Ninguém diria que um aparelho de som de carro num
engarrafamento na hora do rush seja o ambiente ideal para avaliar uma gravação,
ou mesmo para extrair muito prazer dela. Mesmo nesse cenário, a valsa graciosa
e suave que abre "Aries Dance", de Randy Ingram, dissipou
imediatamente a frustração e a tensão da estrada, como uma brisa vinda do mar
que afasta o calor do verão. Enquanto o trânsito avançava lentamente em direção
a Columbus, Ohio, na saída para a Polaris Parkway, uma rápida olhada no título:
era "Em direção a Polaris", e o feitiço estava lançado. Brega?
Talvez, mas ouvir as audições seguintes confirmou essa impressão inicial e até
a superou.
Este é um lançamento totalmente comercial, com dois standards
e uma composição de Wayne Shorter entre seis originais de Ingram. Dentre estes
últimos, "Para Milton e Pedro" e "Guimarães" são sambas com
aquele toque flutuante e ligeiramente melancólico que Fred Hersch traz para a
música brasileira. Outras duas composições atribuídas ao pianista soam como
improvisações coletivas e funcionam quase como interlúdios entre obras mais
extensas, entre elas "Guimarães". A outra é uma interpretação revigorante
de "You and the Night and the Music". Sim, todo mundo toca essa
música, mas nem todo mundo a toca com o grande Billy Hart, que traz décadas de
experiência e muita energia para a bateria. Tudo o que ele faz em “Áries”
parece completamente novo e absolutamente certo. Preste atenção em como ele
começa a faixa-título, aparentemente indeciso entre fazer um suíngue ou tocar
uma batida constante. Sem querer se comprometer com nenhuma das duas opções,
Hart cria uma batida na hora que fica entre as duas, e funciona muito bem. Este
é o gênio da bateria.
Ainda assim, o ponto alto de “Áries” fica por conta de
"Penelope", de Shorter, uma obra raramente regravada. Conforme
gravado originalmente em 1965 e lançado em “Etcetera (Blue Note, 1980)”, é um
cacto-orquídea que floresce à noite, uma das baladas melancólicas de Shorter,
com uma melodia suspirante e harmonias que lembram vagamente o Brasil. Ingram
mantém o andamento lânguido da obra original, mas, começando com uma longa
introdução em rubato para piano solo, intensifica os mistérios sombrios
implícitos no esboço harmônico de Shorter. A banda entra dois minutos e vinte
segundos depois, como um pai atento que se aproxima silenciosamente da cama de
uma criança adormecida. Há ternura e força nos passos ponderados do baixista
Drew Gress e nos toques sussurrantes de Hart, uma interpretação primorosa de
uma composição que deveria ser tocada com mais frequência.
Se “Áries” não traz grandes pretensões de novidade ou
profundidade, há algo bastante gratificante na música, que se conhece tão bem e
que convida o ouvinte com a modéstia que só os músicos virtuosos conseguem
alcançar. E, embora seja quase desnecessário dizer, ouvir em casa num bom
sistema de som permitirá que você aprecie cada detalhe da gravação nítida e
vibrante do engenheiro de som James Farber.
Faixas: Towards
Polaris; Para Milton e Pedro; Into the Night; You and the Night and the Music;
Penelope; Aries Dance; Castle and Fog; Guimarães; Dedicated to You.
Músicos: Randy Ingram (piano); Drew Gress (baixo); Billy
Hart (bateria).
Para conhecer um pouco deste trabalho, assistam ao vídeo
abaixo:
https://www.youtube.com/watch?v=lFdg5GuCY2M
Fonte: John Chacona (AllAboutJazz)

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