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terça-feira, 13 de janeiro de 2026

RALPH ALESSI QUARTET - IT’S ALWAYS NOW (ECM)

Editado em 2023, o mais recente álbum de Ralph Alessi é um verdadeiro tratado de virtuosismo instrumental no sentido mais profundo do termo. De um ponto de vista técnico, Alessi é um dos mais impressionantes trompetistas em atividade e, ao mesmo tempo, um músico revelador de uma calma e contenção invulgares. Arrisco-me até a dizer: uma calma e contenção apenas ao alcance dos maiores virtuosos. Por outras palavras, o seu domínio do instrumento é tal que jamais sente a necessidade de o exibir para lá daquilo que a própria música requer. Para os ouvintes mais atentos, esse domínio está, em todo o caso, patente em qualquer intervenção sua, nomeadamente através do seu extraordinário controle de som ou da sua articulação imaculada (De salientar também o seu leque de efeitos trompetísticos, incluindo certos sons acústicos que quase julgaríamos resultantes de manipulação electrónica), Isto faz com que, na sua música, cada nota, cada gesto, adquira uma importância acrescida: mesmo quando aparentemente mais simples, há nela todo um nível adicional de elegância e sofisticação. É muito raro, por exemplo, ouvirmos um quarteto de jazz, como este, prestar tamanha atenção às dinâmicas e explorar o seu espectro mais silencioso com uma minúcia que mais comumente associaríamos a um grupo de câmara dedicado a repertório de música dita clássica contemporânea.

Alessi formou este quarteto após a sua mudança para a Suíça, em meados de 2020, sendo este o seu registo de estreia. No piano (o belíssimo Fazioli do estúdio Artesuono, de Stefano Amerio), Florian Weber revela-se o parceiro ideal, justamente por evidenciar todo o tipo de qualidades que identificamos no trompetista: possuidor de uma técnica clássica excecional, perceptível tanto através dos grandes como dos pequenos gestos, ouvimos nele semelhante sobriedade. Em particular, as faixas em que se apresenta em duo com Alessi – entre as quais três composições espontâneas – contam-se entre as principais pérolas do álbum. Bänz Oester e Gerry Hemingway são também eles verdadeiros mestres de contenção e, ao mesmo tempo, mais do que capazes de atear fogo quando necessário. Com vasta experiência a tocar juntos, nomeadamente no âmbito do WHO trio (cujo álbum “Less is More” é já um clássico), revelam aqui uma química deveras especial, contribuindo em muito para que, apesar de recém-constituído quando desta gravação, o quarteto soe já como um genuíno grupo, inclusive em momentos de maior reboliço.

Não obstante as suas origens estadunidenses, a música de Alessi sempre apresentou um forte pendor europeu, nomeadamente por via do seu lirismo sóbrio – complementado por um sutil experimentalismo - e sentido de espaço, assim como da sua abordagem clássica ao instrumento, assentando como uma luva à estética da ECM. Em todo o caso, e embora este seja talvez o seu álbum mais “europeu” até à data – uma evolução muito interessante face aos anteriores registos dos seus grupos estadunidenses, o último dos quais o também excelente “Imaginary Friends” (2019) –, julgo ser mais adequado tomá-lo como mais um passo no sentido da destilação de um jazz próprio, que se afigura, em última análise, verdadeiramente universal: do cool ao free, da referida ECM a correntes nova-iorquinas contemporâneas, Alessi consegue sintetizar tudo isto (e mais). Álbum de sutis contrastes, “It’s Always Now” é, pois, a ilustração perfeita de que as tradições estadunidense e europeia se fazem sentir em ambos os lados do Atlântico – justamente aquilo que, nas palavras de João Paulo Esteves da Silva, «permite o paradoxo de os inventores do chamado “jazz europeu” serem americanos: Ornette, Charles Lloyd, Jarrett, Braxton, etc.».

Faixas: "Hypnagogic", "Old Baby", "Migratory Party","Residue", "The Shadow Side", "It's Always Now", "Diagonal Lady", "His Hopes, His Fears, His Tears", "Everything Mirrors Everything", "Portion Control", "Ire", "Hanging by a Thread", "Tumbleweed".

Músicos: Ralph Alessi— trompete; Florian Weber— piano; Bänz Oester— contrabaixo; Gerry Hemingway — bateria.

Para conhecer um pouco deste trabalho, assistam ao vídeo abaixo:

https://www.youtube.com/watch?v=WiMkL_8J6Is

Fonte: João Esteves da Silva (jazz.pt)

 

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