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segunda-feira, 18 de maio de 2026

CRAIG TABORN / NELS CLINE / MARCUS GILMORE - TRIO OF BLOOM (Pyroclastic Records)

Os desígnios da aritmética musical são insondáveis. Explico: formações em que por mais que as parcelas sejam figuras relevantes e inatacáveis sob o ponto de vista criativo, a sua articulação gera forças contrárias que diminuem ou até anulam o melhor cômputo possível (Conhecemos bem diversos exemplos de interações musicais negativas). Outras existem, porém, que de formulação inusitada ou inesperada espoletam sinergias que confrontam estas aritméticas, resultando o valor final superior à soma das partes (embirro, confesso, com a expressão “supergrupo”). É isto que acontece no “Trio of Bloom” (o nome da formação é muito adequado, já lá vamos) para o qual convergem o tecladista Craig Taborn, o guitarrista Nels Cline e o baterista e percussionista Marcus Gilmore, três artistas ousados, três vozes singulares que se movem à vontade em diferentes tabuleiros do jazz mais aventureiro e de outras músicas criativas, mais ou menos conexas. Taborn é amplamente reconhecido tanto como pianista quanto como músico eletrônico, há quase três décadas, compondo e atuando em uma ampla variedade de situações, incluindo jazz, rock e noise. Tocou e gravou com figuras referenciais como Roscoe Mitchell, Wadada Leo Smith, Dave Holland, Tim Berne, John Zorn, Chris Potter, Vijay Iyer e Kris Davis, entre uma infinidade de outros. Conhecido sobretudo nos últimos 20 anos como guitarrista dos Wilco, Nels Cline é um verdadeiro polímata da guitarra, cuja obra abrange jazz, rock, punk e música experimental, tendo sido nomeado pela revista Rolling Stone como um dos 100 guitarristas mais influentes de todos os tempos. Lidera o trio Nels Cline Singers e os Nels Cline 4, tem um duo de guitarras com Julian Lage e recentemente estreou o seu Consentrik Quartet, com Ingrid Laubrock, Chris Lightcap e Tom Rainey, pela Blue Note. Marcus Gilmore já trabalhou também com um vasto rol de músicos como Chick Corea, Pharoah Sanders, Vijay Iyer, Robert Glasper, Flying Lotus, Herbie Hancock e Pat Metheny, apenas para mencionar alguns. Esta é a primeira colaboração entre os três músicos. O registo de estreia da formação acaba de ver a luz do dia pela mão da Pyroclastic Records, editora fundada pela pianista Kris Davis em 2016. Uma primeira colaboração que, de tão natural e apurada, mais parece o trabalho de uma banda com trabalho contínuo. Uma química especial emerge entre Taborn, Cline e Gilmore, que aqui exploram tanto zonas a que os associamos como outras que desafiam as respetivas bolhas. A inspiração inicial para o trio veio do produtor e poeta David Breskin, colaborador de longa data dos três músicos, que imaginou que faíscas brotariam quando se encontrassem num projeto partilhado. «Estou sempre à procura de maneiras de promover o intercâmbio e preencher lacunas», explica Breskin. «Gosto de apresentar pessoas que podem admirar-se mutuamente à distância, mas que nunca se cruzaram. Não sabia como soaria essa combinação, o que é o aspeto mais emocionante para mim.» O Trio of Bloom remete para um momento acontecido há quase quatro décadas, em 1987, com o lançamento de Strange Meeting, o único álbum do trio Power Tools, que juntou o guitarrista Bill Frisell, o baixista Melvin Gibbs e o baterista Ronald Shannon Jackson. Esta formação, também instigada e produzida por Breskin, teve um impacto formativo em muitos hibridizadores de estilos, incluindo Cline e Taborn. «O precedente sem categorias, aberto e rock dessa música foi uma inspiração muito libertadora para mim», refere Cline. O cardápio sonoro do Trio of Bloom é amplo e incorpora elementos de um jazz mais vulcânico, do afrobeat e inputseletrônicos, num fluxo que tanto pode ser pleno de vigor e energia ou de uma serenidade planante. Taborn é mestre na criação de paisagens sonoras; com os seus riffs (Nota: frase musical curta, melódica ou harmônica, que se repete ao longo de uma canção, criando sua identidade marcante, muito comum no rock, blues e jazz), Cline injeta eletricidade e Gilmore aporta uma camada rítmica em constante efervescência.

