playlist Music

quarta-feira, 10 de junho de 2026

AARON SHAW - AND SO IT IS (Leaving)

Uau. Jovens músicos de jazz que querem trilhar os caminhos cósmicos de Pharoah Sanders, Sun Ra, Alice Coltrane, etc., são aos montes. Muito mais raros são aqueles que fazem isso com a delicadeza que o multi-instrumentista de sopro de Los Angeles, Aaron Shaw, demonstra. Mais surpreendente ainda é o fato de Shaw ser um protegido de Kamasi Washington (cujo nome jamais apareceu associado à expressão "toque delicado. Porém, que não haja dúvidas de que, em "And So It Is (E Assim É)", Shaw se destaca sozinho.

Na verdade, a produção de Shaw (com o baterista/percussionista Carlos Niño) frequentemente enfatiza essa solidão, apesar da presença de vários colaboradores.

O tenor dele na primeira metade de “Heart Of A Phoenix” tem tanta reverberação que parece que ele foi gravado no outro extremo de um galpão, longe dos microfones que captavam o pianista Sam Reid, a harpista Merci B, o baixista Lawrence Shaw, o violoncelista Kiernan Wegler, o vocalista Dwight Trible e Niño e, de fato, a própria flauta de Shaw. É como se ele já estivesse bem à frente na jornada, embora todos o alcancem na segunda metade. “The Path To Clarity”, por sua vez, é denso, mas devido às próprias gravações de Shaw tocando flauta. Algumas dessas camadas são drones com sonoridade eletrônica, que evocam o último álbum de Sanders com o Floating Points. “Echoes Of The Heart” replica esse recurso, mas adiciona saxofones. Shaw fica ainda mais sozinho consigo mesmo.

As dimensões espirituais de “And So It Is”, portanto, raramente são a confluência usual de gospel e raga (embora essa confluência faça-se presente, especialmente na faixa de abertura “Soul Journey”). “Jubilant Voyage”, por sua vez, soa inicialmente mais como uma gravação de campo de algum ritual tribal, pelo menos até se transformar em um banquete de circuitos de fita e obstáculos. O duo de tenor e piano de voz suave, "Windows To The Soul", por outro lado, tem uma melodia hard bop que poderia ter sido destaque em um álbum da Blue Note dos anos 50 ou até mesmo ter encontrado espaço nas rádios pop da época. Shaw tem muito a dizer, e muitas maneiras gloriosas de dizê-lo.

Faixas

1.Soul Journey 04:31

2.Heart of a Phoenix 09:27

3.Windows to the Soul 05:01

4.The Path to Clarity 03:48

5.Echoes of the Heart 02:52

6.Jubilant Voyage 05:10

7.Inner Compass 04:41

8.Never Catch Me Out of Alignment 06:46

Músicos: Aaron Shaw - flauta e saxofone tenor; Alex Smith – bateria; Carlos Niño – bateria e percussão; Dwight Trible – voz; Kiernan Weggler – cello; Lawrence Shaw – baixo; Merci B – harpa; Sam Reid – piano; Ghalani – vocoder.

Fonte: Michael J. West (DownBeat)

 

 

ANIVERSARIANTES - 10/06

Charnett Moffett (1967) – baixista,

Dicky Wells (1907-1985) - trombonista,

Dwayne Burno (1970-2013) – baixista,

Gary Thomas (1961) – saxofonista,

Guinga(1950) – violonista, compositor,

João Gilberto (1931-2019) – violonista,vocalista (na foto e vídeo)  http://www.youtube.com/watch?v=sF3hUYc9lc0&feature=related,

Kinan Azmeh (1976) - clarinetista 

 

terça-feira, 9 de junho de 2026

SOPHIE AGNEL - SONG (SOPHIE AGNEL) [Relative Pitch Records]

Com “Song”, Sophie Agnel confirma seu lugar como uma das pianistas mais estimulantes e inventivas do cenário europeu de improvisação. Embora ela seja há muito tempo uma parceira formidável para nomes como John Butcher, John Edwards e Steve Noble, aqui ela reforça seu valor como solista.

Porém, essa não é toda a história. O que confere à sessão seu sabor peculiar é o recurso de enquadramento: uma voz gravada — a da soprano Mauricette Millot cantando uma versão de 1958 da tradicional canção natalina francesa "San Jousé m'a dit", na primeira e na última das sete faixas. Falaremos mais sobre isso adiante, mas basta dizer agora que a programação astuta demonstra outra das virtudes duradouras de Agnel: um senso refinado de estrutura, mesmo nos cenários mais livres.

