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segunda-feira, 21 de setembro de 2026

MICHELLE NICOLLE & LARRY KOONSE - THE SILENT WISH (Pulple Lead Music)

Em “The Silent Wish”, a vocalista australiana Michelle Nicolle colabora com o virtuoso guitarrista americano Larry Koonse num duo que elimina todos os excessos, revelando a essência da conversa musical. Esta gravação é ao mesmo tempo ousada e íntima, pois marca a entrada de Nicolle em um novo capítulo de exploração vocal, movida pelo desejo de despertar seus sentidos criativos e explorar terrenos emocionais desconhecidos.

A decisão de trabalhar com Koonse provou ser inspiradora. Nicolle tem sido reconhecida por sua sensibilidade na interpretação e ousadia harmônica, mas neste contexto, com apenas o suporte harmônico e rítmico da guitarra de Koonse, ela está ao mesmo tempo desprotegida e no comando. Koonse, por sua vez, desempenha o papel de parceiro e provocador. Suas interpretações vocais nunca são estáticas, suas falas frequentemente surpreendem, e seu senso de ritmo inabalável eleva o diálogo a algo revelador.

O programa consiste em grande parte de clássicos, mas não se trata de uma mera repetição de material já bastante conhecido, como exemplificado pela faixa de abertura "When Your Lover Has Gone". Com a guitarra de Koonse oferecendo uma introdução opaca, a música se torna uma meditação sobre a solidão, com Nicolle usando espaço, vocalizações e fraseado para embeber a canção com uma gravidade silenciosa.

O grupo neozelandês Split Enz criou "I Hope I Never", que foi um grande sucesso na Austrália. Nicolle oferece uma interpretação melancólica da letra pungente da canção, que demonstra sua habilidade e flexibilidade para revelar o potencial do jazz em material contemporâneo. O sucesso jazz/pop "I'm Glad There Is You" foi composto por Jimmy Dorsey e Paul Madeira em 1941 e gravado originalmente pela Decca Records por Jimmy Dorsey e sua orquestra. Nesta interpretação, Nicolle encontrou o cerne emocional da música, fazendo com que cada palavra ressoe com sinceridade.

Em "My One And Only Love", uma balada que geralmente conta com uma orquestração exuberante, aqui, é reduzida à sua essência emocional. O acompanhamento minimalista e harmonicamente rico de Koonse confere à faixa uma sensação de tempo suspenso, Nicolle cuida da melodia com uma intensidade serena. O aclamado mestre do jazz Benny Carter, juntamente com o renomado letrista Sammy Cahn, uniram-se para compor "Only Trust Your Heart", que Nicolle interpreta com uma insistência discreta. Através da magia da tecnologia, Koonse cria uma faixa rítmica de cordas de nylon e, em seguida, outra faixa contramelódica, o que aumenta a sofisticação da interpretação.

O álbum encerra com "What Are You Doing the Rest of Your Life?", escrita pela trindade formada por Michel Legrand, Marilyn Monroe e Alan Bergman. Nicolle demonstra sua capacidade de profundidade emocional, navegando pelas harmonias exuberantes da música com uma pungência comovente e natural

Faixas: When Your Lover Has Gone; I Hope I Never; I'm Glad There Is You; Putting It Off; With a Song in My Heart; My One and Only Love; All The Things You Are; Only Trust Your Heart; Gone With the Wind; What Are You Doing the Rest of Your Life?

Músicos: Michelle Nicolle (vocal); Larry Koonse (guitarra elétrica).

Fonte: Pierre Giroux (AllAboutJazz)

 

ANIVERSARIANTES - 21/09

Ai Kuwabara (1991) – pianista,

Blake Mills (1986) – guitarrista,

Chico Hamilton (1921-2013) – baterista (na foto e vídeo) http://www.youtube.com/watch?v=2sdS7EX3pHs,

Dick Shearer (1940-1997) - trombonista,

Don Preston (1932) - tecladista,

Henry Butler (1949-2018) – pianista,vocalista,

Shafi Hadi (1929) - saxofonista,

Slam Stewart (1914-1987) - baixista,

Sunny Murray (1937-2017) - baterista,

Tommy Potter (1915-1988) - baixista 

 

domingo, 20 de setembro de 2026

BRANFORD MARSALIS – BELONGING (Blue Note Records)

Parece que chegou a época do ano em que todos os músicos com laços com New Orleans revelam seus últimos álbuns. Desta vez, somos agraciados com a libertação de um dos membros mais ilustres da família Marsalis. Este álbum notavelmente elegante representa a visão de Branford Marsalis e seu quarteto de “Belonging”, o disco seminal que Keith Jarrett gravou em 1974 (ECM). Esta reinterpretação altamente sofisticada beira uma reescrita completa do original, com a nata da nata dos músicos de jazz se juntando a Branford Marsalis: o pianista Joey Calderazzo, o baixista Eric Revis e o baterista Justin Faulkner.

