O projeto Daya surgiu do encontro da cantora Marta Rodrigues
com o saxofonista Bernardo Tinoco. Ambos já têm deixado previamente boas
indicações: Marta editou o disco “Inscape”, ao leme do seu quinteto; Bernardo
tem-se espraiado em diferentes projetos e colaborações, com destaque para o quarteto
Garfo e a sua colaboração com Tom Maciel (NoMad Nenúfar). Juntos, formaram um
duo em abril de 2022, tendo-se juntado posteriormente o músico convidado João
Hasselberg, no contrabaixo e eletrônica. O grupo registou esta gravação em
outubro de 2023, na sequência de uma residência artística na Capela de S. João
(Côja).
Este é um trabalho curioso. O grupo explora a interseção
entre o som acústico e a eletrônica, atravessando diferentes geografias
estilísticas. A banda trabalha um conjunto de composições originais e
improvisações, além de uma reinterpretação do tema “Prelude” de John Taylor e
Norma Winstone, do álbum “The Touchstone (1979)”. A música é etérea. As frases
de Tinoco são esparsas. As intervenções de Marta são assertivas, entregues com
sutileza e delicadeza. E Hasselberg acrescenta pozinhos eletrônicos,
acrescentando camadas extra. É uma música entre o ambiental, o atmosférico e o
espectral, com formas límpidas. Bem interligados, voz e saxofone exploram
caminhos comuns, e até uníssonos, mas revelam-se mais interessantes quando,
dentro da mesma peça, não seguem os mesmos passos, bifurcação. A intervenção de
Hasselberg, apesar de discreta, complementa e enriquece.
Tem sido um enorme prazer assistir à emergência e afirmação
de novas vozes na cena nacional. Não nos cansamos de elogiar o trabalho e
percurso de talentos como Mariana Dionísio, Vera Morais, Nazaré da Silva ou
Filipa Franco (atenção ao seu disco “Imagem”), que têm ido além do cânone da
tradicional cantora de jazz, explorando diferentes dimensões da música, para lá
da palavra cantada. Marta Rodrigues é mais uma cantora que se enquadra neste
lote de criadoras criativas, que se servem da voz e desafiam limites e
convenções. Neste trabalho em particular, poderemos encontrar semelhanças com LUMP,
de Mariana Dionísio e João Almeida, em ambos encontramos a exploração eletrônica
e ambiental.
Esta proposta é uma ousada exploração, que desafia o
ouvinte. Sem se inscrever em qualquer radicalismo, é uma forma musical atípica
para o nosso tempo. Nesta economia da atenção, saltando de reel em reel,
esta é música que exige parar. É música sutil que envolve o ouvinte, devagar.
Não conquistarão Manhattan ou Berlim, mas aqueles que se deixem conquistar
serão recompensados.
Músicos: Marta Rodrigues— voz, composição; Bernardo Tinoco—
saxofone, composição; João Hasselberg— contrabaixo, eletrônicas.
Fonte: Nuno Catarino (jazz.pt)