Como muitos outros, ela trata o teclado menos como um instrumento fixo e mais como um gerador de ruído mutável, estendendo-se muito além das preparações estáticas prescritas por John Cage para um terreno que parece tátil, volátil e vivo. Porém, o que a distingue das demais não é apenas a técnica, e sim a precisão com que situa os sons individuais e a sua requintada calibração de contrastes. Basta ouvir e deleitar-se com as sutis e nem tão sutis degradações da sonoridade característica do piano. Suas peças se desdobram como poemas sinfônicos, sem restrições de forma, mas ricos em gestos e implicações.

Em outros exemplos de organização astuta, Agnel alterna a densidade entre os números. As gotas isoladas e as reverberações distorcidas de "Song 2" pairam no domínio da contenção, enquanto a percussão mecânica e implacável de "Song 3" é pura tensão e torque. Mesmo sem recorrer às gravações de voz, ela cria camadas sonoras que evocam metáforas vívidas e elementares: ondas oceânicas, tempestades distantes, zumbidos de cigarras, batidas errantes de poltergeist (NT: é um termo alemão que significa "espírito barulhento" [de poltern, fazer barulho, e geist, espírito]. Refere-se a fenômenos sobrenaturais caracterizados por ruídos inexplicáveis, movimentação de objetos, luzes piscando e quebras de itens, sendo associado a entidades invisíveis que interagem fisicamente com o ambiente). Por vezes, surgem como pulsações fragmentadas, outras vezes geram uma névoa cintilante e envolvente.

O uso da voz de Millot acrescenta uma dimensão emocional inesperada. Na faixa de abertura, a canção natalina surge como uma presença espectral em meio a um chiado ambiente, ruídos e toques de teclado ressonantes. Quando reaparece na faixa final, é uma entidade muito mais corpórea, que Agnel inicialmente ignora com toques hesitantes, mas depois alinha gradualmente, revelando a progressão harmônica subjacente, juntamente com batidas, dedilhados e ecos, tudo sustentado mesmo quando a voz se dissipa, até que ela finaliza a faixa com uma coda suave e cadenciada de dois acordes repetidos em uma resolução silenciosa.

É um desfecho impressionante para um álbum com uma trama revigorante — menos um clímax do que uma reconciliação — em um disco concebido com rara atenção aos detalhes. Embora a música seja minimalista em sua execução, ela é rica em ideias, e sua coerência reside na habilidade de Agnel em moldar o tempo e a ressonância com foco inabalável.

Faixas: Song 1; Song 2; Song 3; Song 4; Song 5; Song 6; Song 7.

Fonte: John Sharpe (AllAboutJazz)

 

ANIVERSARIANTES - 09/06

Alegre Correa (1960) – guitarrista,violonista,

Alexander Claffy (1992) – baixista,

Alune Wade (1978) – baixista,

Caecilie Norby (1964) – vocalista,

Cláudio Nucci (1956) – vocalista,violonista,compositor,

Cole Porter (1891-1964) – compositor,

Dudley Philips (1960) – baixista,

Jocelyn Gould (1986) – guitarrista,

Karl Latham (1961) – baterista,

Kenny Barron (1943) – pianista (na foto e vídeo) http://www.dailymotion.com/video/xqle4_stan-getz-kenny-barron_music ,

Les Paul (1916-2009) – guitarrista,

Michael Stephans (1945) – baterista,

Mick Goodrick (1945-2022) – guitarrista,

Mike Melillo(1939) – pianista,

Wayman Tisdale (1964-2009) - baixista

 

segunda-feira, 8 de junho de 2026

NATSUKI TAMURA / SATOKO FUJII / RAMÓN LÓPEZ - YAMA KAWA UMI (Not Two Records)

Em aproximadamente 30 anos de carreira, Satoko Fujii (pianista, líder, compositora, provocadora, experimentadora sonora de primeira linha) mostrou-se uma das artistas mais ousadas e intransigentes da música. De certa forma, ela é como Thelonious Monk no sentido de que - em uma experiência inicial com a música de Monk (e de Fujii) - o não iniciado pode não saber muito bem o que fazer com o que está ouvindo, porque nenhum desses artistas segue um livro de regras. Eles eram/são eles mesmos. O melhor conselho para quem não está familiarizado: deixe ir e ouça.

