Medrando nas áreas difusas de interseção entre o jazz, o
rock, a improvisação, mais ou menos livre, e o noise, os Led Bib são uma
das bandas mais reconhecidas do Reino Unido. Ao longo de uma trajetória de mais
de duas décadas, o agora quarteto — após a saída do tecladista Toby McLaren,
peça fundamental desde a fundação do grupo — tem combinado todos estes
ingredientes, em diferentes proporções, para engendrar um universo próprio e
distinto. Formados em 2003 pelo baterista e compositor norte-americano Mark
Holub, na Universidade de Middlesex, norte de Londres, os Led Bib já editaram
uma dúzia de álbuns (entre gravações de estúdio e ao vivo) e fizeram digressões
internacionais, tendo sido nomeado para o Mercury Prize por “Sensible Shoes
(2009)”. A energia visceral patente nos primeiros álbuns, como “Arboretum (2005)”
e “Sizewell Tea (2007)”, deu progressivamente lugar às arquiteturas sônicas
multiformes que escutamos em “Bring Your Own (2011)” — altura em que passaram
por Lisboa, para atuarem na edição de 2012 do Jazz em Agosto — e “The People In
Your Neighbourhood (2014”), às experimentações vocais de “It’s Morning (2019”)
e à reinvenção (quase) total operada em “Hotel Pupik”, editado pela Cuneiform.
O grupo incorpora agora um componente melódico mais marcado, sem abdicar da
inventividade e da propensão para arriscar novas soluções. Não nos esqueçamos
que o local onde o grupo foi criado fica a uma curta distância de Canterbury,
epicentro de um braço do rock psicodélico e do jazz-rock a partir de meados da
fervilhante década de 1960, encabeçado por bandas como Soft Machine ou Hatfield
and the North. “Hotel Pupik” acaba por ser uma espécie de anomalia na
discografia dos Led Bib, embora as marcas essenciais do grupo se mantenham
intactas: os saxofones de Pete Grogan e Chris Williams, em permanente
interação, são duas faces de uma mesma moeda; o baixo de Liran Donin injeta um balanço
irrequieto e o baterista Mark Holub continua a mostrar o seu vocabulário amplo.
Após a partida de McLaren nem tudo correu bem para os Led Bib: os primeiros
concertos no novo formato instrumental foram problemáticos. «Não foram fáceis»,
admite Holub em entrevista de apresentação do novo álbum. «Acho que estávamos a
tentar tocar como um quarteto, mas da mesma forma que sempre tocamos. E parecia
que faltava alguma coisa.» O baterista observa ainda que os Led Bib
consideraram recrutar um novo membro, mas decidiram não mexer na química
existente entre os quatro músicos restantes e nos vínculos de cumplicidade
urdidos ao longo de tantos anos de trabalho conjunto. «Isso obrigou-nos a
repensar o que estávamos a fazer, de uma forma realmente positiva», explica
Holub. «Em que medida as escolhas que faço nos Led Bib, em termos sonoros, têm
a ver com as outras pessoas desta banda e com as nossas experiências em
conjunto, e em que medida têm a ver com o que eu próprio escolheria? Por isso,
de certa forma, fazer este disco foi uma forma de imaginar que nunca tínhamos
tocado juntos antes. Para onde iríamos se começássemos de novo?» Estas
inquietações acabaram por ter uma resposta cabal em “Hotel Pupik”, o álbum. O
Hotel Pupik, o local, fica nas dependências de um castelo em ruínas nos
arredores de Scheifling, no coração da Áustria. Rodeado por colinas íngremes e
aninhado num bosque de árvores caducas, é um complexo de habitações e espaços
abertos, semelhantes a lofts; no verão, artistas são convidados a lá conduzirem
experiências, atraídos pela promessa de alojamento gratuito, paisagens
atraentes e um ambiente acolhedor. O ritmo tranquilo das sessões de gravação,
realizadas ao longo de uma semana, permitiu à formação explorar diferentes
caminhos e possibilidades. Apenas uma pequena parte do que foi gravado conhece
a luz do dia: os Led Bib moldaram as gravações escolhidas no que Holub chama,
com ênfase deliberada, de «um disco». «Estávamos a pensar em álbuns clássicos
de rock, como “The Dark Side of the Moon”, dos Pink Floyd», diz. «A pensar em
criar algo em que o álbum em si fosse uma história e, neste caso, considerando
realmente o formato LP de 20 minutos em cada lado», sublinha o baterista.
