Basear o tema de um álbum na soma de seus intérpretes
dificilmente é uma ideia nova, mas é uma abordagem que, ainda assim, oferece
inúmeras possibilidades de expressão, visto que as personalidades são sempre
únicas. A dinâmica entre Luke Bergman, Jason Burger e Martin Nevin nesta
gravação homônima não foge à regra, mas reflete os aspectos mais positivos de
priorizar o conceito em detrimento das necessidades individuais de cada
integrante. Juntos, eles unem suas mentes e apresentam um conjunto de arranjos
de foco preciso e suave, admiravelmente pacientes e extremamente ricos em
personalidade e atmosfera, ao adotar uma fusão minimalista de blues, swing e
folk, impregnada da emoção típica dos filmes de estrada de Wim Wenders
Bergman, Burger e Kevin trazem, cada um, sensibilidades
artísticas maduras e marcadas por vivências diversas ao álbum. Originário do
estado de Washington, Bergman desenvolveu uma musicalidade impecável em
diversos instrumentos, destacando-se especialmente ao tocar baixo com nomes
como Bill Frisell, Cuong Vu e Ted Poor. Aqui, sua arma de escolha é o pedal
steel (NT: é uma guitarra elétrica
horizontal apoiada em pés), que lhe permite abordar o repertório,
composto majoritariamente por versões de outras músicas sob uma perspectiva
diferente. De fato, a qualidade da sonoridade mais lenta e crescente do pedal
steel é fundamental para que o álbum transmita, em sua totalidade, uma
sensação de algo inerentemente antigo e suave, ainda que levemente ambíguo. O
baixo de Nevin, de maneira semelhante, ancora o trio com notável delicadeza,
sempre ativo, porém ponderado e focado na tarefa em questão. Burger, que
integrou as bandas de Andrew Bird, Big Thief e Kenny Werner, também demonstra
habilidade ao escolher com precisão os gestos e momentos em que sua
contribuição pode melhor apoiar o esforço conjunto do grupo. Juntos, esses
artistas soam como três sábios que preferem observar a descrever seu objeto.
A música não é meramente uma homenagem, apesar de transmitir
uma impressão decididamente clássica. Névoa, poeira e tons de sépia vêm à mente
ao ouvir, mas sem se enquadrar em nenhuma tradição específica. Ao escolherem
músicas de Duke Ellington, Kurt Weill e Roy Orbison para expressar o que
pensam, esses três não tentam evocar tempos supostamente mais simples. O
diálogo entre eles ocorre no tempo presente, como amigos que compartilham
impressões livres de julgamentos, intenções ocultas ou reatividade, mantendo um
espaço de respeito mútuo e em relação a cada peça que escolhem. Em outras
palavras, todos esses instrumentistas chegaram preparados para deixar o momento
fluir, sem interferir nem sentir necessidade de chamar a atenção para si mesmos.
As coisas simplesmente existem e se movem por conta própria, como microcenas ao
estilo de Rockwell.
Cada peça é reinterpretada de modo a permitir que emoções e
impressões muito específicas se manifestem. Começando com a suave
"Reflections in D", de Ellington, a sequência de faixas desenrola-se
como os acontecimentos de um dia comum, retratando o mundo ondulante de um
filme rodado à mão que desperta lentamente para a vida. As peças são todas tratadas
de tal forma que parecem cenas distintas, porém relacionadas, do mesmo dia. Os
solos nunca parecem interrupções, e a responsabilidade pela forma e estrutura,
embora algo evidente, parece assumida com leveza. As coisas simplesmente surgem
e desaparecem. A versão do grupo para "So Long, Frank Lloyd Wright",
de Simon & Garfunkel, transporta a música original para uma atmosfera de lentidão
diurna, como uma manhã que não precisa ter fim, sendo tudo isso emoldurado por
uma releitura introspectiva de "Don't Let It Bring You Down", de Neil
Young, que atravessa a noite em solidão, sem qualquer perspectiva de amanhecer.
Há a sensação de que as apresentações começam e terminam apenas devido às
limitações do processo de gravação.
Composta predominantemente em meados do século XX por
compositores estadunidenses, é difícil não sentir uma leve ponta de saudade ou
nostalgia, talvez, mas considere a mensagem por trás da seleção deste
repertório como se essa fosse a única música que já existiu. As canções, então,
definiriam umas às outras tanto quanto a si mesmas, e essas associações
conferem nova vida a todas as partes e ao todo. A inclusão de "A Figure
Descends", a única obra original de Nevin, sugere que o grupo, ao menos em
parte, se concebe inserido em uma espécie de continuidade com esse mundo
imaginado, em vez de simplesmente prestar algum tipo de homenagem a tempos
passados. Cada peça foi originalmente composta por diferentes compositores, em
locais e épocas distintos, e em diferentes momentos de suas respectivas
carreiras. No entanto, a visão deste trio permite que nuances únicas emerjam da
música e que cada peça soe como momentos de uma única conversa prolongada entre
amigos. Assim como o suave nascer do sol da faixa de abertura de Ellington, o
grupo finalmente atenua as luzes com um arranjo de encerramento para "The
Voice of Love", de Angelo Badalamenti, música do filme “Fire Walk With Me”,
de David Lynch. Todas as nuances tonais das faixas anteriores começam a se
fundir, formando um arco-íris carregado de emoção e de qualidades
inexprimíveis, antes de se dissiparem suavemente nas últimas notas do acorde
final de Bergman.
Faixas: Reflections
in D; So Long, Frank Lloyd Wright; Goodbye Pork Pie Hat; Boplicity; Don't Let
It Bring You Down; West Wind; A Figure Descends; Just Let Me Make Believe;
Blood Count; The Voice of Love
Músicos: Luke Bergman(multi-instrumentista); Martin Nevin (baixo);
Jason Burger (bateria).
Fonte: Max
Kutner (AllAboutJazz)