
Ditados leva-os o vento (e o tempo). Esta é a história da
amizade entre um saxofonista espanhol e uma orquestra portuguesa. Uma relação
que mostra a larga margem que existe para a união entre forças criativas do
jazz de ambos os lados de uma fronteira que tantas vezes é apenas
administrativa. Perico Sambeat (nascido em 1962) e a Orquestra Jazz de
Matosinhos (OJM) cruzaram pela primeira vez os seus caminhos em 2007, num
concerto dedicado ao jazz espanhol que aconteceu na portuense Casa da Música,
com curadoria do saxofonista. «Há muitos anos conheci, em Barcelona, o Pedro
Guedes e o Carlos Azevedo», começa por dizer Perico Sambeat à jazz.pt. «Há dez,
doze anos colaboramos pela primeira vez em alguns temas da minha Flamenco
Big Band. Os concertos correram sempre muito bem e mantivemos sempre uma
boa amizade.» Pedro Guedes, diretor musical da OJM, também tira o pó da
memória: «Com a residência na Casa da Música tivemos de alargar o espectro de
repertórios que interpretávamos, e desde logo achámos importante conhecer a
música para big band que se fazia em Espanha», explica. Em 2021,
saxofonista e orquestra interpretaram em conjunto o universo de Ornette
Coleman. Perico Sambeat não tem certezas quanto às razões que levam as cenas do
jazz português e espanhol a não interagirem mais vezes. «É uma pena não haver
mais», desabafa o espanhol. «Anímica, humana e estilisticamente somos irmãos, a
ligação entre espanhóis e portugueses é muito profunda. Oxalá estas
colaborações sirvam para fazer pontes entre músicos e surjam mais ligações
positivas.» Pedro Guedes aponta à falta de incentivos: «Estamos aqui, mais ou
menos, isolados no oeste europeu, era importante termos mais contacto.» A OJM
(tal como a jazz.pt, diga-se) tem vindo a fazer caminho no sentido de apertar
os laços entre o jazz que se faz nos dois países. «Fazemo-lo através do convite
a jovens músicos espanhóis para tocarem com a OJM no ciclo de Novos Talentos,
que fazemos em Matosinhos desde 2019. Temos tido também concertos em Espanha,
com alguma frequência, esperando que projetos como este com o Perico Sambeat,
tragam mais oportunidades para tocarmos em Espanha.» Foram, portanto, precisas
quase duas décadas para que Sambeat e a OJM se unissem num álbum pensado de
raiz, gravado e editado pelo Centro de Alto Rendimento Artístico (CARA), que é
não só um selo discográfico, mas também um espaço de criação onde se promove o
diálogo entre arte, ciência e tecnologia, através de projetos
multidisciplinares. Criada em 1997, a OJM combina projeção internacional com um
forte sentido de responsabilidade local, investindo continuadamente no
desenvolvimento de projetos artísticos diversificados, na formação e na edição
discográfica de jazz português. A discografia da big band matosinhense é
o espelho de algumas das suas colaborações de maior relevo: Orquestra Jazz de
Matosinhos Invites Chris Cheek (2006); Portology, com Lee Konitz como
compositor e solista principal (2007); Our Secret World com Kurt Rosenwinkel,
lançado nos EUA e em Portugal (2010); Amoras e Framboesas com a cantora Maria
João (2011); Bela Senão Sem, com arranjos originais sobre a música do pianista
João Paulo Esteves da Silva (2013); Jazz Composers Forum, trabalho que resultou
na gravação de oito encomendas feitas a oito compositores — quatro americanos e
quatro europeus — para o ciclo de concertos com o mesmo nome (2014) ou
Unsolvable Problems (2019) com a música do compositor Carlos Guedes. Em 2020,
editou Jazz in the Space Age onde revisitou o histórico álbum de George
Russell, com o mesmo Esteves da Silva e José Diogo Martins como convidados.
Dois anos depois foi a vez de After Midnight, com a cantora e compositora
Rebecca Martin e o contrabaixista Larry Grenadier. Em 2023, a OJM apresentou o
projeto “Uma Viagem Pelos Tempos do Jazz”, a história das big bands
contada pela OJM e Manuel Jorge Veloso e com narração de António Curvelo.
Referência maior do jazz do país vizinho, Perico Sambeat já foi galardoado com
alguns dos principais prémios do jazz espanhol e europeu; distingue-se por uma
larga e diversificada discografia enquanto líder, colíder e acompanhante, em
largas dezenas de títulos, incluindo várias participações em álbuns de músicos
de jazz portugueses, como Carlos Barretto, Bernardo Sassetti ou Rodrigo
Gonçalves, representativas dos contatos que há muito e regularmente mantém com
o panorama do jazz português. Em Barcelona, integrou o Taller de Músics, tendo
sido aluno de Zé Eduardo.
Boreal é um álbum de matriz ibérica constituído por oito
composições reveladoras da elegância, rigor, energia e lirismo do espanhol,
escritas ou arranjadas especificamente para serem interpretadas pela OJM.
Enquadra-se na rubrica de compositor em residência na orquestra, que desde há
vários anos convida compositores para trabalhar e gravar a sua música. Pedro
Guedes é claro na ambição: «É nosso desígnio: sermos a orquestra de jazz de
referência na Península Ibérica.» Desbravando terreno pouco explorado, a OJM,
verdadeira instituição do jazz nacional, tem cumprido o papel de orquestra
nacional de jazz. Sambeat, saxofonista valenciano de forte expressão
internacional, surge aqui na tripla condição de compositor, diretor musical e
solista. «Este é o meu terceiro disco com big band, com uma grande
formação, e estou muito contente com o resultado», sublinha Perico Sambeat.