Mark Holub — a residir em Viena há vários anos — já tinha
sido artista residente no Hotel Pupik e concluiu que este poderia ser o lugar
ideal para lançar uma nova fase dos Led Bib com um álbum diferente. Depois de
discutir com a banda, prepararam uma candidatura junto do Arts Council England
e, para surpresa de todos, a mesma foi aceita. «A ideia», explica Holub, «era
passarmos uma semana apenas a tocar e realmente tentar reavaliar o tipo de
linguagem que estamos a usar. Obviamente, está ligado ao que fizemos antes; não
é completamente estranho ao catálogo», acrescenta o baterista. «Mas era
realmente uma questão de pensar: “Tínhamos 22, 23, 24 anos quando nos
conhecemos. Atualmente temos 44, 45, 46. O que faremos agora?”» A falta do tecladista
e as suas implicações no som da banda colocava-os perante diversos dilemas. «O
que faremos sem um tecladista?», perguntaram-se vezes sem conta. «Quando nos
separamos de uma namorada ou esposa ou o que quer que seja, de alguma forma
temos de reavaliar quem somos sem elas. É como se disséssemos: “Estamos juntos
há tanto tempo que a nossa identidade está intrinsecamente ligada a essa pessoa
ou, neste caso, à banda. Quem sou eu se não estiver com essa pessoa?» As
possibilidades para o rumo a seguir pelo quarteto eram, agora, virtualmente
infinitas. O que manter, o que mudar? «Não é improvisação livre, como a
improvisação livre com L maiúsculo, ou a improvisação de Derek Bailey», admite
Holub. «É improvisar dentro do mundo sonoro que os Led Bib ocupam. Mas não
havia muita estrutura no sentido de “É assim que esta música vai ser”. O
material anterior dos Led Bibera quase sempre sobre uma forma mais tradicional
de trabalhar o jazz: tema, solos, tema. Era isso que costumávamos fazer, e os
solos eram sempre livres, mas de alguma forma relacionados com o que tínhamos
tocado antes.» Embora algumas coisas que tocaram nas sessões de preparação de “Hotel
Pupik” tenham seguido esse modus operandi, o que acabou por ficar no disco não
é, em termos gerais, assim. A vertente composicional é agora mais marcada, o
que acabou por surpreender o próprio grupo. Na inicial “Iron Ore”, da autoria
do baixista, a bateria logo imprime um ritmo maquinal; os saxofones
apresentam-se em bloco e o baixo elétrico vinca uma linha repetitiva, qual fio
de Ariadne para uma peça em que o grupo declara ao que vem, ligando as pontas
de um jazz mais aventureiro à intensidade do rock. “A Tin Teardrop”, de Holub,
é mais atmosférica, com o tenor a desenhar uma bela melodia; o barítono entra
na conversa, de melodia e contramelodia, parada e resposta. Evoluindo em crescendo,
com a dupla rítmica a puxar vigorosamente a música para a frente, sem que o
cômputo perca elegância. Noturna e solene, “Dawn Chorus” joga-se no limiar do
silêncio. “Transient Weaving” começa por
envolver-nos numa nuvem de mistério que paulatinamente se dissipa e se
transforma num ambiente quase festivo. “Pure O” começa em modo contemplativo e
segue por caminhos mais angulares, de um camerismo esdrúxulo, feito de agudos
afiados. Do tema que dá título ao álbum, improvisação coletiva criada no último
dia da residência, avultam as espirais de som saídas do saxofone alto,
hipnotizantes; a dupla rítmica aquece e sustenta as deambulações cruzadas dos
dois sopradores. A dado momento tudo serena e os saxofones perseveram no
diálogo, mas aqui num registro totalmente diferente. A peça segue até final por
caminhos mais frágeis (atente-se nos detalhes que o baterista propõe), com um
breve solo de baixo a culminar. “Till Next Time” é sucinto e esperançoso
epílogo que se dilui no silêncio. No estado em que está o nosso mundo, que haja
uma próxima vez.
Faixas
1.Iron
Ore 03:52
2.A Tin
Teardrop 07:24
3.Dawn
Chorus 04:08
4.Transient
Weaving 05:30
5.Pure O
05:31
6.Hotel
Pupik 12:21
7.Till
Next Time 03:25
Músicos: Pete Grogan— saxofones; Chris Williams— saxofones, efeitos; Liran Donin— baixo elétrico, efeitos; Mark Holub— bateria.






