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quinta-feira, 23 de julho de 2026

DAVE BURRELL / SAM WOODYARD - THE LOST SESSION, PARIS 1979 (NoBusiness Records)

Seria difícil para os ouvintes citarem outro artista além de Dave Burrell que demonstre tamanha maestria em toda a trajetória do jazz, desde suas origens no ragtime até seus territórios de vanguarda mais ousados. O pianista, nascido em 1940, confere igual autenticidade às composições clássicas de Jelly Roll Morton e à improvisação completamente livre. Sua discografia abrange as obras de Thelonious Monk, Billy Strayhorn e Duke Ellington, enquanto sua versatilidade se estende por calipso, reggae, stride piano, blues, bebop e ópera.

Burrell deixou sua marca no revolucionário movimento New Thing dos anos 1960, ao lado de Archie Shepp, Pharoah Sanders e Marion Brown. Sua lendária colaboração com o saxofonista David Murray ao longo das décadas de 1980 e 1990 permanece como parte do folclore do jazz.

Fundamental para a identidade artística de Burrell é "Windward Passages", uma ópera que ele começou a escrever com a libretista e esposa Monika Larsson em 1978. Ao longo de sua carreira, ele retornou continuamente a esse material profundamente pessoal, gravando-o pela primeira vez em carreira solo em 1979 para a Hat Hut Records e, posteriormente, explorando-o com diversos parceiros.

Naquele mesmo ano, Burrell e o baterista Sam Woodyard (1925-1988) — que impulsionou a Orquestra de Duke Ellington de 1955 a 1966 — passaram três meses no Campagne Premiere, em Paris, trabalhando no material da ópera. Há décadas que se especula sobre a existência desta gravação ao vivo da residência deles, que teria sido mantida pela Horo Records até o fechamento da gravadora e o desaparecimento das fitas. Felizmente, Burrell preservou uma cópia cassete, que recebeu uma excelente remasterização aqui, permitindo finalmente aos ouvintes vivenciar essa notável conversa musical.

O blues sonolento "On A Saturday Night" abre o trabalho, com o piano contemplativo de Burrell acompanhado pelas escovinhas suaves de Woodyard. A música vai ganhando força gradualmente através de passagens de boogie-woogie que Pete Johnson teria apreciado. "A.M. Rag" demonstra a técnica fulminante de Burrell e seu conhecimento enciclopédico de piano jazz, reproduzindo as sincopações de Scott Joplin com velocidade e precisão de tirar o fôlego.

A abordagem da dupla aos clássicos de Ellington-Strayhorn se apresenta reveladora. Suas versões de "Lush Life" e "Sophisticated Lady" recebem o tratamento reverente que essas obras-primas merecem, enquanto "Embraceable You", de George Gershwin, se beneficia de sua profunda compreensão do cancioneiro estadunidense. A sensibilidade romântica de Burrell transparece em toda a obra, particularmente em sua composição original "Sarah's Lament", que entrelaça a sofisticação harmônica de Gershwin com o piano stride e elementos de blues.

“Windward Passages” conta a história da própria Burrell, uma grande parte dela vivida no Havaí antes de se mudar para Boston e, posteriormente, para Nova York. Ele combina de forma engenhosa sua herança insular com as tradições musicais americanas em peças como "Punaluu Pete" e "My Dog Has Fleas/Meneghune Messages", mesclando ritmos insulares com ragtime e música sacra.

Esta gravação parisiense captura Burrell e Woodyard refinando os elementos musicais, que definiriam a visão artística de Burrell pelas próximas cinco décadas. Com o apoio magistral de Woodyard, o pianista cristalizou os diversos fios que fazem de “Windward Passages” uma declaração pessoal tão singular. A recuperação desta sessão perdida proporciona uma visão inestimável de um dos mestres mais versáteis e subestimados do jazz num momento criativo crucial.

Faixas: On a Saturday Night; A.M. Rag; Lush Life (Strayhorn); Punaluu Peter; Sarah's Lament; Stepping Out (or, Monday Night Death Rehearsal); Embraceable (Gershwin / Gershwin); Black Robert; My Dog Has Fleas / Menehune Messages; Sophisticated Lady (Ellington).

Músicos: Dave Burrell (piano); Sam Woodyard (bateria).

