Para a sequência de seu lançamento de 2024, “How Long is Now
(MarMade Records)”, o Christian Marien Quartett optou por uma abordagem ousada,
alinhada à estética de liberdade total de seu líder: um processo de gravação direto
do disco, realizado em uma única tomada diretamente no disco matriz. Com o
espírito de risco e experimentação que o baterista heterodoxo sempre trouxe aos
seus grupos, seja com a saxofonista Silke Eberhard e o trompetista Nikolas
Neuser no “I Am Three”, ou com o trombonista Matthias Müller no “Superimpose”,
“Beyond the Fingertips” traz toda a energia ousada e o instinto colaborativo
que se esperaria de um álbum de Marien.
Novamente acompanhado pelo saxofonista tenor e clarinetista
Tobias Delius, pelo guitarrista Jasper Stadhouders e pelo baixista Antonio
Borghini, Marien dispõe do veículo ideal para suas composições, que exigem
agilidade e fluidez estilística, uma vez que quatro peças se entrelaçam
harmoniosamente em cada lado do álbum. Abrangendo desde o suíngue preciso e
coeso até a liberdade anárquica, a banda de Marien é capaz de tudo, por vezes
evocando as tendências transidiomáticas de Michael Moore, Ernst Reijseger e Han
Bennink no Clusone Trio.
Um balanço contagiante põe tudo em movimento logo de início
com "Love All—Play!", à medida que a guitarra de Stadhouders transita
de uma frase inspirada no afrobeat para um diálogo dinâmico e ágil com o sax
tenor de Delius, antes de o grupo desacelerar para a mais introspectiva
"Martha", com Delius delineando a melodia delicada no clarinete. A
energia então retoma com força em "Blues in Aspik", uma composição
gravada pela primeira vez pelo grupo "I Am Three" no álbum “In Other
Words (Leo Records, 2024)”. As transições entre essas faixas apresentam
momentos fascinantes de indeterminação, nos quais, aparentemente, tudo pode
acontecer, permitindo que cada integrante impulsione o álbum; Borghini faz isso
em "Aspik" com uma linha de baixo vigorosa que estimula um solo
incisivo de Stadhouders e algumas incursões tenazes de Delius no saxofone tenor.
A banda envereda coletivamente por uma vertente mais abstrata para encerrar o
lado com "Cordinale", outra faixa de “In Other Words”, que assume um
caráter decididamente sombrio por meio das divagações lânguidas de Delius.
As quatro últimas faixas do segundo lado alternam, mais uma
vez, entre rompantes de intensidade e uma abstração serena, talvez com um pouco
mais de ênfase nesta última vertente, de modo geral. O uso habilidoso das
vassourinhas por Marien e o fraseado ágil de Borghini no arco impulsionam
"Nantucket Nostalgia", faixa que acaba cedendo lugar a "For
Toby", esta, animada por um balanço de métrica variável que oferece ao
saxofonista a oportunidade de se soltar brasas com agudos estridentes e
intensos. As faixas de encerramento, "Look Left, Look Right" e
"No Place for Illusions", são consideravelmente mais nebulosas,
enfatizando a escuta atenta e intervenções sutis em vez dos temas mais
explicitamente melódicos presentes no restante do álbum.
Embora o álbum seja relativamente curto, com 33 minutos de
duração, resultado de seu método de gravação direta para o disco, a qualidade
da música proporciona uma experiência auditiva envolvente, repleta de surpresas
que recompensam audições repetidas.
Faixas: (Lado
1): Love All. Play!; Martha; Blues in Aspik; Cordinale; (Lado 2): Nantucket
Nostalgia; For Toby; Look Left, Look Right; No Place for Illusions.
Músicos: Christian Marien (bateria); Jasper Stadhouders
(guitarra elétrica); Antonio Borghini (baixo); Tobias Delius (saxofone tenor).
Fonte: Troy
Dostert (AllAboutJazz)






