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domingo, 18 de outubro de 2026

DARIUS JONES - LEGEND OF E'BOI (The Hypervigilant Eye) [AUM Fidelity]

Como mostra o novo álbum de Darius Jones, até a música mais angustiante pode servir como uma forma de cura. O saxofonista alto lançou um álbum em formato de trio que se baseia em suas tentativas de lidar com traumas mentais pessoais por meio de uma jornada musical assustadora que começa com gritos e termina com serenidade.

Este álbum é o sétimo volume na série de lançamentos Man'ish Boy de nove volumes de Jones. Trabalhando em um formato de trio com Gerald Cleaver na bateria e Chris Lightcap no baixo, este álbum é a reflexão de Jones sobre sua recuperação do trauma com a ajuda da terapia, e a recuperação da sua saúde mental. A música resultante é pesada e intensa

, especialmente na primeira metade do projeto. Na faixa de abertura, "Affirmation Needed", o som do alto de Jones é concentrado em um forte fluxo melódico que canta apaixonadamente ou ruge em gritos intimidantes. A seção rítmica o suporta com uma cadência de bateria acelerada e um baixo implacável. A execução de Jones tem o mesmo efeito geral de Albert Ayler ou Peter Brötzmann, mas com mais nuances. Sai como um som denso e urgente que mal consegue manter o controle, mas ocasionalmente explode em um grito primitivo.

Este som vem a ser mais denso e melódico, enquanto Jones canta sobre as pulsantes canções de Lightcap e as ocasionais bombas de Cleaver em "Another Kind of Forever". "No More My Lord" é uma canção tradicional de prisão onde Jones chora tristemente sobre um baixo com trabalho de arco e tambores farfalhantes. Soa como "Alabama" de John Coltrane no início, mas o sax alto fica mais alto e mais alto a cada repetição do tema até explodir em um grito estilhaçante.

A partir daí a música começa a se acalmar. "We Outside" é uma dança de três vias silenciosamente abstrata onde Cleaver e Lightcap ressoam e alternam entre curtas figuras do sax alto. Isso se resolve em um lento gemido de blues em "We Inside Now", com Jones reduzindo a marcha para um doce choro de balada digno de Johnny Hodges. O encerramento, "Roosevelt", na verdade parece feliz com o sax alto chorando com alma enquanto o baixo e a bateria mantêm um ritmo irregular, mas animado.

Mesmo quando seu modo de tocar fica mais leve e convencional, Darius Jones mantém uma pegada crua em sua execução, como se estivesse expondo sua alma através do seu sax alto. Essa música é envolvente do começo ao fim, enquanto o caos tempestuoso das faixas de abertura se transforma em clareza e alegria. É um álbum corajoso e notável, cheio de emoção e poder.

Faixas: Affirmation Needed; Another Kind of Forever; No More My Lord; We Outside; We Inside Now; Motherfuckin Roosevelt.

Músicos: Darius Jones (saxofone alto); Gerald Cleaver (bateria); Chris Lightcap (baixo).

Fonte: Jerome Wilson (AllAboutJazz)

 

ANIVERSARIANTES - 18/10

Anita O’Day (1919-2006)- vocalista,

Annette Hanshaw (1910-1985) - vocalista,

Bill Stewart (1966) - baterista,

Bobby Troup(1918-1999) - pianista,vocalista,

Chuck Berry( 1926) -guitarrista,vocalista,

Jimmy Bosch (1959) – trombonista,

Myron Walden(1972) – saxofonista,clarinetista,flautista,

Ron Vincent (1951) - baterista,

Wynton Marsalis (1961) - trompetista,flugelhornista (na foto e vídeo) http://www.youtube.com/watch?v=9OtZrIjQuwA
 

sábado, 17 de outubro de 2026

DUARTE VENTURA - BLURRED IMAGE (Fresh Sound New Talent)

Vibrafonista, compositor e improvisador, Duarte Ventura é um jovem músico que tem estado no nosso radar, temos acompanhado com atenção o seu trabalho nos últimos anos. Nascido no ano 2000, Ventura estudou vibrafone na vertente jazz no Curso Profissional de Instrumentista de Jazz do Conservatório de Música de Coimbra, tendo depois ingressado na Escola Superior de Música de Lisboa. O seu nome tem-se feito notar, desdobrando-se entre diferentes colaborações, parcerias e jam sessions, e tem-se apresentado ao leme dos seus próprios grupos, com música original.

É um dos esteios do quarteto Godua — com Hugo Ferreira (guitarra), João Fragoso (contrabaixo) e João Cardita (bateria) — que editou em 2024 o álbum “STOP (Carimbo Porta-Jazz)”. Em duo com o saxofonista João Gato, editou no mesmo ano “Trafiklys (Timbuktu)”. Com Sam Barnett, Zé Cavaco, Camil Arcarazo e Antônio Carvalho gravou “First Meeting (ed. Sintoma, 2024)”. Integra o sexteto que gravou o afirmativo “Dracanea Draco (Timbre Melro Preto, 2025)” com Guilherme Fradinho, Tomás Noronha, Henrique Pinto, Emanuel Inácio e Francisco Coelho. E acabou de lançar o curioso “Blackout” (novamente com selo Timbuktu), num quarteto inédito com o guitarrista Zé Cruz, o contrabaixista Francisco Brito e o baterista João Lencastre, que nunca haviam tocado numa mesma formação, ensaiaram numa quarta-feira à noite e cristalizaram 36 minutos de música durante a tarde do dia seguinte. O vibrafonista participa em vários grupos na condição de acompanhante, como Apophenia e o quinteto da cantora e compositora Marta Rodrigues.

Para lá de todas estas ligações, o seu quinteto é o seu projeto autoral âncora. Para interpretar as suas composições originais, Ventura fez acompanhar o seu vibrafone com Miguel Valente no sax alto, Miguel Meirinhos no piano, Zé Almeida no contrabaixo e Luís Possollo na bateria. O grupo já se fez notar: foi vencedor do Prémio Jovens Músicos 2023. Na edição 2024 da Festa do Jazz, Ventura ampliou o seu grupo para um noneto, acrescentando as vozes de Joana Raquel e Marta Rodrigues, o violoncelo de Adèle Viret e a percussão de Iúri Oliveira. O vibrafonista acaba agora de editar a estreia discográfica do seu quinteto, “Blurred Image”, através da editora catalã Fresh Sound New Talent.

Começamos por ouvir uma introdução tímida, até que entra “Life of a Procrastinator”: com o piano e ritmo vibrante, entra o vibrafone, seguindo-se o saxofone, em vozes entrecruzadas, e, apesar da diferença de registos, há equilíbrio. E o tema vai crescendo, em energia e vertigem. Logo no arranque percebemos que, para lá da vertente rítmica, a abordagem de Ventura é melodiosa, construindo fraseados elaborados. Em “In Motion”, temos um maior contraste: entramos numa ambiência atmosférica, o piano pingado, o saxofone mais paisagístico (evocação de John Surman?). O tema mais longo do álbum, “Blurry”, começa com o piano, até que o grupo segue na exposição do tema, abrindo-se espaço para a evolução, com Meirinhos em destaque, a revelar a sua expressividade; e também se exibe o saxofone de Valente. “Playground” assenta em tensão, ancorada no contrabaixo de Zé Almeida (mentor do projeto Analogik). O oitavo tema, “Menino”, é balada pura, melodia recheada de sentimento, e o quinteto equilibra expressividade e contenção. A energia regressa em “To Break” e o disco encerra em “Rift”, com o quinteto a trabalhar toda a complexidade.

De Ventura, já lhe tínhamos reconhecido o virtuosismo técnico, e essa imagem sai reforçada. Coletivamente, o quinteto exibe dinâmica de máquina bem oleada: Valente no saxofone alto, Meirinhos no piano, Almeida no contrabaixo e Luís Possollo na bateria; e, em boa articulação, emerge uma massa sonora unificada. Esta música é um jazz contemporâneo com pés bem assentes na tradição. A composição de Ventura é ampla: o quinteto atravessa diferentes registros e confirma a sua versatilidade. A fotografia da capa, da autoria do saxofonista Bernardo Tinoco, revela uma imagem escura, desfocada, envolta em mistério; a música contrasta: é clara, nítida, com cores vivas. Com este disco, Ventura assume o papel autoral e confirma a subida à primeira liga. Se é raro vermos o vibrafone a assumir o foco, temos agora em Portugal já excelentes instrumentistas, que se afirmam também como autores e compositores, como Eduardo Cardinho, Jeffery Davis e Paulo Santo. Além da qualidade técnica, afirma a sua voz musical própria: Duarte Ventura aventura-se.

