playlist Music

sábado, 4 de julho de 2026

IN MEMORIAM - ABDULLAH IBRAHIM, 1934–2026

O pianista Abdullah Ibrahim, o "NEA Jazz Master" sul-africano que ajudou a fundir a música folclórica de seu país natal com o jazz moderno e que, segundo relatos, foi chamado de "Mozart sul-africano" por Nelson Mandela, morreu em 15 de junho em sua casa na Alemanha, segundo sua família. Ele tinha 91 anos.

Adolph Johannes Brand nasceu em 1934 em Kensington, um subúrbio ao norte da Cidade do Cabo. Ele foi criado principalmente pelos avós e cresceu acreditando, erroneamente, que sua mãe, Rachel, era sua irmã. Só aos 17 anos ele descobriu a verdade e soube do destino de seu pai, Senzo — um membro do povo sotho que foi assassinado quando Ibrahim tinha apenas 4 anos de idade.

Por outro lado, a avó e a mãe de Ibrahim foram responsáveis ​​por despertar seu interesse pela música desde cedo. Ambas eram pianistas da igreja e o apresentaram aos spirituals e ao gospel por meio de sua participação na Igreja Metodista Episcopal Africana. Ele teve de insistir muito com a família para conseguir aulas de piano, mas foi por meio desse instrumento que Ibrahim encontrou uma tábua de salvação na África do Sul da era do apartheid. Como ele disse a Maya Jaggi, do jornal The Guardian, em 2001: "Perdi muitos amigos próximos para gangues e para a prisão; eles morreram vítimas do vício ou foram assassinados. O que me salvou foi a música. Em meio a todo aquele horror, ela era, pelo menos, algo puro; você estava lidando com algo belo".

Ibrahim foi um dos primeiros entusiastas do jazz, estudando o gênero por meio de discos de 78 rotações que comprava de soldados aquartelados na África do Sul — os quais também lhe deram o apelido de "Dollar" — e tocando com big bands pela cidade. No entanto, acabou sendo influenciado pelo bebop, formando pequenos grupos como o Dollar Brand Trio e liderando o Jazz Epistles, um septeto de hard-bop que contava com Hugh Masekela e o saxofonista Kippie Moeketsi. Este último viria a gravar “Jazz Epistle Verse 1”, o primeiro álbum de um grupo de jazz sul-africano, em 1960.

À medida que as condições na África do Sul se agravavam, Ibrahim e sua esposa, a cantora Sathima Bea Benjamin, deixaram o país e se estabeleceram na Suíça. Foi lá que o pianista conheceu seu maior mentor, Duke Ellington, que levou Ibrahim e sua banda a um estúdio em Paris para uma sessão que resultou no álbum “Duke Ellington Presents The Dollar Brand Trio”. O álbum foi tão bem recebido que Ibrahim sentiu-se encorajado a mudar-se para Nova York, onde passou a conviver com muitos outros grandes nomes do jazz.

"[Foi] como viver numa era de ouro", disse Ibrahim à DownBeat em 2019. "Conheci todo mundo. Passei um dia inteiro com Coleman Hawkins, apenas ouvindo-o tocar 'Picasso'. E então conheci Monk... Apresentei-me. Disse: 'Sou da África do Sul. Acho você fantástico e muito obrigado por me inspirar'. Ele me olhou com ar de indagação, caminhou pelo recinto algumas vezes, voltou e disse que eu era o primeiro pianista a lhe dizer aquilo".

O pianista consolidou verdadeiramente sua identidade artística no final da década de 1960. Nesse período, converteu-se ao Islã, adotou o nome Abdullah Ibrahim e passou a se dedicar de forma mais definitiva à música que havia absorvido e estudado ao longo da vida. Suas composições mantinham a base essencial do gospel, mas eram impulsionadas pelos ritmos da música de rua africana, pelo jazz de big bands e por expressões mais vanguardistas, alimentadas por sua amizade e colaboração com artistas como Pharoah Sanders e Don Cherry. Ibrahim também começou a retornar à África nessa época, estabelecendo-se inicialmente na Suazilândia, onde fundou uma escola de música, e posteriormente voltando à África do Sul. Foi em sua terra natal que ele começou a gravar suas obras de maior teor político, como "Mannenberg", um hino vibrante e com forte influência do funk, composto em homenagem às famílias forçadas a se mudar pelo governo do apartheid.

