2025 foi mais um ano rico para Luís Vicente. Trompetista
extraordinário, improvisador de múltiplos recursos, Vicente tem sido também um
dinamizador de diversos projetos e grupos, estabelecendo múltiplas ligações
internacionais. Neste ano, Vicente não parou: andou em tour com John Edwards e
Vasco Trilla, atuou em duo com músicos como Brad Jones, Karoline Leblanc,
Mostafa Anwar, Helena Espvall, Olie Brice, John Hughes e Marina Dzuklijev;
atuou num quarteto com João Carreiro, Joke Lanz, Alfred Vogel; integrou o novo
projeto GRIOT 3000; e o seu projeto Luís Vicente Trio (com Gonçalo Almeida e
Pedro Melo Alves) atuou no Jazz em Agosto, num importante marco de
reconhecimento; e que «reafirmou o lugar do jazz português como território de
invenção, liberdade e comunhão», conforme escrevemos na reportagem (e o grupo
acaba de sair de estúdio, tendo acabado de gravar o seu terceiro registro). Por
toda esta atividade, o trompetista foi distinguido como “músico do ano” nos
melhores do ano da jazz.pt.
Este ano foi também marcado por quatro importantes edições
da sua lavra. No solo “Live In Coimbra (ed. Combustão Lenta)”, gravado no Museu
Nacional de Machado de Castro, o trompetista exibe uma ampla versatilidade de
recursos e ideias, constituindo um «testemunho maior da arte de Luís Vicente
enquanto emocionante contador de histórias» — palavras de António Branco, na
crítica ao disco. Ghost Strata foi o regresso aos discos do duo com o
percussionista Vasco Trilla, uma parceria que já tem vários anos; e essa
parceria foi expandida no trio com o veterano contrabaixista inglês John
Edwards, que editou “Choreography Of Fractures (com selo da polaca Fundacja
Słuchaj”).
Outro momento importante no percurso do trompetista foi o
regresso às edições do seu quarteto luso-americano. Para este grupo, o
português teve a ousadia de convocar uma das mais sólidas duplas rítmicas do
jazz contemporâneo: o contrabaixista William Parker e o percussionista Hamid
Drake; a dupla começou por tocar junta no quarteto Die Like a Dog, de Peter
Brotzmann, e desde então formou uma aliança que tem atravessado décadas. O quarteto
completa-se com John Dikeman, saxofonista norte-americano residente nos Países
Baixos, que já tinha estabelecido um trio com Parker e Drake. Com o
trompetista, o quarteto estreou nas edições em 2020, com “Goes without saying,
but it's got to be said (com selo da JACC Records)”, e a sequência discográfica
chegou no final de 2025 com “No Kings!” (novamente edição JACC).
O disco é o registro de uma atuação do quarteto ao vivo, em
julho de 2022, no BIMHUIS em Amesterdam. Consiste numa faixa única, de 68 minutos,
onde se documenta o processo de desenvolvimento criativo do grupo, sem cortes
nem edições. O grupo arranca nervoso, em exploração, até que o saxofone começa
por anunciar ideias, sendo contrastado pelo trompete, enquanto a dupla
Parker/Drake estabelece uma acesa tapeçaria rítmica.
Desde logo, o trabalho percussivo de Hamid Drake é central.
O percussionista norte-americano teve, aliás, no ano de 2025, várias ligações a
Portugal: teve honras de abertura do festival Jazz em Agosto com o Heart Trio,
com Cooper-Moore e Parker; estreou um trio com Ava Mendoza e Brad Jones
(atuaram em Lisboa na ZDB e no Julho é de Jazz em Braga); e estreou um duo com
Luís Vicente, atuando no Amadora Jazz. Drake trata de alimentar esta música,
assente em pujança rítmica, num trabalho que é pontualmente complementado com
percussões de matriz africana. O outro esteio é o contrabaixo de William
Parker, «um dos mais influentes líderes espirituais da liberdade no jazz», como
descreveu Rodrigo Amado no jornal Público. Com Drake, Parker entrelaça-se na
marcação rítmica; e, para lá do pizzicato, usa também o arco, além de se servir
de outros instrumentos, como o guimbri e flautas.
O saxofone de Dikeman assume a linha da frente e,
frequentemente, puxa a carroça, lançando fraseados enérgicos; e também se
articula em diálogo aceso com o trompete. Aqui o foco de Vicente está no
discurso e no diálogo, contribuindo para o desenvolvimento e estrutura do tema;
além de trabalhar a exploração instrumento (mais evidente no recente disco a
solo), e complementar com o pontual uso de sinos e flauta. Às erupções do
tenor, o trompete responde com assertividade; Vicente e Dikeman formam uma
dupla pujante de sopros, que não só se complementam como se contrastam.
Na tradição do free jazz, na linha ayleriana, esta é uma
música feita de ondas, entre a exploração e encontro de terreno comum, com os
músicos entre o diálogo e a tensão; e, da procura, vão construindo formas
melódicas, que evoluem e se dissipam. Se o título evoca as manifestações anti-Trump
/ anti-autoritarismo, que reuniram milhões de pessoas, essa ideia também se
reflete na própria música: livremente improvisada, sem líderes, a música flui,
desenvolvida democraticamente com contribuições de todos os elementos, coerente
e poderosa.
Músicos: Luís Vicente— trompete, flauta de bambu, sinos; John
Dikeman— saxofone tenor; William Parker— contrabaixo, guimbri, gralla, flautas
de madeira; Hamid Drake— bateria, percussão, voz
Fonte: Nuno Catarino (jazz.pt)


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