Eye; Why Canada; Forge; Bend It; Gone Bust;

Músicos: Nels Cline (guitarra elétrica, guitarras de 6 e 12 cordas, guitarra havaiana, baixo [4,10]); Craig Taborn (piano); Marcus Gilmore (bateria).

Para conhecer um pouco deste trabalho, assistam ao vídeo abaixo:

https://www.youtube.com/watch?v=fLwdsopTqR0

Fonte: António Branco (jazz.pt)