À medida que se envolvia mais no movimento antiapartheid, inclusive organizando um show beneficente para o Congresso Nacional Africano, Ibrahim deixou a África do Sul com a família. Ele só retornaria em 1990, a pedido de Nelson Mandela. No entanto, apesar de poder circular livremente pelo país e gravar com músicos locais, Ibrahim não se sentiu plenamente em casa até 1994, quando se apresentou na cerimônia de posse de Mandela como presidente da África do Sul.

Embora mantivesse residências na África do Sul e na Alemanha, Ibrahim passava grande parte do tempo longe de casa, apresentando-se com seu grupo Ekaya, uma formação em constante evolução, e colaborando com músicos de todas as idades. Ao longo de toda essa trajetória, ele jamais se acomodou, adaptando e transformando continuamente seu repertório e os clássicos do jazz conforme julgava adequado. Nos últimos anos de sua vida, isso incluiu o trabalho com orquestras juvenis em Milão e na África do Sul para as primeiras apresentações de suas composições originais com letra. Como ele declarou à revista DownBeat em 2019, tratava-se de um desafio que refletia sua própria trajetória artística.

“É um exercício mental no qual, às vezes, acabamos nos encurralando. Mas é algo muito simples e, ao mesmo tempo, profundo. É a profundidade da simplicidade. É isso que tem sido a minha carreira”.

Assistam ao vídeo abaixo como homenagem a este grande pianista:

https://www.youtube.com/watch?v=L5i4stj4M30

Fonte: Robert Ham (DownBeat)

 

 

HIGINO ANDRADE - IN DEPTH (Timbre Melro Preto)

