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sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

WILLIAM PARKER / HUGO COSTA / PHILIPP ERNSTING – PULSAR (NoBusiness)

Radicado em Roterdam, Países Baixos, desde 2010, o saxofonista alto Hugo Costa persevera num labor continuado, integrando a relevante cena local (com extensão a Amesterdam) do jazz mais aventuroso e da livre improvisação relacionada. Ao longo dos anos, tem vindo a repartir a sua atividade por diversos projetos, avultando o poderoso trio Albatre – com o contrabaixista e baixista Gonçalo Almeida e o baterista alemão Philipp Ernsting –, no trio Garuda – com o contrabaixista Hernâni Faustino e o baterista João Valinho – Anticlan – com Ernsting e o guitarrista de origem mexicana Josué Amador –, Real Mensch – ao lado de Assi Weitz e Robert Gradisen –, no trio com dois holandeses – Raoul van der Weide e Onno Govaert – que em 2022 editou “Land Over Water” ou no duo com o mesmo Ernsting (“The Art of Crashing”, 2022). Costa e Ernsting são assim músicos que se conhecem particularmente bem, com uma rica história de colaboração em diferentes contextos e configurações instrumentais. Os dois acrescentam agora um novo capítulo a essa história, convidando o lendário contrabaixista norte-americano William Parker para se lhe juntar num trio que, partindo das premissas da tradição free jazz, incorpora outros elementos como a música africana e os blues, oferecendo-nos uma música intransigente e intensa, emocional e direta. O mais especial acerca da música que escutamos em “Puslar” – com selo da lituana NoBusiness – é a sua natureza inquieta, de exploração de novas possibilidades, onde o processo criativo desenrola-se bem diante dos nossos sentidos. Gravado numa sessão única realizada em Roterdam, em meados de outubro de 2023, o trio adentra-se nas potencialidades do trio “clássico” saxofone-contrabaixo-bateria, um formato aberto e que permite, ao mesmo tempo, liberdade de movimentos e intimidade. Todos estes fatores concorrem para que este álbum se constitua como um momento particularmente marcante para o português: «“Pulsar” é um disco especial muito pela oportunidade de tocar com o William», começa por dizer Hugo Costa à jazz.pt. «Talvez seja diferente pelos elementos das diferentes tradições musicais, como o blues e a música tradicional africana que o William traz para a música».

Mas há outro nome fundamental para o sucesso de todo este processo de acareação de vontades: Luís Vicente. Foi o trompetista, que já trabalhara com Parker no quarteto com John Dikeman e Hamid Drake – cristalizado no superlativo “Goes Without Saying, But It’s Got To Be Said”, gravado ao vivo na Galeria Zé Dos Bois, em Lisboa, em julho de 2020, e editado pela JACC Records – que mexeu os cordéis para que as esferas se alinhassem. «O Luís Vicente informou-me que o William ia estar de visita a Roterdam e foi o Luís quem nos pôs em contacto com ele. Eu fiz o convite para fazer uma sessão comigo e com o Philipp», conta o saxofonista. Tocar e gravar com William Parker, um dos mais respeitados e inovadores contrabaixistas do free jazz e da música improvisada do nosso tempo, foi para o português «uma experiência única e enriquecedora, um privilégio e um desafio tocar com um músico da sua estatura; o som que ele tem no contrabaixo é enorme, complexo e a energia que ele passa aos músicos é fantástica.»  Hugo Costa assume que Parker é uma das suas maiores referências: «na música improvisada pela discografia que tem com todos os mestres da música improvisada, como compositor nos seus projetos do qual sou fã absoluto, pela musicalidade, tradição, inovação, virtuosismo no instrumento, pelo conhecimento profundo que tem do free jazz e outras tradições musicais como a africana, indígena e clássica.» Também para Philipp Ernsting «foi realmente uma honra jogar com o William – que cavalheiro!» O baterista alemão reforça a importância desta experiência tripartida: «o Hugo e o William são músicos tão inspiradores e motivadores que é um verdadeiro prazer deixar a bateria fluir naturalmente com eles. Como toda a música é livremente improvisada, confio muito nos meus ouvidos e no meu estado de espírito para me ligar a estes dois músicos extraordinários.» A música que escutamos em “Pulsar” tem secções marcadamente contrastantes, umas mais fogosas e explosivas, outras mais delicadas e cheias de pormenores, evoluindo natural e organicamente. Não há aqui hierarquias de qualquer tipo, os três músicos vão-se escutando e reagindo, em jogos cruzados, desenvolvendo ideias e contribuindo numa base equitativa para o som do trio. O saxofonista sublinha a importância desse lado interativo para urdir as tapeçarias sônicas: «A dinâmica entre o trio é baseada numa escuta ativa e atenta ao que os outros estão a tocar as ideias são desenvolvidas de forma espontânea.» «Neste álbum o William iniciou muitas dessas ideias através de balanço ou ritmos no contrabaixo ou melodias nas flautas a partir daí transforma-se em diálogo com os outros músicos», completa o saxofonista português.

