playlist Music

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

SYLVIE COURVOISIER / WADADA LEO SMITH - ANGEL FALLS (Intakt Records)

Angel Falls, na Venezuela, é a catarata ininterrupta mais alta do mundo, com uma altura de 979 metros. Este desnível acentuado no leito do rio Kerepacupai Merú fica localizado no flanco da montanha Auyán-tepui, no Parque Nacional Canaima, Patrimônio Mundial da UNESCO, na região de Gran Sabana. O rio, que desagua no rio Churún, é afluente do rio Carrao, que por sua vez concorre para o famoso rio Orinoco. Desde meados do século XX, a catarata deve o nome ao aviador norte-americano James “Jimmie” Angel, a primeira pessoa a sobrevoá-la (As cinzas de Angel foram espalhadas sobre as cataratas em 1960). Em 2009, o presidente Hugo Chávez anunciou a sua intenção de mudar o nome para o suposto termo indígena pemon original (Kerepakupai-Merú significa “cascata do lugar mais profundo”), com o argumento de que um dos locais mais marcantes do país deveria ter um nome indígena. O local, de um poder natural espantoso, foi inspiração para o primeiro encontro registrado em disco pelo duo formado pela pianista e compositora Sylvie Courvoisier (nascida em 1968) e o trompetista e compositor Wadada Leo Smith (nascido em 1941), com selo da suíça Intakt Records. Sobre o título do álbum, Courvoisier refere: «Gosto também da imagem de um anjo caindo» (Tudo isto num momento em que recrudescem as tensões entre os Estados Unidos e a Venezuela, com diversas escaramuças envolvendo embarcações no mar dos Caribe, já com vários mortos do lado venezuelano, e em que o Prémio Nobel da Paz foi atribuído a uma oposicionista venezuelana que o dedicou ao... POTUS). Mas deixemos a geopolítica por um instante. Em “Angel Falls”, o álbum, ficam claros um profundo sentido de partilha e uma química muito especial que se estabelece entre os dois músicos, fruto de uma longeva admiração mútua ancorada nas memórias das ocasiões em que tiveram oportunidade de tocar juntos. «Sempre que toquei em palco com Sylvie Courvoisier... foi uma jornada mutuamente criativa. Ela tem coragem, e isso é visível quando está ao piano: quando se sente inspirada a ir em direção a algo, ela não se limita a aproximar-se, ela avança como se fosse salvar a criação», disse Wadada Leo Smith ao New York Times. A possibilidade de gravarem em duo surgiu após uma série de encontros em formações de maiores dimensões. Pianista e trompetista tocaram juntos pela primeira vez em 2017, num concerto organizado por John Zorn. Smith terá ficado particularmente impressionado, pois, como recorda Courvoisier, «logo após o concerto, ele pediu o meu número e, alguns meses depois, fizemos uma gravação em trio com Marcus Gilmore, em New Haven». Embora essa gravação permaneça inédita, várias colaborações tiveram lugar desde então, incluindo outros trios, um conjunto de Smith com dois pianos e, claro, no notável “Chimaera (2023)” (resenha publicada no blog Sojazz em 27/10/2024), de Courvoisier, também na Intakt, que apresenta Smith ao lado do também trompetista Nate Wooley. Um olhar atento ao pecúlio discográfico de Wadada Leo Smith permite concluir que os duetos com piano constituem uma vertente importante do seu trabalho. A sua afeição pelo formato — recorde-se que já gravou com pianistas tão distintos como John Tilbury, Vijay Iyer, Angelica Sánchez e Amina Claudine Myers —, tornou quase inevitável que um disco com Sylvie Courvoisier fosse, mais cedo do que tarde, uma realidade. Um momento crucial de todo o processo criativo que conduziu a “Angel Falls” aconteceu quando a pianista sugeriu que evitassem partituras. Como resultado desta decisão, assumida por ambos, as oito faixas incluídas no novo álbum são tomadas por uma organicidade e um sentido de urgência que impressiona mais ainda se atentarmos nas arquiteturas sonoras logradas. Cada peça de “Angel Falls” é uma troca vivaz e inquieta de sons e texturas, diálogos íntimos em permanente evolução, tão depressa frágeis como assertivos, abstratos como melódicos, abertos como circulares. Courvoisier e Smith convocam a sua enorme experiência em diferentes formatos e configurações instrumentais para se complementarem, escapando com mestria a lugares-comuns e soluções expectáveis. Não há protagonistas nem acompanhamentos, exibicionismo ou deambulações espúrias. Courvoisier explica: «Tocamos exatamente na ordem do CD e exatamente a quantidade de música que está no CD, sem edições. Provavelmente fizemos isso em duas horas. Foi gravado e misturado no mesmo dia. Começamos ao meio-dia e às cinco da tarde estava pronto.»

