Miguel Mira tem sido um dos esteios da música improvisada
nacional. Com o seu violoncelo original (a assumir funções de contrabaixo), foi
um dos vértices do Motion Trio, com Rodrigo Amado e Gabriel Ferrandini,
formação improvisadora que publicou seis álbuns marcantes entre 2009 e 2016 e
deixou uma marca indelével na cena europeia. Outro dos seus projetos marcantes
é o trio Flying Cellos, com os parceiros violoncelistas Helena Espvall e Fred
Lonberg-Holm, que editou um álbum homônimo em 2023 (Weird Cry Records). Com
Pedro Sousa e Afonso Simões formou o trio Rajada, que editou um álbum em 2018
(ed. Multikulti Project). E não tem parado de estabelecer colaborações e outras
parcerias, com músicos como Rodrigo Pinheiro, Ulrich Mitzlaff, Bruno Parrinha,
Ernesto Rodrigues, Carlo Mascolo e muitos outros.
O veterano violoncelista e mestre improvisador edita agora
(finalmente!) o seu primeiro disco na condição de líder e, para esta sua
estreia, Mira formou um trio com o baterista Felice Furioso e o saxofonista
Yedo Gibson (dos MOVE). Com selo da 4DaRecord de João Madeira, cujo trabalho de
edição tem sido muito consistente, o álbum Machinerie conta com uma pintura do
líder violoncelista na imagem de capa do disco (de traço aguado, numa forma
indistinguível). Dentro da rodela, o álbum é composto por dois longos temas,
cada um com mais de 20 minutos: “Machinerie” e “Pedreira”. Com o violoncelo de
Mora aliado à percussão nervosa de Furioso e ao saxofone febril de Yedo Gibson,
nasce uma música trepidante, assente em improvisação criativa.
Não se trata de um típico álbum de free improv,
nenhum dos músicos revela pressa de impor ideias. O disco arranca lentamente,
com o homônimo “Machinerie”, num processo de exploração e pesquisa,
permanentemente evolutivo. Os instrumentos vão entrando, explorando sons
atípicos, texturas, dialogando, em processo de construção. Há momentos de
encontro, embora, cada um dos músicos expresse a sua individualidade em
diferentes alturas: o violoncelo em registo hipnótico, a partir dos sete
minutos; o rugido do saxofone de Gibson a partir dos 12 minutos; a partir dos
14 minutos, o trio une-se em convulsão enérgica, mantendo-se no vermelho até
quase ao final, apenas se dissolvendo nos últimos minutos da faixa.
O segundo tema, “Pedreira”, arranca novamente em clima
tranquilo, near silence, em exploração microtonal, sem urgência; entre
sussurros, a faixa evolui numa acumulação lenta de tensão; em alguns momentos a
bateria de Furioso afirma-se, pujante, em conflito com a sutileza geral; mas o
trio vai mantendo a toada discreta, marcada pela contenção, em intervenções
individuais sem choques nem explosões. Para o final, a tema vai aumentando a
intensidade, sem nunca rebentar, em contínua suspensão.
Neste disco, ao longo dos dois longos temas o trio Mira / Gibson
/ Furioso desenvolve um processo de comunicação musical de escuta atenta, onde
o coletivo e o individual se vão alternando, abrindo alas à expressão
discursiva de cada instrumento. Se o álbum leva assinatura de Mira, a música é
profundamente democrática, com todos os instrumentos nivelados e equilibrados
no processo de construção. Este é um manifesto de arrojo, liderado por Miguel
Mira, músico veterano e figura central da improvisação lusa que merece o nosso
reconhecimento.
Músicos: Miguel Mira— violoncelo; Yedo Gibson— saxofones; Felice
Furioso— percussão.
Fonte: Nuno Catarino (jazz.pt)






