Radicado em Roterdam, Países Baixos, desde 2010, o
saxofonista alto Hugo Costa persevera num labor continuado, integrando a
relevante cena local (com extensão a Amesterdam) do jazz mais aventuroso e da
livre improvisação relacionada. Ao longo dos anos, tem vindo a repartir a sua
atividade por diversos projetos, avultando o poderoso trio Albatre – com o
contrabaixista e baixista Gonçalo Almeida e o baterista alemão Philipp Ernsting
–, no trio Garuda – com o contrabaixista Hernâni Faustino e o baterista João
Valinho – Anticlan – com Ernsting e o guitarrista de origem mexicana Josué
Amador –, Real Mensch – ao lado de Assi Weitz e Robert Gradisen –, no trio com
dois holandeses – Raoul van der Weide e Onno Govaert – que em 2022 editou “Land
Over Water” ou no duo com o mesmo Ernsting (“The Art of Crashing”, 2022). Costa
e Ernsting são assim músicos que se conhecem particularmente bem, com uma rica
história de colaboração em diferentes contextos e configurações instrumentais.
Os dois acrescentam agora um novo capítulo a essa história, convidando o
lendário contrabaixista norte-americano William Parker para se lhe juntar num
trio que, partindo das premissas da tradição free jazz, incorpora outros
elementos como a música africana e os blues, oferecendo-nos uma música
intransigente e intensa, emocional e direta. O mais especial acerca da música
que escutamos em “Puslar” – com selo da lituana NoBusiness – é a sua natureza
inquieta, de exploração de novas possibilidades, onde o processo criativo
desenrola-se bem diante dos nossos sentidos. Gravado numa sessão única
realizada em Roterdam, em meados de outubro de 2023, o trio adentra-se nas
potencialidades do trio “clássico” saxofone-contrabaixo-bateria, um formato
aberto e que permite, ao mesmo tempo, liberdade de movimentos e intimidade.
Todos estes fatores concorrem para que este álbum se constitua como um momento
particularmente marcante para o português: «“Pulsar” é um disco especial muito
pela oportunidade de tocar com o William», começa por dizer Hugo Costa à
jazz.pt. «Talvez seja diferente pelos elementos das diferentes tradições
musicais, como o blues e a música tradicional africana que o William traz para
a música».
Mas há outro nome fundamental para o sucesso de todo este
processo de acareação de vontades: Luís Vicente. Foi o trompetista, que já
trabalhara com Parker no quarteto com John Dikeman e Hamid Drake – cristalizado
no superlativo “Goes Without Saying, But It’s Got To Be Said”, gravado ao vivo
na Galeria Zé Dos Bois, em Lisboa, em julho de 2020, e editado pela JACC
Records – que mexeu os cordéis para que as esferas se alinhassem. «O Luís
Vicente informou-me que o William ia estar de visita a Roterdam e foi o Luís
quem nos pôs em contacto com ele. Eu fiz o convite para fazer uma sessão comigo
e com o Philipp», conta o saxofonista. Tocar e gravar com William Parker, um
dos mais respeitados e inovadores contrabaixistas do free jazz e da música
improvisada do nosso tempo, foi para o português «uma experiência única e
enriquecedora, um privilégio e um desafio tocar com um músico da sua estatura;
o som que ele tem no contrabaixo é enorme, complexo e a energia que ele passa
aos músicos é fantástica.» Hugo Costa
assume que Parker é uma das suas maiores referências: «na música improvisada
pela discografia que tem com todos os mestres da música improvisada, como
compositor nos seus projetos do qual sou fã absoluto, pela musicalidade,
tradição, inovação, virtuosismo no instrumento, pelo conhecimento profundo que
tem do free jazz e outras tradições musicais como a africana, indígena e clássica.»
