Dracaena draco L., conhecida pelo nome comum de dragoeiro ou
sangue-de-dragão, é uma espécie de plantas com flor originária da região
biogeográfica atlântica da Macaronésia, onde é nativa dos arquipélagos das
Canárias, Madeira e Açores, ocorrendo localmente na costa africana vizinha e em
Cabo Verde, com abundâncias variáveis. O dragoeiro pode viver centenas de anos,
produzindo plantas arborescentes de grandes dimensões. Apesar de comum e muito
apreciado como planta ornamental nos jardins daqueles arquipélagos, o dragoeiro
encontra-se em perigo no estado selvagem devido à destruição do seu habitat.
Este breve introito botânico diz também algo sobre o sexteto formado por Tomás
Noronha no saxofone alto, Guilherme Fradinho no saxofone tenor, Henrique Pinto
no trompete, Duarte Ventura no vibrafone, Emanuel Inácio no contrabaixo e
Francisco Coelho na bateria, que acaba de lançar o seu registro de estreia, homônimo.
O álbum tem a chancela da Timbre Melro Preto, braço editorial da Associação de
Jazz da Madeira – Melro Preto, dirigida pelos irmãos Francisco e Alexandre
Andrade. (De notar que Pinto, Noronha, Inácio e Coelho são membros de provas
dadas na Orquestra de Jazz do Funchal, que ainda este ano escutamos a
interpretar composições de Maria Schneider, que dirigiu a big band) A
formação foi criada em Lisboa por aqueles seis jovens, todos alunos da Escola
Superior de Música de Lisboa, metade dos quais madeirenses (Noronha, Inácio e
Coelho). É, desde logo, de assinalar e louvar o fato de, para além de
preparados instrumentistas, todos são compositores, revelando o modo
igualitário como gerem a formação. Mas os motivos de interesse não ficam por
aqui: a configuração instrumental e a geometria variável da formação — existem
temas em trio, quarteto, quinteto e sexteto — permitem rasgar o horizonte de
possibilidades, quer no plano das estruturas composicionais, quer ao nível das
improvisações individuais. A gênese do grupo está diretamente relacionada com a
oportunidade de poder tocar na edição de 2025 do Funchal Jazz Festival,
importante evento dirigido com conhecimento e rigor por Paulo Barbosa (antigo
colaborador da jazz.pt). Mas ainda antes desse concerto, aquela associação
madeirense cedeu ao grupo um apoio por parte da Secretaria Regional de Turismo
e Cultura, o qual acabou por viabilizar a gravação do álbum com composições
originais. «Começamos por nos reunir meses antes na casa do vibrafonista
[Duarte Ventura], para ouvirmos música durante horas, partilharmos aquilo que
podiam ser as nossas referências e apontarmos aspectos musicais que podiam ser
relevantes», começa por referir Henrique Pinto à jazz.pt. Ato contínuo, foram
marcadas várias sessões onde experimentavam composições: «alterámos imensa
coisa sobre cada tema, para que tudo pudesse fazer sentido no panorama geral do
disco.» O grupo busca uma abordagem própria, partido das convenções do género para
logo em seguida as desafiar. «Claro que o chamado “jazz tradicional” é uma
referência e uma base para nós», admite Henrique Pinto. «Todos temos grandes
referências dos mestres do jazz e de quem começou a tradição, mas tal como eles
que tocavam música do tempo deles, acho que nós deveríamos e temos liberdade
para fazer o mesmo e tocar música de hoje.» Nessa busca por uma identidade
própria, os próprios acabaram por ser surpreendidos. «Talvez seja interessante
porque nem mesmo nós sabíamos se as composições iam soar esteticamente
parecidas entre si; a única coisa que pensámos foi compor para esta formação
sem ter nenhum tipo de referência antecedente, até porque é uma formação não
muito usual», sublinha o trompetista. O resultado final acabou por satisfazer os
seis músicos: «todos os temas conseguem ter o ADN do compositor e fazer parte
do timbre “dracaena”.» Ressalta claro que o sexteto logra uma proposta fresca e
interessante, equilibrando as partes escritas e estruturadas com solos que são
tentam ser o oposto, pela liberdade de escolherem um determinado rumo.