Depois do primeiro contato e do concerto na Casa da Música, Sambeat passou a
fazer parte de um júri, com Pedro Guedes, para a tomada de decisões artísticas
da orquestra. «A partir desse momento ofereceram-me a possibilidade de
continuar a colaboração e, mais recentemente, ofereceram-me o estúdio CARA para
gravar um projeto meu. Uma grande oportunidade para colaborar com a OJM que não
podia deixar passar e comecei a compor para a big band, sabendo para que
músicos específicos estava a escrever. Fizemos alguns ensaios e gravarmos o
disco.» Pedro Guedes também não esconde a satisfação quanto ao resultado final:
«Parece-me que este disco, bem como o disco do Carlos Azevedo, Farol,
representam o que de melhor se faz em termos de escrita para big band na
Península Ibérica. Trabalhar com Perico Sambeat é trabalhar com um dos nomes
maiores do jazz europeu.» O saxofonista valenciano também exalta o fruto desta
colaboração: «Quando compomos ficamos com uma ideia pré-concebida do que poderá
ser, e na maior parte das vezes, por muito bem que esteja, há sempre alguma
coisa que falha. Mas, neste caso, estou muito contente porque o resultado foi
muito próximo da ideia que tinha.» Existe uma compatibilidade sinérgica entre o
seu saxofone, ao mesmo tempo fluido e complexo, com a massa orquestral refinada
da OJM. «Sai-me de forma natural e tem a
ver com as minhas afinidades e gostos musicais. Muitos dos temas foram
especialmente escritos para este disco, para serem tocados pela OJM. Outros,
que já tinha escrito, ganharam novos arranjos para serem tocados pela
orquestra.» Na vibrante peça de abertura, “Circe”, uma espécie de blues, o
primeiro tema escrito ao piano por Sambeat quando decidiram partir para esta
aventura, logo fica patente a agilidade da máquina orquestral, com a
articulação, diria megacamerística, entre os diferentes naipes e instrumentos.
O saxofone de Sambeat voa; a guitarra de André Fernandes também logra espaço
para solar. A bateria é de Mário Barreiros, que acumulou com as funções de
técnico de som. O motivo-base é retomado no final, antecedendo clímax
apaziguador. Peça já com algum tempo, “Ciudad del Paraíso”, dedicada à cidade
de Málaga a partir da homenagem feita pelo poeta Vicente Aleixandre, traz
consigo, nesta versão para orquestra, um balanço luminoso, do qual se eleva um
solo de trompete (Ricardo Formoso). Uníssonos pujantes são intercalados por
pequenos fragmentos, detalhes, que ganham espaço próprio no todo sonoro. Outra
peça com algum tempo, “Mãe d’Água” — que já conheceu um arranjo para orquestra
sinfônica, foi adaptada para este contexto, tendo-lhe sido acrescentado um interlúdio,
entre outras alterações — envolve-nos numa atmosfera serena, dela emergindo um
solo delicado de Fernandes; também a bateria de Diogo Alexandre espanta pela
contenção. Belos solos de Mário Santos e do próprio Sambeat. Os dois minutos
finais são dominados pelo piano diáfano de Miguel Meirinhos (até onde poderá ir
este jovem músico?) Partindo da ideia de ter poucos acordes para improvisar,
“Limbo” conta com o canto sem palavras de Alba Morena. Javier Pereiro
entrega-nos um solo pleno de luz, que a orquestra afaga, e Fernandes volta a
explorar o seu guitarrismo versátil. De atmosfera mais abstrata, “Ample” é
introduzida pela doçura da flauta e parece feita para a banda sonora de um
filme imaginário, com a sua aura de mistério e de que algo está à espera para
acontecer; Alexandre e Meirinhos assinam solos de valia. Porventura a peça mais
tradicional do disco, “Snow Hope” (talvez a brancura luminosa de que fala Jon
Fosse), traz um swing ameno, que Meirinhos perscruta ao piano e que Sambeat
elabora num solo pleno de leveza. “Estigia (para Bernardo y Toni)” — escrita
para os amigos Bernardo Sassetti e Toni Belenguer, ambos já desaparecidos — é
uma sentida balada que bateria e guitarra lançam suavemente e o saxofonista
José Pedro Coelho desenvolve com elegância; outros solos admiráveis de
Meirinhos e Sambeat, envolvidos por uma massa sonora aveludada. A peça que
empresta o título ao álbum desenvolve-se em camadas, indo ao encontro do
contexto próprio da big band, e traz um tom tranquilo e esperançoso,
expresso nos solos de Fernandes, Sambeat e Demian Cabaud. Boreal é sólido
testemunho da excelência do jazz ibérico, demandando novos mares qual jangada
de pedra.
Faixas
1.Circe 06:44
2.Ciudad Del Paraíso 06:46
3.Mãe D’Água 10:50
4.Limbo 09:14
5.Ample 06:36
6.Snow Hope 08:09
7.Estigia (para Bernardo y Toni) 08:23
8.Boreal 08:14
Músicos: Perico Sambeat— direção musical, saxofones alto e
soprano, flauta; José Luís Rego, João Guimarães, Mário Santos, José Pedro
Coelho e Rui Teixeira— instrumentos de sopro de palhetas; Luís Macedo, Ricardo
Formoso, Rogério Ribeiro e Javier Pereiro— trompetes; Daniel Dias, Andreia
Santos, Álvaro Pinto e Gonçalo Dias— trombones; Miguel Meirinhos— piano; André
Fernandes— guitarra; Demian Cabaud— contrabaixo; Diogo Alexandre e Mário
Barreiros— bateria; Alba Morena— voz; Pedro Guedes— direção artística
Fonte: António Branco (jazz.pt)