Da Teoria dos Conjuntos vem o diagrama de Venn, conceito muito útil para destacar semelhanças e diferenças entre grupos. A sobreposição entre as formas representa os elementos comuns (a interseção), e o espaço externo aquilo que não pertence a nenhum dos conjuntos. Apesar de estes três experimentadores nunca se terem encontrado, os seus respectivos círculos de atividade são vastos o suficiente para confundir qualquer tentativa de esquiçar um tal diagrama. Cline nunca tinha tocado com nenhum dos outros dois, em nenhum contexto; Taborn e Gilmore haviam partilhado o palco em algumas ocasiões em bandas lideradas por Chris Potter e Jakob Bro, mas nunca, para usar as palavras de Taborn, «numa interação criativa com a música um do outro». Então, quando Breskin aventou a ideia, acabou por ser uma decisão fácil para si. «Todos nós partilhamos a mais ampla gama de influências possíveis», prossegue Taborn. «Queria apoiar-me nelas, em vez de delimitar um determinado espaço. Estava muito ciente de como todos tocavam, então a verdadeira questão passou a ser qual seria a assinatura geral. Tentei deixar as possibilidades em aberto e abordar cada peça nos seus próprios termos». Também Cline partilha esta ideia: «O meu pensamento inicial foi uma combinação de entusiasmo e medo», disse. «Estes tipos são verdadeiros magos. Não sabia qual seria o modus operandi, mas encontramos muitos pontos em comum e afinidades partilhadas». O baterista também verbaliza as qualidades criativas dos outros dois. «O Nels tem um vasto conhecimento musical. O Craig toca a um nível muito elevado e também tem um conhecimento musical muito abrangente. É emocionante estar rodeado de pessoas assim, porque se aprende muito», acrescenta Gilmore. Breskin pediu a cada um dos três que trouxesse uma seleção de composições originais, novas e reaproveitadas, bem como uma versão que pudesse ser alvo de adaptação pelo trio. A abrir o álbum, a versão escolhida por Taborn, “Nightwhistlers” — original de Ronald Shannon Jackson, do álbum Eye On You (1980), a estreia da banda do baterista, Decoding Society — eleva os níveis energéticos ao vermelho, com a bateria de Gilmore a fornecer uma rotação elevada, a que se junta a eletricidade da guitarra multímoda de Cline. Se o tema se baseia num shuffle texano (Nota: é um ritmo de bateria enérgico e com suíngue, popularizado no blues texano por bateristas como Chris Layton) , aqui todo um cenário jazz-rock se abre diante de nós, com passagens mais ásperas a coexistirem com outras de uma luminosidade diáfana. “Unreal Light”, original do tecladista, envolve-nos numa atmosfera onírica e muito bela. Soam ecos longínquos de experiências floydianas do início doa anos setenta, como um curioso travo a África, numa mistura saudavelmente inclassificável. De uma beleza fantasmagórica, “Breath” tem as notas cristalinas de Taborn suportadas pelas texturas propostas pelo guitarrista e pela bateria delicada e prenhe de pormenores. Irresistível é “Queen King”, de Cline (que ecoa o riff de “King Queen”, do álbum “Initiate”, de 2010, dos Nels Cline Singers, produzido por Breskin), de novo impulsionada pelo balanço de Gilmore, a que o órgão de Taborn, deambulando livremente, acrescenta uma infinidade de novas cores; a guitarra traz um motivo que agita corpo e alma. A festa dura e dura. Gilmore sugeriu “Diana” — fruto da colaboração entre Wayne Shorter e Milton Nascimento no álbum “Native Dancer”, de 1975 — numa interpretação etérea que potencializa as possibilidades criativas do estúdio, com Taborn a tocar celesta, Cline a aportar loops telegráficos e Gilmore exemplar na afinação a cada mudança de rumo da peça (Gilmore referiu, a propósito: «É uma melodia realmente linda, mas é assustadora. Não se pode tentar melhorá-la, porque já é perfeita. Então, tivemos que torná-la diferente.»). Ao longo de dez minutos de improvisação livre, “Bloomers”, construída em diferentes camadas, com os efeitos de Taborn e Cline e os ritmos instáveis de Gilmore, hipnotiza e confunde real e imaginário, presente e futuro. Outro original do guitarrista, “Eye Shadow Eye” é um monumento melódico que Taborn introduz, e a qual guitarrista e baterista reagem com elegância e recato. O pianista traz o melodismo desafiante que é pilar da sua abordagem. A certo ponto, a peça muda de direção e ganha um viço quase rock’n’roll. Nervosa e urgente, “Why Canada”, outra peça de Taborn, espevita os sentidos num funk aguçado. Exercício que convoca os King Crimson e a Mahavishnu Orchestra, “Forge” assenta num motivo lento e arrastado, acumula uma tensão que acaba por nunca se dissipar verdadeiramente. Original do guitarrista norueguês Terje Rypdal — que encontramos no álbum “What Comes After”, lançado pela ECM em 1973 —, “Bend It”, a escolha de Cline para versão, traz consigo uma atmosfera misteriosa, com os três músicos a entregarem-se a complexos jogos interativos, agindo e reagindo a estímulos, sem perderem o fio de Ariadne. “Gone Bust” é curto epílogo de uma jornada caleidoscópica e revigorante.

