Durante o final de ano dela no planeta, Hermeto Pascoal preencheu
seu caderno com chorinhos e outras ofertas musicais para Ilza da Silva Pascoal,
sua esposa por 46 anos (1954-2000). Vinte e quatro anos depois de sua morte, o
grande feiticeiro brasileiro da música universal nos presenteia com 13 músicas
preciosas de seu caderno Ilza em forma de gravação, o encantador e comovente “Pra
Você, Ilza”. Nas notas para o álbum, ele escreve sobre ela no presente: "Nosso
amor, nosso espírito, nossa alma permanecem juntas. Tudo continua se
desenrolando".
"Seus lindos olhos" (Your lovely eyes) e "Pra
você, Ilza" (For you, Ilza) dirige-se a ela diretamente. A maioria das
peças são denominadas por locais específicos e memorias associadas a eles:
"Recordações de Recife" (Souvenirs of Recife), "Sol de
Recife" (Recife sun), "Do Rio para Recife" (From Rio to Recife),
"Porto da Madeira" (Port of Madeira), "No topo do morro de
Aracajú" (On top of Aracajú hill), "Na feira do Jabour" (At the
Jabour fair), "Voltando para casa" (Returning home). Poucos títulos
apontam para momentos privados, como "Inspirando fundo" (Breathing
deeply), "Sentir é muito bom" (Feeling is very good), "Passeando
pelo jardim" (Strolling in the garden), "Conversação"
(Conversation).
Tal como acontece com suas encarnações anteriores, o grupo
de Pascoal é um caso de família com estórias compartilhadas e modos quase
telepáticos de comunicação que acompanham esse território. O baixista Itiberê
Zwarg, que é o centro de música distintamente descentralizada de Pascoal, está
com ele desde 1977. Na bateria está seu filho, Ajurinã Zwarg, tocando confortável
e vigorosamente, que vem com o nascimento no idioma. O percussionista Fabio
Pascoal —filho de Hermeto e Ilza— corresponde à graça e habilidade de seu primo
musical, enquanto ele balança e toca os vários instrumentos na mesa de
percussão. O seriamente inventivo André Marques está com a banda desde o meado
dos anos 1990, assumindo a cadeira do piano deixada vaga por Jovino Santos
Neto, que mudou para Seattle, Washington em 1993. Jota P Barbosa (conhecido
como Jota P.), o maravilhoso piccolo e instrumentos de palhetas, atuou com o
grupo em todo o mundo. Todo mundo canta e se mantém admiravelmente em
percussão, flautas e diversos objetos musicais encontrados ou fabricados.
"No topo do morro de Aracajú" dá um vislumbre sobre
espírito alegre e o virtuosismo geral da situação. A faixa inicia com um som de
uma porta rangendo, abrindo-se para o passado, pode-se supor. O grupo salta no
modo scat a todo vapor, fazendo uso fluente da linguagem musical
singular de Pascoal com suas sílabas e sintaxe idiossincráticas. Não é preciso
conhecer o idioma para saber que os músicos estão claramente em comunicação.
Instrumentos convencionais unem-se às vozes em uma chamada e resposta, animando
ainda mais as circunstâncias. A cena fervorosa continua até que um rangido
final sinaliza que a porta está fechando, após o ouvinte ter viajado pelo espaço-tempo
com a banda por pouco menos de três minutos.
De maneira igualmente excêntrica, "Voltando para Casa"
inicia com aerofones infantis tocando baião, soando como insetos musicais. Os
insetos se transformam magicamente em músicos quando o flautim e outros
instrumentos “reais” entram juntos, maiores que a vida. Pascoal oferece um solo
de voz de aerofone que lembra suas composições "som da aura", que
definem enunciados de palavras faladas. Ele vira o processo de cabeça para
baixo, improvisando uma melodia semelhante a uma fala cheia de tons
indeterminados, mas sem texto. O som suave de Jota P. no piccolo empresta uma
doce despreocupação ao ethos, algo que ele também transmite no saxofone soprano
nas melodias onduladas de "Inspirando fundo", outra bela faixa.
A gravação foi feita no estúdio Rocinante em Petrópolis, Rio
de Janeiro, a pouco mais de uma hora de Jabour, onde Pascoal e Ilza (e membros do
Grupo) viveram por muitos anos, onde Ilza preparava a lendária feijoada e festas
para amigos e familiares aos domingos, que observava a banda interpretando as
músicas, que eles aprenderam durante a semana. Pascoal entrou no estúdio com os
arranjos básicos de melodias e acordes do caderno, ditando seus arranjos
individualmente no local. Não houve pontuações escritas.
"Quando eu cheguei no estúdio, tudo se abriu para me
deixar tocar minha música", Pascoal escreve. "Eu vi o céu na terra
fazendo esse trabalho. É um trabalho que é um presente para todos vocês, de
todos nós aqui. Este foi nosso presente. Para quem quiser e para a eterna
patroa, Dona Ilza." Prá Você, Ilza” é plena de coração, um trabalho de
amor com performances de muitas camadas dadas em terno tributo a uma vida
frutífera e um longo casamento.
Faixas: Passeando pelo jardim; Conversação; Porto da
Madeira; Do Rio para Recife; Seus lindos olhos; Inspirando fundo; Voltando para
casa; Pra você, Ilza; Recordações de Recife; Sentir é muito bom; Na feira do
Jabour; Sol de Recife; No topo do morro de Aracajú.
Músicos: Hermeto Pascoal (piano, acordeão, melódica,
teclados, flautas, percussão, voz); Itiberê Zwarg (baixo,voz); Ajurinã Zwarg
(bateria, percussão, voz); André Marques (piano, teclados, percussão, voz);
Jota P Barbosa (saxofone, flautas,percussão,voz); Fábio Pascoal
(percussão,voz).
Fonte: Katchie
Cartwright (AllAboutJazz)

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