Sylvie Courvoisier, nascida em Lausanne, Suíça, e residente no Brooklyn, vencedora do Swiss Grand Prix e do American Academy of Arts and Letters Music Award em 2025, tem marcado a cena avant-jazz de Nova Iorque há mais de duas décadas. Sentindo-se tão à-vontade nas mais vetustas salas de concerto como em clubes de jazz, toca música improvisada ou composta com igual sentido de aventura e gosto pelo risco, seja a revisitar A Sagração da Primavera, de Stravinsky, com o pianista Cory Smythe (impossível esquecer o concerto que deram na edição de 2024 do Jazz em Agosto, na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa), no seu aclamado trio com o contrabaixista Drew Gress e o baterista Kenny Wollesen, ou no dueto com a guitarrista Mary Halvorson em “Bone Bells” (resenha publicada no blog Sojazz em 27/10/2025). Wadada Leo Smith define a sua música como “música criativa”. Nascido em Leland, Mississippi, cresceu imerso nas tradições musicais do sul dos Estados Unidos, atuando em bandas de blues e outras bandas tradicionais, acabando por se mudar para Chicago, onde se juntou ao lendário coletivo nascido no seio da Associação para o Avanço dos Músicos Criativos (AACM, na sigla em inglês). A sua discografia é reveladora de uma história musical centrada na ideia de harmonia espiritual e na unificação das questões sociais e culturais, em obras de fôlego como “Ten Freedom Summers (2012)”, “America’s National Parks (2016)” (resenha publicada no blog Sojazz em 06/08/2018) e “String Quartets Nos. 1-12 (1965-2019)”. Continua a ser um pedagogo estimado, partilhando a sua visão da música e do mundo. A qualidade intrinsecamente natural da música que escutamos em “Angel Falls” está também refletida nos títulos atribuídos às diferentes peças durante uma audição conjunta, muitos dos quais fazem referência às forças elementares da natureza. Wadada Leo Smith volta a trazer para esta gravação o lado mais poético da sua abordagem musical. O seu som é invariavelmente sóbrio e sereno, mas nele arde um fogo contido, quer nas passagens de tom mais épico, quer nas de uma beleza avassaladora (o uso que faz da surdina é inesquecível). Não esqueçamos que o seu padrasto era um bluesman do Delta, e esse espírito nunca esteve longe da sua forma de tocar, mesmo quando se adentra por domínios mais exploratórios. Um aspeto particular que Courvoisier partilha com o trompetista é que ela própria evoluiu para se tornar uma personalidade musical única, inconfundível, que combina o rigor da música erudita (clássica ou contemporânea) com a espontaneidade da improvisação e o fogo inextinguível do free jazz. A amplitude do seu vocabulário e a exploração total que faz que do piano enquanto instrumento de possibilidades virtualmente infinitas fazem dela um caso muito sério na música do nosso tempo. Para além do facto de a pianista operar totalmente em tempo real, característica que vem da sua prática desde a infância, quando experimentava o piano nas alturas em que os pais estavam fora de casa: «Se ouço um som na minha cabeça que precisa de ser temperado ou quero algo mais picante, faço uma preparação instantânea», diz.  «Ligava o rádio e imitava todos os sons. Experimentava todos os objetos que encontrava em casa.» Todo este modus operandi, assente numa curiosidade aguçada, está bem patente em “Angel Falls”: «Com Wadada, sinto que estamos a criar no momento e sinto algo muito alegre. Somos como crianças.» O que impressiona não é a exibição técnica, mas o apuradíssimo sentido de recato e contenção que ambos partilham, ao escutar-se mutuamente, a negociar e resolver. “Olo’ Upnea and Lightning”, a maravilhosa peça que abre a jornada, começa com Courvoisier a propor notas sacadas às entranhas do piano preparado, a que Smith responde com a sua sonoridade etérea e cristalina, numa espécie de oração. O diálogo desenvolve-se sempre no limiar de um silêncio magnânimo que deixa tudo em aberto. “Naomi Peak” é mais nervosa, com a pianista a trazer para a mesa aquele ataque mais percussivo que lhe reconhecemos, prenhe de notas em torvelinho; Smith serpenteia, ora sublinhado o vigor e a intensidade, ora contrastando com uma calmaria encharcada em blues. Em “Whispering Images” é o trompetista quem, com recurso à surdina, dá o mote para uma peça delicada, sussurrada como o próprio título já deixava antever, mas que poderia, de igual modo, ter subvertido. O seu som é de uma serenidade que move montanhas. Courvoisier complementa com um pianismo muito rico em subtilezas melódicas, jamais óbvias. “A Line Through Time” é outro monumento à tranquilidade, com os dois músicos a cruzarem linhas de uma beleza poderosa. De contornos mais abstratos, “Vireo Bellii” (pássaro cinzento e canoro que migra entre uma zona de reprodução no oeste da América do Norte e outra onde inverna na América Central) mostra as notas esparsas de Courvoisier a serem realçadas pelas deambulações consequentes do trompetista. A peça que dá título ao álbum é desenvolvida com precisão de relojoeiro, cada som no sítio certo, sem adiposidades. A linha melódica desvela-se fascinante; Courvoisier e Smith atingem aqui o zênite de uma sofisticada interação musical. Em “Sonic Utterance”, as cascatas de notas avançadas pela pianista aliam-se ao trompete de Smith, que aqui recorre novamente à surdina para acrescentar outras cores. “Kairos”, a fechar, mostra como a pianista é exímia a explorar as potencialidades do seu instrumento, construindo uma atmosfera serena. “Angel Falls” encerra momentos de uma beleza indescritível.

Faixas

1.Olo'Upnea and lightning 08:36

2.Naomi Peak 06:22

3.Whispering Images 05:51

4.A Line Through Time 07:30

5.Vireo Bellii 08:52

6.Angel Falls 10:43

7.Sonic Utterance 04:33

Fonte: António Branco (jazz.pt)

 

Nenhum comentário: