Uma das lendas subestimadas da vanguarda do jazz, a
tecladista Amina Claudine Myers está finalmente recebendo o reconhecimento que
merece. Membro pioneira da Association for the Advancement of Creative
Musicians (AACM) [Associação para o Avanço de Músicos Criativos] em meados
da década de 1960, seus esforços foram por vezes ofuscados por colegas de
renome como Muhal Richard Abrams, Lester Bowie ou Henry Threadgill. Mas os
últimos anos proporcionaram uma oportunidade para reavaliar sua posição no
cânone do jazz. Em 2024, Myers foi reconhecida como National Endowment for
the Arts Jazz Master e, em 2025, recebeu uma bolsa Mellon Jazz Legacies
Fellowship. O retorno às gravações ativas também acompanhou esses merecidos
elogios. Um dos destaques foi sua contribuição em 2024 com o trompetista Wadada
Leo Smith, no projeto “Central Park's Mosaics of Reservoir, Lake, Paths and
Gardens (Red Hook)”. E agora temos “Solace of the Mind”, um lançamento solo
encantador que dá a Myers, e aos seus ouvintes, a oportunidade de relembrar uma
carreira musical de várias décadas repleta de histórias.
Mesmo uma análise superficial da discografia de Myers revela
um espírito inquieto, igualmente à vontade em diversos estilos musicais. “Duet”,
seu álbum de 1981, lançado pela gravadora Black Saint com o também pianista e
fundador da AACM, Abrams, abriu espaço não apenas para animadas incursões de
vanguarda, mas também incluiu momentos emocionantes de gospel, ragtime e até
boogie-woogie. A influência da tradição da igreja negra sobre Myers sempre foi
evidente, com a inclusão liberal de cânticos espirituais em muitas de suas
gravações, particularmente em “Sama Rou”, um projeto lançado de forma independente
em 2016. E não há melhor exemplo do domínio da pianista sobre o blues do que em
seu álbum “Salutes Bessie Smith”, um trabalho magnífico que ajudou a lançar a
gravadora Leo Records em 1979. Ao longo de sua trajetória, as virtudes de Myers
como organista e vocalista também contribuíram para seu legado como uma força
multitalentosa dentro e fora do jazz.
Embora o domínio de Myers sobre seu instrumento tenha um
lado vigoroso (quem quiser comprovar, basta ouvir a estrondosa "Journey
Home as Seen Through the Fairness of Life" em Duet), o temperamento geral
de "Solace" é contemplativo, mais condizente com uma meditação
reflexiva do que com um exercício pianístico. Mesmo as obras mais abstratas,
como "Twilight" ou "Beneath the Sun", são contemplativas em
vez de deslumbrantes. Porém, isso permite uma apreciação mais completa do
lirismo intenso de Myers, que é mais eficaz quando menos adornado.
Diversas das faixas aqui presentes já haviam sido lançadas
anteriormente, permitindo a Myers a oportunidade de extrair a essência de cada
música de suas outras versões. A simplicidade resultante das faixas contribui
para a beleza da música. A faixa de abertura do álbum, "African
Blues", recebeu uma versão muito mais longa em Salutes Bessie Smith,
mas aqui ela é condensada em uma interpretação potente e majestosa, que destaca
a afinidade entre as formas musicais africanas e gospel. Em uma linha
semelhante está "Steal Away", o clássico spiritual, interpretado com
profunda sensibilidade e poder sutil. Esta versão de "Song for Mother
E", faixa-título de seu álbum de 1980, tem um toque mais impressionista,
sem deixar de incorporar as raízes gospel da canção.
Myers recorre ao órgão apenas uma vez aqui, mas esse momento
é significativo no álbum. Em "Ode to My Ancestors", Myers estabelece
um ambiente de encantamento com o órgão assumindo uma qualidade monótona, enquanto
ela recita uma espécie de ladainha para aqueles que vieram antes, que "me
moldaram em quem eu sou" e que "ainda falam comigo, enquanto continuo
minha jornada". É o sentimento perfeito para uma ocasião como esta, na
qual podemos celebrar as muitas contribuições passadas de Myers para este
gênero musical, ao mesmo tempo que aguardamos ansiosamente as que estão por vir.
Faixas: African
Blues; Song for Mother E; Sensuous; Steal Away; Ode to my Ancestors; Voices;
Hymn for John Lee Hooker; Twilight; Cairo; Beneath the Sun.
Músico: Amina Claudine Myers (piano, órgão, vocal [5]).
Para conhecer um pouco deste trabalho, assistam ao vídeo
abaixo:
https://www.youtube.com/watch?v=seFV94tND8I
Fonte: Troy
Dostert (AllAboutJazz)

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