Fonte: Mark Corroto (AllAboutJazz)

 

ANIVERSARIANTES - 23/07

Alan Barnes (1959) – saxofonista,clarinetista,

Albert Rivera (1983) – saxofonista,

Champion Jack Dupree (1909-1992) – vocalista,baterista, pianista,

Charles Ables (1943-2001) – baixista,guitarrista,

Clarence Holiday (1898-1937) – guitarrista,

Claude Luter (1923-2006) – clarinetista,saxofonista,

Diego Figueiredo (1980) – violonista,

Donald Vega (1974) – pianista,

Emmett Berry (1915-1993) - trompetista,

Flávio Venturini (1949) – vocalista,Janis Siegel (1952) – vocalista (na foto e vídeo) http://www.youtube.com/watch?v=8JtUiHd47PA, 

James Weidman (1953) – pianista,

Loren Shoenberg (1958) – saxofonista,

Manuel Rocheman (1963) – pianista,

Mark Edwards (1949) – baterista,

Patrick Zimmerli (1968) – saxofonista,

Peter Kienle (1960) – guitarrista,

Richie Kamuca (1930-1977) - saxofonista,

Renato Borghetti (1963) – acordeonista,

Steve Lacy (1934-2004) - saxofonista,clarinetista

NR: Clarence Holiday foi um guitarrista de jazz relembrado como o pai de Billie Holiday, mas nunca foi casado com a mãe de Billie. Antes de “Lady Day” atingir a adultez, ele não se sentia feliz em admitir que tinha uma filha já crescida.

Holiday trabalhou em bandas locais e foi um membro da “Fletcher Henderson Orchestra” no período de 1928 a 1933. Inicialmente foi um ritmista, solando raramente. Clarence Holiday gravou com Benny Carter em 1934 e com Bob Howard em 1935 e atuou com Charlie Turne em 1935, Louis Metcalf entre 1935e 1936 e com “Don Redman Big Band” nos anos de 1936 e 1937, antes de sua morte prematura.

 

quarta-feira, 22 de julho de 2026

BRIAN LYNCH - TORCH BEARERS (Hollistic MusicWorks)

Não há dúvidas sobre o domínio de Brian Lynch no trompete e no flugelhorn, sua habilidade como compositor e arranjador, e seu gosto apurado na criação de música e projetos. Porém, o artista de 69 anos, com três prêmios Grammy, não recebe o devido reconhecimento por saber como organizar um jantar musical fascinante. Tomemos como exemplo sua gravação mais recente, “Torch Bearers”, lançada por sua própria gravadora, Hollistic MusicWorks. “Eu carrego a tocha dos meus heróis”, diz Lynch no material de imprensa da nova gravação. E ele comprova isso convidando o sempre elegante Charles McPherson para tocar saxofone e compor três músicas para a gravação. Porém, os heróis de Lynch não são apenas os mais velhos. Ele também convida a voz aveludada de contralto de Samara Joy para as festividades, não apenas para cantar em duas músicas, mas também para escrever as letras. McPherson e Joy dividem os créditos de composição na bela e sombria "The Joy Of Love", uma balada que se encaixaria perfeitamente em qualquer era do jazz. Essa afirmação é reforçada com "Pursuit Of A Dream", composta por Lynch e Joy, outra balada melancólica que flutua na brisa. A ligação entre Joy e Lynch é profunda, já que ele foi coprodutor do álbum “Portrait”, que alcançou o topo das paradas e ganhou um Grammy. Porém, a ligação entre os três artistas torna-se ainda mais profunda quando se fala do falecido pianista Barry Harris. Os três artistas estudaram com Harris, que faleceu em 2021(McPherson foi um de seus primeiros alunos), Lynch um dos meio e Joy um dos últimos. Em homenagem, Lynch e McPherson apresentam uma versão animada de "Luminescence", de Harris, acompanhados por Rob Schneiderman ao piano, Boris Kozlov no baixo e Kyle Swan na bateria. Ao longo do álbum, a formação repleta de estrelas inclui o pianista Orrin Evans dividindo o piano com Schneiderman, além de Luis Perdomo e Ulysses Owens assumindo os assentos do piano e da bateria, respectivamente, em "Pursuit Of A Dream". É ótimo ouvir como as outras composições originais de Lynch (“Luck Of The Draw” e “Kyle’s Dilemma”) se encaixam tão perfeitamente com as de McPherson (“The Juggler” e “7-24”). Eles encerram com uma versão animada de "Blue N' Boogie", de Dizzy Gillespie, uma sobremesa perfeita para finalizar essa festa sonora. Em algum lugar, Barry Harris está sorrindo. Ele os ensinou bem.