É o contrabaixista quem lança o motivo – logo secundado pelo baterista que pega nas vassouras para acrescentar uma camada subjacente – que dá o mote para a peça de mais 22 minutos de duração que dá título ao álbum e que é a sua abertura e centro nevrálgico. Tudo começa em regime de improvisação coletiva, com Hugo Costa a entrar em cena e discursa focado e altivo, desenvolvendo motivos melódicos, porém não se impondo em demasia, antes admitindo que os outros instrumentos participem em pé de igualdade no que acontece, nomeadamente o pulso forte de Parker. A música evolui, há um telegráfico dueto entre contrabaixo e bateria. As interações entre os músicos adquirem intensidade, o saxofone toca padrões melódicos indisciplinados e cheios de emoção. A dado momento bateria e contrabaixo exploram texturas e ritmos diferentes, juntando-se-lhes Costa com uma melodia angular. A peça acalma e tudo é filigrana sônica, experimental e disruptiva. O baterista surpreende pela forma como trata com cuidado os diferentes componentes do seu kit, sinos, tom-toms, címbalos. Há uma sensação de suíngue, embora, para Ernsting, pareça «que o trem nunca sai completamente da estação». No estertor da peça, volta às vassouras, terminando a melodia com suavidade e coesão. “Fogo em Escalada” abre também com o contrabaixo e um balanço ameno entre este e a bateria, com Ersnting exímio no trabalho de címbalos. O saxofone adquire protagonismo propondo uma melodia, deambulando sem amarras. A música ganha abstração, com Costa a trazer notas com vibrato. Parker recorre novamente ao arco com mestria, criando uma camada contrastante, e o baterista dá lição de recato. A partir de certo instante a peça parece ganhar outra propulsão, mas é falso alarme, retomando uma paisagem sonora mais vulnerável e frágil. Até que tudo se torna mesmo mais intenso numa sessão final mais percussiva, energética e emocional. “Words of Freedom” começa com as linhas do saxofone e da flauta de madeira de Parker a cruzarem-se à velocidade da luz, ecos brötzmannianos, e a dupla rítmica a não parar de nutrir a fogueira. A música vai acumulando energia e volume. Mesmo quando é (muito) intensa nada nesta música surge em bruto ou disforme; repare-se na delicadeza de certas passagens da bateria. Na sessão final, William Parker muda de flauta e aporta muito mais do que exotismos, em diálogo frutífero com o saxofone, com a bateria a tornar-se mais definida e sutil, abrindo espaço para tudo se esvair num mágico fio de som.

Faixas

1.Pulsar 22:36

2.Fogo em Escalada 16:25

3.Words Of Freedom 10:32

 Músicos: William Parker— contrabaixo, flautas; Hugo Costa— saxofone alto; Philipp Ernsting— bateria.

Fonte: António Branco (jazz.pt)

 

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