O segundo lançamento do conjunto Three Tsuru Origami,
de Gabriele Mitelli, transita do literal para o simbólico, expandindo-se tanto
em conceito quanto em formação. Seu álbum de estreia, “Three Tsuru Origami (We
Insist!, 2022)”, foi uma meditação sobre pássaros e migração. Esta continuação,
“Colapesce”, inspira-se na lenda siciliana do século XII sobre um ser meio
homem, meio peixe, que se sacrifica para salvar sua ilha. A história, um
clássico do folclore mediterrâneo, ressurgiu na cultura pop através do filme de
1964, "O Incrível Sr. Limpet", no qual o tímido contador transformado
em peixe, interpretado por Don Knotts, acaba ajudando a derrotar os nazistas. Embora
o filme adote uma abordagem fantasiosa, “Colapesce” mergulha em águas mais
profundas e contemplativas.
Inicialmente, um trio que unia o trompete, o saxofone e os
instrumentos eletrônicos de Mitelli à renomada seção rítmica britânica formada
pelo baixista John Edwards e o baterista Mark Sanders, esta encarnação do
conjunto se expande para um quarteto com a adição da saxofonista tenor
argentina Camila Nebbia. O resultado é uma gama dinâmica mais ampla e um
vocabulário harmônico mais rico.
Mitelli pode ser visto como um equivalente europeu do
cornetista e explorador sonoro americano Rob Mazurek. Ambos os artistas
transitam entre a música acústica e a eletrônica, cada um explorando novos
territórios expressivos com seus instrumentos. Seus caminhos criativos até se
cruzaram em lançamentos colaborativos como “Star Splitter (Clean Feed, 2019)” e
“Star Splitter: Medea (We Insist!, 2024)”.
Com os veteranos Edwards e Sanders ancorando o grupo e a
força emergente de Nebbia contribuindo com potência e sensibilidade no
saxofone, Mitelli cria uma narrativa sonora evocativa. As quinze peças
compactas equilibram com maestria a forma composta e a invenção espontânea. A
faixa-título define o tom com o trompete piccolo vibrante de Mitelli e o
saxofone estridente de Nebbia envolvidos em um diálogo frenético, sustentado
pelos dedilhados vigorosos das cordas de Edwards e pela percussão cinética de
Sanders. Quanto mais "The King and the Challenge" se desenrola, mais
a tensão aumenta à medida que as quatro vozes se expandem em espiral, apenas
para serem reunidas em uma declaração unificada — um testemunho de sua intuição
coletiva.
Muitas das peças são miniaturas, mas nenhuma parece
subdesenvolvida. Em vez disso, a brevidade permite expressões vívidas e focadas.
Em "Shadows in the Depths", Mitelli e Nebbia comunicam-se
inicialmente através da respiração e dos metais, antes de passarem à palavra
falada, criando uma narrativa impressionista e em camadas. "Voices of the
Sea" combina música eletrônica ambiente com o baixo ressonante e a
percussão minimalista de Edwards, enquanto "Songs of Sea and Land"
contrasta a percussão militarista com sons estridentes e exagerados de saxofone
e trompete distorcido.
Através de sua lente mitológica, “Colapesce” mergulha
profundamente em temas de sacrifício, transformação e renascimento, usando a
improvisação não apenas como um veículo para a expressão musical, mas como um
meio de evocar os mistérios fluidos do próprio mar. Esta é uma gravação que
convida a ser ouvida repetidamente, revelando novos detalhes a cada imersão.
Faixas: Mare
Nostrum; Cola, the Call of the Waves; Colapesce, Son of the Sea; The King and
the Challenge; Three Stones, Three Pillars; The Abyss; The Column of Sicily;
The Sacrifice; The Rising Legend; Shadows in the Depths; Songs of Sea and Land;
The Dance of the Waves; Under the Waves; The Eternal Guardian (Hymn for Lelio
Giannetto); Voices of the Sea.
Músicos: Gabriele Mitelli (trompete, eletrônica, trompete
piccolo); Camila Nebbia (saxofone tenor); John Edwards (baixo acústico); Mark
Sanders (bateria).
Fonte: Mark
Corroto (AllAboutJazz)