A contagem de álbuns de Fujii, agora, ultrapassa cem lançamentos. Estes são CDs que você realmente segura na mão, com belas capas. Ela não entrou muito no mundo do streaming. Yama Kawa Umi (em japonês, "Montanha, Rio, Mar") a encontra em conluio com seu parceiro conjugal e musical, o trompetista Natsuki Tamura e o baterista Ramón López, dando continuidade à segunda tentativa deste trio em particular (ela tem muitas), depois de “Mantle (Not Two Records)” de 2020.

“Yama Kawa Umi” irrompe em existência com um ataque, lá em cima nas "Headwaters", um tumulto selvagem de interação a três, que soa como se dois times de hóquei estivessem se misturando depois que as luvas foram tiradas e os jogadores estão flanando livremente. Isto dura menos de um minuto. Então as coisas se tornam ruminativas, e o devaneio introspectivo de Fujii substitui o caos. O baterista López entra, assim como Tamura, com contribuições deliberativas, que ganham impulso na direção do combustível.

Fujii é conhecida por sua grandiosidade e poder do hard rock em álbuns como “Dog Days Of Summer (Libra Records)” de 2024. Ela também é conhecida por suas reviravoltas composicionais, mudanças de ritmo e momentos de beleza requintada. É isso que temos aqui, deixando de lado a briga inicial. Momentos de presságio sombrio se aproximam. Tamura sopra em discursos técnicos prolongados que fazem todo o sentido nos contextos do trabalho assertivo da bateria e dos músculos, piano girando livremente que bate em uma órbita elíptica ao redor dele.

E assim vai outra tentativa de descrever o indescritível: O mundo sonoro de Satoko Fujii, neste caso um álbum que é em parte uma suíte composta em torno do funcionamento de um rio que nasce nas montanhas, na tumultuada "Headwaters", brilha ao longo de sua jornada, espalhando-se em segmentos pensativos nas seções mais planas ao longo do caminho e continua, implacável em seu exame das mudanças de humor e ritmos, enquanto obedece à inevitabilidade da gravidade e encontra o mar.

Faixas: Headwaters; Signpost; Sparkling Water; One Day Later; Cold Water; Yama Kawa Umi; Dusk Sky; Bolognaise; Malakoff.

Músicos: Satoko Fujii (piano); Natsuki Tamura (trompete); Ramón López (bateria).

Fonte: Dan McClenaghan (AllAboutJazz) 

ANIVERSARIANTES - 08/06

Bill Watrous (1939) – trombonista,

Chris Ward (1982) – saxofonista,

David King (1970) – baterista,

Emmanuel Bey (1959) – organista,

Uri Caine (1956) – pianista (na foto e vídeo) http://www.youtube.com/watch?v=01C0Xk10qLg&feature=related,

Willie Jones III (1968) – baterista 

 

domingo, 7 de junho de 2026

SUN RA - LIGHTS ON A SATELLITE : LOVE AT THE LEFT BANK (Resonance Records)

Os aficionados de Sun Ra parecem possuir um apetite insaciável por gravações de arquivo dos grupos em constante evolução do pianista, compositor e líder de banda. Nascido Helman Poole Blount, no Alabama, em 1914, Ra lançou possivelmente até 200 álbuns durante sua vida, incluindo prensagens extremamente limitadas com capas pintadas à mão que ele vendeu pessoalmente. Você pode pensar que uma discografia tão vasta e colecionável seria um tesouro suficiente até para os mais dedicados catadores de Ra, mas não. O que nos leva a este álbum duplo ao vivo de um show de 1978 no Famous Ballroom em Baltimore, um local histórico administrado pela Left Bank Jazz Society.

Sempre houve uma certa desconexão entre experimentar o Ra em um disco e ver sua Arkestra de perto em um concerto. Isso era especialmente verdadeiro na época em que um show da Arkestra era mais um espetáculo multimídia de arte performática - que poderia incluir dançarinos, projeção de filmes e um show de luzes - do que um simples concerto. Mas os adereços de vanguarda tendiam a obscurecer o fato de que a música sempre esteve muito mais enraizada nas tradições do jazz vindas do blues, swing e bebop do que na vanguarda do free jazz dos anos 60.