Em 2023, numa viagem à Indonésia, o contrabaixista e compositor Higino Andrade fez uma sessão de mergulho livre, tendo na ocasião batido o seu recorde pessoal de profundidade. Ao longo dos 23 metros descendentes, conta à jazz.pt, «apodera-se de nós um certo estado — um sentimento de solitude, um silêncio grave e denso, a sensação de paragem no tempo, uma leve embriaguez e um balanço entre controle e confiança.» O músico madeirense, a residir há quase uma década em Berlim, encontra fortes semelhanças entre este estado e o que ocorre quando mergulha no processo criativo. Acaba de lançar o seu álbum de estreia em nome próprio, a que, nesta lógica, intitulou “In Depth”, com selo da Timbre Melro Preto, braço editorial da Associação de Jazz da Madeira - Melro Preto, fundada pelos irmãos Francisco e Alexandre Andrade. Entende-o como «um convite à contemplação — do outro, da obra e de si mesmo.» O processo de maturação pessoal e musical que conduziu a este álbum não começou ontem, e reflete a sua trajetória e influências, começando pela ilha onde nasceu, com as suas paisagens dramáticas e fecundas tradições culturais. «”In Depth” é a minha tentativa de dar voz a esta música da forma mais honesta e autêntica possível», sublinha. «Vejo o álbum como uma paisagem escarpada e montanhosa — gosto de surpreender o ouvinte, tal viajante, que ao virar a “esquina”, encontra um tema que contraste com o anterior e que o deixe curioso e intrigado.» A primeira composição de “In Depth” remonta a 2016. Fundado numa atitude jazzística que atravessa todo o disco, a música do trio — que se completa com o pianista Nuno Filipe e o baterista Aaron Castrillo —, elegante e cuidada, acomoda outras referências, em particular a tradição clássica europeia, bem patentes em algumas das peças. Higino Andrade cresceu na Camacha, vila madeirense onde a cultura e a tradição são fatores de união e orgulho, e num ambiente familiar com muita música; havia discos, um tio baterista e um outro cantor em grupos locais. «Tive sorte em haver uma extensão do Conservatório [Escola das Artes da Madeira] na minha zona, com uma constelação de professores de excelência vindos de vários cantos do mundo — todo o meu trajeto profissional e pessoal está ligado a este primeiro fator.» Começou pela guitarra clássica, teoria musical e contrabaixo clássico, tendo terminado o curso profissional de guitarra enquanto participava no curso livre de jazz em contrabaixo. Enquanto aluno do Conservatório, participou na orquestra acadêmica e no intercâmbio Leonardo Da Vinci, o que lhe deu a oportunidade de conhecer a escola de pop/jazz de Joensuu, na Finlândia, experiência que lhe despertou o interesse pelas terras setentrionais da Europa. Por esta altura, teve os primeiros contatos com o jazz nórdico e com formações como o trio do precocemente desaparecido Esbjörn Svensson. Na Madeira, logo começou a fazer vida profissional e a tocar em concertos locais. O ambiente criativo que se vivia na ilha era pouco motivador e sobrevivia devido a um pequeno grupo de resistentes que se dedicavam a esta música. Frequentou a Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo (ESMAE) — onde estudou com Nuno Ferreira e Abe Rábade — concluindo em 2015 o curso de contrabaixo. Do ambiente acadêmico do Porto e das relações que nele brotaram, surgiu a oportunidade de explorar Berlim, cidade que é para si «um vasto laboratório de matéria artística» e que, devido a uma cultura de curiosidade e sentido de liberdade de expressão, também se aprende «com os maus exemplos que têm o seu espaço na cena cultural da cidade.» Da capital alemã destaca ainda o fato de haver não só muitos artistas de todas as vertentes musicais, mas também muitos estúdios, produtores, engenheiros de som, e, sobretudo, o «profissionalismo e seriedade em fazer arte é um forte incentivo para cada um fazer a sua arte à sua maneira». Foi imerso em todo este ambiente culturalmente fervilhante que nasceu “In Depth”. Concluída a fase de composição, quis ir logo para estúdio, não sem antes ter feito dois concertos com o trio para rodar o material e consolidar dinâmicas. O álbum foi gravado ao longo de três dias intensos no estúdio Recpublica, um antigo moinho agora renovado em Lubrza, na vizinha Polônia. «O primeiro para preparação, o segundo para a gravação em estúdio do álbum, e o terceiro para a gravação ao vivo do trio no grande salão, onde registramos os vídeos.» Colaborações anteriores com a Associação Melro Preto fizeram com que a editora demonstrasse desde cedo interesse em apoiar a gravação e editar “In Depth”. «É para mim um grande orgulho fazer parte deste movimento», salienta o contrabaixista.

