Há algo fascinante na maneira como Maria Schneider conta uma
história. Seu álbum premiado de 2020, “Data Lords”, alertava para um mundo
sendo dominado pela tecnologia e pelo big
data. Foi de tirar o fôlego, repleto de composições inspiradas e talento
musical excepcional. “Data Lords “ganhou o prêmio de Álbum do Ano da DownBeat
tanto na votação dos leitores quanto na dos críticos em 2021, e Schneider foi
nomeada Compositor e Arranjador do Ano. A Orquestra Maria Schneider também foi
nomeada Grupo Musical de Grande Porte do Ano. A obra mais recente de Schneider,
“American Crow”, serve como uma extensão de “Data Lords”. É um EP com duração
aproximada de 30 minutos, com duas versões da faixa-título, e vale cada minuto
de audição.
“American Crow” é uma composição que oferece uma mistura
fascinante de cacofonia e silêncio, demonstrando "a toxicidade do nosso
discurso social atual, que se degenerou em um nó impenetrável de raiva
controlada", como afirma Schneider na "narrativa visual" que
acompanha a obra no YouTube. Este “vídeo”, uma bela peça de filmografia, começa
com uma citação do filósofo antigo Epicteto: “Temos dois ouvidos e uma boca
para que possamos ouvir o dobro do que falamos”, algo que parece uma arte
perdida. E essa é a verdadeira essência da visão de Schneider. Ela pede que a
ouçam, compreendam e cuidem dela. Por meio de sua música, ela nos convida à
união. Ela é uma força unificadora.
“American Crow” começa com força total desde o primeiro
tempo, a banda tocando alto, a seção de trompetes imitando o grasnar dos corvos.
A partir deste caos — e, aliás, até o caos soa belo nas mãos de Schneider — o
clima da música se transforma em um lamento meditativo, com o comovente
trabalho de trompete de Mike Rodriguez. Schneider, assim como seus ídolos
anteriores, domina a arte de compor para cada um dos membros de sua banda,
todos presentes no grupo há quase toda a sua trajetória de três décadas. Neste
caso, é Rodriguez quem desfruta do papel de destaque. E sua interpretação,
carregada de emoção, é simplesmente devastadora.
À medida que a peça se desenvolve, a orquestra aumenta
gradualmente a intensidade. Saxofones estridentes aqui, trompetes ali,
trombones reverberando lá embaixo. Johnathan Blake conduz a música na bateria.
Então a melodia vai se acalmando aos poucos, quase como
pássaros num fio tagarelando, enquanto o trompete plangente de Rodriguez ressoa
por cima. Os trombones ocasionalmente emitem um som grave e rouco. E então, o
fim. Silêncio.
Além das duas versões de “American Crow”, o EP inclui outra
faixa fantástica, uma regravação de “A World Lost” do “Data Lords”, mas em um
estilo bem diferente, mais ao estilo Americana, característico do ”American
Crow”. Esta peça serve como destaque para o guitarrista Jeff Miles. E é
simplesmente arrasador. Julien Labro evoca um zumbido melancólico de acordeão,
sobre o qual Miles brilha com bom gosto, melodia e audácia nos momentos certos.
A música também conta brevemente com uma bela contribuição do piano de Gary
Versace.
A embalagem também é primorosa. A arte da capa do álbum é
muito legal, encomendada por Aaron Horkey, que é da cidade natal de Schneider,
Windom, Minnesota. Vale muito a pena assistir ao vídeo.
A única coisa melhor do que ouvir este EP é ouvir a música
ao vivo. Schneider tem apresentado a peça em seus shows recentes. Foi um dos
pontos altos da apresentação da orquestra no último feriado do Labor Day
Weekend (Dia do Trabalho), no Festival de Jazz de Detroit. Um bônus
adicional foi observar o quanto ela e os membros de sua banda gostavam de tocar
música.
A Maria Schneider Orchestra é uma das maiores alegrias do
jazz atual. "American
Crow" é a prova disso.
Faixas
1 American
Crow – Mike Rodriguez, trumpet
2 A
World Lost – Jeff Miles, guitar
3 field
recording: American Crow vocalizations
4 American Crow Revisited (tomada alternativa) Composições
de Maria Schneider
Músicos: Instrumentos de Palhetas: Steve Wilson, Dave Pietro, Rich Perry, John Ellis, Scott Robinson; Trompetes:Tony Kadleck, Greg Gisbert, NadjeNoordhuis, Mike Rodriguez;
Trombones:Keith
O’Quinn, Ryan Keberle, Marshall Gilkes, George Flynn; Acordeão: Julien Labro; Guitarra:
Jeff Miles; Piano: Gary Versace; Baixo: Jay Anderson; Bateria: Johnathan Blake.
Para conhecer um pouco deste trabalho, assistam ao vídeo abaixo:






