Poucos compositores atuais são tão incansavelmente
inventivos quanto o saxofonista e clarinetista Elijah Shiffer. Ao longo da
última década, Shiffer liderou diversos grupos e compôs um catálogo de música
original em constante expansão.Obras cuidadosamente elaboradas, tematicamente
ligadas a aspectos distintos de seus interesses e gostos e por eles inspiradas.
“Fly by Night Blues”, terceiro volume de sua série “City of Birds”, reflete
todas essas qualidades. Assim como nos dois trabalhos anteriores, Shiffer
utiliza como fonte e inspiração canções e vocalizações, meticulosamente
transcritas, de aves nativas da região metropolitana de Nova York. Desta vez,
ele concentrou seus esforços especialmente nos espécimes de hábitos noturnos.
O meio ambiente e os cenários naturais desempenham um papel
fundamental no processo de Shiffer, assim como a totalidade do conceito. Além
de ser um artista muito requisitado na cidade, ele é um observador de aves
ativo e conduz passeios de observação de aves em diversos parques locais. Embora
existam inúmeros exemplos bem documentados, ao longo dos tempos e dos gêneros,
do canto dos pássaros servindo de musa, de Amy Beach e Olivier Messiaen até
aquele que talvez seja o exemplo mais óbvio: o padrinho do bebop, Charlie
Parker, apelidado de "Bird" e cujos títulos de obras incluíam
"Yardbird" e "Ornithology", os interesses de Shiffer não se
refletem apenas em transcrições literais dos cantos. As dez peças também são
retratos repletos de nuances do comportamento, do caráter e do habitat das
aves, além de homenagens a pássaros específicos, incluindo a famosa coruja que
escapou do cativeiro, Flaco. É por isso que as peças não recebem apenas nomes
como "Robin" ou "Owl", mas são, em vez disso,
frequentemente intituladas de forma mais evocativa, como "Mock
Nocturne" e "Who Hoots For Toot?". Por fim, a arte de capa de
Shiffer para a série retrata os diversos temas com a maior delicadeza,
serenidade e sensibilidade possíveis. Nada disso é feito de maneira superficial
ou apelativa, o que torna a experiência auditiva ainda mais envolvente.
A sequência musical de “Fly by Night Blues” utiliza
principalmente a linguagem e as estruturas do blues e do jazz tradicional como
base estilística, com as idiossincrasias de Shiffer percorrendo as formas e os
temas como fios travessos. "Hawknights" desenvolve-se a partir de um balanço
de baixo de nota única e tom amuado, acompanhado por um motivo sincopado de
saxofones que alterna movimentos ascendentes e descendentes. A tensão aqui
transmite a sensação da dramaticidade intensificada de um ataque iminente dos
gaviões. Por outro lado, "Who Hoots For Toot?" faz jus ao título ao
empregar um pio (ou, na verdade, mais um grasnido) no padrão rítmico do
corujão-listrado. "Robins Already" lança-se com uma liberdade
avassaladora, evocando a imagem de um jovem Ornette Coleman perseguindo
freneticamente cada tordo que via pela frente. "Big John's Pond" é
uma homenagem a um pequeno habitat aquático no Jamaica, Bay Wildlife Refuge,
onde as garças-noturnas nativas entram em atividade nas horas mais calmas da
madrugada.
Todas as peças mencionadas contam com um grupo preciso e
habilidoso, reunindo Shiffer no sax alto, o sax tenor de Kevin Sun, com sua
precisão cirúrgica, e a base sólida do baixista Dmitry Ishenko, além da bateria
propulsiva de Colin Hinton. Embora esse seja o elemento instrumental predominante
na maior parte de “Fly by Night Blues”, a atmosfera swing é equilibrada
por três miniaturas esparsas, de tom fúnebre, que surgem no início, no meio e
no fim do repertório. Shiffer passa para o clarinete nesses momentos e conta
com o acompanhamento de um violão de sonoridade suave, tocado por Bruce Acosta.
"Scops" abre o álbum com um tom contido e melancólico, evocando o
olhar atento da coruja-do-mato-oriental a partir do interior de troncos ocos. A
faixa "I'm All Ears", com seu ritmo de valsa, assume um caráter
contido semelhante, evocando uma cena delicada de floresta no inverno. O álbum
encerra com "Postscript for Flaco", que oferece uma reflexão
carinhosa sobre o homenageado, bem como sobre a diversidade do coletivo
retratado nas faixas anteriores.
Shiffer é um observador minucioso e atencioso dessas aves e
de seus cenários, e muito contribui para transmitir, em sua obra, uma sensação
de cuidadosa não invasão. De fato, pode-se encarar estes três volumes de música
como documentários sonoros da existência silenciosa e oculta que essas criaturas
levam, uma vida muitas vezes imperceptível para os humanos atarefados, mas,
ainda assim, vibrante e cativante. Shiffer executou seu conceito de forma
primorosa nesta gravação. A excelente banda ganha vida graças à sonoridade
vívida e cristalina do lendário Van Gelder Studio. Assim, Shiffer presta
homenagem à tradição de álbuns consagrados gravados naquele espaço, ao mesmo
tempo em que demonstra como as nuances da composição de jazz podem ser
remodeladas e reinventadas com maestria, a partir de um conceito rico e nas
mãos certas. A música ganha
vida.
Faixas: Scops;
I Know I'll Find Her Soon; Big John's Pond; Hawknights; Who Hoots For Toot?;
I'm All Ears; Fly By Night Blues; Mock Nocturne; Robins Already; Postscript For
Flaco.
Músicos: Elijah Shiffer (saxofone alto); Kevin Sun (saxofone
tenor); Bruce Acosta (guitarra); Dmitry Ishenko (baixo); Colin Hinton
(bateria).
Fonte: Max
Kutner (AllAboutJazz)


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