Quando não está acompanhando alguns dos músicos mais
inovadores do jazz criativo do século XXI como músico de apoio — uma lista que
inclui nomes como o pianista Matt Mitchell, o saxofonista Jon Irabagon, o
guitarrista Miles Okazaki e o baixista Trevor Dunn — o baterista Dan Weiss vem
construindo, de forma consistente, seu próprio e impressionante conjunto de
gravações como líder. Recentemente, ele tem preferido formações em trio, como
as lançadas por sua própria gravadora, Cygnus: "Dedication", de 2022
(com o baixista Thomas Morgan e o pianista Jacob Sacks) e "Even
Odds", de 2024 (com Mitchell e o saxofonista Miguel Zenon). No entanto,
para “Unclassified Affections”, o quinto lançamento de Weiss pela Pi
Recordings, ele decidiu optar por um formato de quarteto. Acompanhado por
Okazaki, pela vibrafonista Patricia Brennan e pelo trompetista Peter Evans,
Weiss faz amplo uso das possibilidades dinâmicas e tonais oferecidas por essa
formação notavelmente maleável e sensível.
A paleta estilística de Weiss sempre foi bastante
diversificada. Alguns de seus projetos anteriores uniram os mundos do jazz e do
metal/math rock — o impactante “Natural Selection (Pi Recordings, 2020)”, com
sua banda Starebaby, é um exemplo representativo. Mas ele também tem uma
predileção pelo melodismo, ainda que de uma forma um tanto indireta, e é esse
lado de seu temperamento que se destaca em “Unclassified Affections”. As oito
peças, todas compostas por Weiss, são repletas de nuances e frequentemente
surpreendentes, explorando sutilezas de ritmo e textura. E embora a habilidade
técnica de Weiss seja tipicamente evidente, ela se dá em estreita parceria com
seus colegas, já que o coletivo delineia cuidadosamente as características
distintivas de cada peça.
A faixa de abertura, que dá título ao álbum, conduz o
ouvinte com maestria: arpejos lânguidos de Brennan abrem caminho, seguidos
pelas notas esparsas de Okazaki, e então Evans se junta com suas próprias
intervenções sincopadas, enquanto as três melodias da peça se entrelaçam. Só
então Weiss entra em cena para completar o quadro, cultivando gradualmente uma
intensidade contida à medida que a obra toma forma, com algumas improvisações
coletivas espirituosas enquanto se encaminha para a conclusão. Tem um efeito
hipnotizante. "Holotype" possui outra estrutura intrigante, com Weiss
em várias configurações com seus parceiros, montando um quebra-cabeça
ultrarrápido em compassos ímpares, e um solo substancial próprio antes que o
tema complexo ressurja no final.
Como seria de esperar de qualquer disco de Weiss, a
qualidade musical é impecável, com todos os quatro artistas demonstrando seus
talentos de forma convincente. Há também momentos da intensidade visceral que
Weiss costuma catalisar: Okazaki usa seus pedais de fuzz na apropriadamente
intitulada "Mansions of Madness", e "Existence Ticket" é
impulsionada por um balanço contagiante. Porém, o que fará com que os ouvintes
voltem sempre pode muito bem ser o lirismo misterioso, que permeia essas
criações complexas. Brennan é crucial para essa dimensão, com inúmeras
passagens brilhantes. Sua magnífica abertura para "Perfection's
Loneliness" é um exemplo disso, assim como a própria contribuição
comovente de Evans para a melancolia persistente da peça. "Consoled
Without Consolations" é outra invenção com múltiplas camadas, onde cada
músico contribui para a pungência da faixa, e "Plusgood" mantém a
atmosfera de admiração e reflexão, enquanto Evans explora toda a extensão de
seu instrumento em frases delicadamente, que ecoam as reflexões dos outros
músicos.
O álbum termina com "Dead Wall Revelry" e, com
mais de nove minutos, é a faixa mais longa do disco, com uma tensão que se
acumula lentamente, ameaçando explodir, mas nunca chegando a fazê-lo, com
ritmos mutáveis e improvisação astuta em abundância, e um encerramento
apropriadamente ressonante que apresenta Evans em seu momento mais lírico. Um final belíssimo para um disco
fascinante.
Faixas: Unclassified
Affections; Holotype; Perfection’s Loneliness; Mansions of Madness; Consoled without
Consolations; Existence Ticket; Plusgood; Dead Wall Revelry.
Músicos: Dan Weiss (bateria); Peter Evans (trompete); Patricia Brennan (vibrafone); Miles
Okazaki (guitarra).
Fonte: Troy
Dostert (AllAboutJazz)
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