Nuno Filipe e Aaron Castrillo são dois músicos que Higino Andrade conhece bem. Com o pianista, também madeirense e a residir em Berlim, manteve uma relação musical regular durante cerca de um ano. O sevilhano Aaron Castrillo estudou no País Basco, frequentando depois o mestrado EUJAM em Amesterdam (onde, refira-se, foi colega do vibrafonista Eduardo Cardinho). Ao entrarem para estúdio, a música já estava toda escrita, embora em constante adaptação. O processo de ensaios serviu para que cada músico, ao apor o seu cunho pessoal, tornasse a música mais sua, equilibrando as dimensões individual e coletiva nesta configuração “clássica” piano-contrabaixo-bateria. «Tenho uma certa afinidade pelos instrumentos acústicos. Sinto conforto e humanidade nas suas imperfeições», confessa o contrabaixista. Um dos aspectos da sua música que mais releva é o equilíbrio, instável e complexo, entre composição e improvisação. «No meu caso, o improviso, entendido como o solo, deve servir a composição e a intenção musical. Não consigo imaginar Mozart, Bach ou Chopin sentarem-se ao piano e não improvisarem. Até duvido que tocassem os seus temas sempre da mesma forma.» Entre as principais influências no contrabaixo jazz destaca três: Christian McBride, Carlos Bica (também ele fortemente ligado à capital alemã, onde se radicou em 1994) e Dave Holland. Na erudita, diz admirar Debussy, Schönberg, Poulenc, Bach e Stranvinsky, compositores que revisita. O fato de, na clássica, as funções de compositor e de intérprete estarem mais separadas, diz, «parece que culmina numa certa diluição do ego e a obra ganha uma vida própria — um lugar luminoso na prateleira da eternidade.» Também o cinema é fonte de inspiração muito presente no seu trabalho. «Apesar de todas estas influências», realça Higino Andrade, «sempre habitou em mim uma voz de resistência. Uma crença de que, em mim, há uma música só minha, uma visão desfocada que só o tempo pode clarear.» Um dos traços principais da sua abordagem musical — a que chama “direktsaft”, expressão alemã que se refere ao sumo obtido apenas de fruta espremida — é a veia melódica. «A melodia, porém, é um convite à intimidade — não é por acaso que melodia e poesia estão historicamente conectadas». “In Depth” foi pensado para ser escutado ininterruptamente do início ao fim. Sigamos a sugestão do autor (para depois a subvertermos). A faixa inaugural, “In Doubt”, é uma miniatura de contrabaixo solo, particularmente bem captada (é possível escutar as cordas, a madeira, as respirações), que logra aclimatar o ouvinte à atmosfera do álbum. “Mazurka (des)Encanto”, uma das peças mais recentes, foi escrita a pensar no trio de piano. Somos envolvidos pela atmosfera melancólica, com traços da popular dança reinterpretada por Chopin, temperados por elementos jazzísticos. Andrade pega no arco e adita uma camada de solenidade. Inspirada nos tons avermelhados das paisagens, rituais e tradições do sul e sudeste asiático, “Indian Red”, peça fulcral do álbum, exponencia as virtualidades da triangulação, desenvolvendo-se paulatinamente com os três músicos a entrelaçar as suas linhas e a adquirir protagonismo à vez. “Pinnochio’s Spiritual Impressions” nasceu de uma conversa com uma sobrinha de sete anos e da ideia de fazer um conto infantil que explorasse as dimensões do “eu” — o “eu” que fala, o “eu” que ouve e o “eu” que observa. Andrade pega de novo no arco para lançar a melodia graciosa, que o pianista desenvolve e sublinha, com o baterista a fornecer substrato rítmico. Um longo crescendo conduz a peça ao clímax. “Improv#1 Momentum” é um solo improvisado de contrabaixo; Andrade explora linhas melódicas em arco, sobrepostas e improvisadas sobre uma base rítmica em pizzicato. “Skardu” remete para o nome de uma cidade paquistanesa e é memória de uma expedição em que Andrade participou em 2021. Da interação apertada entre os três músicos, com o piano a explanar motivos circulares, hipnóticos, qual banda sonora de um filme imaginário, eleva-se o contrabaixo meditabundo, que lança um final otimista. “Improv#2 Nocturne” é troca de frases entre pianista e contrabaixista. De atmosfera mais enigmática, “Elogio a Sessuh Toyo” (referência ao pintor japonês do século XV) é um dos momentos mais interessantes do álbum, alternando, de forma súbita, momentos mais tensos com outros de grande delicadeza. Andrade volta a recorrer ao arco numa peça que denota fortes influências nipônicas. Castrillo demonstra uma especial sensibilidade na criação de texturas mais planantes, sublinhada pela utilização de um gongo tradicional vietnamita. “Schwarzdrossel” (melro preto, em alemão) encerra o álbum em tons festivos, contando com as participações do saxofonista Francisco Andrade, do trompetista Alexandre Andrade e do trombonista Xavier Sousa, num tributo a este “bando” resiliente e ao seu serviço à arte e à música na Madeira. Revelando-se ao mundo, Higino Andrade faz de “In Depth” um álbum interessante e que aguça o apetite para o que já prepara.