 Faixas: Nightwhistlers; Unreal Light; Breath; Queen King; Diana; Bloomers; Eye Shadow Eye; Why Canada; Forge; Bend It; Gone Bust;

Músicos: Nels Cline (guitarra elétrica, guitarras de 6 e 12 cordas, guitarra havaiana, baixo [4,10]); Craig Taborn (piano); Marcus Gilmore (bateria).

Para conhecer um pouco deste trabalho, assistam ao vídeo abaixo:

https://www.youtube.com/watch?v=fLwdsopTqR0

Fonte: António Branco (jazz.pt)

 

ANIVERSARIANTES - 18/05

Big Joe Turner (1911-1985) - vocalista,

Bruno Marini(1958) – saxofonista,organista,

Dave Bennett (1984) – clarinetista, guitarrista, pianista,baterista,

Huw Warren (1962) – pianista,

Jacques Morelenbaum (1954) – violoncellista, maestro,arranjador,

Jim McNeely (1949-2025) – pianista,

Kai Winding (1922-1983)- trombonista,

Larry Novak (1933-2020) -pianista,

Mauro Senise (1951) – saxofonista,flautista (na foto e vídeo) http://www.youtube.com/watch?v=F59RvP93Qrs,

Marco Cortesi  (1962) – guitarrista,

Nicolas Krassik (1969) – violinista,

Pops Foster (1892-1969) - baixista,

Weasel Walter (1972) - baterista 

 

domingo, 17 de maio de 2026

GARY SMULYAN - BOSS BARITONES (SteepleChase Records)

Os pares outrora populares de saxofonistas incisivos e fortes como Johnny Griffin com Eddie "Lockjaw" Davis e Gene Ammons com Sonny Stitt constituem algumas das inspirações por trás da criação de “Boss Baritones”. Incorporando material escrito por Griffin, Davis, Illinois Jacquet, Don Byas e J.R. Monterose, há indicação de um saudável respeito pelos gigantes que podem não estar mais na moda. Nós podemos saber sobre o significado desses laços com o passado, se quisermos. No entanto, eles têm pouco a ver com o cerne deste projeto: a inspiração coletiva e individual das performances da banda composta por pesos pesados ​​​​de Nova York, coliderados pelos saxofonistas barítonos Gary Smulyan e Frank Basile.

