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domingo, 25 de janeiro de 2026

HERMETO PASCOAL & GRUPO - PRÁ VOCÊ, ILZA (Rocinante Records)

Durante o final de ano dela no planeta, Hermeto Pascoal preencheu seu caderno com chorinhos e outras ofertas musicais para Ilza da Silva Pascoal, sua esposa por 46 anos (1954-2000). Vinte e quatro anos depois de sua morte, o grande feiticeiro brasileiro da música universal nos presenteia com 13 músicas preciosas de seu caderno Ilza em forma de gravação, o encantador e comovente “Pra Você, Ilza”. Nas notas para o álbum, ele escreve sobre ela no presente: "Nosso amor, nosso espírito, nossa alma permanecem juntas. Tudo continua se desenrolando".

"Seus lindos olhos" (Your lovely eyes) e "Pra você, Ilza" (For you, Ilza) dirige-se a ela diretamente. A maioria das peças são denominadas por locais específicos e memorias associadas a eles: "Recordações de Recife" (Souvenirs of Recife), "Sol de Recife" (Recife sun), "Do Rio para Recife" (From Rio to Recife), "Porto da Madeira" (Port of Madeira), "No topo do morro de Aracajú" (On top of Aracajú hill), "Na feira do Jabour" (At the Jabour fair), "Voltando para casa" (Returning home). Poucos títulos apontam para momentos privados, como "Inspirando fundo" (Breathing deeply), "Sentir é muito bom" (Feeling is very good), "Passeando pelo jardim" (Strolling in the garden), "Conversação" (Conversation).

Tal como acontece com suas encarnações anteriores, o grupo de Pascoal é um caso de família com estórias compartilhadas e modos quase telepáticos de comunicação que acompanham esse território. O baixista Itiberê Zwarg, que é o centro de música distintamente descentralizada de Pascoal, está com ele desde 1977. Na bateria está seu filho, Ajurinã Zwarg, tocando confortável e vigorosamente, que vem com o nascimento no idioma. O percussionista Fabio Pascoal —filho de Hermeto e Ilza— corresponde à graça e habilidade de seu primo musical, enquanto ele balança e toca os vários instrumentos na mesa de percussão. O seriamente inventivo André Marques está com a banda desde o meado dos anos 1990, assumindo a cadeira do piano deixada vaga por Jovino Santos Neto, que mudou para Seattle, Washington em 1993. Jota P Barbosa (conhecido como Jota P.), o maravilhoso piccolo e instrumentos de palhetas, atuou com o grupo em todo o mundo. Todo mundo canta e se mantém admiravelmente em percussão, flautas e diversos objetos musicais encontrados ou fabricados.

"No topo do morro de Aracajú" dá um vislumbre sobre espírito alegre e o virtuosismo geral da situação. A faixa inicia com um som de uma porta rangendo, abrindo-se para o passado, pode-se supor. O grupo salta no modo scat a todo vapor, fazendo uso fluente da linguagem musical singular de Pascoal com suas sílabas e sintaxe idiossincráticas. Não é preciso conhecer o idioma para saber que os músicos estão claramente em comunicação. Instrumentos convencionais unem-se às vozes em uma chamada e resposta, animando ainda mais as circunstâncias. A cena fervorosa continua até que um rangido final sinaliza que a porta está fechando, após o ouvinte ter viajado pelo espaço-tempo com a banda por pouco menos de três minutos.

De maneira igualmente excêntrica, "Voltando para Casa" inicia com aerofones infantis tocando baião, soando como insetos musicais. Os insetos se transformam magicamente em músicos quando o flautim e outros instrumentos “reais” entram juntos, maiores que a vida. Pascoal oferece um solo de voz de aerofone que lembra suas composições "som da aura", que definem enunciados de palavras faladas. Ele vira o processo de cabeça para baixo, improvisando uma melodia semelhante a uma fala cheia de tons indeterminados, mas sem texto. O som suave de Jota P. no piccolo empresta uma doce despreocupação ao ethos, algo que ele também transmite no saxofone soprano nas melodias onduladas de "Inspirando fundo", outra bela faixa.

A gravação foi feita no estúdio Rocinante em Petrópolis, Rio de Janeiro, a pouco mais de uma hora de Jabour, onde Pascoal e Ilza (e membros do Grupo) viveram por muitos anos, onde Ilza preparava a lendária feijoada e festas para amigos e familiares aos domingos, que observava a banda interpretando as músicas, que eles aprenderam durante a semana. Pascoal entrou no estúdio com os arranjos básicos de melodias e acordes do caderno, ditando seus arranjos individualmente no local. Não houve pontuações escritas.

"Quando eu cheguei no estúdio, tudo se abriu para me deixar tocar minha música", Pascoal escreve. "Eu vi o céu na terra fazendo esse trabalho. É um trabalho que é um presente para todos vocês, de todos nós aqui. Este foi nosso presente. Para quem quiser e para a eterna patroa, Dona Ilza." Prá Você, Ilza” é plena de coração, um trabalho de amor com performances de muitas camadas dadas em terno tributo a uma vida frutífera e um longo casamento.

Faixas: Passeando pelo jardim; Conversação; Porto da Madeira; Do Rio para Recife; Seus lindos olhos; Inspirando fundo; Voltando para casa; Pra você, Ilza; Recordações de Recife; Sentir é muito bom; Na feira do Jabour; Sol de Recife; No topo do morro de Aracajú.

Músicos: Hermeto Pascoal (piano, acordeão, melódica, teclados, flautas, percussão, voz); Itiberê Zwarg (baixo,voz); Ajurinã Zwarg (bateria, percussão, voz); André Marques (piano, teclados, percussão, voz); Jota P Barbosa (saxofone, flautas,percussão,voz); Fábio Pascoal (percussão,voz).

Fonte: Katchie Cartwright (AllAboutJazz) 

 

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