Em sintonia com a nostalgia, ao mesmo tempo melancólica e
agradável, da fotografia de sua avó que ilustra a capa, há um espírito digno,
quase ligado à classe trabalhadora, impregnado no jazz moderno de fôlego e
sofisticação intelectual presente em “Make It Better”, da trompetista Allison
Philips, do Brooklyn. Nele, melodias calorosas e firmes ancoram as estruturas
de improvisação com um senso de propósito, história e sensibilidade. Criado,
assim como grande parte dos lançamentos mundiais de meados da década de 2020,
no limbo contemplativo da pandemia, período em que Philips trabalhou por mais
de um ano em uma empresa de bufê, o trabalho dela e de seu quarteto resulta em
uma música que funciona tanto como lar quanto como veículo (talvez uma perua já
rodada, mas de estrutura sólida): um lugar onde se pode sentar e refletir, mas
também aventurar-se pelo mundo afora. É uma sonoridade que encontrou seu lugar
em redutos da cultura litorânea, como o Brooklyn e Seattle, mas que aqui é
executada com uma sensibilidade e maturidade particulares.
Para deixar claro, nem tudo no álbum é revestimento de
madeira e móveis vintage; por mais que haja um toque folk, a música ainda é
repleta de aventura e desafios. A faixa de abertura do álbum, "Welcome
Back Daisy", faz uma breve declaração antes de lançar o ouvinte de cabeça
em uma mistura de linhas de trompete e saxofone tenor que ora competem, ora se
harmonizam; já a melodia de "Tandem", com ares de rodeio saído de um
sonho febril, abre os portões do coliseu para uma profusão sonora igualmente
frenética e variada. Há momentos, na atmosfera introspectiva e simples de
"Door Song", em que o baterista Conor Parks desestabiliza sutilmente
a valsa de base, ao estilo de Paul Motian, e, ao longo do disco, tanto Philips
quanto a saxofonista tenor Neta Renaan deslocam o eixo do foco tonal: Philips,
com um centro sonoro sólido que faz piruetas contra a corrente, e Renaan, com
uma abordagem mais frenética e de sonoridade polida.
No entanto, melodias agradáveis e cativantes são, sem
dúvida, o cartão de visitas do disco. "Pulaski", o single de destaque
do álbum, impregnado de indie-rock e batizado em homenagem à ponte que liga o
Brooklyn ao Queens e fazia parte da rotina de deslocamento de Philips, pulsa e
flui com a leveza dos passeios de bicicleta que o inspiraram, trazendo uma
melodia cativante, aparentemente simples, porém sofisticada. A harmonia de dois
instrumentos de sopro em "Hit the Ground" cria movimentos suaves e
melancólicos, carregados de uma sensação de desamparo típica das baladas sobre
azarões da Broadway das décadas de 1960 e 1970. A faixa-título do álbum é sustentada
por uma marcha que ressalta seu caráter de hino, quase vaudeville, evocando
algo que parece ter vindo diretamente das salas de estar e dos locais de culto
da classe trabalhadora do início do século XX.
A faixa final consolida essa sensação de honra serena com a
única regravação do álbum: uma versão terna, porém comovente, de "She's
Got You", de Patsy Cline. Philips e Renaan, apoiados pela recriação fiel,
por parte do baixista Isaac Levian, da dinâmica rítmica característica do
country de meados do século, unem-se em uma harmoniosa interação de melodia e
voz que evoca a sensação de deixar para trás o marasmo do dia ao som de um
disco de vinil, numa cantoria em grupo ou até mesmo ao reencontrar, após muito
tempo, uma apresentação casual na televisão; tudo isso sem se deixar aprisionar
pelas lamentações explícitas da letra. É uma faixa de encerramento de álbum que
sugere que o amanhã não está escrito, mas que o que você tem hoje já é
suficiente.
Faixas: Welcome
Back Daisy; Pulaski; Door Song; Interlude; Make It Better; Hit The Ground;
Tandem.
Músicos:
Allison Philips (trompete); Neta Raanan (saxofone); Isaac Levien (baixo); Connor
Parks (bateria).
Fonte: Daniel
Lehner (AllAbouJazz)