Embora a gravação apresente extensivo sopro por todas as mãos, as cabeças se levantam para o escrutínio. O rosnado gutural dos dois barítonos animando a melodia da abertura do trabalho, "Oh Ghee", de Matthew Gee, fala de uma abordagem simples e profissional para a música. Uma seleção raramente visitada do grande repertório estadunidense, "I'll Never Be the Same" de Matty Malneck ressoa com positividade, em parte por causa da maneira exuberante de Smulyan lidar com suas partes da música. A versão elegante e segura de "Black Velvet" de Jacquet é fundamentada pelo ronronar agradável dos barítonos.

Estas seleções funcionam bem parcialmente por causa de uma seção rítmica que nunca perde coisas interessantes para dizer em apoio aos barítonos. Ao longo das nove faixas do disco, o pianista Steve Ash dá corpo às melodias com combinações inteligentes de acordes. As linhas do baixo de Mike Karn são uma verdadeira torre de força, e os sotaques habilmente escolhidos do baterista Aaron Seeber animam cada música. Eles lidam com o ritmo adulto descontraído de "Black Velvet", o bebop explosivo e fanfarrão de "Fifty-Six" de Griffin, além de todo o resto, com elegância. Quando o trio dá passos à frente e no centro para o solo de Ash em "Hey Lock" de Davis, sua simetria é essencial para a maneira do pianista sustentar o impulso sem apressar ou inserir muita informação em cada compasso.

Smulyan e Basile são músicos experientes que aprenderam lições valiosas durante longos períodos nas seções de sopros de grandes orquestras de jazz, o que se reflete nos arranjos para dois instrumentos de sopro dos temas principais. Nenhum dos dois sente necessidade de recorrer a longos períodos de gritos, zurros ou outros artifícios para expressar emoções exageradas. Em vez disso, muita emoção está contida em ideias inteligentes e logicamente desenvolvidas. Uma virtude que eles têm em comum é a capacidade de prosperar, em vez de apenas sobreviver, em improvisações animadas, como evidenciado por suas convincentes improvisações em "I'll Never Be The Same", "Fifty-Six" e "Straight A head" de Monterose.

Durante a execução de "Star Eyes", de Gene DePaul e Don Raye, Basile oferece uma lição sobre como fazer uma afirmação categórica baseada em uma canção familiar, frequentemente interpretada, e em progressões de acordes. Smulyan preserva a essência de "Black Velvet" sem citar a melodia e não tem pressa antes de começar a correr. Basile ameaça explodir constantemente na mesma faixa, mas, na maior parte do tempo, consegue se controlar. O solo se beneficia da tensão inerente a essa relativa contenção. Uma longa sequência de solos de oito compassos entre Smulyan e Seeber em "Fifty-Six" soa tão completa quanto qualquer um de seus solos convencionais com múltiplos refrões.

“Boss Baritones” é um excelente exemplo de como práticas de jazz originadas em meados do século XX podem — nas mãos certas — soar frescas e revigorantes nos dias de hoje.

Faixas : Oh Ghee; I'll Never Be The Same; Star Eyes; Hey Lock; Black Velvet; Fifty-Six; Land Of Dreams; Byas A Drink; Straight Ahead.

Músicos: Gary Smulyan (saxofone barítono); Frank Basile (saxofone barítono); Steve Ash (piano); Mike Karn (baixo); Aaron Seeber (bateria).