Faixas

1.Luck Of The Draw (feat. Charles McPherson) 06:01

2.The Joy Of Love (feat. Samara Joy and Charles McPherson) 06:11

3.Kyle's Dilemma (feat. Charles McPherson) 06:08

4.7-24 (feat. Charles McPherson) 05:21

5.Luminescence (feat. Charles McPherson) 05:35

6.Pursuit Of A Dream (feat. Charles McPherson) 05:30

7.The Juggler (feat. Charles McPherson) 06:04

8.But Beautiful (feat. Charles McPherson) 10:50

9.Blue N' Boogie (featuring Charles McPherson) 06:42

 Músicos:

Brian Lynch – trompete (flugelhorn on “The Joy Of Love” and “7-24”); Charles McPherson – saxofone alto (artista convidado); Samara Joy - vocal (faixas 2 e 6); Orrin Evans - piano (faixas 1,2,4, e 9); Rob Schneiderman - piano (faixas 3,5,7 e 8); Luis Perdomo - piano (faixa 6); Boris Kozlov – baixo; Kyle Swan - bateria (todas as faixas exceto 6); Ulysses Owens - bateria (faixa 6).

 Para conhecer um pouco deste trabalho, assistam ao vídeo abaixo:

 https://www.youtube.com/watch?v=TfI7HUiY2BE

Fonte: Frank Alkyer (DownBeat) 

 

 

ANIVERSARIANTES - 22/07

Al Di Meola (1954) – guitarrista,violonista (na foto e vídeo) http://www.youtube.com/watch?v=vuY0_JCHaF4,

Al Haig (1924-1982) - pianista,

Bill Perkins (1924-2003)- saxofonista,flautista,

Camila Meza (1985) – vocalista,

Dennis Wilson (1952) – trombonista,

Don Patterson (1936-1988) – organista,

George Walker Petit (1959) – guitarrista,

Jimmy Bruno (1953) – guitarrista,

Joshua Breakstone (1955) – guitarrista,

Junior Cook (1934-1992) – saxofonista,

Kara Johnstad (1968) - vocalista,

Lou McGarity (1917-1971) – trombonista,

Marco Benevento (1977) – pianista,

Mario Rivera (1939-2007) – flautista, saxofonista,

Paul Moer (1916-2010) – pianista,

Richie Perry (1955) - saxofonista,

Sarah Lynch (1973)- vocalista,guitarrista,

Will Calhoun (1964)- baterista

 

terça-feira, 21 de julho de 2026

SEAN VOKES - MUNDANE FASCINATIONS (Minor Third Records, Llc)

Em seu segundo lançamento pelo seu próprio selo independente, Minor Third Records, o pianista e compositor Sean Vokes convida os ouvintes a um mundo sonoro profundamente pessoal, onde momentos cotidianos são transformados em instantâneos musicais vívidos e carregados de emoção. “Mundane Fascinations” é uma coleção de composições originais inspiradas em imagens, conceitos ou momentos fugazes, desenvolvidas com a mesma precisão emocional que um compositor de trilhas sonoras imprimiria a uma cena.

Vokes contou que o álbum começou com a música "Rain", que ele compôs em cerca de uma hora enquanto praticava em seu estúdio de música ao piano de cauda, ​​observando a chuva lá fora. Ele acrescentou que achava fascinante a atenção que as pessoas dedicam à chuva, seja à sua ausência, à sua abundância, aos danos que causa ou aos benefícios que traz. O violinista Jason Anick contribui com uma camada extra de melancolia à faixa. Seguindo a tradição do jazz, ele recebeu apenas a partitura da peça e foi convidado a cocriá-la. No álbum, os ouvintes podem ouvir a terceira versão da composição. "É tão cru e real quanto possível, com as emoções da música vindo de nós dois e sem manipulação", disse Vokes.

O álbum soa moderno e clássico no contexto do jazz, com Vokes entrelaçando ecos da sofisticação harmônica e introspecção de Bill Evans, da espontaneidade de Keith Jarrett, das explorações sonoras de Herbie Hancock e da complexidade com influências clássicas de Brad Mehldau. Ao mesmo tempo, dialoga com vozes contemporâneas, incluindo os polirritmos e a intensidade dramática de Tigran Hamasyan, o lirismo cinematográfico de Aaron Parks e a sensibilidade ritmicamente complexa e inovadora de Vijay Iyer. Em “Mundane Fascinations”, cada membro transita suavemente entre o acompanhamento e a liderança melódica, apoiando-se mutuamente para criar uma experiência musical rica e coesa. As linhas de baixo fluidas de Nick Scales proporcionam tanto impulso rítmico quanto profundidade harmônica, enquanto a guitarra de Austin Brazille transita entre melodias em uníssono com piano e solos emocionantes. A bateria de Ryan Boehme combina sofisticação rítmica com sensibilidade dinâmica e, em algumas faixas, o violino de Anick adiciona contornos melódicos que se misturam naturalmente com a interação do grupo.

O diálogo entre piano e guitarra em "The Next Thing", sustentado por uma seção rítmica moderada, porém enérgica, se desenrola como uma conversa, com frases trocadas entre os instrumentos.