Pertencer, como imaginado por Marsalis, aprofunda-se ainda mais nas complexidades das gravações originais. Calderazzo, em vez de apenas ecoar o estilo de Jarrett, nos oferece momentos sublimes. Às vezes são de tirar o fôlego, que é difícil acreditar o quão profundamente ele elevou a música de Jarrett. Marsalis oferece performances verdadeiramente surpreendentes, habitando perfeitamente o espírito musical de Jarrett com sucesso notável. O próprio Marsalis admite que, quando "Belonging" foi lançado em 1974, seus interesses musicais estavam em outro lugar. "Eu era calouro no ensino médio, ouvindo R&B", lembra ele. "Eu nem mesmo sabia que “Belonging” existia". Isto mudou quando ele se voltou para o jazz. Inicialmente, ele estava familiarizado apenas com o trabalho de piano solo de Jarrett, até que o pianista Kenny Kirkland o apresentou ao Quarteto Europeu de Jarrett, com o saxofonista Jan Garbarek, o baixista Palle Danielsson e o baterista Jon Christensen. "Estávamos em um avião em algum momento dos anos 80, e Kenny colocou seus fones de ouvido nos meus ouvidos para me fazer ouvir “My Song (Jarrett, ECM, 1979)”. “Quando ele tentou devolvê-los depois de cinco minutos, agarrei sua mão. Assim que pousamos na cidade vizinha, saí e comprei todos os álbuns que o grupo havia gravado.”

Esses momentos de revelação são comuns entre grandes músicos: saber ouvir é tão crucial quanto saber aprender. É por meio dessa escuta profunda que um artista pode, em última análise, refinar sua arte ao nível requintado exibido por cada membro deste quarteto. Uma epifania semelhante ocorreu quando Marsalis decidiu incluir "The Windup" de “Belonging” em seu álbum anterior, “The Secret Between the Shadow and the Soul (Marsalis Music, 2019)”. “Estávamos todos ouvindo 'The Windup' enquanto trabalhávamos naquele álbum, e Revis sugeriu que déssemos um passo adiante e gravássemos “Belonging” na íntegra. O álbum é fenomenal, e sabíamos que poderíamos trazer algo único a ele. Todos nós adoramos a ideia, mas aí veio a pandemia. Depois que acabou, nosso entusiasmo pelo projeto permaneceu tão forte quanto antes.

A pandemia, um momento de reflexão e criatividade para muitos artistas, tornou-se o terreno fértil de onde esta visão emergiu plenamente. Para músicos como Marsalis, é permitida uma exploração profunda e irrestrita do projeto. O quarteto abordou “Belonging” com a mesma filosofia que Marsalis aplicou aos clássicos de Charles Mingus, o Modern Jazz Quartet, John Coltrane e outros: nem uma imitação estrita dos originais nem uma desconstrução extrema. "On the track 'Belonging'“, eu tomo emprestadas certas frases de Jan Garbarek”, reconhece Marsalis. "Não me contive quando pareceu natural, mas nunca pretendemos que fosse uma homenagem rígida. Sempre ouço um álbum como um todo, não apenas os solos de saxofone, e o que mais me impressiona em “Belonging” é como tudo se encaixa perfeitamente."

Para Marsalis, a passagem do tempo provou ser um bem inestimável: "A maior vantagem que temos são 50 anos de história musical adicional e a capacidade de canalizar essa experiência coletiva." A inteligência de sua concepção, aliada à sua execução impressionante, torna o trabalho muito mais do que apenas uma homenagem convincente.

Faixas: Spiral Dance; Blossom; Long As You Know You’re Living Yours; Belonging; The Windup; Solstice.

Músicos: Branford Marsalis (saxofone); Joey Calderazzo (piano); Eric Revis (baixo); Justin Faulkner (bateria).

Para conhecer um pouco deste trabalho, assistam ao vídeo abaixo:

https://www.youtube.com/watch?v=ANoX2tiYFg0

Fonte: Fonte: Thierry De Clemensat (AllAboutJazz)

 

ANIVERSARIANTES - 20/09

Adam Glasser (1955) – gaitista,

Amanda Carr (1962) - vocalista,

Bill DeArango (1921-2006) - guitarrista,

Billy Bang (1947-2011) - violinista,

Catherine Russell (1956) – vocalista,

Eric Gale (1938-1994) - guitarrista,

Jackie Paris (1926-2004) – guitarrista, vocalista,

Jim Cullum, Jr. (1941) - cornetista,

Joe Temperley (1929-2016) - saxofonista,

John Collins (1913-2001) – guitarrista,

John Dankworth (1927-2010) - clarinetista,saxofonista,

Leonardo Amuedo (1967) – guitarrista,violonista,

Michael Sarín (1965) – baterista,

Rasul Siddik (1949-2023) – trompetista,

Red Mitchell (1927-1992) - baixista,

Steve Coleman (1956) – saxofonista (na foto e vídeo) http://www.youtube.com/watch?v=JV_eprPWSfs,

Steve McCall (1933-1989) – baterista. 