Também para Philipp Ernsting «foi realmente uma honra jogar com o William – que
cavalheiro!» O baterista alemão reforça a importância desta experiência
tripartida: «o Hugo e o William são músicos tão inspiradores e motivadores que
é um verdadeiro prazer deixar a bateria fluir naturalmente com eles. Como toda
a música é livremente improvisada, confio muito nos meus ouvidos e no meu
estado de espírito para me ligar a estes dois músicos extraordinários.» A
música que escutamos em “Pulsar” tem secções marcadamente contrastantes, umas
mais fogosas e explosivas, outras mais delicadas e cheias de pormenores,
evoluindo natural e organicamente. Não há aqui hierarquias de qualquer tipo, os
três músicos vão-se escutando e reagindo, em jogos cruzados, desenvolvendo ideias
e contribuindo numa base equitativa para o som do trio. O saxofonista sublinha
a importância desse lado interativo para urdir as tapeçarias sônicas: «A
dinâmica entre o trio é baseada numa escuta ativa e atenta ao que os outros
estão a tocar as ideias são desenvolvidas de forma espontânea.» «Neste álbum o
William iniciou muitas dessas ideias através de balanço ou ritmos no
contrabaixo ou melodias nas flautas a partir daí transforma-se em diálogo com
os outros músicos», completa o saxofonista português.
É o contrabaixista quem lança o motivo – logo secundado pelo
baterista que pega nas vassouras para acrescentar uma camada subjacente – que
dá o mote para a peça de mais 22 minutos de duração que dá título ao álbum e
que é a sua abertura e centro nevrálgico. Tudo começa em regime de improvisação
coletiva, com Hugo Costa a entrar em cena e discursa focado e altivo,
desenvolvendo motivos melódicos, porém não se impondo em demasia, antes
admitindo que os outros instrumentos participem em pé de igualdade no que
acontece, nomeadamente o pulso forte de Parker. A música evolui, há um
telegráfico dueto entre contrabaixo e bateria. As interações entre os músicos
adquirem intensidade, o saxofone toca padrões melódicos indisciplinados e
cheios de emoção. A dado momento bateria e contrabaixo exploram texturas e
ritmos diferentes, juntando-se-lhes Costa com uma melodia angular. A peça
acalma e tudo é filigrana sônica, experimental e disruptiva. O baterista
surpreende pela forma como trata com cuidado os diferentes componentes do seu
kit, sinos, tom-toms, címbalos. Há uma sensação de suíngue, embora, para
Ernsting, pareça «que o trem nunca sai completamente da estação». No estertor
da peça, volta às vassouras, terminando a melodia com suavidade e coesão. “Fogo
em Escalada” abre também com o contrabaixo e um balanço ameno entre este e a
bateria, com Ersnting exímio no trabalho de címbalos. O saxofone adquire
protagonismo propondo uma melodia, deambulando sem amarras. A música ganha
abstração, com Costa a trazer notas com vibrato. Parker recorre novamente ao
arco com mestria, criando uma camada contrastante, e o baterista dá lição de
recato. A partir de certo instante a peça parece ganhar outra propulsão, mas é
falso alarme, retomando uma paisagem sonora mais vulnerável e frágil. Até que
tudo se torna mesmo mais intenso numa sessão final mais percussiva, energética
e emocional. “Words of Freedom” começa com as linhas do saxofone e da flauta de
madeira de Parker a cruzarem-se à velocidade da luz, ecos brötzmannianos, e a
dupla rítmica a não parar de nutrir a fogueira. A música vai acumulando energia
e volume. Mesmo quando é (muito) intensa nada nesta música surge em bruto ou
disforme; repare-se na delicadeza de certas passagens da bateria. Na sessão
final, William Parker muda de flauta e aporta muito mais do que exotismos, em
diálogo frutífero com o saxofone, com a bateria a tornar-se mais definida e sutil,
abrindo espaço para tudo se esvair num mágico fio de som.
Faixas
1.Pulsar 22:36
2.Fogo em Escalada 16:25
3.Words Of Freedom 10:32
Fonte: António Branco (jazz.pt)

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