Faixas

1.In Doubt 01:00

2.Mazurka (des) Enchanted 05:31

3.Indian Red 06:31

4.Pinocchio’s Spiritual Impressions 04:58

5.Improv#1 Momentum 01:21

6.Skardu 06:40

7.Improv#2 Nocturne 01:34

8.Elogio a Sesshu Toyo 05:36

9.Schwarzdrossel 06:51

Músicos: Higino Andrade — contrabaixo e composição; Nuno Filipe— piano e Rhodes; Aaron Castrillo— bateria.

Para conhecer um pouco deste trabalho, assistam ao vídeo abaixo:

https://www.youtube.com/watch?v=hqeUe07PM4Y

Fonte: António Branco (jazz.pt)

 

 

ANIVERSARIANTES - 04/07

Butch Miles (1944) - baterista,

Evan Tate (1961) – saxofonista,

David Tygel(1949) – violonista,vocalista,

Duncan Lamont 1931-2019) – saxofonista,

Fred Wesley (1943) – trombonista (na foto e vídeo) http://www.youtube.com/watch?v=viQ4FY_IW58,

Heinrich von Kalnein (1960) – saxofonista,

Patrizia (1958) – vocalista 

 

sexta-feira, 3 de julho de 2026

TED ROSENTHAL TRIO - HIGH STANDARDS (TMR Music)

Ted Rosenthal tem padrões notavelmente altos. De que outra forma explicar suas grandes conquistas nas últimas quatro décadas? Este craque pianista e compositor já fez de tudo: liderou o concurso Thelonious Monk International Jazz Piano Competition, trabalhou com a nata da nata (ou seja, o ícone do saxofone barítono Gerry Mulligan, a lenda do saxofone alto Phil Woods, o multifacetado Bob Brookmeyer, etc.), elaborou mais de uma dúzia de excelentes trabalhos de liderança, escreveu uma ópera de jazz aclamada pela crítica (Dear Erich), cumpriu encomendas para notáveis ​​companhias de dança, apresentou-se com algumas das maiores orquestras do mundo e transmitiu sua sabedoria como membro do corpo docente da Juilliard School e da Manhattan School of Music. A lista de elogios é interminável — o currículo de Rosenthal parece mais uma antologia de vários volumes do que um livro de duas páginas, e provavelmente parece que não há outros altos padrões para este homem superar. Mas ele prova que essa suposição está errada com o lançamento antecipado de quatro álbuns no espaço de um ano.

Com o projeto “Trio in 4 acts”, Rosenthal destaca diversas facetas de sua arte enquadradas em seus dois trios de trabalho. “High Standards”, dando início a esta ambiciosa série de álbuns, o foco está nos favoritos do repertório atual do pianista. Oferecendo reviravoltas artísticas e de bom gosto em padrões, Rosenthal demonstra por que ele é conhecido no mundo todo como um modelo de classe e criatividade.

Começando com "Jet Song" de Leonard Bernstein, Rosenthal e companhia levam a Broadway para outro lado, com bateria cadenciada, um toque de vivacidade latina e muita música com suíngue intenso. Os solos bravos do líder, com majestade de acordes e linhas atraentes de notas únicas, demonstram seu domínio das 88 teclas, o trabalho de arco de Martin Wind se mostra igualmente impressionante, e algumas breves trocas com Tim Horner dão ao baterista algum espaço para brilhar. A imortal "Skylark" de Hoagy Carmichael segue, colocando os holofotes no líder por meio de uma introdução maravilhosa. Uma vez que as coisas se acomodam em um ritmo de suíngue confortável, o trabalho especializado de Horner com a vassourinha é certeiro, Wind caminha com uma sensação impecável e dá um solo pizzicato modelo, e Rosenthal está completamente na zona desde então até o final suave.

O trio com Wind e Horner ajuda a dar o tom com essas apresentações iniciais e aparece na maior parte do álbum. Porém, para não ficar para trás, a baixista Norika Ueda e o baterista Quincy Davis aparecem em alguns lugares e fazem contribuições notáveis. Juntos, com Rosenthal, a dupla dá vida a uma versão de "Old Devil Moon" que faz o tempo girar — uma performance completa com passagens de piano cheias de citações e que induzem a sorrisos — e eles oferecem algumas nuances espirituosas à sensação suingante de "One". Além disso, no único exemplo de mistura de pessoal, Ueda e Horner unem forças com Rosenthal para o aceno final para Tommy Flanagan com "The Cup Bearers".

