Paralelamente à intriga e à inovação da música, o jazz é uma
história de reorganização política e econômica. Nos Estados Unidos, desde os
tempos do swing, do bebop e, eventualmente, do free jazz, a história é
repetidamente a dos músicos contra as gravadoras, as casas de shows e os
financiadores que buscam controlar tanto seus salários quanto seu
desenvolvimento artístico. Esta arte, amada e respeitada globalmente, também
está manchada pelos legados de marginalização, mercantilização implacável e
negligência socioeconômica, inclusive de seus maiores luminares. Devido a essa
história vergonhosa (e presente imutável), é essencial que os devotos do gênero
prestem muita atenção às tentativas de libertação do jugo do comercialismo
desenfreado, por mais raras e muitas vezes clandestinas que sejam.
Na Bélgica, o Festival de Música Livre do WIM (Workshop for
Improvising Musicians) caiu no esquecimento da história do jazz, mas nem por
isso deixa de ser espetacular. Fundado em 1975 por Fred Van Hove, Cel
Overberghe, André Goudbeek e Ivo Vander Borght, o Festival de Música Livre foi
realizado anualmente até 1988, atraindo tanto músicos locais de free jazz
quanto público internacional. O festival não tinha vínculos com gravadoras,
editoras ou organizadores além dos próprios artistas. As bandas se apresentaram
nas ruas rústicas de Antuérpia, em praças, parques públicos e outros espaços da
região metropolitana. Sem casas de concerto, sem restaurantes, sem bares,
apenas plateias perplexas seguindo com suas rotinas diárias, agredidas pelos
trinados ásperos do acordeão de Van Hove, pelo trompete estrondoso de Kris
Vinck ou pelo grasnido corrosivo do saxofone alto de Goudbeek. Van Hove e sua
banda inventaram uma música que não podia ser dissociada dos intérpretes, da
cidade, nem mesmo do momento exato em que era tocada. Uma música imune ao
vampirismo ganancioso dos produtores. Infelizmente, isso também significa que
os ouvintes atuais tiveram um conjunto muito limitado de gravações para aguçar
seu apetite, até agora. Remasterizado a partir de fitas promocionais raras,
impressas para uma revista belga de artes e cultura, WIM FANFARE oferece um
vislumbre inestimável da revolução local do grupo, incluindo uma apresentação
da formação original da banda em 1975.
Cada faixa tem cheiro de rua. O acordeão estridente e
expressionista, dedilhado entre baquetas metálicas, tem gosto de queijo coalho
encharcado e bolinhos fritos oleosos. Os sons lascivos de Goudbeek lembram a
aspereza terrosa dos slogans do vendedor. É difícil confundir o incorrigível
vai e vem entre a soprano de Herman Paessens e uma série de tenores e
contraltos em "Gutcha" com algo além de uma pequena briga espontânea,
que irrompe de algum contratempo sem nome em um boulevard.
As apresentações oscilam entre o ridículo e o carnavalesco,
e ao perceberem essa linha tênue, a ultrapassam com entusiasmo. Marchas,
ragtimes, jigs (NT: Designa uma dança folclórica rápida
e animada, típica da Irlanda e da Escócia [conhecida no Brasil como
"jiga"], ou a música tocada para essa dança), polcas e muito
mais, tudo representado com igual fervor. Toda a história da música folclórica
do século XX é encenada, em parte uma procissão grandiosa, em parte uma farsa
maluca. As órbitas do sublime e do grosseiro são representadas muito próximas,
as duas colidindo e se misturando como meteoros, que se dirigem para a Terra. Nada
é sagrado, ou talvez tudo seja. Os penhascos gêmeos, profundos e profanos,
encarando o mesmo abismo insano.
Os concertos da WIM nascem das ruas e, naturalmente,
absorvem os diversos sinais e nuances que a vida urbana produz. Eles estão
longe de ser os primeiros a fazer isso. Porém, os músicos não agem como
papagaios, não se dignam a imitar essas cenas, o que frequentemente as reduz a
uma zombaria. Não é a tradução que eles buscam, mas a "coisa" em si. Se
a linha de bateria sincopada lembra o golpe controlado de um açougueiro
flamengo, ou se o som estridente do trompete de Richard Cuvillier evoca a
risada nasal de um velho camponês, isso não se deve a uma interpretação
errônea, mas sim à integração. Os músicos tocam com a mesma humildade de um
tocador de realejo solitário ou de um artista de rua errante. Eles tocam como
se seus concertos fossem partes naturais da vida na cidade, porque em Antuérpia,
eles realmente eram. Hoje, o nome de Van Hove está tão indissociavelmente
ligado à cidade quanto o de Peter Paul Rubens, e por que não? Há evidências de
sua sonoridade (e, por extensão, da WIM) em cada esquina e em cada praça
pública. A verdadeira revolução do grupo foi justamente esta: libertar o
artista da tirania de seus senhores e devolvê-lo ao povo e às comunidades que
formaram sua identidade. Não há nenhum disco este ano que valorize tanto o mau
cheiro da vida.
Faixas: Prijs
75; Wrijloop; FM 84; Leer Mij Zingen; Gutcha; Piket; FM 88.
Músicos Fred Van Hove (acordeom); Cel Overberghe (saxofone);
André Goudbeek (saxofone alto); Ivo Vander Borght (percussão)
Fonte: Fran
Kursztejn (AllAboutJazz)
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