Descobrimos os I Like To Sleep em 2020, com “Daydream”, o
segundo disco do trio norueguês. Foi aí que a música começou a impor-se como
uma presença distinta, difícil de classificar, e desde então temos acompanhado
atentamente o seu percurso. Neste novo capítulo, o som surge mais sujo, mais
denso: a ultrapassagem é mais agressiva, os pratos da bateria ganham aspereza e
a música aproxima-se declaradamente do stoner rock. A banda, que
assinala agora uma década de existência, edita o seu quinto LP pela editora de
Trondheim, All Clean Good Records.
Quando gostamos de um grupo, muitas vezes não queremos que
ele mude. Que cada disco seja igual ao anterior, com temas novos, mas que nos
vá dando o prazer de ouvir a música que nos agradou no passado. Mas se a música
for feita por músicos e não por IA, não funciona assim. Cada disco é diferente
e a ideia é que as coisas mudem. O que inicialmente nos prendeu à música dos I
Like To Sleep foi a forma singular como integraram o vibrafone num território
onde o jazz se cruza frontalmente com o rock. Essa fórmula mantém-se viva, mas
foi expandida noutras direções. O vibrafonista Amund Storløkken Åse assume hoje
um papel mais central, alternando entre vibrafone amplificado, Mellotron,
samplers e percussões, ampliando o espectro tímbrico do trio.
O baixo continua a ser o verdadeiro eixo da música:
imponente, profundo, com uma presença que parece já inscrever-se num certo som
nórdico (ex: Fire!, Bushmans Revenge). É ele que estrutura os temas, definindo
tempo, pulsação e caráter. Há aqui uma lógica que remete para o funk, embora
reinterpretada de forma mais matemática e rigorosa. O baixo, nas mãos de
Nicolas Leirtrø, articula o corpo da música, ancora o balanço e afirma-se como
instrumento melódico. É um organizador “visível”.
Entre as novidades deste disco está a participação de Mats
Gustafsson em “Bed Robber” (o tema que mais se liga ao passado do grupo) e a
inclusão de um quinteto de cordas — dois violinos, dois violoncelos e
contrabaixo — que dialoga com o trio, acrescentando uma dimensão orquestral que
contrasta com as distorções. Surgem harpas, o quinteto de cordas, a flauta, o
Mellotrom.
Em “Spectral Vibes”, a música surge mais pesada e compacta,
o rock assume maior protagonismo e o som do grupo ganha novas cores através da
eletrônica e das cordas. Quem vem de “Daydream” reconhece aqui a origem deste
caminho; quem chega agora encontrará um grupo que aposta em temas mais rápidos
e intensos, atravessados por melodias cíclicas, assobiáveis e de uma delicadeza
quase campestre. É o contraste entre essas formas bonitas e a sujidade do rock
que dá à música dos I Like To Sleep um encanto raro e profundamente pessoal.
Os I Like To Sleep são aquilo que se poderia justamente
chamar de powerjazz: cruzam o rock inteligente com o jazz, com um som muito
próprio. “Peace and Power Jazz To People.” Dizem na contracapa do disco. Bem
precisamos. De “peace” muito mais do que de “Power Jazz”, pois este enche-nos
por uns tempos.
Faixas
1.Octopus
05:12
2.I LIKE
TO SLEEP, Mats Gustafsson - Bed Robber 10:34
3.I LIKE
TO SLEEP, Swamp Strings - Pause III pt. I 01:48
4.I LIKE
TO SLEEP, Swamp Strings - Swamp Strings 01:24
5.I LIKE
TO SLEEP, Mats Gustafsson - Swamp 05:27
6.I LIKE
TO SLEEP, Swamp Strings - Pause III pt. II 01:01
7.Time
To Get Up 06:55
8.Skagstad
06:26
Músicos: Amund Storløkken Åse— vibrafone amplificado, Mellotron, samplers, percussão; Nicolas Leirtrø— baixo, guitarra “perfurada”, percussão, contrabaixo; Øyvind Leite— bateria, percussão; Mats Gustafsson— flauta, saxofone tenor; Maja Langeteig— violino; Emilija Petrovska— violino; Live Smidt— violoncelo; Sigrid Angelsen— violoncelo
Fonte: Gonçalo Falcão (jazz.pt)
.jpg)



.jpg)