Nos números intercalados entre as aberturas, o final e as duas faixas com a parceria Ueda-Davis, Rosenthal, Wind e Horner ilustram ainda mais o que constitui a maestria individual e coletiva. Há uma clara piscadela e sagacidade por trás da junção consecutiva de "Everything Happens to Me" e "It Could Happen to You", com o primeiro recebendo um adorável tratamento de bossa nova e o último fazendo a transição de um piano solo seguro para uma festa suingante de olhos brilhantes por três. "To Life" apresenta um trio envolvido em desenvolvimento musical no lugar de um simples violinista no telhado. E "Lover Man" oferece uma atmosfera luxuosa de fim de noite, onde sofisticação e fumaça se misturam e perduram. Não há nada melhor do que tocar em trio hoje em dia, e “High Standards”, ao mesmo tempo em que reforça a já excelente reputação de Rosenthal, traz expectativas altíssimas para os próximos álbuns.

Faixas: Jet Song; Skylark; Old Devil Moon; Everything Happens to Me; It Could Happen to You; To Life; One; Lover Man; The Cup Bearers.

Músicos: Ted Rosenthal (piano); Martin Wind (baixo acústico); Norika Ueda (baixo acústico); Tim Horner (bateria); Quincy Davis (bateria).

Para conhecer um pouco deste trabalho, assistam ao vídeo abaixo:

https://www.youtube.com/watch?v=QuWghGiECwc

Fonte: Dan Bilawsky (AllAboutJazz) 

 

ANIVERSARIANTES - 03/07

Audra McDonald (1970) – vocalista,

Dr. Lonnie Smith (1942-2021) – organista,

John Blake Jr, (1947-2014) – violinista,

John Klemmer (1946) - saxofonista,flautista,tecladista,vocalista,

Johnny Coles (1926-1996) - trompetista,flugelhornista,

Johnny Hartman (1923-1983) – vocalista (na foto e vídeo) http://www.youtube.com/watch?v=ILDqWHutba0,

Katrine Madsen (1972) – vocalista,

Marcelo Caldi (1980) – pianista,sanfoneiro,

Melissa Walker (1964) – vocalista,

Pete Fountain (1930-2016) – clarinetista,

Rhoda Scott (1938)– organista,

Rick Rosato (1988) – – baixista,

Stefan Aeby ((1979) – pianista,

Wilson Batista (1913-1968) - vocalista 
 

quinta-feira, 2 de julho de 2026

SATCHMOCRACY - SATCHMOCRACY VOL. 2 (Camille Productions)

Não é fácil acompanhar todas as novas gravações de jazz que estão sendo feitas. Talvez fosse mais fácil nas décadas de 1950 ou 1960, quando algumas grandes gravadoras faziam a maior parte das gravações. Um artista ou alcançava o sucesso dessa forma ou permanecia desconhecido, exceto em sua cidade natal.

Para o bem ou para o mal, agora é diferente. Um potencial crítico provavelmente recebe pedidos de centenas de gravações por ano. E, claro, elas vêm em vários formatos. Ninguém, por mais dedicado que seja, consegue ouvir tudo. Assim, alguns se apegam a uma pequena amostra de material que acham que conhecem, ou a um gênero específico, ou até mesmo a um instrumento. Mas mesmo essa estratégia falha, porque a música agora é verdadeiramente internacional. Enquanto alguns músicos conseguem ir para os Estados Unidos, outros não. E até mesmo alguns músicos realmente excepcionais acabam ficando para trás.

Imagina-se que isso explique o relativo anonimato dos instrumentistas do Satchmocracy. Eles estão sediados em Paris, e uma coisa é certa. Eles sabem tocar. Jérôme Etcheberry e Malo Mazurie lideram uma espécie de banda tributo a Louis Armstrong, mas, na realidade, o que eles oferecem ao ouvinte é muito, muito mais.

