Editado em 2023, o mais recente álbum de Ralph Alessi é um
verdadeiro tratado de virtuosismo instrumental no sentido mais profundo do
termo. De um ponto de vista técnico, Alessi é um dos mais impressionantes
trompetistas em atividade e, ao mesmo tempo, um músico revelador de uma calma e
contenção invulgares. Arrisco-me até a dizer: uma calma e contenção apenas ao
alcance dos maiores virtuosos. Por outras palavras, o seu domínio do
instrumento é tal que jamais sente a necessidade de o exibir para lá daquilo
que a própria música requer. Para os ouvintes mais atentos, esse domínio está,
em todo o caso, patente em qualquer intervenção sua, nomeadamente através do
seu extraordinário controle de som ou da sua articulação imaculada (De
salientar também o seu leque de efeitos trompetísticos, incluindo certos sons
acústicos que quase julgaríamos resultantes de manipulação electrónica), Isto
faz com que, na sua música, cada nota, cada gesto, adquira uma importância
acrescida: mesmo quando aparentemente mais simples, há nela todo um nível
adicional de elegância e sofisticação. É muito raro, por exemplo, ouvirmos um
quarteto de jazz, como este, prestar tamanha atenção às dinâmicas e explorar o
seu espectro mais silencioso com uma minúcia que mais comumente associaríamos a
um grupo de câmara dedicado a repertório de música dita clássica contemporânea.
Alessi formou este quarteto após a sua mudança para a Suíça,
em meados de 2020, sendo este o seu registo de estreia. No piano (o belíssimo
Fazioli do estúdio Artesuono, de Stefano Amerio), Florian Weber revela-se o
parceiro ideal, justamente por evidenciar todo o tipo de qualidades que
identificamos no trompetista: possuidor de uma técnica clássica excecional,
perceptível tanto através dos grandes como dos pequenos gestos, ouvimos nele
semelhante sobriedade. Em particular, as faixas em que se apresenta em duo com
Alessi – entre as quais três composições espontâneas – contam-se entre as
principais pérolas do álbum. Bänz Oester e Gerry Hemingway são também eles
verdadeiros mestres de contenção e, ao mesmo tempo, mais do que capazes de
atear fogo quando necessário. Com vasta experiência a tocar juntos,
nomeadamente no âmbito do WHO trio (cujo álbum “Less is More” é já um
clássico), revelam aqui uma química deveras especial, contribuindo em muito
para que, apesar de recém-constituído quando desta gravação, o quarteto soe já
como um genuíno grupo, inclusive em momentos de maior reboliço.
Não obstante as suas origens estadunidenses, a música de
Alessi sempre apresentou um forte pendor europeu, nomeadamente por via do seu
lirismo sóbrio – complementado por um sutil experimentalismo - e sentido de
espaço, assim como da sua abordagem clássica ao instrumento, assentando como
uma luva à estética da ECM. Em todo o caso, e embora este seja talvez o seu
álbum mais “europeu” até à data – uma evolução muito interessante face aos
anteriores registos dos seus grupos estadunidenses, o último dos quais o também
excelente “Imaginary Friends” (2019) –, julgo ser mais adequado tomá-lo como mais
um passo no sentido da destilação de um jazz próprio, que se afigura, em última
análise, verdadeiramente universal: do cool ao free, da referida ECM a
correntes nova-iorquinas contemporâneas, Alessi consegue sintetizar tudo isto
(e mais). Álbum de sutis contrastes, “It’s Always Now” é, pois, a ilustração
perfeita de que as tradições estadunidense e europeia se fazem sentir em ambos
os lados do Atlântico – justamente aquilo que, nas palavras de João Paulo
Esteves da Silva, «permite o paradoxo de os inventores do chamado “jazz
europeu” serem americanos: Ornette, Charles Lloyd, Jarrett, Braxton, etc.».
Faixas: "Hypnagogic",
"Old Baby", "Migratory Party","Residue",
"The Shadow Side", "It's Always Now", "Diagonal Lady",
"His Hopes, His Fears, His Tears", "Everything Mirrors
Everything", "Portion Control", "Ire", "Hanging
by a Thread", "Tumbleweed".
Músicos: Ralph Alessi— trompete; Florian Weber— piano; Bänz
Oester— contrabaixo; Gerry Hemingway — bateria.
Para conhecer um pouco deste trabalho, assistam ao vídeo
abaixo:
https://www.youtube.com/watch?v=WiMkL_8J6Is
Fonte: João Esteves da Silva (jazz.pt)

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