 

sábado, 19 de setembro de 2026

MICHAEL FORMANEK - NEW DIGS (Intakt)

Michael Formanek volta a confirmar aquilo que os seus últimos discos já evidenciavam: no jazz, as partes organizadas e escritas, não têm que ser diferentes ou contrastar com as improvisadas; nem a improvisação é um gesto de ruptura com a forma. Em “New Digs”, o seu mais recente disco editado pela Intakt, o contrabaixista e compositor estadunidense propõe uma música em que a escrita e a improvisação fazem parte de um todo coerente e orgânico; e em que a escrita abre espaço para a improvisação e esta, por sua vez, devolve à escrita mudança e ventilação. O resultado é um disco muito sólido e muito poroso.

Há, desde os primeiros segundos, um elemento encantador: o som deste septeto. O grupo do contrabaixista para este disco criou um som muito próprio. O grupo não soa como uma extensão do Thumbscrew, embora convoque inevitavelmente essa memória de rigor estrutural e liberdade controlada. Aqui a paleta é outra, mais larga e mais estratificada, em grande medida graças à presença do órgão Hammond de Alexander Hawkins, à seção de metais (que apesar de ser só um trio é encorpada com o B3 e a guitarra deslizante como um trombone agudo). O resultado é um som quente, denso, mas com luminosidade.

Para além da escrita de Formanek e da instrumentação do septeto, Alexander Hawkins é um dos grandes responsáveis por esta identidade do disco. O seu instrumento não surge como citação de um idiomatismo hard-bop (Jimmy Smith, Lonnie Smith ou Larry Young): toca sem vestígios da soul music, mas a essência permaneceu, como se fosse uma versão contemporânea desta ideia. Toca de um modo abstrato, levando o Hammond para locais onde ainda não tinha ido. Elástico, por vezes textural, dá a todos os solos dos elementos do grupo uma base dinâmica. Mas também encorpa a secção de metais, aumentando a profundidade harmônica.

A guitarra de Mary Halvorson é o segundo elemento que dá originalidade ao som e à música do grupo. O seu fraseado, com aquela mobilidade escorregadia, tão característica, dialoga de forma notável com o Hammond. Juntos criam um som oblíquo, em que a solidez melódica nunca afasta uma sensação de desvio iminente.

A música é densa, mas não pesada; complexa, mas não afetada; organizada, mas liberta.

Do outro lado dessa textura mais ampla está a secção de metais, relativamente reduzida em número, mas de enorme poder (até porque, como já referimos, passa a quinteto facilmente sem perder a sonoridade dos metais). John O’Gallagher, Chet Doxas e João Almeida são articuladores e distribuem o jogo: chamam o grupo às formas organizadas. Dão as frases melódicas e disparam em solos. O’Gallagher, em particular, destaca-se pela intensidade. Doxas alterna entre saxofone tenor e clarinete, acrescentando diversidade tímbrica. João Almeida, por sua vez, afirma-se com uma forma de tocar simples e concisa, quase o oposto de O’Gallagher que traz o saxofone referencial americano. O trio de sopros, embora compacto, soa maior do que é, precisamente porque está sempre enquadrado por uma escrita que lhe multiplica funções.

Essa é, aliás, uma das dimensões centrais de “New Digs”: a relação entre escrita e improvisação que tem a virtude de se manter estruturalmente firme sem impor uma rigidez de engenharia. Estabelece zonas de densidade, propõe contrastes, cria pontos de mudança. O texto musical contém, em potência, caminhos possíveis de transformação; o grupo é guiado, mas ao mesmo tempo guia, porque quando chega a esses momentos conjuntos, pode ir para destinos que não estavam no mapa inicia. Quando a próximo momento escrito chega, encaixa nos novos planos, na zona para onde a música se deslocou.

Poder-se-ia dizer que há aqui uma espécie de arquitetura das casas palafíticas do Tejo: os pilares existem, são sólidos mas não parecem. O ouvinte não os ouve como elementos de suporte, mas escuta sobretudo a sua função de resposta a um contexto natural, suficientemente permeável para a deixar passar água e vento, sons e silêncios. Nas casas das aldeias palafitas do tejo, o essencial está na relação entre elevação, estabilidade e adaptação ao terreno.

