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sábado, 31 de janeiro de 2026

MOTIAN & MORE – GRATITUDE (Phonogram Unit)

«Muitas vezes, quando estamos a tocar, não faço ideia do que vou fazer. Vou pelo que estou a sentir e pelo que estou a ouvir. Os sons excitam-me», disse, certa vez, o mestre Paul Motian (1931-2011). Inspirado no riquíssimo legado do baterista e compositor nascido na Filadélfia e crescido em Rhode Island, o contrabaixista Hernâni Faustino (nascido em 1964) criou o projeto Motian & More, que acaba de lançar o álbum de estreia, “Gratitude”, com selo da Phonogram Unit. «Paul Motian é uma referência, não apenas como instrumentista, mas como compositor; felizmente deixou vasta obra», começa por dizer o músico à jazz.pt. O objetivo é ir muito além do perímetro restrito de uma banda de tributo, assumindo-se o projeto como um veículo para explorações e releituras. A improvisação tem um peso bastante importante neste quarteto, que se completa com o saxofonista José Lencastre, o guitarrista Pedro Branco e o baterista João Sousa. «Para mim, não fazia sentido fazer deste quarteto uma tribute band», explica Faustino. «As melodias são o ponto de partida para podermos tocar esta música com a nossa identidade e depois poder improvisar e trazer o nosso DNA.» A música de Paul Motian está presente na vida de Hernâni Faustino há muito tempo. «Comecei a ouvi-lo no trio de Bill Evans com Scott LaFaro e depois com Keith Jarrett e Paul Bley», conta. Mas a grande revelação aconteceu com a escuta dos discos para a ECM de Manfred Eicher, “Dance”, de 1978, e “Le Voyage”, do ano seguinte, ambos com o saxofonista Charles Brackeen e com os contrabaixistas David Izenzon (“Dance”) e Jean-François Jenny-Clark (“Le Voyage”). Faustino elabora sobre o fascínio causado por ambas as gravações: «A música destes discos é introspetiva e abstrata, bastante cativante, e depois a interação do trio é fantástica com Motian mais percussionista do que baterista». O trio com o saxofonista Joe Lovano e o guitarrista Bill Frisell desenvolveu uma música ainda mais sonhadora, lírica e fluida. Menciona também o álbum “Psalm” – em quinteto com Lovano e Billy Drewes nos saxofones, Frisell na guitarra e Ed Schuller no contrabaixo («um excelente disco que juntamente com o álbum “Misterioso”, editado pela Soul Note, ouvi vezes sem conta») –, os Tethered Moon (com o pianista Masabumi Kikuchi e o contrabaixista Gary Peacock), o trio de Kikuchi na ECM, “Sunrise”, com Thomas Morgan no contrabaixo («um exercício na forma de tocar música misteriosa») e “Nothing Ever Was, Anyway: Music of Annette Peacock”, com a pianista Marilyn Crispell e Peacock no contrabaixo. Hernâni Faustino olha assim para “Gratitude” como um álbum «sem paralelo» no seu longo percurso. «Existiu aqui um processo diferente, embora tudo tenha sido muito espontâneo e natural», refere. «O enquadramento deste trabalho acaba por ser bastante enriquecedor e é também uma forma de poder tocar com estes três músicos incríveis e que muito admiro.» A ideia para este quarteto começou a germinar após o contrabaixista ter sido convidado para tocar com os Old Mountain, projeto de Pedro Branco e João Sousa. «Todos somos grandes admiradores de Paul Motian e um dia fez-se o clique na minha cabeça», recorda Faustino. José Lencastre, amigo de longa data, com quem já tocou em diferentes projetos e formações (Nau Quartet, “Manifesto”, com a recentemente desaparecida Susan Alcorn, “Riffs”, “Forces in Motion”), também partilha o amor pela música do baterista: «A escolha era óbvia!» Só conseguia pensar nestes três cúmplices: «a interação da banda é fantástica e bastante ativa, sempre atenta no processo da escuta.» O contrabaixista enaltece a musicalidade e a abertura do grupo: «nunca abordamos os temas da mesma forma, existem imensas variantes e depois os temas saem de forma natural, como se fosse também a nossa música e na verdade acho que assim é.»