Dracaena Draco é constituído por oito peças, da autoria, já se disse, de todos os membros do sexteto: Francisco Coelho, Guilherme Fradinho, Tomás Noronha e Henrique Pinto (uma cada); Emanuel Inácio e Duarte Ventura (duas cada). Na peça inaugural, “Gnomo”, da autoria do baterista, fica desde logo patente a elegância da escrita e a amplitude estética. O sexteto surge dividido em vários ensembles em simultâneo e de forma faseada; os sopros, por exemplo, apresentam-se completamente atonais entrelaçando vividamente as suas linhas sobre uma base rígida da seção rítmica e, durante os solos, um trio de saxofones e bateria e um segundo trio dos restantes elementos. Nota para o belo solo de trompete, temperado com discrição por contrabaixo e vibrafone. Em “Camacha”, a primeira das peças saídas da pena do contrabaixista, inspirado pela beleza das montanhas e das zonas altas da Madeira, somos envolvidos por um manto de serenidade com o saxofone a conduzir a linha melódica, depois com o trompete, num diálogo que se desenvolve paulatinamente até se dissipar. Original do saxofonista Guilherme Fradinho, “Pitanga” (fruto habitual naquelas paragens) é uma viagem sonora evocativa das pequenas aventuras do autor por toda a ilha — de tentativas frustradas de aterragem no difícil Aeroporto de Santa Catarina, a viajar a bordo do célebre “Lobo Marinho” (navio que desde 2003 faz a carreira regular entre as ilhas da Madeira e de Porto Santo), passando pela volta à ilha da Madeira, com tanto para descobrir. A peça traz de novo o trompete de Henrique Pinto para a frente, com a bateria irrequieta a fornecer adequada propulsão. O saxofone tenor de Guilherme Fradinho solta-se num solo chamejante; a massa rítmica torna-se mais compacta. Francisco Coelho assina um bom solo, focado e sem acrobacias espúrias. A peça fecha em modo vivaz. “Abril”, peça de Tomás Noronha para trio (o núcleo-base do sexteto, constituído pelos três madeirenses, que já se apresenta há vários anos), assume contornos mais abertos, com o saxofone alto na frente do que acontece, tergiversando com elegância e suportado por uma base rítmica que ferve em lume brando. O contrabaixista assina intervenção digna de nota. A composição assinada pelo trompetista, “Volta”, é uma balada de tons clássicos, em jeito de homenagem a um grupo de amigos seus («Volta era o nome de uma música que nós ouvíamos com bastante frequência até se tornar um ícone do grupo de forma irónica», confessa o músico). O trompete desenha uma melodia que o vibrafone de Duarte Ventura interpela com elegância. A segunda peça do contrabaixista incluída no álbum é “Serpentine”, uma manobra de fuga à sua zona de conforto, concedendo aos demais amplos espaços de manobra. O início é sussurrado, com vibrafone e saxofone a instalarem uma atmosfera tranquila; os uníssonos entre saxofone e trompete injetam energia e dinamismo coletivos na massa sonora da qual se elevam excelentes solos de Ventura e Fradinho. No caminho para o ocaso a peça ganha uma luz muito especial. Para o final, duas peças da autoria de Duarte Ventura: “P.S. Quer Dizer Ponta do Sol” foi escrita na casa onde o grupo estava alojado em formato residência artística naquela localidade madeirense; curta e serena, aparentemente simples, mas a que o uso do arco no vibrafone e no prato aporta uma nova camada tímbrica. Serve de antecâmara para “Isto Só Pode Mesmo Ser”, segmentada em três secções ligadas por improvisações. Parte de um motivo exposto e mantido pelo contrabaixista que alimenta um animado groove de que se soltam solos de saxofone alto, trompete e vibrafone; a narrativa segue animada ao longo das diferentes secções da composição, até que a formação se reagrupa para um final colorido. Dracaena Draco é um sexteto que nos oferece um álbum de estreia surpreendente, reiterada demonstração, se necessária fosse, da enorme qualidade de uma nova geração de jovens músicos de jazz. Haja esperança neste mundo a enegrecer.
Músicos: Tomás Noronha— saxofone alto; Guilherme Fradinho—
saxofone tenor; Henrique Pinto— trompete; Duarte Ventura— vibrafone; Emanuel
Inácio— contrabaixo; Francisco Coelho— bateria.
Fonte: António Branco (jazz.pt)
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