Fonte: David A. Orthmann (AllAboutJazz)

 

ANIVERSARIANTES - 17/05

Alberto Continentino (1978) – baixista,

Amilson Godoy(1946) – pianista,

Bill Bruford (1949) – baterista,

David Izenon (1932-1979) - baixista,

Dewey Redman (1931-2006) - saxofonista,

Jackie McLean (1932-2006) – saxofonista (na foto e vídeo) http://www.youtube.com/watch?v=_YqKLw1bW6Y&feature=related,

Michiel Braam (1964) – pianista,

Paul Quinichette (1916-1983)- saxofonista 

 

sábado, 16 de maio de 2026

MAKAYA McCRAVEN – OFF THE RECORD (International Anthem / Nonesuch / XL)

A crítica, a especializada e a generalista, aprecia de sobremaneira a incursão de músicos de jazz nas eletrônicas. Muitas vezes ignorando que a música é mais importante que o suporte como foi construída. Eu explico: deveria ser totalmente irrelevante para a apreciação do crítico, se a obra é acústica ou eletrônica, se o músico é DJ ou produtor, se é novo ou velho, homem ou mulher. Mais, o próprio local onde é gravado um tema é também ele irrelevante. Se é uma boa malha, depois então investigue-se e escreva-se sobre tudo isto, mas assumir que, por exemplo, o jazz de um londrino é mais moderno e tem mais qualidade que o de um madrilenho, é provincianismo. Só a música interessa.

O baterista Makaya McCraven tem um atrativo inusitado porque além de ser baterista de jazz também é produtor e faz beats. Está na moda. Tal não deve influenciar o modo como ouvimos a música de McCraven. Nem para o bem, nem para o mal. Gostar de alguma coisa porque é popular é tão errado como deixar de gostar de alguma coisa porque é popular. O preconceito e a discriminação positiva andam enrolados e não se querem na cama com a isenção e a razoabilidade.

Makaya McCraven nasceu em Paris mas cresceu em Northampton, a cidade inglesa que deu ao mundo Thom Yorke e os Bauhaus. É filho de Stephen McCraven, um baterista de jazz que atuou entre outros com Archie Sheep e Yuseef Lateef, e da vocalista húngara Ágnes Zsigmondi, que teve algum sucesso na banda de música do mundo Kolinda. Quando jovem a família mudou-se para Massachusetts e foi lá, com amigos da escola de Amherst, que formou os Duck Cold Complex. Faziam um hip-hop jazz esperto e chegaram a abrir para Digable Planets e Wu-Tang.

Desde 2008, Makaya McCraven editou quase uma vintena de álbuns e se no início era o jazz que o fascinava, a partir de 2015, com “In the Moment” (e também com o respetivo disco de remisturas), resolveu que tal não lhe bastava. Embrenhou-se em mixtapes e na produção de beats, fez música de dança e produziu gente de outros universos. Em 2018 grava “Universal Beings”, onde trabalha com os londrinos Nubya Garcia e Shabaka Hutchings, de Chicago vem Junius Paul e Tomeka Reid, de Los Angeles vêm Anna Butterss e Miguel Atwood-Ferguson e de Nova Iorque. Brandee Younger e Dezron Douglas.

Entretanto remixou o último álbum de Gil Scott-Heron, “I’m New Here”. Gostando-se ou não da releitura, é preciso tomates para brincar com um clássico. Mais ainda porque a história ainda não lhe tinha atribuído essa classificação. É tudo muito recente: o disco de Gil Scott-Heron é de 2010, ele faleceu em 2011, Makaya faz “We’re New Again” em 2020. Em 2022 grava em modo mais convencional “In These Times”, com uma orquestra — demorou seis anos a trabalhar nas pautas para aquela gente toda. Foi um dos discos bem falados desse ano, dentro e fora do jazz.

