Apesar da sua centralidade na história do jazz e da música
improvisada, pelas suas características sonoras é difícil o contrabaixo
assumir-se como protagonista. Terá sido por isso que o primeiro álbum solo de
contrabaixo só tenha surgido em 1969, gravado pelo norte-americano Barre
Phillips: “Unaccompanied Barre”, posteriomente reeditado com os títulos “Basse
Barre” e “Journal Violone”; poucos anos depois, Phillips gravaria ainda outro
marco na história do instrumento: “Music from Two Basses”, gravado em duo com
Dave Holland.
Duas figuras históricas do jazz português, Carlos Bica e
Carlos Barretto, têm-se afirmado como “músicos de grupo”: lideram os seus
projetos, sempre envolvidos em diferentes coletivos com diferentes músicos; mas
ambos, apesar dos amplos percursos e discografias, trataram também de registar
o som dos seus contrabaixos em formato solo. Bica editou em 2005 o solo “Single
(Bor Land)”; Barretto lançou em 2002, pela CBTM, o histórico “Solo Pictórico”,
tendo editado em 2024 ao formato solo, com “Lonely Dog”. Também o contrabaixista
portuense Miguel Ângelo arriscou um disco a solo, em 2017: “I Think I'm Going
to Eat Dessert (edição da Creative Sources)”.
Não sendo um desafio fácil, o contrabaixista André Rosinha
aventura-se agora nesta empreitada desacompanhado. Se Rosinha já se tinha
afirmado como acompanhante muito sólido, a acompanhar músicos como Salvador
Sobral, Júlio Resende ou João Barradas, tem consolidado uma discografia em nome
próprio cada vez mais inescapável. Em 2018 estreou com Pórtico, ao leme de um
quinteto com Albert Cirera, João Barradas, Eduardo Cardinho e Bruno Pedroso;
formou depois um trio com o pianista João Paulo Esteves da Silva e o baterista
Marcos Cavaleiro, com quem gravou três álbuns muito sólidos: “Árvore (2019)”, “Triskel
(2022)” e “Raiz (2025)”. E, em trio com Beatriz Nunes (voz) e Paula Sousa
(piano), editou os álbuns “À Espera do Futuro (2021)” e “A Céu Aberto (2025),
num processo de partilha democrática.
Editado pela Sintoma, o novo álbum “Ermo" abre em
registro solene, com umas breves pinceladas com o arco (“Kyrie”). Ao segundo
tema, "Gotama", Rosinha exibe o pizzicato ágil. E em seguida vem um
dos momentos mais marcantes do álbum: “Kokoro” com uma melodia irresistível,
que arrebata. Se nos trabalhos autoriais anteriores se salientava atenção
particular à melodia, este registro sem rede confirma essa veia melodista. Ao
longo de onze temas (todos curtos, nenhum chega aos quatro minutos), Rosinha
não se perde em explorações nem divagações; desenhou os temas (todos originais,
à exceção de um tradicional) e interpreta-os com muito rigor, sobrando pouco
espaço para invenção no momento.
Repescada do seu disco inaugural, “Árvore”, a composição
“Ré” brilha em todo o esplendor, apesar de mais despida, revelando
profundidade. Em “O carpinteiro ilegal” chega um inesperado balanço. Outro
momento muito bem conseguido é a revisão de “Minha mãe, lá vem o Jorge”, uma
música tradicional portuguesa, aqui trabalhada pelo pizzicato, que explora o
seu eixo melódico, indo à raiz. Quase a terminar, “Tripa coração” surge como
espécie de anticlímax: estávamos mergulhados no ambiente austero do contrabaixo
e de repente a voz de Salvador Sobral tira-nos o tapete. A voz de Salvador é
imaculada e o tema é belíssimo; contudo, não destoará demasiado do resto do
material no álbum? Obriga-nos a sair do mundo onde tínhamos mergulhado.
Confirmando definitivamente Rosinha como músico em toda a
amplitude, este disco eleva o contrabaixista a um novo patamar. O disco não se
inscreve na tradição histórica mais radical, mas, apesar da escassez de
recursos, a abordagem torna o álbum muito acessível, revelando profunda
musicalidade. Um solo de contrabaixo poderia ser um salto no escuro. Rosinha
aterrou seguro.
Faixas
1.Kyrie 00:44
2.Gotama 03:24
3.Kokoro 03:35
4.Dias 02:35
5.O carpinteiro ilegal 01:35
6.Ré 03:55
7.Pasárgada 02:14
8.Canção para uma nuvem 03:26
9.Minha mãe lá vem o Jorge 02:24
10.Tripa coração 02:47
11.Desfecho 01:22
Músicos: André Rosinha – contrabaixo; Salvador Sobral— voz.
Fonte: Nuno Catarino (jazz.pt)






