“Coordinates” é uma declaração artística madura e plenamente
realizada do compositor, arranjador e virtuoso do trompete Dan Rosenboom. É um
esforço enorme em vários sentidos. Por meio de um conceito imersivo centrado
tanto no som como personagem quanto nas relações abstratas entre estruturas
numéricas aplicadas ao tempo e ao balanço, Rosenboom criou um autorretrato que
conecta diversos aspectos singulares de sua personalidade musical. O álbum
reúne 28 dos melhores artistas musicais de Los Angeles, empregados em uma série
de combinações pouco convencionais que permitem às composições explorar uma
ampla gama de timbres instrumentais e atmosferas.
Desde 2014, Rosenboom está à frente do selo Orenda Records
que, além de abrigar muitos de seus próprios lançamentos, conta com um catálogo
de projetos de mente aberta e que transitam por diversos gêneros, vindos de
todos os Estados Unidos e do exterior. Muitos destes mesmos músicos participam
de “Coordinates”, incluindo colaboradores de longa data como o saxofonista
Gavin Templeton, o pianista Joshua White, o trombonista Ryan Dragon, o
tecladista Jeff Babko e o clarinetista Brian Walsh. No entanto, Rosenboom
ampliou consideravelmente a formação neste projeto ao incorporar percussão
mista, um quarteto de cordas, um septeto de metais e cerca de meia dúzia de
solistas convidados. Como resultado, a visão de Rosenboom apresenta sua maior
diversidade, com referências à música de câmara moderna, trilhas sonoras de
cinema, música folclórica do Leste Europeu, technical death metal (NT: é um subgênero do death metal focado em altíssima
habilidade instrumental, estruturas musicais complexas e velocidade extrema),
rock progressivo e avant-jazz. Além disso, seu interesse por conceitos da
mitologia, da numerologia e da astronomia desempenha um papel crucial na
concepção desta música.
As "coordenadas" mencionadas no título e em cinco
das nove faixas que compõem a obra marcam aspectos distintos da mente musical
de Rosenboom. Ao ouvir as peças, é possível imaginar diversos locais que
proporcionam uma experiência sensorial avassaladora. Há uma sensação
extremamente vívida de profundidade e ambientação presente em cada uma delas. Embora
muitas das características marcantes de Rosenboom (solos virtuosísticos,
melodias extensas densas e angulares, intensidade crescente do conjunto)
estejam presentes ao longo da obra, nuances sutis de sua abordagem se
manifestam com maior liberdade em “Coordinates”, graças à instrumentação
ampliada. Em particular, há uma dimensão cinematográfica na maneira como ele
emprega a textura e o desenvolvimento de motivos, o que evidencia tanto a sua
habilidade como compositor e curador sonoro quanto a sua destreza como um
verdadeiro acrobata instrumenta. Assim como Anthony Braxton ou Karlheinz
Stockhausen, a escrita de Rosenboom permite que suas obras sejam ouvidas como
partes de um todo maior. De alguma forma, a estética que ele alcança em “Coordinates”
consegue coexistir sendo austera e suingante na mesma medida. Qualquer estado
de alteração mental em que o ouvinte possa estar ao assimilar os temas densos é
bem equilibrado pelo caráter visceral e pela excelente execução de cada faixa.
O álbum começa com a faixa "Prisms, Mirrors,
Portals", minimalista e vagamente ameaçadora, uma introdução meditativa
que permite uma respiração breve, porém profunda, antes de mergulhar de cabeça
no turbilhão que compõe o restante do disco. Grande parte da música se
estrutura em torno de uma seção rítmica central formada pelo guitarrista Jake
Vossler, pelo baixista Jerry Watts Jr. e pelo baterista Caleb Dolister, uma
base que se mantém consistentemente pesada e ágil do início ao fim. Ao longo do
caminho, as coisas ganham um ar peculiar ("Coordinate 1: Many Worlds, Many
Dances"), distorcido ("Coordinate 2: Apophis") e ameaçador
("Oracles"), chegando até a ser relaxantes em alguns momentos
("Josephine's Dream"). Cada peça é envolvente e multidimensional,
mesmo antes de o ouvinte considerar o nível extraordinário de destreza
instrumental, que desafia os limites do possível, e a inventividade
demonstrados por Rosenboom e seus colaboradores. Alguns destaques incluem os
uníssonos de sopros graves e densos entre Walsh e Jon Stehney na faixa
"Old Ghosts", bem como a performance explosiva e intensa de viola de
Lauren Elizabeth Baba, inspirada na Mahavishnu Orchestra, em "Coordinate
4: Nemesis". A faixa de encerramento do conjunto, "Coordinate 5:
Hyperion", é um hino instrumental que dispensa declarações solistas em
favor de uma profunda afirmação final coletiva, permitindo a Rosenboom
apresentar a totalidade de suas visões e estabelecer firmemente a relação entre
todas as outras peças.
O último som de “Coordinates” é uma resposta contínua e
persistente da guitarra fortemente distorcida de Vossler. Isso serve como um
clímax perfeito para toda a sonoridade anterior, com uma sensação de
atordoamento que faz imaginar como seria disputar todos os 15 rounds contra um
campeão dos pesos-pesados. Trata-se de um conjunto inegavelmente impressionante
de músicas meticulosamente elaboradas e estilisticamente diversas. É um gesto
artístico arrebatador de Rosenboom, ambicioso, fantástico e, além disso,
simplesmente divertido do início ao fim de sua duração enxuta de 41 minutos.
Faixas: Prisms,
Mirrors, Portals; Coordinate 1: Many Worlds, Many Dances; Coordinate 2:
Apophis; Josephine's Dream; Coordinate 3: Syzygy; Coordinate 4: Nemesis;
Oracles; Old Ghosts; Coordinate 5: Hyperion.
Músicos:
Dan Rosenboom (trompete); Jake Vossler (guitarra); Jerry Watts Jr. (baixo);
Caleb Dolister (bateria); Jeff Babko (sintetizador); Gloria Cheng (piano);
Joshua White (piano); Wade Culbreath (percussão); Petri Korpela (percussão);
Katisse Buckingham (flauta); Gavin Templeton (saxofone alto); Nicole McCabe
(saxofone alto); Brian Walsh (clarinete); Jon Stehney (fagote); Laura Brenes
(french horn); Katie Faraudo (french horn); Steve Suminski (trombone); Ryan
Dragon (trombone); Steve Trapani (trombone baixo); Doug Tornquist (tuba);Wade
Culbreath (vibrafone e marimba); Petri Korpela: (percussão, gongos, metallics,
tamborim, shakers, conchas); Gavin Templeton (saxes alto e barítono);
Jacqueline Kerrod ( harpa); Lauren Elizabeth Baba (viola); Miguel
Atwood-Ferguson (violino elétrico de 5 cordas): Michael Valerio (contrabaixo);The
Lyris Quartet [Alyssa Park (violino); Shalini Vijayan (violino; Luke Maurer (viola0;
Timothy Loo (cello)].
Para conhecer um pouco deste trabalho, assistam ao vídeo
abaixo:
https://www.youtube.com/watch?v=qh77Ip8SfOs
Fonte: Max
Kutner (AllAboutJazz)