McCraven lança agora, e de uma assentada, quatro EPs, que estão reunidos no duplo vinil “On The Record” — o disco foi editado numa colaboração entre as editoras International Anthem, Nonesuch e XL Recordings. São três editoras fundamentais para perceber o jazz deste século. Cada face do vinil corresponde a um EP e o mais antigo, “The PopUp Shop”, gravado em setembro de 2015, conta com Jeff Parker na guitarra, o vibrafonista Justefan e o baixista Benjamin J. Shepherd. Neste EP, e em quase todos os outros, McCraven além de tocar bateria, produz o material. E quando digo produz, digo intervem ativamente, em estúdio, na música que ouvimos. “Venice” (a cidade californiana onde foi gravado este concerto) abre com um Jeff Parker mandão, a conduzir um jazz de fusão numa guitarra simpática. Aqui, os detalhes de vibrafone soam a pormenores. Em “Imafan”, no entanto, é Justefan que leva a malta. Obviamente que tudo isto está sempre impregnado daquele beat característico de Makaya. Aquele dançável, sabem? Acho sempre notável o modo tranquilo como estes temas se desenrolam. Como se fossemos abrir a janela de manhã e tivesse bom tempo. Em “Los Gatos”, começa por ser o baixo de Shepherd a carregar, mas fica lá um retardamento de Jeff Parker do último tema. Mas será que fica? Ou seja, será que no concerto se ouviu assim? Ou foi Makaya que o deixou lá em trabalho de estúdio?! Percebe-se como a questão da pós-produção é importante. Acrescenta valor. Desmistifica a gravação ao vivo. “Sweet Stuff” é doce. Alegre e doce. Parece construído em cima de um sample. Não me interpretem mal, afirmo-o como sendo uma qualidade. Termina num solo de Parker, mas eu só ouço aquela bateria maluca de Makaya lá ao fundo.

“Hidden Out!” foi gravado em 2017 no prestigiado clube The Hideout de Chicago. Um quinteto, sempre com Jeff Parker na guitarra e Marquis Hill, mais nas eletrônicas que no trompete, ainda o saxofone e teclados de Josh Johnson e o baixista Julius Paul. Na capa vemos Makaya em palco, não a tocar bateria, mas atento a uma das máquinas da sua bateria. Pousada numa mesinha de madeira, longe da nossa vista, a controlar. Este quinteto tocou durante meses neste clube, as seis faixas são o resultado dessa residência. Isso mais o trabalho de McCraven aos comandos da pós-produção, com edição, sobreposições e tudo o mais que lhe possa ocorrer. Só ao quarto tema, “Awaze”, e por breves segundos, ouvimos os dois metais do quarteto. Houve teclados e efeitos, retardamentos e tudo aquilo que uma estação de áudio digital pode oferecer. Há um solo de bateria sutilmente alterado que é uma delícia. No final, sei que o trompete de Marquis Hill esteve em palco porque vejo fotos disso e leio nas entrevistas e na ficha técnica. No entanto, não o ouço. Mesmo Josh Johnson, não o encontro no seu sax alto mas sim nos teclados a que já nos habituou nos poderosos SML. É um EP comandado por Makaya de forma exemplar, seja no papel da bateria em todos esses temas, seja na pós-produção discreta e ainda assim incontornável.

Techno Logic é um objeto curioso porque se nota a evolução de um trio. A acompanhar McCraven temos a tuba de Theon Cross e o cornetista Ben LeMar Gay. Primeiro em Londres, 2017, depois em Berlim, 2024 e finalmente em Nova Iorque já este ano. Começa dançável, com a tuba a fazer de baixo e percebe-se logo o quanto Makaya avacalhou as fitas originais. No retardamento de LeMar Gay certamente, mas mais ainda no modo como aquela tuba vem do chão. Ou nos barulhinhos bons que ninguém certamente tocou ao vivo. E se tocou não é certamente como nos soa agora em disco. Ainda bem que assim é. A música, esta música, quer-se estimulante. Seja nos ritmos que pedem que nos mexemos, seja na capacidade de nos surpreender com som fora da ficha técnica. A meio de Techno Logic ocorre-me que, no site oficial de Makaya McCraven, ele aparece creditado como “beat-scientist, drummer and producer”. Por esta ordem. Ouço “Prime” e esse cientista do beat faz-me experimentar um breakbeat esperto de três segundos singulares repetidos ao longo de 4 minutos. É uma arte cruzar estes beats com aquele curto avacalho final. “Strikes Again” parece um tema de jazz clássico, o que por esta altura já nos espanta, mas logo se difunde em mais um beat cheio de balanço. Nesta faixa, entendo que a repetição exaustiva do mesmo beat possa incomodar alguns, mas é o balanço que interessa aqui. E quando se intelectualiza o balanço já se perdeu o que importa.

