Doc Pomus nunca teve um sucesso com seu próprio nome, mas as
canções que ele compôs entre as décadas de 1940 e 1960 se tornaram tão
populares, que você as conhece mesmo sem saber que ele as criou.
Pomus e seu principal colaborador, Mort Shuman, escreveram
peças teatrais de angústia e desejo, canções que se tornaram folclore: “"Save
The Last Dance For Me", dos Drifters; "A Teenager In Love", de
Dion and the Belmonts; "This Magic Moment", de Jay and the Americans;
e uma série de músicas cantadas por Elvis Presley, incluindo "Viva Las
Vegas", "Little Sister" e "Suspicion".
Jerome Solon Felder, também conhecido como Doc Pomus, nasceu
no Brooklyn em 7 de junho de 1925 e morreu de câncer de pulmão em 4 de março de
1991. Seu trabalho abrangia pop, rock e blues, sua inspiração original. No
início de sua carreira, Pomus liderou bandas de clubes de Nova York, que
incluíam músicos como o saxofonista King Curtis e o guitarrista Mickey Baker. Ele
também se apresentou ao lado de lendas como Lester Young e Horace Silver. Porém,
o jazz nunca seria sua especialidade.
Pomus chamava a atenção por sua presença marcante, enquanto
caminhava penosamente até uma boate para se apresentar ou conferir as novidades
sonoras. Aleijado pela poliomielite na infância, ele se locomovia com muletas e
as usava como apoio quando cantava blues com toda a sua potência vocal. No
final da década de 40, ele começou a se afastar das apresentações ao vivo e a
se dedicar a uma atividade mais privada. Compor canções tornou-se sua ocupação
em tempo integral em 1955, e é por isso que ele é conhecido.
Pomus compôs para Big Joe Turner, que o apresentou ao blues,
e para Ray Charles, o grande cantor de soul que fez da notável "Lonely
Avenue" de Pomus um clássico tão marcante quanto "Heartbreak
Hotel", o sucesso de Presley com temática semelhante. A disciplina que
Pomus dominava era a do single de dois a três minutos, um formato de
rádio AM que exigia drama, melodia e um ritmo cativante. Pomus e Shuman, assim
como seus colegas da Costa Oeste, Jerry Leiber e Mike Stoller, se destacaram
nessa forma.
Doc Pomus recebe o reconhecimento que merece e muito mais em
“You Can’t Hip A Square: The Doc Pomus Songwriting Demos (Omnivore; 370:00)”,
uma caixa com seis CDs e 165 faixas, organizada em formato de livro. O disco 5
é dedicado às canções de Pomus e Shuman que Presley gravou; o disco 6 apresenta
principalmente Pomus como vocalista, em vez de Shuman, que canta e toca piano
na maior parte do restante desta bela e meticulosamente informativa coleção.
Pomus e seu jovem protegido formavam uma dupla e tanto,
sugere Geoffrey Himes no ensaio que dá título ao livro. Ele “estava rapidamente
criando sua própria dupla de compositores para rivalizar com Leiber e Stoller”,
escreve Himes. Ele percebeu que suas músicas de blues pesado não fariam sucesso
nas rádios pop, onde estava o verdadeiro dinheiro. Ele precisava de seu próprio
Mike Stoller, que pudesse integrar melodias cativantes, mudanças de acordes
sofisticadas e ritmos latinos às canções. Doc o encontrou em um colega de
classe de sua prima Neysha Ross, um pianista adolescente chamado Mort Shuman”.
Ouvir essas músicas psicologicamente perspicazes provoca um
caso grave de "e o que dizer de...". Por que "You Better Believe
It", uma história com uma mensagem de alerta e um refrão cativante, não se
tornou um sucesso? Por que não fizeram "Foxy Little Mama", uma música
de rock no estilo de Jerry Lee Lewis? Explore mais 100 faixas e com certeza
encontrará outras que deveriam (ou poderiam) ter sido sucessos. Mergulhar nessa
abundância de opções desperta o instinto de criar playlists.
“You Can’t Hip A Square: The Doc Pomus Songwriting Demos” Celebrando
o centenário do nascimento de Pomus, o documentário o captura com Shuman no ato
da criação, enquanto conversam sobre como uma música ganha vida, aprimorando
riffs (NT: riff é uma frase musical curta, melódica ou
harmônica [acordes], que se repete ao longo de uma canção, servindo como base
ou acompanhamento), refinando descrições e libertando as emoções que
desejam expressar. A colaboração entre eles foi profunda, a química inegável.
Esta caixa excepcional foi um trabalho feito com muito
carinho por Sharyn Felder, filha de Pomus, mencionada na faixa "I Ain't
Sharin' Sharon" do primeiro CD. Tudo começou quando Sharyn, que estava
organizando os arquivos da Pomus, descobriu um armário cheio desses demos. Eles
apresentam muitos estilos e são maleáveis, estilisticamente neutros o
suficiente para serem transformados em qualquer gênero que o artista final
preferir. Isso não significa que sejam genéricos e sem personalidade ou
conteúdo. Significa apenas que são adaptáveis.
É um privilégio ouvir essas músicas sem filtros, em sua
forma original. O que os torna fascinantes é especular sobre como poderiam ter sido
as coisas de outra forma. O que os torna gratificantes é a paixão que
demonstram. Isto nunca sai de
moda.
Fonte: Carlo
Wolff (DownBeat)


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