“Gratitude” – gravado ao vivo em dois concertos na Sociedade Musical União Paredense (SMUP), em junho de 2022, e no BOTA, em Lisboa, no início de março de 2023 – gravita em torno das composições de Paul Motian e também do tema "Misterioso”, emblema de Thelonious Monk. «Escolhi os melhores takes de cada concerto e depois foi tratar de toda a burocracia com os direitos de autor, que foi um processo demorado e que acabou por atrasar a edição deste disco.» Faustino assumiu a escolha dos temas, com a concordância de todos. Abordar criativamente a música de mestres do jazz, evitando práticas emulativas, é missão tão espinhosa quanto gratificante. «A “tradição” do jazz foi a vanguarda de outros tempos!», sublinha o contrabaixista. «O jazz tem aquela vertente individualista e personalizada que acho que nenhum outro estilo de música tem.» E graceja:  «Talvez esteja a exagerar... só mesmo os mais “maluquinhos” consigam vibrar com um inédito do Coltrane ou do Rollins!» “Misterioso”, tema escolhido para o quarteto instalar o seu som e musicalidade no início dos concertos, abre o programa em modo sereno, com a guitarra à volta do sempre reconhecível motivo central, interpelando-o, contrabaixo carnudo, bateria exemplar na contenção. O saxofone também pega no tema para o transportar para outros territórios; a guitarra multímoda de Branco tergiversa até à breve reexposição final. Duas composições em forma de medley, “Dance/Abacus” mostram o quarteto no seu habitat, explorando de forma intensiva, mas abrindo espaço e dinâmicas para a improvisação. Introduzido pelo saxofone que deambula livre, a espaços flamejante, com o resto da banda a não se limitar a acompanhar, desenvolvendo ideias que se aproximam e afastam; guitarra e saxofone assumem natural protagonismo, revezam nos solos, com a dupla rítmica a ferver em lume alto. Numa passagem mais etérea, Faustino pega no arco e adita solenidade, a bateria joga com o silêncio, saxofone e guitarra sussurram. A atmosfera é tranquila; a interação entre os quatro músicos faz-se de modo profundo, urdindo pacientemente uma detalhada tapeçaria sónica. Pedro Branco mostra, se necessário fosse, a razão porque é um dos mais interessantes guitarristas nacionais. A formação une-se para uma seção final num crescendo ameno. “It Should’ve Happened a Long Time Ago” é a composição aqui incluída que mais revela o profundo lirismo da pena de Motian, com o mote a ser dado pelo contrabaixo, a que logo se juntam os demais instrumentos, numa conversa a quatro. A atmosfera serena e o saxofone de Lencastre perscruta a lindíssima melodia, o mesmo fazendo a guitarra planante de Branco, prevalecendo até ao fim. De início mais suingante, “Mandeville” revela os ziguezagues imprevisíveis do saxofone a ganharem dianteira, interpelados pela guitarra rugosa. A inesquecível melodia surge luminosa diante dos nossos ouvidos, garimpada à vez por saxofone e guitarra. A dupla rítmica faz muito mais do que apenas acompanhar, tudo culminando na forma de calipso do tema original. A fechar, a música fogosa de “White Magic”, com saxofone libérrimo (Lencastre a sublinhar a amplitude dos seus movimentos), guitarra abrasiva, propulsão rítmica a todo o gás. E seguimos numa máquina imparável até final de uma jornada surpreendente.

Faixas

1.Misterioso 07:03

2.Dance/Abacus 19:59

3.It Should've happened a long time ago 10:22

4.Mandeville 10:02

5.White Magic 06:02

 Músicos: José Lencastre— saxofone tenor; Pedro Branco— guitarra elétrica; Hernâni Faustino— contrabaixo; João Sousa— bateria.

Fonte: António Branco (jazz.pt)

 

 

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