“New Digs” é um disco muito consistente e destacável na obra de compositor e bandleader de Michael Formanek. Música que parte de um pensamento sobre forma e som do grupo, intelectual, mas acessível a todos, que revela calor humano e muito saber musical.

Confirma-o como um dos compositores mais inteligentes, elegantes e exigentes do jazz contemporâneo. Música flutuante e com peso, com memória e imaginação.

E há ainda uma camada suplementar de significado que não resisto a referir: “New Digs”, novas explorações, novas descobertas, novos lugares, novas moradas. Este é o primeiro álbum de Formanek depois da sua mudança de armas e bagagens para Portugal. O grupo foi estreado em Guimarães. Foi gravado em Ponte do Rol, Torres Vedras, a terra que adotou para viver e se estabelecer. Tocar na minha aparelhagem, em Lisboa, em repeat.

Uma nota post scriptum sobre a qualidade gráfica da capa. Formanek, Tim Berne e outros têm contribuído sobremaneira para que a suiça Intakt atualize a sua linguagem gráfica desinteressante e elementar, um dos pontos fracos desta editora fortíssima.

Faixas

1.New Old World 11:32

2.Prequel 06:09

3.It Was 05:14

4.For My Consideration 06:49

5.aka the Stinger 07:31

6.Gone Home / Interlude for Susan Alcorn 09:14

7.Braxes 04:41

8.Quinze 09:58

9.Nigh Total 04:43

Músicos: Michael Formanek— contrabaixo; John O'Gallager— saxofone alto; Chet Doxas— saxofone tenor, clarinete; João Almeida— trompete; Mary Halvorson— guitarra; Alexander Hawkins— Órgão Hammond B3; Tomas Fujiwara— bateria.

Fonte: Gonçalo Falcão (jazz.pt)

 

 

ANIVERSARIANTES - 19/09

Candy Dulfer (1969) – saxofonista,

César Camargo Mariano (1943) – pianista (na  foto e vídeo) http://www.youtube.com/watch?v=hSLUtzYGokU,

Cuong Vu (1969) – trompetista,

Helen Ward (1916-1997) - vocalista,

Lol Coxhill (1932) - saxofonista,

Lovie Austin (1887-1972) - pianista,

Muhal Richard Abrams (1930-2017)- pianista,

Nile Rodgers (1952) – guitarrista,

Zeca Assumpção (1945) - baixista 

 

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

ROBERTO FONSECA AND VINCENT SEGAL - NUIT PARISIENNE À LA HAVANE

Esta gravação cuidadosa e contemplativa foi feita durante uma turnê colaborativa. Tanto Fonseca quanto Segal possuem credenciais de primeira linha e uma versatilidade ampla, que transcende fronteiras. Eles produziram, aqui, 11 faixas dotadas de certa interioridade, uma intimidade que cria a forte ilusão de que estão tocando na sua sala de estar, apenas para você. Não que haja algo de errado nisso. Muito pelo contrário, especialmente se você estiver realmente na sua sala de estar.

Segal é um violoncelista com formação clássica, o que se evidencia na sonoridade que ele extrai do uso convencional do arco, e que, ao longo de sua longa carreira, colaborou com músicos tão diversos quanto Elvis Costello, Cesária Évora e Sting. O estilo de Évora era frequentemente associado ao do Buena Vista Social Club, e pode ser esse tipo de conexão melódica e rítmica que aproxima tanto musicalmente esses dois artistas. A carreira de Fonseca decolou quando ele substituiu Rubén González: seu trabalho, por mais inventivo e inclassificável que seja, invariavelmente honra essas raízes.

O título desta coletânea deixa claro o tema de todo o álbum, o que funciona perfeitamente, incluindo a fotografia da capa, que é particularmente atmosférica. Dada a variedade de ritmos e gêneros, desde a sonoridade clássica de "Rumbo a Ti", passando pela influência cubana/espanhola perceptível em "Paciencia Es Lo Que Hay Que Tener", até a ousada "Free", que explora o interior e o exterior do piano juntamente com glissandos, chamados e pizzicatos por toda a extensão do violoncelo, é difícil acreditar que o álbum tenha sido gravado de forma espontânea em apenas cinco dias. Música maravilhosa, uma joia para qualquer coleção de CDs.

Faixas

1 Rumbo a Ti

2 Soul Kiss

3 Nuit Parisienne

4 Paciencia Es Lo Que Hay Que Tener

5 Un Homme Qui Dort

6 Day

7 Violoncelle Pointe Noire

8 Free

9 La Mar Quieta T Yo Pensando

10 Interlude Piano Silence Sound

11 Te Extrao (M.C.A)

Para conhecer um pouco deste trabalho, assistam ao vídeo abaixo:

https://www.youtube.com/watch?v=MLJ15J_Ao8w

Fonte: Vincent Segal (JazzWise)