Sim, há um conjunto tempestuoso tocando em "Tapestry from an Asteroid", que conta com a cantora June Tyson. Há também explosões de skronk (NT: é um termo usado para descrever um som cru, dissonante e experimental, especialmente em música eletrônica e metal) sujo e vulgar, gritos e miados dos saxofones, e doses de ambiente de teclado de ficção científica do líder (Ra foi um dos pioneiros da música eletrônica nos anos 50), mas essas exaltações são compensadas pelo lirismo e pelo suíngue inerentes a grande parte da música.

Ra está em ótima forma no piano. Ele exala ternura em "Somewhere Over The Rainbow", revela seu amor pelo blues e pelo stride piano em uma versão suingada de "Space Travelin' Blues" e esculpe figuras de boogie woogie em "Yeah Man" e "Big John's Special". As duas últimas, remontando a Fletcher Henderson, em cuja banda Ra passou um ano, e à orquestra de Benny Goodman, quase poderia ter vindo dos arranjos de Louis Jordan, com a banda de 20 integrantes tocando como a trilha sonora de um filme de Keystones Cops.

Há uma delicadeza e sutileza também, particularmente em "Lights on a Satellite", onde a harmonização de trompete, flauta e piano seduz suavemente. Marshall Allen em suas evocações mais comoventes de Johnny Hodges, enquanto a influência de Duke Ellington também pode ser ouvida na doce introdução de Ra para "Cocktails for Two" de Arthur Johnston/Sam Coslow, uma celebração do fim da Lei Seca, que Ellington gravaria em 1934. No dístico de Tadd Dameron/Miles Davis "Lady Bird/Half Nelson", a execução suave do saxofonista tenor John Gilmore oferece um antídoto adicional aos extremos mais selvagens da banda.

A banda soa firmemente ensaiada e exuberante, um foco aguçado e um entusiasmo despertado, sem dúvida, pela presença das câmeras de Robert Mugge, que registrariam o filme “A Joyful Noise (1980)”.

Há alguma perda de som devido à configuração inadequada do microfone, e a percussão/bateria prolongada e os cânticos em "We Travel the Spaceways" ultrapassam um pouco o seu período de boas-vindas, faltando no registro o elemento coletivo-ritual contagiante, o impacto emocional, que os frequentadores do show experimentariam enquanto os membros da banda serpenteavam pela multidão. Estas, no entanto, são pequenas queixas que não podem diminuir o poder e a beleza da performance como um todo.

Um livreto de 36 páginas apresenta entrevistas do produtor Zev Feldman com uma variedade de pessoas, a maioria das quais estava no Left Bank naquela noite de 1978. Dentre estas, o crítico musical J.D. Considine, o produtor cinematográfico Robert Mugge; o cofundador da Left Bank Jazz Society, John Fowler; membros da banda de Sun Ra, o baterista Michael D. Anderson, e o saxofonista alto Marshall Allen. Além disso, há lembranças e apreciações do falecido historiador do jazz Dan Morgenstern, do saxofonista Gary Bartz e do pianista Craig Taborn. Juntos, eles lançam luz sobre a personalidade de Ra, suas influências de amplo espectro e o impacto duradouro de sua música.

Os fãs de Ra devem se deliciar com este excelente lançamento de arquivo, enquanto sem dúvida se perguntam - só um pouco - se as fitas do segundo trabalho da noite poderão algum dia ver à luz do dia.

Faixas: Band Intro/Thunder of Dreams; Tapestry From an Asteroid; Somewhere Over the Rainbow; A Pleasant Place in Space; Space Travelin' Blues; Yeah Man; Big John's Special; Lights on a Satellite; Lady Bird/Half Nelson; Cocktails for Two; Watusi; They Plan to Leave; Images in a Mirror; We Travel the Spaceways; Left Bank Blues; 'Round Midnight.

Músicos: Sun Ra (piano); Richard Williams (Radu) (baixos acústico e elétrico); June Tyson (vocal); John Gilmore (saxofone tenor); Marshall Allen (saxofone alto); Danny Davis (flugelhorn); Danny Ray Thompson (saxofone barítono); Walter Miller (trompete); Michael Ray (trompete); Eloe Omoe (clarinete baixo); Craig Harris (trombone); Dale Williams (guitarra elétrico); Damon Choice (vibrafone); Eddie Thomas (percussão); Atakatune Stanley Morgan (percussão); James Jacson (oboé); Michael D Anderson (bateria); James Jacson (ancient infinity drum); The Jingle Brothers (sinos, percussão); John Gilmore (clarinete); Danny Ray Thompson (flauta); Michael Ray (vocal).

Fonte: Ian Patterson (AllAboutJazz)