Michael Formanek volta a confirmar aquilo que os seus
últimos discos já evidenciavam: no jazz, as partes organizadas e escritas, não
têm que ser diferentes ou contrastar com as improvisadas; nem a improvisação é
um gesto de ruptura com a forma. Em “New Digs”, o seu mais recente disco
editado pela Intakt, o contrabaixista e compositor estadunidense propõe uma
música em que a escrita e a improvisação fazem parte de um todo coerente e
orgânico; e em que a escrita abre espaço para a improvisação e esta, por sua vez,
devolve à escrita mudança e ventilação. O resultado é um disco muito sólido e
muito poroso.
Há, desde os primeiros segundos, um elemento encantador: o
som deste septeto. O grupo do contrabaixista para este disco criou um som muito
próprio. O grupo não soa como uma extensão do Thumbscrew, embora convoque
inevitavelmente essa memória de rigor estrutural e liberdade controlada. Aqui a
paleta é outra, mais larga e mais estratificada, em grande medida graças à
presença do órgão Hammond de Alexander Hawkins, à seção de metais (que apesar
de ser só um trio é encorpada com o B3 e a guitarra deslizante como um trombone
agudo). O resultado é um som quente, denso, mas com luminosidade.
Para além da escrita de Formanek e da instrumentação do
septeto, Alexander Hawkins é um dos grandes responsáveis por esta identidade do
disco. O seu instrumento não surge como citação de um idiomatismo hard-bop
(Jimmy Smith, Lonnie Smith ou Larry Young): toca sem vestígios da soul music,
mas a essência permaneceu, como se fosse uma versão contemporânea desta ideia.
Toca de um modo abstrato, levando o Hammond para locais onde ainda não tinha
ido. Elástico, por vezes textural, dá a todos os solos dos elementos do grupo
uma base dinâmica. Mas também encorpa a secção de metais, aumentando a
profundidade harmônica.
A guitarra de Mary Halvorson é o segundo elemento que dá
originalidade ao som e à música do grupo. O seu fraseado, com aquela mobilidade
escorregadia, tão característica, dialoga de forma notável com o Hammond.
Juntos criam um som oblíquo, em que a solidez melódica nunca afasta uma
sensação de desvio iminente.
A música é densa, mas não pesada; complexa, mas não afetada;
organizada, mas liberta.
Do outro lado dessa textura mais ampla está a secção de
metais, relativamente reduzida em número, mas de enorme poder (até porque, como
já referimos, passa a quinteto facilmente sem perder a sonoridade dos metais).
John O’Gallagher, Chet Doxas e João Almeida são articuladores e distribuem o
jogo: chamam o grupo às formas organizadas. Dão as frases melódicas e disparam
em solos. O’Gallagher, em particular, destaca-se pela intensidade. Doxas
alterna entre saxofone tenor e clarinete, acrescentando diversidade tímbrica.
João Almeida, por sua vez, afirma-se com uma forma de tocar simples e concisa,
quase o oposto de O’Gallagher que traz o saxofone referencial americano. O trio
de sopros, embora compacto, soa maior do que é, precisamente porque está sempre
enquadrado por uma escrita que lhe multiplica funções.
Essa é, aliás, uma das dimensões centrais de “New Digs”: a
relação entre escrita e improvisação que tem a virtude de se manter
estruturalmente firme sem impor uma rigidez de engenharia. Estabelece zonas de
densidade, propõe contrastes, cria pontos de mudança. O texto musical contém,
em potência, caminhos possíveis de transformação; o grupo é guiado, mas ao
mesmo tempo guia, porque quando chega a esses momentos conjuntos, pode ir para
destinos que não estavam no mapa inicia. Quando a próximo momento escrito chega,
encaixa nos novos planos, na zona para onde a música se deslocou.
Poder-se-ia dizer que há aqui uma espécie de arquitetura das
casas palafíticas do Tejo: os pilares existem, são sólidos mas não parecem. O
ouvinte não os ouve como elementos de suporte, mas escuta sobretudo a sua
função de resposta a um contexto natural, suficientemente permeável para a
deixar passar água e vento, sons e silêncios. Nas casas das aldeias palafitas
do tejo, o essencial está na relação entre elevação, estabilidade e adaptação
ao terreno.
“New Digs” é um disco muito consistente e destacável na obra
de compositor e bandleader de Michael Formanek. Música que parte de um
pensamento sobre forma e som do grupo, intelectual, mas acessível a todos, que
revela calor humano e muito saber musical.
Confirma-o como um dos compositores mais inteligentes,
elegantes e exigentes do jazz contemporâneo. Música flutuante e com peso, com
memória e imaginação.
E há ainda uma camada suplementar de significado que não
resisto a referir: “New Digs”, novas explorações, novas descobertas, novos
lugares, novas moradas. Este é o primeiro álbum de Formanek depois da sua
mudança de armas e bagagens para Portugal. O grupo foi estreado em Guimarães.
Foi gravado em Ponte do Rol, Torres Vedras, a terra que adotou para viver e se
estabelecer. Tocar na minha aparelhagem, em Lisboa, em repeat.
Uma nota post scriptum sobre a qualidade gráfica da capa.
Formanek, Tim Berne e outros têm contribuído sobremaneira para que a suiça
Intakt atualize a sua linguagem gráfica desinteressante e elementar, um dos
pontos fracos desta editora fortíssima.
Faixas
1.New Old
World 11:32
2.Prequel
06:09
3.It Was
05:14
4.For My
Consideration 06:49
5.aka the
Stinger 07:31
6.Gone Home
/ Interlude for Susan Alcorn 09:14
7.Braxes 04:41
8.Quinze 09:58
9.Nigh Total 04:43
Músicos: Michael Formanek— contrabaixo; John O'Gallager—
saxofone alto; Chet Doxas— saxofone tenor, clarinete; João Almeida— trompete; Mary
Halvorson— guitarra; Alexander Hawkins— Órgão Hammond B3; Tomas Fujiwara—
bateria.
Fonte: Gonçalo Falcão (jazz.pt)






