Vibrafonista, compositor e improvisador, Duarte Ventura é um
jovem músico que tem estado no nosso radar, temos acompanhado com atenção o seu
trabalho nos últimos anos. Nascido no ano 2000, Ventura estudou vibrafone na
vertente jazz no Curso Profissional de Instrumentista de Jazz do Conservatório
de Música de Coimbra, tendo depois ingressado na Escola Superior de Música de
Lisboa. O seu nome tem-se feito notar, desdobrando-se entre diferentes
colaborações, parcerias e jam sessions, e tem-se apresentado ao leme dos
seus próprios grupos, com música original.
É um dos esteios do quarteto Godua — com Hugo Ferreira
(guitarra), João Fragoso (contrabaixo) e João Cardita (bateria) — que editou em
2024 o álbum “STOP (Carimbo Porta-Jazz)”. Em duo com o saxofonista João Gato,
editou no mesmo ano “Trafiklys (Timbuktu)”. Com Sam Barnett, Zé Cavaco, Camil
Arcarazo e Antônio Carvalho gravou “First Meeting (ed. Sintoma, 2024)”. Integra
o sexteto que gravou o afirmativo “Dracanea Draco (Timbre Melro Preto, 2025)”
com Guilherme Fradinho, Tomás Noronha, Henrique Pinto, Emanuel Inácio e
Francisco Coelho. E acabou de lançar o curioso “Blackout” (novamente com selo
Timbuktu), num quarteto inédito com o guitarrista Zé Cruz, o contrabaixista
Francisco Brito e o baterista João Lencastre, que nunca haviam tocado numa
mesma formação, ensaiaram numa quarta-feira à noite e cristalizaram 36 minutos
de música durante a tarde do dia seguinte. O vibrafonista participa em vários
grupos na condição de acompanhante, como Apophenia e o quinteto da cantora e
compositora Marta Rodrigues.
Para lá de todas estas ligações, o seu quinteto é o seu
projeto autoral âncora. Para interpretar as suas composições originais, Ventura
fez acompanhar o seu vibrafone com Miguel Valente no sax alto, Miguel Meirinhos
no piano, Zé Almeida no contrabaixo e Luís Possollo na bateria. O grupo já se
fez notar: foi vencedor do Prémio Jovens Músicos 2023. Na edição 2024 da Festa
do Jazz, Ventura ampliou o seu grupo para um noneto, acrescentando as vozes de
Joana Raquel e Marta Rodrigues, o violoncelo de Adèle Viret e a percussão de
Iúri Oliveira. O vibrafonista acaba agora de editar a estreia discográfica do
seu quinteto, “Blurred Image”, através da editora catalã Fresh Sound New
Talent.
Começamos por ouvir uma introdução tímida, até que entra
“Life of a Procrastinator”: com o piano e ritmo vibrante, entra o vibrafone,
seguindo-se o saxofone, em vozes entrecruzadas, e, apesar da diferença de
registos, há equilíbrio. E o tema vai crescendo, em energia e vertigem. Logo no
arranque percebemos que, para lá da vertente rítmica, a abordagem de Ventura é
melodiosa, construindo fraseados elaborados. Em “In Motion”, temos um maior
contraste: entramos numa ambiência atmosférica, o piano pingado, o saxofone
mais paisagístico (evocação de John Surman?). O tema mais longo do álbum,
“Blurry”, começa com o piano, até que o grupo segue na exposição do tema,
abrindo-se espaço para a evolução, com Meirinhos em destaque, a revelar a sua
expressividade; e também se exibe o saxofone de Valente. “Playground” assenta
em tensão, ancorada no contrabaixo de Zé Almeida (mentor do projeto Analogik).
O oitavo tema, “Menino”, é balada pura, melodia recheada de sentimento, e o
quinteto equilibra expressividade e contenção. A energia regressa em “To Break”
e o disco encerra em “Rift”, com o quinteto a trabalhar toda a complexidade.
De Ventura, já lhe tínhamos reconhecido o virtuosismo
técnico, e essa imagem sai reforçada. Coletivamente, o quinteto exibe dinâmica
de máquina bem oleada: Valente no saxofone alto, Meirinhos no piano, Almeida no
contrabaixo e Luís Possollo na bateria; e, em boa articulação, emerge uma massa
sonora unificada. Esta música é um jazz contemporâneo com pés bem assentes na
tradição. A composição de Ventura é ampla: o quinteto atravessa diferentes
registros e confirma a sua versatilidade. A fotografia da capa, da autoria do
saxofonista Bernardo Tinoco, revela uma imagem escura, desfocada, envolta em
mistério; a música contrasta: é clara, nítida, com cores vivas. Com este disco,
Ventura assume o papel autoral e confirma a subida à primeira liga. Se é raro
vermos o vibrafone a assumir o foco, temos agora em Portugal já excelentes
instrumentistas, que se afirmam também como autores e compositores, como
Eduardo Cardinho, Jeffery Davis e Paulo Santo. Além da qualidade técnica,
afirma a sua voz musical própria: Duarte Ventura aventura-se.
Faixas
01.
#0154 [Introduction] (Duarte Ventura) 1:54
02. Life
of a Procrastinator (Duarte Ventura) 5:38
03.
Night Shift (Duarte Ventura) 7:15
04. In
Motion (Duarte Ventura) 7:43
05.
Views [from the Ground Floor] (Duarte Ventura) 7:29
06. Blurry (Duarte Ventura) 9:15
07. Playground (Duarte Ventura) 6:33
08. Menino [Ode to Innocence] (Duarte Ventura) 6:01
09. To Break (Duarte Ventura) 6:49
10. Rift (Duarte Ventura) 9:03
Músicos: Duarte Ventura (vibrafone); Miguel Valente (saxofone alto); Miguel Meirinhos (piano); Zé Almeida (contrabaixo); Luís Possollo (bateria).
Fonte: Nuno Catarino (jazz.pt)






