Em abril 2021 surgia o álbum “À Espera do Futuro”. Foi um
daqueles resultados diretos do lockdown pandêmico de 2020: fechados em casa,
Beatriz Nunes (voz), Paula Sousa (piano) e André Rosinha (contrabaixo)
compuseram temas originais e, mais tarde, juntaram-se para os interpretar. O
disco afirmava o surgimento de um novo trio que, reunindo três músicos já com
trabalho reconhecido, revelava uma música original, entre o jazz e a canção. Quase
cinco anos mais tarde, a continuação chegou com o disco “A Céu Aberto (edição
Timbuktu)”.
No novo disco encontramos um total de oito faixas, todos
temas inéditos. Os três músicos dialogam e entrelaçam-se e, se a combinação
instrumental poderia à partida parecer estranha, resulta com eficácia. A base
das composições (cuja autoria é partilhada entre todos) é muito interessante,
explorando diferentes abordagens, e o trio trabalha a interpretação com
elegância e economia. Daqui resulta uma música suave, impregnada de nostalgia,
na mais típica tradição portuguesa.
Na abertura, com o tema “Mini crime”, o trio exibe as
credenciais: o piano de Sousa elegante e preciso, o contrabaixo-esteio de
Rosinha, a voz de Nunes sem palavras (na mesma linha de Sara Serpa). Na música
seguinte, já há palavras: “Miradouro” é uma narrativa contemporânea, em registro
pessoal, que cruza referências geográficas da zona da Graça (Lisboa) e faz
referência a terapia e problemas de vinculação (provavelmente a primeira música
portuguesa que aborda diretamente estas questões).
O tema homônimo “A Céu Aberto” é um dos destaques do repertório
e a voz de Beatriz, radiante, destaca-se. Belíssima, ousa frequentemente a
exploração de agudos-limite, caminhando com tranquilidade na corda bamba — com risco,
sem exibicionismo, uma expressividade controlada e profundamente musical. (E
recordamos que em 2023, entre os dois discos deste trio, a cantora editou o seu
Livro de Horas, em nome próprio.)
Assumindo centralidade, o piano de Paula Sousa é vibrante,
numa música que, sendo aparentemente serena, nunca deixa de ser irrequieta. E o
contrabaixo de Rosinha nunca é secundário, sempre em aceso diálogo
instrumental. Perfeitamente alinhados, os três desenham uníssonos
impressionantes, completamente engatados. E sobra espaço para inventividade
pessoal, em solos. Este trio é um caso especial na cena jazz lusa. Aqui não
encontraremos a pura essência de Beatriz Nunes, essa estará nos discos “Livro
de Hora”s ou “Canto Primeiro”. Não estará a essência de Paula Sousa, que iremos
encontrar nos álbuns “Nirvanix” ou “Valsa Para a Terri”. Nem a de André
Rosinha, que encontraremos antes nos discos “Pórtico, Árvore ou Raiz”.
Não é um disco de afirmação individual nem de rutura. Tem
ótimos temas, embora nem todos fiquem igualmente na memória. É um exercício de
escuta mútua e de maturidade artística, onde três músicos superlativos colocam
o coletivo acima do virtuosismo. Se estes já são figuras centrais da música
nacional, juntos neste projeto trabalham uma música de refinado tricô, ancorada
na tradição portuguesa.
Faixas
1.Mini Crime 04:41
2.Miradouro 04:19
3.A Céu Aberto 03:30
4.Iaia 05:18
5.Duas Casas 03:24
6.Sudário Dior 03:37
7.Salto 04:09
8.Nó 03:25
Para conhecer um pouco deste trabalho, assistam ao vídeo
abaixo:
https://www.youtube.com/watch?v=3oGs8isk8Jo
Fonte: Nuno Catarino (jazz.pt)






