Ao longo dos últimos vinte anos, o baterista Steve Johns se
apresentou dezenas de vezes em diversos locais e formações no norte de Nova
Jersey e na região do Vale do Hudson, em Nova York. Para citar apenas alguns
exemplos, Johns tocou com o trio do guitarrista Bob DeVos no Trumpets Jazz
Club, participou de sessões lideradas pelo baixista Mark Hagan no Old 76 House
e fez parte de uma série de apresentações com curadoria do saxofonista tenor John
Richmond no The Turning Point Café— todos esses locais pequenos e intimistas —
permitiam que os ouvintes vissem e ouvissem cada nota, sem a mediação da
tecnologia de gravação e a presença de produtores e gravadoras. Estas noites
são essenciais para descobrir as qualidades individualistas de um músico, que
atua dentro de práticas reconhecíveis do jazz moderno.
A bateria de Johns engloba diversas virtudes que, juntas,
formam um todo substancial. Embora seja um músico assertivo, a dinâmica é
fundamental em sua abordagem ao instrumento e à música. É sempre possível ouvir
o baixista em meio às baquetas e escovas de Johns; os conjuntos e solistas
nunca são ofuscados pelo impacto de seus acentos e preenchimentos concisos e
estrategicamente colocados. A compatibilidade entre a técnica de baquetas e a
afinação meticulosa da bateria faz com que cada tambor soe com clareza e
musicalidade. Sob a batuta de Johns, o ritmo da música nunca se torna incerto
ou confuso, em parte devido à sua capacidade de ouvir e criar laços com os
baixistas. Em particular, a agilidade, a profundidade e a autoridade do balanço
gerado por ele e pelo baixista Bill Moring inspiraram muitos solistas e são um
prazer de se ver.
Para aqueles que não têm a oportunidade de ver Johns em uma
apresentação ao vivo, “Mythology” é uma ótima introdução aos seus consideráveis
talentos como compositor, líder de banda e baterista. Ele compôs cinco das 11
faixas do disco e inclui músicas de seus músicos acompanhantes, o guitarrista
John Hart, o pianista Greg Murphy e o baixista Joris Teepe. O repertório varia
do jazz tradicional e vibrante à improvisação livre coletiva, incluindo algumas
canções de autoria externa à banda, com os vocais de Monte Croft, que toca
vibrafone e, em uma das faixas, gaita. Independentemente do andamento, da
fórmula de compasso ou do tipo de balanço, Johns e Teepe estabelecem uma base
que soa segura, mas não inflexível ou rígida.
As melodias de quase todas as músicas são cativantes, bem
elaboradas e marcantes. Por exemplo, "Sapphire", de Johns, e "In
My Humble Opinion", de Teepe, incluem temas de valsa agradáveis. Algumas
exceções ao material estritamente direto incluem a intrincada "Our
Time" de Teepe, uma vitrine emocionante e instigante para as escovas e
baquetas do líder, e o tratamento multidimensional de Rich Shemaria para a
canção de protesto de Eugene McDaniels da década de 1960, "Compared To
What". O disco contém uma abundância de improvisações articuladas e
emocionalmente convincentes de todos os músicos, mas é a antítese de uma sessão
de improvisação. A química entre Hart, Croft e Murphy nos temas principais —
ouça "In My Humble Opinion" — e, frequentemente, durante os solos,
adiciona uma camada de complexidade sem se tornar rebuscada ou acadêmica demais.
Embora os solos e improvisações de Johns não sejam o foco
principal de “Mythology”, é um prazer ouvi-lo se expressar de maneiras nem
sempre presentes em apresentações ao vivo. Por quase dois minutos no meio de
"Our Time", ele demonstra disciplina e inventividade ao responder e
interagir com temas percussivos breves e dispersos, reconfigurados a partir da
composição de Teepe. Em seguida, ele continua mergulhando profundamente em um
riff (NT: é uma frase musical curta, cativante e
repetida, que forma a base melódica ou harmônica de uma composição, sendo
essencial na definição da identidade da música) com pinceladas de
velocidade e densidade variáveis. Longas erupções de múltiplas pinceladas,
executadas com inteligência, que soam como se brotassem de um riff, justapostas
a frases concisas, estão totalmente em sintonia com "Compared To
What", uma canção que contém exortações contra a guerra e em defesa dos
direitos reprodutivos. E Johns tem a última palavra na faixa-título, começando
um solo com ritmos funkeados bruscos sobre o baixo de Teepe, tornando-se
gradualmente mais efusivo e complexo enquanto o resto da banda, um a um, entra
com discernimento. É uma maneira apropriada de concluir um excelente disco.
Faixas: Coming
Of Age; Sapphire; This Is The Thing; Make Me Rainbows; Our Time; Bluesday The
13th; Compared To What; In My Humble Opinion; Friday The 16th; River's Edge;
Mythology.
Músicos: Steve Johns (bateria); Monte Croft (vibrafone); John
Hart (guitarra); Greg Murphy (piano); Joris Teepe (baixo acústico).
Para conhecer um pouco deste trabalho, assistam ao vídeo
abaixo:
https://www.youtube.com/watch?v=ylgqPz67UlA
Fonte: David
A. Orthmann (AllAboutJazz)






