playlist Music

sábado, 14 de fevereiro de 2026

RANDY INGRAM - ARIES DANCE (Sounderscore Records)

Ninguém diria que um aparelho de som de carro num engarrafamento na hora do rush seja o ambiente ideal para avaliar uma gravação, ou mesmo para extrair muito prazer dela. Mesmo nesse cenário, a valsa graciosa e suave que abre "Aries Dance", de Randy Ingram, dissipou imediatamente a frustração e a tensão da estrada, como uma brisa vinda do mar que afasta o calor do verão. Enquanto o trânsito avançava lentamente em direção a Columbus, Ohio, na saída para a Polaris Parkway, uma rápida olhada no título: era "Em direção a Polaris", e o feitiço estava lançado. Brega? Talvez, mas ouvir as audições seguintes confirmou essa impressão inicial e até a superou.

Este é um lançamento totalmente comercial, com dois standards e uma composição de Wayne Shorter entre seis originais de Ingram. Dentre estes últimos, "Para Milton e Pedro" e "Guimarães" são sambas com aquele toque flutuante e ligeiramente melancólico que Fred Hersch traz para a música brasileira. Outras duas composições atribuídas ao pianista soam como improvisações coletivas e funcionam quase como interlúdios entre obras mais extensas, entre elas "Guimarães". A outra é uma interpretação revigorante de "You and the Night and the Music". Sim, todo mundo toca essa música, mas nem todo mundo a toca com o grande Billy Hart, que traz décadas de experiência e muita energia para a bateria. Tudo o que ele faz em “Áries” parece completamente novo e absolutamente certo. Preste atenção em como ele começa a faixa-título, aparentemente indeciso entre fazer um suíngue ou tocar uma batida constante. Sem querer se comprometer com nenhuma das duas opções, Hart cria uma batida na hora que fica entre as duas, e funciona muito bem. Este é o gênio da bateria.

Ainda assim, o ponto alto de “Áries” fica por conta de "Penelope", de Shorter, uma obra raramente regravada. Conforme gravado originalmente em 1965 e lançado em “Etcetera (Blue Note, 1980)”, é um cacto-orquídea que floresce à noite, uma das baladas melancólicas de Shorter, com uma melodia suspirante e harmonias que lembram vagamente o Brasil. Ingram mantém o andamento lânguido da obra original, mas, começando com uma longa introdução em rubato para piano solo, intensifica os mistérios sombrios implícitos no esboço harmônico de Shorter. A banda entra dois minutos e vinte segundos depois, como um pai atento que se aproxima silenciosamente da cama de uma criança adormecida. Há ternura e força nos passos ponderados do baixista Drew Gress e nos toques sussurrantes de Hart, uma interpretação primorosa de uma composição que deveria ser tocada com mais frequência.

Se “Áries” não traz grandes pretensões de novidade ou profundidade, há algo bastante gratificante na música, que se conhece tão bem e que convida o ouvinte com a modéstia que só os músicos virtuosos conseguem alcançar. E, embora seja quase desnecessário dizer, ouvir em casa num bom sistema de som permitirá que você aprecie cada detalhe da gravação nítida e vibrante do engenheiro de som James Farber.

Faixas: Towards Polaris; Para Milton e Pedro; Into the Night; You and the Night and the Music; Penelope; Aries Dance; Castle and Fog; Guimarães; Dedicated to You.

Músicos: Randy Ingram (piano); Drew Gress (baixo); Billy Hart (bateria).

Para conhecer um pouco deste trabalho, assistam ao vídeo abaixo:

https://www.youtube.com/watch?v=lFdg5GuCY2M

Fonte: John Chacona (AllAboutJazz)

 

Nenhum comentário: