A Teoria (ou Interpretação) dos Muitos Mundos, proposta pelo
físico norte-americano Hugh Everett III (1930-1982), sugere que o universo se
ramifica constantemente em infinitos universos paralelos a cada evento
quântico, onde todas as possibilidades se concretizam em diferentes ramos, sem
que haja colapso da função de onda. Em vez de um único resultado acontecer,
como na interpretação tradicional, esta teoria postula que todos os resultados
acontecem, cada um num universo separado, formando um vasto multiverso de
realidades não comunicantes. É neste quadro que surgem as chamadas “realidades
paralelas”, múltiplos universos coexistentes com aquele no qual vivemos, onde
diferentes versões da realidade podem existir, variando desde pequenos detalhes
quânticos até leis físicas completamente diferentes. A ideia tem ecos tanto na
física quântica como na ficção científica, sugerindo que cada decisão ou
possibilidade pode gerar uma nova linha temporal ou universo, cada qual
constituindo uma versão alternativa. Esta ideia de ramificações da realidade, a
cada instante, assenta bem no modus operandi deste quinteto liderado pelo
baterista, compositor e improvisador João Lencastre que, seis anos após a
estreia discográfica homônima, editada pela FMR, está de volta com “Parallel
Realities II”, desta feita com selo da Timbuktu Records. Lencastre é figural
central no panorama do jazz nacional da última vintena de anos. O seu trabalho
multímodo tanto o posiciona na área do jazz mais conservatorial e afeito à
tradição, como, de modo crescente, nos domínios da música improvisada
exploratória, e tudo no ínterim, deixando sempre marca indelével nos projetos e
grupos que lidera ou em que participa decisivamente. Como em equipe que ganha
não se mexe, João Lencastre manteve a mesma formação do primeiro álbum:
Albert Cirera nos saxofones tenor e soprano, Rodrigo Pinheiro no piano,
Pedro Branco na guitarra e João Hasselberg no baixo elétrico e eletrônicas. «A
ideia geral deste grupo é explorar diferentes caminhos de improvisação, que se
cruzam e acabam por se encontrar», começa por dizer João Lencastre à jazz.pt.
«É evitar o óbvio da interação, é procurar contrastes, mas que ao mesmo se
complementam entre eles.» Fica claro que os cinco músicos aportam diferentes
elementos para o cômputo, fruto de referências e percursos distintos. «Todos
nós temos variadas e diversificadas influências, falando só de influências
musicais. Eu, por exemplo, tanto posso ouvir um disco de música clássica, como
um disco de reggae, metal, jazz, afro beat ou hip hop, etc. Essas influências
poderão surgir quando tocamos e improvisamos, ainda que não de uma forma
propositada ou racional, é algo que está no nosso ADN e que surge
naturalmente», sublinha o baterista. Parallel Realities II foi registado nos
Estúdios Timbuktu, em Lisboa, e misturado e masterizado por André Fernandes. Em
oito temas — três da autoria de Lencastre e cinco improvisações coletivas — o
quinteto prossegue na busca e exploração de contrastes, alternando explosões
caóticas com momentos mais delicados. A formação pretende, diz Lencastre,
«levar o ouvinte numa viagem na busca do incerto e do infinito.» Não esquecer
que o baterista acaba de lançar um outro álbum, ”This Is Not A Jazz Record”, em
que apresenta uma curiosa exploração de música eletrônica dancefloor, no qual
tocou e gravou todos os instrumentos. Antes, havia lançado na Robalo Music Free
Celebration (2024), no qual celebrou não apenas a música de três figuras
inescapáveis da história do jazz — Thelonious Monk, Herbie Nichols e Ornette
Coleman — como também a liberdade para interpelar criativamente a riqueza
destes legados de forma descomplexada e sem balizas estilísticas. Mais atrás
fora a vez de títulos inescapáveis como “Safe In Your Own World” e “Studio
Adventures”, ambos editados em 2022, “Unlimited Dreams”, de 2021, e “No Gravity”,
de 2000. Sendo a continuação natural do primeiro tomo lançado pelo projeto, “Parallel
Realities II” explora novas possibilidades, sem, contudo, perder um certo fio
condutor que sempre o tem guiado ao longo do seu rico e diversificado percurso.
«Tento que cada disco seja um conto, e este é mais um capítulo da minha
história, diferente dos outros, mas que mantém a identidade», explica João
Lencastre. «Em relação ao primeiro “Parallel Realities”, é uma continuação,
onde a exploração e a procura de diferentes cores e texturas prossegue em
termos de improvisação, apesar de haver algumas coisas escritas e alguma
direção.»
João Lencastre sentiu a necessidade de fazer um novo disco
com este grupo porque ficou satisfeito com a forma como soa o primeiro e, com
uma pandemia a interpor-se, não conseguiu apresentá-lo com pretendia. «Quando
tudo voltou à normalidade já era “old news”», refere. Lencastre escreveu alguns
temas e levou para estúdio algumas “realidades paralelas” que foram
experimentadas durante a sessão de gravação. A música em muito beneficiou dos
predicados dos membros da formação. «Para além de bons amigos, são todos
músicos incríveis, muito versáteis e com uma grande facilidade de improvisar e
adaptação a cada momento.» Não obstante o material escrito e as ideias que
trazia na cabeça, concedeu-lhes margem bastante para input criativo. O
som do grupo acomoda elementos orgânicos e eletrônicos, algo que lhe interessa
continuar a explorar. No que engendram coletivamente coabitam atmosferas
planantes e enigmáticas com outras mais energéticas e abrasivas. Desenvolvida
em várias camadas que se entrecruzam, a música da formação é ampla, não apenas
em termos sonoros, como também emocionais. «É isso que procuro em cada disco,
contar uma história que passe por diferentes ambientes, e que leve o ouvinte
numa viagem de diferentes emoções.» Na exploração daquilo a que chama o «não
óbvio», são muitos os detalhes que podem passar despercebidos numa primeira
audição, o que torna o álbum particularmente desafiante. Cada peça funciona
como uma experiência individual, com o seu caráter, permitindo que cada ouvinte
crie a sua própria narrativa e ligação emocional. Tema composto, “Flying To The
Unknown” vem envolto numa atmosfera misteriosa, desde logo marcada pelas notas
solenes do piano de Rodrigo Pinheiro, a que se juntam as eletrônicas
decisivamente discretas de Hasselberg, o saxofone multímodo de Cirera, a
guitarra abrasiva de Pedro Branco, a bateria irrequieta do líder. No final,
tudo coalesce para a ordem. De início sereno, mas inquietante, como se algo
estivesse na iminência de acontecer, “The Silence Between”, outra composição de
Lencastre, traz de novo uma camada eletrônica que é interpelada pela bateria e
pelo piano e, adiante, pelo saxofone. A massa sonora rarefeita permite, como o
título deixava antever, que o silêncio se imiscua por entre as notas, sendo
parte decisiva no que se escuta. Uma das peças centrais do álbum é “The Weight
Of Nothing/The Weight Of Sound” na qual mergulhamos num mar sonoro etéreo,
interpelado apenas por pequenos sons, por vezes de proveniência incerta ou
ignota. O que aqui se escuta é tão importante como o inaudível. A dado momento
instala-se um diálogo entre guitarra e bateria, banhado em eletricidade, que
acumula tensão, sublinhada pelo piano, até tudo se esvair num tênue fio de som,
como que num retomar das condições pristinas. “Triggered” é uma peça de teor
esdruxulamente camerístico, turbilhão de sons, catarse coletiva. Tudo acalma na
mais enigmática “Imagination Is Free”, outra peça composta pelo baterista, em
que avulta a relojoaria minuciosa; Cirera tece no soprano um belíssimo fio
melódico e Lencastre espanta pela contenção ou, melhor dito, pela contensão, no
sentido de concentração mental, no esforço de manter foco. “Reality Shifting” é
outro momento instável, que deixa o ouvinte no limbo da expetativa do que vai
acontecer. A triangulação saxofone-piano-bateria explora várias possibilidades,
sempre com extrema atenção aos detalhes. “Time Fracture” começa com as
percussões etéreas de Lencastre a que se juntam outros sons como que saídos de
uma caixa de música alienígena, seja o piano minucioso, as ruminações
exploratórias do saxofone ou a guitarra planante. “Echoes From The Past” é
sucinto epílogo, que embaralha e volta a dar sem que nada fique como dantes.
Faixas
1.Flying
To The Unknown 05:32
2.The
Silence Between 05:34
3.The Weight
of Nothing/ The Weight Of Sound 12:39
4.Triggered
03:48
5.Imagination
Is Free 05:15
6.Reality
Shifting 04:40
7.Time
Fracture 06:53
8.Echoes
From The Past 01:24
Músicos: João Lencastre— bateria e percussão eletrônica; Albert Cirera— saxofones tenor e soprano; Rodrigo Pinheiro— piano; Pedro Branco— guitarra; João Hasselberg— baixo elétrico e eletrônicas.
Fonte: António Branco (jazz.pt)