Faixas

01. #0154 [Introduction] (Duarte Ventura) 1:54

02. Life of a Procrastinator (Duarte Ventura) 5:38

03. Night Shift (Duarte Ventura) 7:15

04. In Motion (Duarte Ventura) 7:43

05. Views [from the Ground Floor] (Duarte Ventura) 7:29

06. Blurry (Duarte Ventura) 9:15

07. Playground (Duarte Ventura) 6:33

08. Menino [Ode to Innocence] (Duarte Ventura) 6:01

09. To Break (Duarte Ventura) 6:49

10. Rift (Duarte Ventura) 9:03

Músicos: Duarte Ventura (vibrafone); Miguel Valente (saxofone alto); Miguel Meirinhos (piano); Zé Almeida (contrabaixo); Luís Possollo (bateria).

Fonte: Nuno Catarino (jazz.pt)

 

 

ANIVERSARIANTES - 17/10

Andrea Pozza (1965) – pianista,

Angel Bat Dawid (1979) – clarinetista, pianista,vocalista,

Barney Kessel (1923-2004) - guitarrista,

Chiquinha Gonzaga(1847-1935) – pianista,compositora,

Cozy Cole (1906-1981) - baterista,

Daniele Tittarelli (1975) – saxofonista,

Damon Smith (1972) – baixista,

Howard Alden (1958) – guitarrista (no vídeo) http://www.youtube.com/watch?v=1YXhSKRStpM,

Maurizio Giammarco (1952) – saxofonista,

Luiz Bonfá (1922—2001) – violonista,

Manuel Valera (1980) - pianista,

Sathima Bea Benjamin (1936-2013) - vocalista 

 

sexta-feira, 16 de outubro de 2026

CHAD LB - THE SHADOW OF YOUR SMILE

Chad LB (Lefkowitz-Brown), um talento brilhante e virtuoso do saxofone que já gravou um álbum inteiro com acompanhamento de cordas, utiliza esse recurso em apenas uma faixa (o hino "Ave Maria") no disco “The Shadow of Your Smile”, liderando um quarteto competente durante o restante desta gravação de estúdio, que, de modo geral, é muito agradável.

Embora suas escolhas de repertório sejam variadas (incluindo Eric Clapton, Bill Withers, Johnny Mandel, Buck Ram e J.S. Bach), Chad LB mantém sua identidade em qualquer contexto, tocando um saxofone tenor post-bop preciso e perspicaz, sempre com um objetivo claro em mente. Algumas de suas passagens vertiginosas pelas chaves do sax são impressionantes. Outras, simplesmente difíceis de acreditar. Em todas as situações, ele mantém o controle absoluto e um foco total.

Por falar em algo difícil de acreditar, a técnica impressionante de Chad LB torna difícil compreender sua predileção por andamentos mais lentos (três das sete faixas). Por outro lado, o show é dele, e ele tem o direito de montar o repertório e tocar o que bem entender. Ainda que LB seja um intérprete de baladas refinado, teria sido muito bem-vinda uma intensidade semelhante à de faixas como "Layla" ou "Change the World" (de Clapton) e "Just the Two of Us" (de Withers), ou, especialmente, a charmosa canção de abertura do álbum: "It Could Happen to You", o alerta romântico de Johnny Burke e Jimmy van Heusen.

Vale ressaltar que a "Ave Maria" de Bach não é o hino que a maioria dos ouvintes está acostumada a ouvir, aquele cantado de forma tão maravilhosa por Bing Crosby no papel do encantador Padre O'Malley e ouvido por milhões no filme “Going My Way (1944)”, vencedor do Oscar. Embora encantador à sua própria maneira, o tema de Bach é bastante diferente daquela versão da "Ave Maria". Portanto, não se surpreenda quando a melodia mais familiar não aparecer.

Voltando ao que interessa: a pianista Liya Grigoryan executa solos brilhantes em três faixas, o baixista Ben Tiberio faz o mesmo em "Change the World" e, juntos, eles ajudam o baterista Mike Piolet a manter o ritmo fluindo com suavidade o tempo todo. O sucesso do álbum, no entanto, reside nas mãos hábeis e na imaginação fértil de Chad LB, que impressiona de forma consistente.

Faixas: It Could Happen to You; Layla; The Shadow of Your Smile; Change the World; Ave Maria; Just the Two of Us; Only You.

Músicos: Chad Lefkowitz-Brown (saxofone tenor); Liya Grigoryan (piano); Ben Tiberio (baixo); Mike Piolet (bateria); Francesca Dardani (violino); Sasha Ono (cello).

