Nascido em Israel, o clarinetista, compositor e improvisador
Ziv Taubenfeld afirmou-se na cena improvisada a partir de Amesterdã e mudou-se
depois para Lisboa, estabelecendo colaborações com diferentes músicos. O seu
projeto mais notável será o grupo Full Sun; já editou na Clean Feed e em
setembro do ano passado lançou o mais recente álbum, “Nomads” (com edição da
nova Full Sun Records, editora criada pelo clarinetista). Entre outros,
Taubenfeld integra um quarteto com Luís Vicente, Michael Formanek e Jeff
Williams e um grupo que homenageia Jemeel Moondoc (com Steve Swell, Wilbert de
Joode e Sun Mi Hong).
Neste disco,”You, Full of Sources and Night” encontramos um
trio algo inesperado. O israelita está acompanhado por dois vultos da cena
improvisada lusa: a violoncelista Helena Espvall e o baterista João Sousa.
Espvall nasceu e cresceu na Suécia, mudou-se para os Estados Unidos e vive,
desde há largos anos, em Lisboa, integrando o sexteto Lantana e o quarteto
Turquoise Dream, além de outros projetos e colaborações (da free folk à free
improv). Sousa é um dos eixos dos projetos Old Mountain, Branco toca Marco
Paulo, Motian & More (em todos com Pedro Branco) e integra um trio com João
Carreiro e Samuel Gapp, o quarteto Garfo e o trio de Desidério Lázaro, entre
outras parcerias.
Com edição da lituana NoBusiness, “You, Full of Sources and
Night” revela um trio em contínuo processo de criação colaborativa, numa massa
sonora comum e evolutiva. O grupo desenvolve uma música muito ampla, assente
numa profunda organicidade, e evita alguns clichês da típica free improv,
propõe antes novas direções. No segundo tema, o homônimo “You, Full of Sources
and Night”, o mais breve do alinhamento, o trio vive uma turbulência
controlada, ancorada entre o arco hipnótico de Espvall e a percussão expansiva
de Sousa. Em “Come Back Evaporated Chess” o clarinete ziguezagueia escondido atrás
do mantra que percussão e violoncelo vão desenvolvendo. Em “Of the Angel In
You, Oh Tigers and Lions” abrandam: é Taubenfeld quem arranca, em toada
arrastada, seguido por Espvall, como em lamento, e Sousa aqui mais sutil, mas
depois a massa sonora comum vai crescendo.
Esta música é muitas vezes rugosa, sombria, não se procure
aqui muita limpidez ou claridade. Mas é também estranhamente envolvente. Aqui a
música é livre e há efervescência criativa, mas não há choque, há caminhos
comuns que se seguem, há ideias que convergem. O cello de Espvall é muito
afirmativo, pleno de ideias, e também uma sólida base que se mantém como
estrutura. A bateria de Sousa é uma fonte inesgotável de ideias. O clarinete
baixo de Taubenfeld assume muitas vezes a liderança, seguindo por caminhos
curiosos, encontrando destino. Do trio, em dinâmica interação, emana uma
orientação comum, onde as vozes se cruzam em diálogo.
Muitas vezes, na música improvisada, sente-se a necessidade
de imposição de muitas ideias; lança-se um esboço e logo após um breve momento
este é destruído e passa-se ao próximo. Aqui não se sente essa urgência, cada
ideia tem espaço para respirar, evoluir, com solidez. E não deixa de ser
interessante. Em diferentes momentos, esta música poderá soar onírica ou
enérgica. E é sempre exploratória, muito densa e rica.
Faixas
1.Oluyemi
10:07
2.You,
Full of Sources and Night 03:22
3.In the
Ether, In a Light 09:42
4.Come
Back Evaporated Chess 05:28
5.They
Are Fragments of the Sun 06:24
6.Nuvem
de Superficie Variavel 05:11
7.Of the
Angel In You, Oh Tigers and Lions 06:43
8.Where
the River is More Blue? 03:49
Músicos: Ziv Taubenfeld— clarinete baixo, gongos; Helena Espvall— violoncelo; João Sousa— bateria.
Fonte: Nuno Catarino (jazz.pt)






