Alguns álbuns trazem a assinatura de um único artista. “Alma
Libre”, que se traduz como "Alma Livre", segue um caminho diferente,
moldado por uma equipe de produtores, arranjadores e músicos vencedores do
Grammy que prosperam na colaboração. Os produtores Alex Sino e Richard Bravo,
juntamente com o maestro e arranjador Terry Heimat (Taras Kutsenko), conduzem a
direção do álbum; os músicos incluem a lenda cubana do trompete Arturo
Sandoval, o saxofonista Ed Calle, o pianista Milton Salcedo, o guitarrista
Francis Goya, os trompetistas Terry Heimat e Julio Ariel Diaz, o pianista
Milton Sesenton, o violinista Kostia Lucky e os baixistas Rafael Valencia,
Issah Contractor e Jerry Bravo. Cada faixa reúne diferentes combinações dessas
vozes, misturando influências de jazz, música latina, clássica e funk.
"Tema De Maria", a primeira faixa, é uma
composição de Astor Piazzolla com arranjo de Andrei Pushkarev. A faixa define o
tom do disco, começando com uma introdução de guitarra em rubato, antes de
Sandoval entrar com linhas de trompete limpas e líricas. Ele dedica tempo a
construir frases de semicolcheias maravilhosamente conectadas e tranquilas,
cheias de forma e direção. O solo de piano que se segue é excepcional,
igualmente rico em vocabulário e intenção, intercalado com passagens em
semicolcheias, articulação precisa e lampejos de vocabulário blues. O baixo
assume o controle com um solo melódico e direto, firme, claro e bem presente na
mixagem. Em seguida, vem um solo de bateria guiado por riffs (NT: é uma frase musical curta, melódica ou harmônica, que se
repete ao longo de uma canção, criando sua identidade marcante, muito comum no
rock, blues e jazz), com o baixo e o piano entrando em perfeita
sincronia, uma formação clássica que leva de volta ao tema principal. Sua
evolução de uma forma clássica para uma forma de jazz tradicional (tema, solos,
improvisos, tema) é uma estrutura que caracteriza este álbum.
"I Will Always Be With You" é uma das produções
mais belamente elaboradas do álbumA música começa com uma passagem de guitarra
no estilo bossa nova, que se transforma em arpejos que lembram banjo,
cuidadosamente sobrepostos à base da banda. Essa música é do tipo que não
precisa de um arranjo complexo, porque tudo já está tão dinamicamente
posicionado. Ela destaca lindamente a profundidade e a intenção da produção do
álbum. O saxofone assume o tema e se recusa a soltá-lo. Calle sustenta a
melodia com total entrega lírica, paciente e completamente centrada. Quando
Sandoval entra, sua participação é discreta e sutil, mantendo-se próximo à
melodia em vez de se afastar dela. Milton Salcedo responde de forma primorosa a
ambos os solistas ao longo de seu acompanhamento, com uma mistura de floreios
rápidos e diminutos e passagens blues. O que se segue é menos uma seção solo
tradicional e mais um dueto. É uma verdadeira conversa entre saxofone e
trompete. O espaço, o ritmo e a contenção são o que a tornam poderosa, e é uma
das faixas mais emotivas do álbum.
"Crossing Borders" demonstra a profundidade da
colaboração. O tema de Ennio Morricone para o filme de 1988 já é icônico, mas a
forma como Terry Heimat, Milton Salcedo e Alex Sino o rearranjam lhe confere
uma nova dimensão. Começa de forma esparsa, com trompete e piano interagindo,
depois entram as cordas e o cravo, conduzindo a uma mudança de energia no
arranjo, passando de algo que lembra uma trilha sonora de filme para uma banda
de jazz coesa e precisa, e termina num final nítido e impactante em estilo
latino.
Outras faixas revelam a versatilidade do grupo. "Maria
Cervantes" apresenta o violino de Kostia Lucky em uma bossa nova leve e
descontraída, com o trompete dando espaço para que as cordas brilhem. "Last
Tango in Paris" se inclina para um balanço de slap bass (NT: slap é uma técnica percussiva no baixo elétrico criada
por Larry Graham, consistindo em bater nas cordas com o polegar (thumb) e
puxá-las com os dedos indicador ou médio [pop ou pluck]) e uma atmosfera
de fusion-funk, com Calle e Salcedo trocando solos sobre uma base rítmica. "Rise"
e "Just a Day" exploram um território musical guiado pelo ritmo,
misturando texturas suaves de jazz-funk com toques de jazz modal.
A experiência de Alex Sino, duas vezes vencedor do Grammy
Latino, juntamente com a de Richard Bravo, traz refinamento e variedade
estilística ao projeto. A formação clássica de Heimat molda os arranjos com clareza
e estrutura. “Alma Libre” se revela um disco construído sobre a atenção aos
detalhes musicais e um propósito compartilhado. Engenharia de som precisa e
mixagens abertas conferem ao álbum um som moderno e espaçoso. Os solos ocupam o
lugar de destaque, mas o conjunto sempre transmite uma sensação de coesão. O
projeto transita com facilidade entre gêneros e atmosferas, criando uma coleção
que recompensa a escuta atenta e revela novos detalhes a cada audição.
Faixas: Tema
De Maria; I’ll Always Be With You; A Taste Of Honey; Cinema Paradiso; Maria
Cervantes; Last Tango; Rise; Just a Day Day; Adios.
Músicos: Arturo Sandoval (trompete); Ed Calle (saxofone);
Milton Salcedo (piano); Alex Sino (poeta, recitação); Terry Heimat (compositor,
maestro); Richard Bravo (bateria); Mario Parmisano (piano); David Pastor
(trompete); Fafa Valencia (baixo); Kostia Lucky (violino); Issah Contractor
(baixo elétrico); Francis Goya (violão); Julio Ariel Diaz (trompete); Jerry
Bravo (baixo); Camilo Valencia (saxofone soprano); Jorge Dobal (trombone); Milton
Sesenton (piano); Camilo Velandia (guitarra); Ennio Morricone (compositor,
maestro); Gato Barbieri (saxofone).
Para conhecer um pouco deste trabalho, assistam ao vídeo
abaixo:
https://www.youtube.com/watch?v=oYxhuDBcbzo
Fonte: Karan Khosla (AllAboutJazz)






