A gravação de “Blue Fire—The Van Gelder Session” apresenta o
guitarrista se apresentando em um dos locais mais reverenciados do jazz
gravado, e o cenário escolhido está longe de ser por acaso. Gravado no lendário
estúdio Rudy Van Gelder, localizado em Englewood Cliffs, em Julho de 2025, o
álbum se beneficia da própria atmosfera. Sua sonoridade calorosa, clara e com
um toque de história, ao mesmo tempo que apresenta um trio de guitarra, órgão e
bateria profundamente enraizado, que entende o balanço como disciplina e
libertação. Acompanhado pelo organista Jared Gold e pelo baterista McClenty
Hunter, Stryker oferece uma sessão tranquila, comovente e firmemente ancorada
na tradição.
O álbum inicia com duas composições de Stryker: "Van
Gelder's Place" seguida pela faixa-título, "Blue Fire". Estas
peças funcionam tanto como reconhecimentos quanto como declarações de missão. Na
primeira faixa, as linhas de Stryker são incisivas e influenciadas pelo blues,
com o órgão de Gold criando um ritmo vibrante. O trabalho de Hunter com os
pratos evoca o pulso clássico do trio de órgão sem nostalgia. A segunda faixa,
que dá título ao álbum, mostra a banda elevando a intensidade, com um riff (NT: é um pequeno motivo musical ou frase instrumental
curta e repetitiva que serve como base ou acompanhamento, criando identidade e
energia para uma música) envolvente, enquanto Stryker improvisa
melodicamente e o pedal do baixo de Gold mantém a autoridade musical.
A força interpretativa do programa fica mais evidente em
seus standards. "The Fool On The
Hill", de Lennon/McCartney, não é tratada como uma simples versão pop, mas
sim como uma bossa nova com complexidade harmônica. Enquanto Hunter estabelece
a batida contagiante, Stryker interpreta a melodia com uma dignidade serena,
destacando sua natureza introspectiva. Gold reinventa a peça com uma suave reharmonização.
Em contraste, "Dexterity", de Charlie Parker, é abordada com clareza
e respeito pelas suas raízes no bebop. O trio evita o excesso de velocidade,
concentrando-se, em vez disso, na articulação e no suíngue. As linhas de Stryker
são incisivas e rápidas. Gold, organista, demonstra igual domínio do ritmo e da
harmonia. Hunter exibe um virtuosismo vistoso em sua breve intervenção.
"The Folks Who Live On The Hill", de Jerome Kern,
destaca-se como um dos pontos altos emocionais do álbum. Stryker aborda a
melodia com ternura e paciência, permitindo que cada frase ressoe, enquanto o
órgão de Gold permanece contido, quase orquestral em seu acompanhamento. A apresentação
demonstra uma compreensão da tradição das baladas, livre de sentimentalismo. A
faixa de encerramento, "Summer Night", de Harry Warren e Al Dubin, é
reimaginada em um compasso 3/4, conferindo à música um novo perfil rítmico sem
distorcer seu charme melódico. Stryker fraseia com uma confiança descontraída,
permitindo que a melodia dance graciosamente pelas linhas do compasso, enquanto
as harmonias de Gold mantêm a leveza e o dinamismo da música. O trabalho de
Hunter, aqui, é prático, mantendo a vivacidade e o ritmo.
O álbum serve como uma reafirmação de valores atemporais:
melodia, suingue, a força duradoura de um trio bem entrosado em um ambiente
grandioso.
Faixas :
Van Gelder's Place; Blue Fire; The Fool On The Hill; Dexterity; Waiting For
Ruby; Back and Forth; The Folks Who Live On The Hill; Every Dark St.; Summer
Night.
Músicos:
Dave Stryker (guitarra); Jared Gold (órgão, Hammond B3); McClenty Hunter
(bateria).
Para conhecer um pouco deste trabalho, assistam ao vídeo
abaixo:
https://www.youtube.com/watch?v=JcK_Ekw9jww
Fonte: Pierre Giroux (AllAboutJazz)