Por fim, The People’s Mixtape é fruto de uma residência de McCraven no Winter Jazzfest este ano. Um quinteto com Marquis Hill, Junius Paul mais o vibrafone de Joel Ross e os sintetizadores de Jeremiah Chiu. Começa numa demonstração da capacidade rítmica de McCraven. Como se fora um comboio no apropriado “Choo, Choo”. Em “The Beat Up” segue a viagem mantendo a velocidade. Rápido sem ser fugaz. Ross acompanha-o, mas quando o sopro de Marquis Hill lança o tema, a velocidade diminui e entra um som mais suave. Sim, ainda vamos depressa, mas está-se bem, é tudo tranquilo. Jeremiah Chiu, em modo sintetizador dos 70’s, conduz-nos ao, algo previsível, destino. “What a life” é mais escuro e algo sujo. Com mais pós-produção. Tem um cheirinho de old school e relembra os tais Cold Duck Complex, de que Makaya fez parte há 20 anos. Termina tudo isto com “Lake Shore Drive”, ainda em modo noturno, mas com mais espaço. Estava até algo atmosférico antes de Makaya nos chamar de volta à pista. Hill e Chiu, lá ao fundo, tentam trazer uma cor momentânea e acaba no tal ritmo dançante a que Makaya já nos habituou ao longo da última hora.

Há um processo curioso no modo como Makaya McCraven trabalha. Grava uma improvisação, livre e ao vivo, com um conjunto de músicos. Depois trabalha meticulosamente esse material em estúdio, o que algumas vezes resulta num outro disco. Culminando na apresentação ao vivo deste último material já com outro conjunto de músicos. Porque pessoas diferentes tocam música diferente, o resultado é sempre uma surpresa, distanciando-se e aproximando-se da longínqua gravação original. A abrir a edição em vinil, em “PopUp Shop”, McCraven anuncia: «We are about to be making some stuff right here on the spot. This is improvised music, spontaneous composition [NT: Vamos começar a criar algo aqui mesmo, na hora. Isso é música improvisada, composição espontânea]» — estamos conversados.

Faixas

1-01 PopUp Shop EP: YoYoYo Intro 0:30

1-02 PopUp Shop EP: Venice 3:38

1-03 PopUp Shop EP: Imafan 6:53

1-04 PopUp Shop EP: Los Gatos 3:58

1-05 PopUp Shop EP: Sweet Stuff 6:38

1-06 Hidden Out! EP: Battleships (apresentando Jeff Parker) 4:55

1-07 Hidden Out! EP: Away 3:19

1-08 Hidden Out! EP: Dark Parks (apresentando. Jeff Parker) 3:37

1-09 Hidden Out! EP: Awaze (apresentando Josh Johnson) 4:16

1-10 Hidden Out! EP: News Feed (apresentando Junius Paul) 4:47

1-11 Hidden Out! EP: Braddas 2:18

2-01 Techno Logic EP: Gnu Blue (apresentando Theon Cross & Ben LaMar Gay) 4:52

 Músico: Makaya McCraven— composição, produção, bateria, percussão, eletrônica, teclados, sintetizadores, guitarra, vibrafone.

Fonte: Hugo Pinto (jazz.pt)

 

 

ANIVERSARIANTES - 16/05

Alfred Kramer (1965) – baterista,

Betty Carter (1930-1998)- vocalista (na foto e vídeo) http://www.youtube.com/watch?v=iemkYXz8UNs,

Billy Cobham (1944) – baterista,

Britanny Anjou (1984) – pianista,

Eddie Bert (1922-2012)- trombonista,

John Davis (1981) – baterista,

Pete Jacobsen (1950-2002) – pianista,

Ron Kearns (1952) - saxofonista,

Woody Herman (1913-1987)- clarinetista, saxofonista,líder de orquestra,

Zara McFarlane (1983) - vocalista

 

sexta-feira, 15 de maio de 2026

ROBERTO MAGRIS - FREEDOM IS PEACE (JMood Records)

