O jazz da Europa Oriental é frequentemente negligenciado,
mas há descobertas notáveis a serem feitas como o trio Broodmen. O álbum de
estreia deles, “Secondary Emotions”, data de 2017 (Produção Independente). “Liminality”,
embora siga os passos de seu antecessor, se desenrola como a trilha sonora de
um filme de autor. O som do Broodmen carrega as marcas distintas de sua herança
cultural, ao mesmo tempo que abraça uma estética pós-moderna que coloca o grupo
na vanguarda da expressão criativa europeia contemporânea. Enraizado na
infância compartilhada em Novi Sad, Sérvia, o som do Broodmen bebe de uma rica
gama de influências, combinando perfeitamente as melodias melancólicas, porém
comoventes, do acordeão com a abertura do jazz moderno e a energia bruta do
rock 'n' roll.
No verão de 2021, Dragan Alimpijević Pik e Zoltán Simon se
uniram para uma marcante sessão de gravação ao vivo no Studio Road, na Sérvia. Entre
as cinco faixas gravadas, estava uma composição com o renomado acordeonista
Lazar Novkov, cuja arte introduziu uma nova e profunda dimensão ao som do
Broodmen. Esse encontro fortuito fez com que Novkov se tornasse parte
integrante do processo criativo da banda, contribuindo para as composições que
mais tarde dariam origem a “Liminality”. Para quem conhece bem a música
contemporânea da Europa Oriental, torna-se imediatamente evidente que Broodmen
é incomparável. Sua abordagem à composição e arranjo musical evoca imagens
vívidas, criando paisagens sonoras inteiras ricas em profundidade evocativa.
Gravado em uma única sessão contínua, o álbum captura a
beleza fugaz do acaso e da intuição, imergindo os ouvintes em um mundo onde a
racionalidade cede lugar à emoção. Os Broodmen descrevem este álbum como uma
jornada para o desconhecido, uma exploração desinibida de sua voz coletiva. Como
eles mesmos disseram, "É uma estrada que leva ao desconhecido. Um caminho
onde exploramos as emoções escondidas sob a superfície da razão". É uma
tentativa de deixar para trás o conhecimento e a experiência, adentrando, em
vez disso, em um território novo e desconhecido". Estas palavras poderiam
facilmente ter sido escritas por um autor como Paul Auster, pois qualquer
escritor que fecha o caderno na última linha de um romance ou ensaio,
experimenta a mesma sensação: a de saber que fechar aquela porta
inevitavelmente o levará, mais cedo ou mais tarde, ao vasto desconhecido de uma
nova criação artística.
Os Broodmen possuem o raro dom de compor sua música como
quem escreve um livro, e não é surpresa que suas canções evoquem imagens tão
marcantes. Sem dúvida, a força motriz por trás de sua criação é o poder de sua
imaginação coletiva. Esse fenômeno é comum entre os maiores grupos de jazz — do
Weather Report ao Branford Marsalis Quartet e ao Yellowjackets. É a mesma força
unificadora, uma linguagem compartilhada entre os músicos, que define um estilo
singular e inconfundível. Vamos concluir com as palavras dos próprios Broodmen:
"É isso que somos — Broodmen — e, se vocês nos perguntarem, essa é a
expressão mais honesta de nós mesmos. Um álbum tão singular quanto cativante,
“Liminality” dos Broodmen é imperdível.
Faixas: Homeland;
State of Things; Amsterdam; Lament; Can’t Stand the Heat; Badalamenti Gore;
Through the Woods; Still Standing; Rumenka Blues; Everything’s Going to Be
Alright.
Músicos: Dragan Alimpijević Pik (guitarra); Zoltán Simon
(bateria): Lazar Novkov (acordeão); Vasa Vučković (saxofone na faixa 3).
Fonte: Thierry De Clemensat (AllAboutJazz)

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