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sexta-feira, 31 de julho de 2026

ORRIN EVANS AND THE CAPTAIN BLACK BIG BAND - WALK A MILE IN MY SHOE (Imani / 88 Keys Productions)

Uma olhada na lista de faixas — com reinterpretações de Stevie Wonder e Marvin Gaye e dois clássicos vocais da era do swing — pode dar uma impressão errada. Sim, este é um álbum muito acessível e comovente, mas é um jazz sério e sincero, com a marca pessoal de Orrin Evans que o torna único. Blues, soul e gospel os sons dividem o palco aqui com influências do swing, straight-ahead e avant-garde, o que não surpreende, considerando a década em que Evans tocou com a Mingus Big Band.

O piano de Evans define o tom imediatamente, começando a primeira faixa, "Dislocation Blues", com acordes de blues entrecortados, e depois adicionando nuances harmônicas e elegância em poucos compassos. O organista convidado Jesse Fischer envolve Evans num dueto misterioso e ligeiramente dissonante, antes da entrada dos metais e do vocalista Paul Jost. Ao longo de toda a obra, são os riffs (NT: é um motivo musical curto, melódico ou rítmico, repetido ao longo de uma canção, servindo como base harmônica principal, especialmente no Rock, Blues e Jazz) com toque de blues e as harmonias incomuns de Evans, que impulsionam essa música.

Dos quatro vocalistas do álbum, Lisa Fischer se destaca. Ao interpretar "Overjoyed", a obra-prima vocal de Stevie Wonder, Evans faz com que Fischer comece num andamento mais lento, acompanhado inicialmente apenas por piano e o obbligato de trompete de Nicholas Payton. Fischer adota uma abordagem lenta, grave e com influências de blues, mantendo-se um pouco atrasado em relação ao tempo, enquanto a música cresce gradualmente e passa pelas modulações características de Wonder.

Este é o quinto álbum de Evans com a Captain Black Big Band, o primeiro com tantos vocais, e neste, os metais geralmente fornecem acentos, floreios e solos, em vez de dominar os arranjos. Em "Hymn", os metais são proeminentes, mas estão acompanhando Evans ou ele está dando suporte a eles? Embora o som se torne grandioso em alguns momentos deste álbum, a música geralmente soa intimista, uma qualidade sugerida pelo título escolhido por Evans.

“Walk a Mile in My Shoe” usa "shoe" no singular e, com isso, faz uma revelação pessoal: " Minha jornada musical está intimamente ligada à minha jornada médica, e este disco é a minha forma de abrir as portas para aquilo com que convivo há anos”, disse ele. " Eu uso bengala porque nasci com neurofibromatose. Foi isso que o 'Elephant Man' teve, mas, felizmente, afetou apenas minha perna/pé esquerdo. Fiz várias cirurgias, a última quando tinha oito anos. Não tenho mais problemas neurológicos, mas passei por diversas cirurgias reconstrutivas desde então"

Resiliência e persistência também caracterizam a carreira de Evans, com mais de 30 álbuns lançados como líder, além de seu trabalho com o The Bad Plus e como músico de apoio. Ele também ocupa um cargo docente na Universidade Rutgers. Para dar visibilidade à sua música, ele criou seu próprio selo, o Imani Records, que agora também distribui trabalhos de muitos outros artistas e organiza o evento anual Imani Records Club Patio Jazz Day perto da cidade natal de Evans, Filadélfia. Se este álbum serve de indicação, viajar para Filadélfia para ver a Captain Black Big Band ao vivo no festival pode ser uma ótima ideia.

Faixas: Dislocation Blues; Sunday in New York; All That I Am; Blues in the Night; Hymn; Save the Children; Overjoyed; Smoke Gets in Your Eyes; If.

Músicos: Orrin Evans (piano); Josh Lawrence (trompete); Todd Bashore (saxofone alto); Caleb Wheeler Curtis (saxofone); David Gibson (trombone); Reggie Watkins (trombone); Vicente Archer (baixo); Madison Rast (baixo); Anthony Tidd (baixo); Anwar Marshall (bateria); Mark Whitfield, Jr. (bateria); Sean Jones (trompete); Nicholas Payton (trompete); Jesse Fischer (teclados); Lisa Fischer (vocal); Bilal (vocal); Joanna Pascale (vocal); Paul Jost (vocal).

Fonte: Steve Plever (AllAboutJazz)

 

ANIVERSARIANTES - 31/07

Celso Pixinga (1953) –baixista,

Dafnis Prieto (1974) – baterista,

Gene Ess (1965) – guitarrista,

George Kelly (1915-1998) – saxofonista,vocalista,

Gordon Johnson (1952) – baixista,

Hank Jones (1918-2010) – pianista (na foto e vídeo), http://www.youtube.com/watch?v=Ur9nz3yrx6M,

Kenny Burrell (1931) - guitarrista,

Kiko Constantino(1969) – pianista,

Michael Wolff (1952) – pianista,

Paula Morelenbaum (1962) – vocalista,

Peter Bocage (1887-1967) – cornetista,violinista,

Roy Milton (1907-1983) – baterista,vocalista,líder de orquestra,

Stanley Jordan (1959) – guitarrista,

Stephen Fulton (1954) – trompetista,flugelhornista

 

 

quinta-feira, 30 de julho de 2026

FRED VAN HOVE - WIM FANFARE - FREE MUSIC (1975 -1988) [Cortizona Heritage]

Paralelamente à intriga e à inovação da música, o jazz é uma história de reorganização política e econômica. Nos Estados Unidos, desde os tempos do swing, do bebop e, eventualmente, do free jazz, a história é repetidamente a dos músicos contra as gravadoras, as casas de shows e os financiadores que buscam controlar tanto seus salários quanto seu desenvolvimento artístico. Esta arte, amada e respeitada globalmente, também está manchada pelos legados de marginalização, mercantilização implacável e negligência socioeconômica, inclusive de seus maiores luminares. Devido a essa história vergonhosa (e presente imutável), é essencial que os devotos do gênero prestem muita atenção às tentativas de libertação do jugo do comercialismo desenfreado, por mais raras e muitas vezes clandestinas que sejam.

Na Bélgica, o Festival de Música Livre do WIM (Workshop for Improvising Musicians) caiu no esquecimento da história do jazz, mas nem por isso deixa de ser espetacular. Fundado em 1975 por Fred Van Hove, Cel Overberghe, André Goudbeek e Ivo Vander Borght, o Festival de Música Livre foi realizado anualmente até 1988, atraindo tanto músicos locais de free jazz quanto público internacional. O festival não tinha vínculos com gravadoras, editoras ou organizadores além dos próprios artistas. As bandas se apresentaram nas ruas rústicas de Antuérpia, em praças, parques públicos e outros espaços da região metropolitana. Sem casas de concerto, sem restaurantes, sem bares, apenas plateias perplexas seguindo com suas rotinas diárias, agredidas pelos trinados ásperos do acordeão de Van Hove, pelo trompete estrondoso de Kris Vinck ou pelo grasnido corrosivo do saxofone alto de Goudbeek. Van Hove e sua banda inventaram uma música que não podia ser dissociada dos intérpretes, da cidade, nem mesmo do momento exato em que era tocada. Uma música imune ao vampirismo ganancioso dos produtores. Infelizmente, isso também significa que os ouvintes atuais tiveram um conjunto muito limitado de gravações para aguçar seu apetite, até agora. Remasterizado a partir de fitas promocionais raras, impressas para uma revista belga de artes e cultura, WIM FANFARE oferece um vislumbre inestimável da revolução local do grupo, incluindo uma apresentação da formação original da banda em 1975.

Cada faixa tem cheiro de rua. O acordeão estridente e expressionista, dedilhado entre baquetas metálicas, tem gosto de queijo coalho encharcado e bolinhos fritos oleosos. Os sons lascivos de Goudbeek lembram a aspereza terrosa dos slogans do vendedor. É difícil confundir o incorrigível vai e vem entre a soprano de Herman Paessens e uma série de tenores e contraltos em "Gutcha" com algo além de uma pequena briga espontânea, que irrompe de algum contratempo sem nome em um boulevard.

As apresentações oscilam entre o ridículo e o carnavalesco, e ao perceberem essa linha tênue, a ultrapassam com entusiasmo. Marchas, ragtimes, jigs (NT: Designa uma dança folclórica rápida e animada, típica da Irlanda e da Escócia [conhecida no Brasil como "jiga"], ou a música tocada para essa dança), polcas e muito mais, tudo representado com igual fervor. Toda a história da música folclórica do século XX é encenada, em parte uma procissão grandiosa, em parte uma farsa maluca. As órbitas do sublime e do grosseiro são representadas muito próximas, as duas colidindo e se misturando como meteoros, que se dirigem para a Terra. Nada é sagrado, ou talvez tudo seja. Os penhascos gêmeos, profundos e profanos, encarando o mesmo abismo insano.

Os concertos da WIM nascem das ruas e, naturalmente, absorvem os diversos sinais e nuances que a vida urbana produz. Eles estão longe de ser os primeiros a fazer isso. Porém, os músicos não agem como papagaios, não se dignam a imitar essas cenas, o que frequentemente as reduz a uma zombaria. Não é a tradução que eles buscam, mas a "coisa" em si. Se a linha de bateria sincopada lembra o golpe controlado de um açougueiro flamengo, ou se o som estridente do trompete de Richard Cuvillier evoca a risada nasal de um velho camponês, isso não se deve a uma interpretação errônea, mas sim à integração. Os músicos tocam com a mesma humildade de um tocador de realejo solitário ou de um artista de rua errante. Eles tocam como se seus concertos fossem partes naturais da vida na cidade, porque em Antuérpia, eles realmente eram. Hoje, o nome de Van Hove está tão indissociavelmente ligado à cidade quanto o de Peter Paul Rubens, e por que não? Há evidências de sua sonoridade (e, por extensão, da WIM) em cada esquina e em cada praça pública. A verdadeira revolução do grupo foi justamente esta: libertar o artista da tirania de seus senhores e devolvê-lo ao povo e às comunidades que formaram sua identidade. Não há nenhum disco este ano que valorize tanto o mau cheiro da vida.

Faixas: Prijs 75; Wrijloop; FM 84; Leer Mij Zingen; Gutcha; Piket; FM 88.

Músicos Fred Van Hove (acordeom); Cel Overberghe (saxofone); André Goudbeek (saxofone alto); Ivo Vander Borght (percussão)

Fonte: Fran Kursztejn (AllAboutJazz)

 

ANIVERSARIANTES - 30/07

Andy Hunter (1979) – trombonista,

B.D. Lenz (1971) – guitarrista,

Big Jack Johnson (1940) – guitarrista,

Buddy Guy (1936) – guitarrista,vocalista,

Claes Janson (1947) – vocalista,

David Sanborn (1945-2024) - saxofonista,

Hilton Jefferson (1903-1968) - saxofonista,

James Spaulding (1937) - saxofonista,

John Stowell(1950) – guitarrista,

Kevin Mahogany (1958-2017) – vocalista (na foto e vídeo) http://www.youtube.com/watch?v=Rqcy_nFHBOc,

Kevin Stevenson (1953) – baterista,

Rob Block (1964) – guitarrista,banjoísta,pianista,

Rosinha de Valença(1941-2004) – violonista,

Walt Weiskopf (1959) - saxofonista  

 

quarta-feira, 29 de julho de 2026

NIGEL PRICE ORGAN TRIO - IT’S ON!

O homem mais trabalhador do show business, Nigel Price, retorna com seu trio habitual e um novo álbum de composições originais (cada uma acompanhada de uma explicação detalhada nas notas do encarte), um standard e duas faixas de jazz moderno de Joe Zawinul e Art Pepper. Gravado em poucos dias em estúdio, este álbum é uma exposição incrivelmente sincera de todas as qualidades que fizeram de Nigel e seu trio uma atração constante onde quer que o público de jazz se reúna no Reino Unido.

O trio para órgão é uma fórmula pragmática que foi criada em parte por necessidade econômica e possui seu próprio conjunto de tropos estilísticos bem definidos: O desafio é explorar seu potencial e soar original sem cair em clichês nem se desviar tanto do caminho a ponto de perder o apelo essencial. Nigel e seus cúmplices enfrentam o desafio com um charme descontraído e uma facilidade enganosa, que mascara a perícia estudada, adquirida apenas por meio de anos de experiência.

Em parte, isso se deve ao fato de Ross Stanley e Joel Barford serem músicos excepcionais, capazes de transitar com fluidez do funk marcante de "Chonky" à solenidade melancólica de "76" e ao balanço vibrante de "Backatcha", sempre entregando algo com uma sonoridade inovadora.

Porém, sobretudo, tudo se deve à presença marcante do próprio Nigel: tudo é cuidadosamente pensado, mas de forma discreta, desde a seleção das faixas até os arranjos; cada solo de guitarra é uma miniatura de obra-prima de construção lógica, e por trás da execução descomplicada, há um verdadeiro senso de humildade e uma dedicação altruísta à arte que confere a este disco uma sinceridade cativante, algo que este gênero tão explorado muitas vezes não possui.

