O falecido saxofonista alemão, Peter Brötzmann, prosperou em
encontros com bateristas. Uma lista de seus companheiros ao longo de sua
carreira seria como um quem é quem da percussão, mas um de seus parceiros
preferidos no último período de sua vida foi Paal Nilssen-Love. Após o
norueguês unir-se ao Chicago Tentet de Brötzmann em 2004, a parceria entre
eles ocorreu em inúmeras ocasiões, não só no formato maior, mas também em formatos
de quarteto, trio e duo. Porém, embora eles tenham feito vários álbuns juntos, todos
foram trabalhos ao vivo. Esta sessão de 2015 oferece algo diferente.
Durante dois dias o duo foi para o estúdio, conforme as
notas de Nilssen-Love revelam, Brötzmann com um arsenal de instrumentos de
palheta, incluindo um clarinete contralto recém-adquirido, o baterista com uma
série de gongos coreanos até então inéditos. Todos recebem uma boa veiculação
nas oito seleções de um programa que apresenta um retrato da dupla um pouco
mais introspectivo do que o cenário de concerto rotineiramente oferecido.
Brötzmann brinca com a melodia por toda parte, muitas vezes investido de emoção
com ternura, às vezes triste, embora geralmente permaneçam, adstringentemente,
apenas no lado certo do sentimentalismo.
Suas extemporizações frequentemente invocam os intervalos e contornos
da linda melodia denominada como "Master Of A Small House" na companhia
de Joe McPhee em “Tales Out Of Time (Hatology, 1997)”. Deve ter tido algum significado
emblemático para Brötzmann quando ele voltou a eles repetidas vezes. Aparece
regularmente em gravações ao vivo e qualquer um que o tenha ouvido tocar nas
últimas décadas provavelmente reconheceria o refrão. Aqui ele aparece em sua
forma mais pura como um canto fúnebre de saxofone baixo em "Smuddy
Water". Mesmo assim, as coisas ficam selvagens antes do fim, à medida que
um grito turbulento se transforma em um altissimo trêmulo.
Outros flashes da intensidade esperada surgem, na forma mais
pura no vigoroso "Move On Over" onde uma cavalgada na bateria
inaugura um sopro estridente, provavelmente no clarinete baixo e, outra vez, em
"Dancing Octopus" com Brötzmann destruindo os nervos no tarogato. Mas
mesmo isso acaba em outra dimensão, à medida que Nilssen-Love explora uma
verdadeira fundição de trovões de chapa metálica. Em outros lugares eles mantêm
uma fervura borbulhante, como na abertura “Butterfly Mushroom", que se deleita
com os tons do clarinete contralto penetrante e dos golpes percussivos, ou até
mesmo constrói um poema com tom comovente, como fazem em "Found The Cabin
But No People", sua qualidade elegíaca ganha peso comovente pelas
exalações finais desaparecendo no silêncio.
Agendas ocupadas significou que a música nunca viu a luz do
dia enquanto Brötzmann estava vivo, mas seu lançamento cria uma entrada rica e
singular em uma discografia já poderosa.
Faixas: Butterfly
Mushroom; Ant Eater Hornback Lizard; Smuddy Water; South Of No Return; Dancing
Octopus; Move On Over; Five Of Them Survived The Dream; Found The Cabin But No
People.
Músicos: Peter Brötzmann (tarogato, clarinete em si bemol,
clarinete contralto, clarinete baixo, saxofone baixo); Paal Nilssen-Love
(bateria, congos, percussão).
Fonte: John
Sharpe (AllAboutJazz)






