Art Hirahara é um dos pianistas mais requisitados do jazz
contemporâneo, aparecendo em inúmeras gravações, enquanto constrói uma carreira
solo impressionante. Com “Peace Unknown”, ele continua sua prolífica parceria
com a Posi-Tone Records, com um grupo profundamente pessoal e expansivo
que traz nova vida a composições anteriores ao mesmo tempo que introduz novo
material ousado. Enquadrado em um robusto conjunto de quatro instrumentos, o
álbum se apresenta como uma reflexão sobre o passado e uma declaração artística
voltada para o futuro, combinando elegantemente a expressividade lírica com a
ousadia estrutural.
Originalmente concebido pelo produtor Marc Free durante uma
semana agitada de sessões, o projeto aproveita o impressionante grupo de
músicos da Posi-Tone para montar uma banda dos sonhos. Apesar da
admissão de Hirahara de que a semana de gravação o deixou um pouco
"desanimado", o resultado é tudo menos desconexo. Este é um álbum
cheio de sinergia, com arranjos que elevam a escrita de Hirahara ao terreno
cinematográfico.
A faixa título, "Peace Unknown", dá o tom com um
lamento assombroso e suspenso no tempo, revisitando uma peça originalmente
escrita em 2002 como uma resposta ao conflito israelense-palestino. Inspirada
na trilha sonora de Ennio Morricone para Cinema Paradiso, esta versão se
inclina para a ambiguidade emocional de seu título, oferecendo uma meditação em
vez de uma resolução.
Hirahara desperta diversos estados de ânimo no set.
"Anonima", sua ode aos apoiadores anônimos do jazz, ecoando
Thelonious Monk em espírito e gesto, com Michael Dease entregando um solo de
trombone espirituoso e referencial. "Irons In The Fire", escrito às
pressas entre as tomadas, fala sobre o caos criativo do estúdio. No entanto,
nunca é evidente a precisão e o equilíbrio da performance. Os músicos dão vida
a cada toque da forma composicional de Hirahara.
O arranjo de "Drawing With Light" de Diego Rivera
acrescenta ternura e contraste, enquanto o "Brooklyn Express" pulsa
com a energia cinética do trem D, que vai de Coney Island ao Bronx. Hirahara
descreve isto como sua "tábua de salvação para viajar entre Brooklyn e
Manhattan", e isso se torna sua versão figurativa de "Take the 'A'
Train", de Duke Ellington. Rivera reinventa este espírito através das
lentes do jazz moderno, capturando o movimento e o mistério das viagens
urbanas. "The More Things Change", ouvida pela primeira vez no álbum
“First Things First (Posi-Tone 2022)” do baixista Boris Kozlov, tem um suíngue
forte graças à poderosa parceria rítmica de Kozlov e do baterista Rudy Royston.
Três das músicas foram originalmente apresentadas no
lançamento de 2015 do Positone de Hirahara, “Libations and Medtations”.
"Father's Song" inclina-se para a introspecção, escrita em memória do
pai de Hirahara, brilhando com reverência discreta. "The Looking
Glass" traz o capricho literário para o grupo, com Patrick Cornelius
criando uma narrativa solo que ecoa a lógica imprevisível do conto clássico de
Lewis Carroll. Finalmente, "Two Cubes", um contrafato espirituoso de
"What Is This Thing Called Love?", que libera toda a força do
conjunto, especialmente Royston, que quase rouba a cena com um solo de bateria feérico.
Hirahara mais uma vez prova ser um mestre da melodia, do
humor e da forma. É um disco que fala suavemente, às vezes, mas nunca sem
propósito. Mesmo nos seus momentos mais contemplativos, nunca perde o sentido
de direção. Este é um jazz com coração, inteligência e balanço em igual medida,
guiando os ouvintes, com graça e propósito, para aquele espaço de “Peace
Unknown (NT: Paz
Desconhecida)”.
Faixas: Peace
Unknown; Anonima; Irons In The Fire; The More Things Change; Drawing With
Light; Brooklyn Express; The Looking Glass; Father's Song; Two Cubes.
Músicos:
Art Hirahara (piano); Alex Sipiagin (trompete); Diego Rivera (saxofone tenor);
Patrick Cornelius (saxofone alto); Michael Dease (trombone); Boris Kozlov
(baixo acústico); Rudy Royston (bateria); Markus Howell (saxofone alto).
Fonte: Kyle
Simpler (AllAboutJazz)

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