Faixas

1.Make Someone Happy 10:15

2.Backatcha 08:06

3.Chonky 08:35

4.It's On! 07:42

5.Straight Talk 05:45

6.'76 07:22

7.Splash The Cash 04:41

8.Midnight Mood 07:14

9.Red Car 08:18

Músicos: Nigel Price – Guitarra; Ross Stanley - Hammond Organ; Joel Barford – Bateria.

Para conhecer um pouco deste trabalho, assistam ao vídeo abaixo:

https://www.youtube.com/watch?v=x5Bv2hIj_9w

Fonte: Eddie Myer (JazzWise)

 

ANIVERSARIANTES - 29/07

Albert Wynn (1907-1973) - trombonista,

Charlie Christian (1916-1942) – guitarrista (na foto),

David Stackenas (1974) – guitarrista,

Don Redman (1900-1964) - clarinetista,saxofonista,vocalista,líder de orquestra,

Freddie Hendrix (1976) – trompetista,

Jessé Sadoc (1947) – trompetista, flughelhornista,

Joe Beck (1945-2008) – guitarrista,

Kyle Poole (1993)- baterista,

Konrad Agnas (1990) – baterista,

Kyle Poole (1993) – baterista,

Logan Richardson (1980) – saxofonista,

Michael Pedicin (1947) – saxofonista,

Ron Turso (1948) – baterista,

Vic Lewis (1919-2009)- guitarrista 

 

terça-feira, 28 de julho de 2026

LUC HOUTKAMP – FRUSH (FMR Records)

O álbum “Frush” foi gravado em 17 de novembro de 2023, ao vivo no LOFT, em Colônia, pelo engenheiro de som e produtor alemão Stefan Deistler, cujo estúdio fica nos arredores de Colônia. A mixagem e masterização ficaram a cargo de Luc Houtkamp, ​​membro da banda que nasceu em Haia, na Holanda, em dezembro de 1953 e toca saxofone tenor e clarinete aqui.

Aliás, já em novembro de 2017, no Festival Alternativa, em Praga, República Tcheca, Houtkamp tocou em um trio com outros dois membros do quarteto que gravou “Flush”: Martin Blume, um baterista de improvisação livre nascido em Amsterdã, Alemanha, em 1956, e Steve Beresford, um compositor, pianista, músico e arranjador eclético e versátil nascido em Shropshire, Reino Unido, em 1950. O trio Beresford-Blume-Houtkamp voltou aos holofotes quando foi gravado ao vivo no LOFT, Cologne, em 7 de outubro de 2018, gravação que foi lançada como “Shed 1 (FMR Records)” em dezembro de 2020. A ligação entre Houtkamp e Blume remonta a um período anterior àquele trio; já em 2002, eles tocaram juntos no trio chamado 2nd Outlet com o pianista holandês Cor Fuhler, gravando o álbum “Burnt Sienna (Nuscope, 2004)”. No mesmo período, Houtcamp e Blume também foram membros do quarteto FOURinONE...

O quarto membro do quarteto que gravou “Frush” foi o trombonista italiano Sebi Tramontana, nascido em Rosolini, Sicília, em dezembro de 1960, mas que atualmente reside em Munique, Alemanha. Assim, os quatro membros têm nacionalidades diferentes: holandesa, alemã, britânica e italiana. A música que eles tocaram em 17 de novembro de 2023 é creditada aos quatro músicos, o que geralmente indica que todos estavam improvisando em vez de tocar uma composição prévia. As sete faixas do álbum, que por algum motivo começam com a letra "F", têm uma duração total de 54 minutos e 16 segundos, sendo a mais longa, "Fidther", com 12 minutos e 7 segundos, e a mais curta, "Frush", com 3 minutos e 44 segundos. No entanto, em vez de ser ouvido como faixas individuais, este álbum é melhor apreciado do início ao fim como um todo coerente, no qual cada músico reage e responde à música dos outros. Assim que o álbum terminar, a única coisa sensata a fazer é ouvi-lo novamente... e esperar que este quarteto grave novamente em breve.

Faixas: Frap; Flusk; Fidther; Fream; Frush; Fracchen; Frizzling.

Músicos: Luc Houtkamp (saxofone tenor, clarinete); Sebi Tramontana (trombone, brinquedos, objetos); Steve Beresford (piano); Martin Blume (bateria, percussão)

Fonte: John Eyles (AllAboutJazz)