Em 1998, o artista internacional Roberto Magris formou um quinteto de talentosos músicos europeus e os chamou de banda Europane, que se apresentou ativamente por toda a Europa até 2003. Mais de vinte anos depois, o pianista reúne um novo grupo Europlane e apresenta sua primeira gravação com “Freedom is Peace”, uma sessão poderosa e cativante de jazz com uma mensagem de consciência social e introspectiva, que reflete os tempos turbulentos em que vivemos hoje e afirma que o jazz pode ser uma declaração política, o que este álbum foi projetado para fazer com elegância. Com o saxofonista tenor e soprano Tony Lakatos se reunindo com Magris nesta nova aventura, este novo sexteto traz um novo som produzido por alguns dos melhores músicos de jazz da cena jazzística europeia hoje.

Há apenas oito músicas neste álbum, mas o tempo total gravado do grupo excede 75 minutos porque, exceto por "The Island of Nowhere", um aquecedor de andamento médio com solos rápidos de Lakatos no tenor, o austríaco Florian Bramböck no barítono e o eslovaco Lukas Oravec em um trompete agudo, que dura menos de sete minutos, as outras sete peças do álbum chegam a quase treze minutos de duração, garantindo uma abundância de música incrível para desfrutar.

A peça de abertura, "Freedom is Peace", inicia a nova jornada de forma explosiva, lançando uma salva após a outra "com uma intensidade feroz", preparando o cenário para a sessão quente, que se seguirá. Gravado ao vivo no Festaal in Bad Goisern, Áustria, em Abril de 2024, os aplausos e a aprovação do público tornam-se parte integrante do produto final. Embora excelente durante toda a sessão, o pianista é mais pronunciado na requintada "Something to Save from EU (You)", uma melodia original e leve que pinta essa música como uma balada durante a maior parte dos 12 minutos de duração, enquanto o mestre do piano assume o controle com uma execução apaixonada.

A verdadeira balada do trabalho vem de Andrew Hill, "Laverne", com deliciosos solos líricos de soprano de Lakatos e que por acaso é uma das composições favoritas do líder, que ele afirma ter "tocado na maioria dos meus shows nos últimos anos". Tomando emprestado o cantor e compositor israelense Boaz Sharabi, todo o sexteto navega em águas calmas em um arranjo "encorpado" de Magris de "When You Touch Me", outra música longa, mas de bom gosto, onde toda a banda desfruta de bastante espaço solo nesta canção pop israelense que o líder modifica para dar um toque de jazz e adiciona um leve ritmo latino para torná-la interessante.

Outra música animada e funk com um arremesso tremendo é a peça animada e direta "Loose Fit", com o baterista eslovaco Gasper Bertoncelj em um estrondo intenso. Fechando a sessão, Magris e grupo deixam tudo rolar no hard-bop "Hip! For the Conference", um número tocado frequentemente com a banda anterior do Europlane e que o pianista inclui aqui como um elo final à memória do antigo grupo. “Freedom is Peace” é uma declaração musical inesquecível, com uma mensagem social entre as notas que Roberto Magris quer que o mundo ouça, alto e claro!.

Faixas: Freedom Is peace; The Island Of Nowhere; Malay Tone Poem; Laverne; Something To Save From EU (You); When You Touch Me; Loose Fit; Hip! For The Conference.

Músicos: Roberto Magris (piano); Tony Lakatos (saxofone tenor); Florian Bramböck (saxofone tenor); Lukas Oravec (trompete); Rudi Engel (baixo acústico); Gasper Bertoncelj (bateria).

Para conhecer um pouco deste trabalho, assistam ao vídeo abaixo:

https://www.youtube.com/watch?v=Gu9Ew5FUio8

Fonte: Edward Blanco (AllAboutJazz)