Pra conhecer um pouco deste trabalho, assistam ao vídeo abaixo:

https://www.youtube.com/watch?v=HeAslTnVXiU

Fonte: Jack Bowers (AllAboutJazz)

 

 

ANIVERSARIANTES - 16/10

David C. Clark (1969) – saxofonista,

Gene Jackson (1961) – baterista,

John Mayer (1977) – guitarrista,

Leila Pinheiro (1960) – vocalista,

Mark Walker (1961) - baterista,

Ray Anderson (1952) - trombonista,

Roy Hargrove (1969-2018) - trompetista, flugelhornista (na foto e vídeo) http://www.youtube.com/watch?v=PiToV-TpsiE,

Rubens Barsotti(1932-2020) – baterista,

Sean Rickman (1970) – baterista,guitarrista,baixista,vocalista,

Tim Berne (1954) - saxofonista

 

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

KONRAD CIESIELSKI – KONIEC (Mindses Music)

Konrad Ciesielski parece um homem de contradições: um baterista de “extreme metal” (NT: é um termo coletivo para subgêneros do heavy metal marcados por alta agressividade sonora, letras sombrias e forte estética underground), que também toca “stoner rock” (NT: é um subgênero do rock e do heavy metal que mistura o peso do doom metal com a psicodelia do acid rock e o groove do blues-rock) do sul dos EUA paralelamente; alguém que é barulhento e poderoso, mas dotado de uma graça fluida, e que agora faz sua estreia solo com o título “Koniec (The End)”. Representando uma mudança de rumo em relação à sua trajetória anterior, trata-se de um panorama musical abrangente, de escala verdadeiramente vasta. No entanto, ao final desse filme virtual para os ouvidos, todas essas coisas nem sequer parecem contradições. O panorama é simplesmente vasto e abrangente o suficiente para comportar um pouco de tudo.

Sem se prender a um gênero específico, Ciesielski mantém o foco central no ritmo e se deleita ao explorar uma variedade de sonoridades eletrônicas futuristas. Padrões melódicos, muitas vezes minimalistas, ainda evocam um drama genuíno, por vezes, capaz de fazer o coração disparar, sem recorrer a teatralidade exagerada. Suas raízes no metal transparecem em sua disposição para soar alto ou agressivo; a faixa cyberpunk "Miscommunication Land" sobrepõe cantos quase mecânicos a um sintetizador de timbre zumbidor que ressoa e despenca com o peso de um buraco negro. No momento mais orgânico do álbum, "Labyrinthine" martela um transe de percussão tribal saído dos pesadelos de Peter Gabriel.

Embora a ambientação de ficção científica pudesse facilmente soar distópica, Koniec preserva insistentemente algo humano em meio à frieza. "Out of Gravity" gira em torno de uma voz incongruentemente fofa que divaga, em inglês, sobre devaneios celestiais. O balanço com um leve toque de rock progressivo de "Kamdra" dá lugar a um monólogo em polonês, suficientemente sereno para soar quase filosófico. Várias passagens apresentam um saxofone ou trompete criando cânions de eco, como se ressoassem pelo espaço sideral. Esses momentos evocam intensamente a atmosfera etérea e psicodélica do Portico Quartet, combinada a uma sonoridade de escala cinematográfica que remete à vertente mais grandiosa da obra tardia de Ryuichi Sakamoto.

Cada uma dessas peças parece habitar um mundo próprio, que continua a existir para além dos poucos minutos que podemos ouvir. A experiência parece constantemente tingida por algo estranho, mas quase sempre mantém uma pulsação orgânica palpável para impulsionar o motor de dobra. Com ambição e imaginação de sobra, espera-se que este Fim se mostre apenas o começo de coisas ainda mais fascinantes.

Faixas: Out of Gravity; Miscommunication Land; Taganana; Kamdra; Labyrinthine; Znaczenie; To Beginning.

Músicos: Konrad Ciesielski (bateria); Patrycja Tempska (saxofone); Dawid Lipka (trompete); Gabriela Wasilewska(vocal); Joanna Gośniowska-Budzisz (vocal); Jan Galbas (piano); Wojciech Łącki (baixo); Krzysztof Traczyk (vocal); Konrad Ciesielski e Maciej Stendek (mixagem e produção).

Para conhecer um pouco deste trabalho, assistam ao vídeo abaixo:

https://www.youtube.com/watch?v=x779Sp-5dEo

Fonte: Geno Thackara (AllAboutJazz)