Poucas pessoas têm mais direito de se lembrar de Gil Evans
do que esses músicos. O lamento serrilhado desta banda arrebatou, tocou e
incendiou os ouvintes. É fácil perceber por que os músicos da Monday Night
Band gostariam de tocar, criando sob a visão musical beatífica de Evans. Deve
ter sido inspirador. A maioria dos músicos do álbum tocou em algum momento ao
longo dos anos no Sweet Basil, de 1983 até a morte de Evans e até depois. Ele
amava o modo como a banda soava, oscilando à beira da ausência de forma antes
de se fundir em algo definitivo, o processo de se tornar.
Como Evans os inspirou? Ele passou lentamente, e de forma
controversa, da escrita precisa da música "Sketches of Spain" com
Miles Davis para uma escrita mais solta, um som livre mais selvagem. John
Surman disse recentemente: " Tendo tido a sorte de fazer algumas turnês
com a banda de Gil, muitas vezes me perguntei exatamente o que ele estava
fazendo para que a banda funcionasse tão bem. Certamente não foi nada do que
ele disse. Eu mal consigo me lembrar dele dizendo muita coisa sobre a música. Acho
que ele só queria que ouvíssemos um ao outro e desenvolvêssemos a música
juntos, conforme sentíamos".
Lew Soloff também falou sobre Evans como se estivesse
falando sobre Duke Ellington. Ele disse que Evans pensou nos músicos
individualmente e não apenas nos instrumentos. “O que Gil gostava de fazer era
pensar na pessoa. Ele não pensou na tuba, pensou em Howard Johnson. Ele não
pensou no som de um saxofone, pensou em George Adams”. Soloff disse que Evans queria
sons individuais. "Ele queria que as pessoas específicas, que ele
contratou, cantassem esta coisa junta de uma maneira individual".
Dave Bargeron, falando com o biógrafo de Evans, disse:"
Não é como era o free jazz no final dos anos 60. Não é isso. Isto está
relacionado, de uma maneira pessoal, com o que quer que seja o cerne disto que
está acontecendo. Isto é bem diferente. Existem alguns elementos
organizacionais que o atraem e o ajudam ao longo do processo. Geralmente há um
clima que é tocado, se nada mais. Geralmente há mudanças de acordes, geralmente
há algum tipo de contexto definido sobre o qual a música se refere. Há fatores
organizacionais que são um passo mais organizados do que simplesmente tocar
free jazz. Você é incentivado a tocar o mais livremente possível com base nesse
núcleo. É este o acordo".
Faltam algumas vozes importantes no álbum: Hiram Bullock,
Adams, Howard Johnson, David Sanborn, todos mortos. Outros músicos de jazz
proeminentes apareciam ocasionalmente no clube: Johnny Coles, Marvin
"Hannibal" Peterson, Gil Goldstein.
Eles vieram para tocar a música. Duas das peças aqui são de
Evans; uma de Jaco Pastorius, que trabalhou com a banda ocasionalmente; uma de
Charles Mingus; duas de Jimi Hendrix e "Nana" dos compositores
brasileiros Moacir Santos, Mario Telles e Yanna Cotti.
O som alto e cítrico de Chris Hunter domina "La
Nevada", junto com Dave Stryker e as configurações de baixo de Mark Egan. O
tema simples, mas rico, é inspirador. A abertura sombria e ligeiramente
sinistra de "London" é tocada por Pete Levin e acompanhada pelos
instrumentos de sopro profundos de Bargeron e Tom Malone. A construção inclui a
guitarra de Stryker. Este é provavelmente o melhor (e mais longo) arranjo do
álbum. O solo de trompa de John Clark traz um alívio tranquilo. Há um drama
intenso na forma como o conjunto se desenvolve atrás da trompa. Todo o arranjo
tem uma forma profunda, pungente e inexoravelmente bela.
O nobre tema de Mingus, "Goodbye Pork Pie Hat", foi colonizado por Evans. A introdução é tocada por Levin. Ele é muito bom, muito profissional, faltando-lhe a sensação hesitante de Evans tocando piano. O solo de Soloff é um lembrete de quão frequentemente o grande trompetista tocava com a banda. O solo de tenor de Alex Foster tem leves indícios na direção de Adams, mas é totalmente Foster. O conjunto que toca, incluindo os metais graves, embeleza a composição e os arranjos melancólicos e belos.
Hendrix teve um profundo impacto em Evans. Evans disse que
ouviu o lamento e o grito do blues na música de Hendrix. As peças de Hendrix se
tornaram parte essencial do repertório da banda. O solo excruciante de Hunter
em "Stone Free" tem a qualidade nervosa que Evans amava na execução
de Hunter, combinando perfeitamente com a peça de Hendrix.
O time percussivo de Danny Gottlieb e Beth Gottlieb inicia "Nana".
Evans descobriu o tema no álbum brasileiro de uma cantora chamada Nara Leão. É
fácil ver por que Evans e a banda escolheram usar esse tema poderoso e Soloff
gosta de solos em sua execução ousada sobre o ritmo pesado. A clareza da
gravação exibe a complexidade do arranjo.
Aqueles que tiveram a sorte de conhecer a Monday Night Band,
ao vivo, se lembrarão da sensação e dos saltos de prazer quando a banda uniu
sua diversidade triunfantemente para perceber o poder e a beleza de sua forma
de tocar. Há bastante desse brilho neste álbum lindamente gravado para aguçar a
memória.
Faixas: La
Nevada; Goodbye Pork Pie; Teen Town; London; Little Wing; Nana; Stone Free.
Músicos: Dave
Bargeron (trombone); Mark Egan (baixo); Alex Foster (saxofone); Beth Gottlieb
(percussão); Danny Gottlieb (bateria); Chris Hunter (flauta); Pete Levin (teclados);
Tom Malone (trombone); Dave Stryker (guitarra).
Fonte: Jack
Kenny (AllAboutJazz)
.jpg)
Nenhum comentário:
Postar um comentário