Mesmo que se considere a habilidade técnica como algo garantido nos jogadores contemporâneos, estes dois estão muito além. Etcheberry desempenha um papel principal excepcional. Mazurie é um solista excepcional. Ambos são fluentes, criativos, imaginativos, experientes e, acima de tudo, cheios de suíngue. Armstrong, claro, pode ser considerado a figura fundamental do trompete no swing, então não é de surpreender que seu repertório tenha refletido esse gênero ao longo de sua vida. No entanto, esta gravação assimila o repertório de Armstrong e muito mais. Há elementos de bebop e música latina por toda parte, e a rearmonização de Armstrong está repleta de citações astutas de músicas como "Salt Peanuts", "Stealing Apples" e até mesmo "Opus No. 1". Existem tantas variações rítmicas, executadas com bom gosto, que a gente fica grato pela ocasional batida convencional, como em "Ding Dong Daddy". "Sweethearts on Parade" oferece o que só pode ser descrito como uma interpretação de trompete stride. "Lazy River" é um ótimo exercício de contagem. Mas nada disso é feito de forma ostensiva ou apenas para causar impacto. É musical, e o efeito cumulativo é por vezes deslumbrante. Embora Armstrong seja nominalmente o padrinho do repertório, a influência de Bunny Berigan transparece repetidamente, e se não Bunny, então Billy Butterfield. Em um dado momento, o ouvinte pensa em uma versão muito heterodoxa de " The World's Greatest Jazz Band ", mas todos os "ingredientes" que Armstrong chamou de "elementos" de alguma forma se encaixam.

Agora, alguém pode dizer: "Bem, eles se lembram do grupo TRPTS de Mike Vax tocando 'Wild Man Blues', exatamente com as mesmas formações, em 1985, no álbum 'Transforming Traditions' (Summit Records)". É verdade, mas isso sugere que a história do trompete no jazz, que começou mais ou menos com Armstrong, é precisamente o tipo de material que se presta à reinterpretação criativa, tal como o trabalho de Charlie Parker fez para o Supersax. É claro que é preciso músicos excepcionais para lidar com essas músicas, quanto mais para rearmonizá-las e reconfigurá-las, e assim como acontece com Supersax ou TRPTS, o mesmo ocorre com o Satchmocracy. Os instrumentistas que Etcheberry reuniu aqui merecem, como se costuma dizer, um reconhecimento mais amplo. Alguns políticos podem pensar que o isolamento é algo bom, mas os resultados dos esforços do Satchmocracy mostram que é precisamente o contrário.

Faixas: Willie the Weeper; I Can't Give You Anything But Love; Skid-Dat-De-Dat; King of the Zulus; I'm a Ding Dong Daddy from Dumas; Wild Man Blues; Living in Satchmocracy; Shine; Ain't Misbehavin; Oriental Strut; Sweethearts on Parade; Heebie Jeebies; Lazy River; Chicago Breakdown; Knee Drops.

Músicos: Jérôme Etcheberry (trompete); Malo Mazurie (trompete); Cesar Poirier (saxofone tenor); Benjamin Dousteyssier (saxofone barítono); Ludovic Allainmat (piano); Felix Hunot (guitarra); Sebastien Girardot (baixo acústico); David Grebit (bateria).

Fonte: Richard J Salvucci (AllAboutJazz)

 

ANIVERSARIANTES - 02/07

Ahmad Jamal (1930) – pianista (na foto e vídeo) http://www.dailymotion.com/video/x2kndg_ahmad-jamal-2005-where-are-you_music,

Charlie Watts (1941-2021) – baterista,

Herbie Harper (1920) - trombonista,

James Hayes (1968) – pianista,

Jamey Haddad (1952) – percussionista,

Kevin Seeley (1970) – trompetista,

Michael Abene (1942) - pianista,

Mike Kornrich (1951) – guitarrista,banjoísta,vocalista,

Patrick Manzecchi (1969) – baterista,

Richard Wyands (1928-2019) - pianista,

Tatum Greenblatt (1982) – trompetista,

Teodross Avery (1973) - saxofonista