Ao improvisar, cada músico demonstra não apenas domínio técnico e profissionalismo de alto nível, mas também um gosto musical notável, criando linhas expressivas, inventivas e perfeitamente afinadas com a voz coletiva da banda, resultando em gravações envolventes e cativantes. "Este álbum é uma apresentação musical das emoções que senti ao olhar para as imagens e refletir sobre os conceitos apresentados. É a apresentação mais honesta e vulnerável que posso fazer de mim mesma", compartilhou Vokes.

Faixas: Gears; Meandering Streams of Thought; Rain; Efficiencies; Shalom; Converted Energy; The Storm Before the Calm; The Next Thing

Músicos: Sean Vokes (piano); Nick Scales (baixo); Austin Brazille (guitarra); Ryan Boehme (bateria); Jason Anick (violin)

Fonte: Anastasia Bogomolets (AllAboutJazz)

 

ANIVERSARIANTES - 21/07

Amelinha (1950) – vocalista,

Emanuelle Araújo (1976) – vocalista,

Floyd Jones (1917 – 1989) – guitarrista,

Gil Parris (1977) – guitarrista,

Helen Merrill (1930) – vocalista (na foto e vídeo) http://www.youtube.com/watch?v=rK8RewHEtgA,

Joel Fass(1954) – guitarrista,

Kay Starr (1922-2016) – vocalista,

Marcelo Gonçalves (1972) – violonista,

Omer Simeon (1902-1959) – clarinetista,saxofonista,

Plas Johnson (1931) - saxofonista,

Scott Wendohldt (1965) – trompetista,

Sonny Clark (1931-1963) - pianista,

Thomas Heflin (1977) – trompetista,

Zé Nogueira (1955-2024) - saxofonista

 

segunda-feira, 20 de julho de 2026

IVO PERELMAN SÃO PAULO CREATIVE 4 - SUPERNOVA

No imaginativo “Supernova”, o intrépido saxofonista Ivo Perelman une forças com três dos seus compatriotas para um conjunto estimulante de música espontânea. O quarteto se autodenomina São Paulo Creative 4 e executa uma suíte de sete partes que se inspira em fenômenos celestes. O fluxo contínuo de ideias de um tocador de palheta para outro e de uma faixa para a próxima dá ao álbum sua unidade temática.

A faixa de abertura, "White Dwarf", começa com um canto fúnebre de blues que combina o clarinete baixo sombrio do multi-instrumentista Lívio Tragtenberg com o tenor melancólico de Perelman. Perelman contribui com suas linhas expressivas características com agilidade. Tragtenberg, que também toca saxofone alto, é um compositor moderno e experimental e também se interessou pelo rock progressivo. Aqui, no entanto, ele solta suas habilidades de improvisação, enquanto mistura suas frases graves com as dos outros três para uma conversa de grupo turbulenta, que termina com uma quietude expectante.

Em contraste, "Black Dwarf" é uma réplica angular e ardente com um toque de angústia. Perelman, o saxofonista soprano Rogério Costa e Tragtenberg no saxofone alto convergem seus fluxos de consciência em um redemoinho sonoro estimulante, enquanto o quarto membro do grupo, o saxofonista barítono Manu Falleiros, cria uma corrente oculta assombrosa com seus refrões reverberantes. Falleiros e Costa são acadêmicos que ensinam, pesquisam e experimentam incansavelmente, além de serem improvisadores e compositores talentosos. Como tal, eles combinam perfeitamente com Perelman e Tragtenberg.

A peça mais dramática neste álbum cativante é a energética "Planetary Nebula", onde todos os quatro instrumentos de palhetas têm cores emocionantes. Apesar da total aceitação da dissonância em todos os tons do saxofone, ainda há uma corrente oculta de poesia e lirismo. Do sopro vibrante e exuberante às melancólicas ondulações coletivas, os quatro homens constroem uma extemporização sublime multidimensional. A tapeçaria harmônica dinâmica é frequentemente introspectiva e sombria e, às vezes, pontuada por explosões de sucessões de acordes ardentes. No geral, isso resulta em uma paisagem sonora abstrata e comovente com elementos orgânicos robustos.

Com “Supernova”, Perelman adicionou outro trabalho soberbo à sua obra. Além de proporcionar uma experiência auditiva provocativa e gratificante, como esperado de Perelman, também lança luz sobre três outros artistas igualmente talentosos, que não recebem a exposição que merecem.

Faixas: White Dwarf; Black Hole; Planetary Nebula; Black Dwarf; Blue Supergiant Star; Brown Dwarf; Dark Matter.

Músicos: Ivo Perelman (saxofone tenor); Lívio Tragtenberg (clarinete baixo); Rogério Costa (saxofone soprano); Manu Falleiros (saxofone barítono).

Fonte: Hrayr Attarian (AllAboutJazz)