Angel Falls, na Venezuela, é a catarata ininterrupta mais
alta do mundo, com uma altura de 979 metros. Este desnível acentuado no leito
do rio Kerepacupai Merú fica localizado no flanco da montanha Auyán-tepui, no
Parque Nacional Canaima, Patrimônio Mundial da UNESCO, na região de Gran
Sabana. O rio, que desagua no rio Churún, é afluente do rio Carrao, que por sua
vez concorre para o famoso rio Orinoco. Desde meados do século XX, a catarata
deve o nome ao aviador norte-americano James “Jimmie” Angel, a primeira pessoa
a sobrevoá-la (As cinzas de Angel foram espalhadas sobre as cataratas em 1960).
Em 2009, o presidente Hugo Chávez anunciou a sua intenção de mudar o nome para
o suposto termo indígena pemon original (Kerepakupai-Merú significa “cascata do
lugar mais profundo”), com o argumento de que um dos locais mais marcantes do
país deveria ter um nome indígena. O local, de um poder natural espantoso, foi
inspiração para o primeiro encontro registrado em disco pelo duo formado pela
pianista e compositora Sylvie Courvoisier (nascida em 1968) e o trompetista e
compositor Wadada Leo Smith (nascido em 1941), com selo da suíça Intakt
Records. Sobre o título do álbum, Courvoisier refere: «Gosto também da imagem
de um anjo caindo» (Tudo isto num momento em que recrudescem as tensões entre
os Estados Unidos e a Venezuela, com diversas escaramuças envolvendo
embarcações no mar dos Caribe, já com vários mortos do lado venezuelano, e em
que o Prémio Nobel da Paz foi atribuído a uma oposicionista venezuelana que o
dedicou ao... POTUS). Mas deixemos a geopolítica por um instante. Em “Angel
Falls”, o álbum, ficam claros um profundo sentido de partilha e uma química
muito especial que se estabelece entre os dois músicos, fruto de uma longeva
admiração mútua ancorada nas memórias das ocasiões em que tiveram oportunidade
de tocar juntos. «Sempre que toquei em palco com Sylvie Courvoisier... foi uma
jornada mutuamente criativa. Ela tem coragem, e isso é visível quando está ao
piano: quando se sente inspirada a ir em direção a algo, ela não se limita a
aproximar-se, ela avança como se fosse salvar a criação», disse Wadada Leo
Smith ao New York Times. A possibilidade de gravarem em duo surgiu após uma
série de encontros em formações de maiores dimensões. Pianista e trompetista
tocaram juntos pela primeira vez em 2017, num concerto organizado por John
Zorn. Smith terá ficado particularmente impressionado, pois, como recorda
Courvoisier, «logo após o concerto, ele pediu o meu número e, alguns meses
depois, fizemos uma gravação em trio com Marcus Gilmore, em New Haven». Embora
essa gravação permaneça inédita, várias colaborações tiveram lugar desde então,
incluindo outros trios, um conjunto de Smith com dois pianos e, claro, no
notável “Chimaera (2023)” (resenha publicada no blog Sojazz
em 27/10/2024), de Courvoisier, também na Intakt, que apresenta Smith ao
lado do também trompetista Nate Wooley. Um olhar atento ao pecúlio discográfico
de Wadada Leo Smith permite concluir que os duetos com piano constituem uma
vertente importante do seu trabalho. A sua afeição pelo formato — recorde-se
que já gravou com pianistas tão distintos como John Tilbury, Vijay Iyer,
Angelica Sánchez e Amina Claudine Myers —, tornou quase inevitável que um disco
com Sylvie Courvoisier fosse, mais cedo do que tarde, uma realidade. Um momento
crucial de todo o processo criativo que conduziu a “Angel Falls” aconteceu
quando a pianista sugeriu que evitassem partituras. Como resultado desta
decisão, assumida por ambos, as oito faixas incluídas no novo álbum são tomadas
por uma organicidade e um sentido de urgência que impressiona mais ainda se
atentarmos nas arquiteturas sonoras logradas. Cada peça de “Angel Falls” é uma
troca vivaz e inquieta de sons e texturas, diálogos íntimos em permanente
evolução, tão depressa frágeis como assertivos, abstratos como melódicos,
abertos como circulares. Courvoisier e Smith convocam a sua enorme experiência
em diferentes formatos e configurações instrumentais para se complementarem,
escapando com mestria a lugares-comuns e soluções expectáveis. Não há
protagonistas nem acompanhamentos, exibicionismo ou deambulações espúrias.
Courvoisier explica: «Tocamos exatamente na ordem do CD e exatamente a
quantidade de música que está no CD, sem edições. Provavelmente fizemos isso em
duas horas. Foi gravado e misturado no mesmo dia. Começamos ao meio-dia e às
cinco da tarde estava pronto.»
Sylvie Courvoisier, nascida em Lausanne, Suíça, e residente no
Brooklyn, vencedora do Swiss Grand Prix e do American Academy of Arts and
Letters Music Award em 2025, tem marcado a cena avant-jazz de Nova Iorque há
mais de duas décadas. Sentindo-se tão à-vontade nas mais vetustas salas de
concerto como em clubes de jazz, toca música improvisada ou composta com igual
sentido de aventura e gosto pelo risco, seja a revisitar A Sagração da
Primavera, de Stravinsky, com o pianista Cory Smythe (impossível esquecer o
concerto que deram na edição de 2024 do Jazz em Agosto, na Fundação Calouste
Gulbenkian, em Lisboa), no seu aclamado trio com o contrabaixista Drew Gress e
o baterista Kenny Wollesen, ou no dueto com a guitarrista Mary Halvorson em “Bone
Bells” (resenha publicada no blog Sojazz em 27/10/2025).
Wadada Leo Smith define a sua música como “música criativa”. Nascido em Leland,
Mississippi, cresceu imerso nas tradições musicais do sul dos Estados Unidos,
atuando em bandas de blues e outras bandas tradicionais, acabando por se mudar
para Chicago, onde se juntou ao lendário coletivo nascido no seio da Associação
para o Avanço dos Músicos Criativos (AACM, na sigla em inglês). A sua
discografia é reveladora de uma história musical centrada na ideia de harmonia
espiritual e na unificação das questões sociais e culturais, em obras de fôlego
como “Ten Freedom Summers (2012)”, “America’s National Parks (2016)” (resenha publicada no blog Sojazz em 06/08/2018) e “String
Quartets Nos. 1-12 (1965-2019)”. Continua a ser um pedagogo estimado,
partilhando a sua visão da música e do mundo. A qualidade intrinsecamente
natural da música que escutamos em “Angel Falls” está também refletida nos
títulos atribuídos às diferentes peças durante uma audição conjunta, muitos dos
quais fazem referência às forças elementares da natureza. Wadada Leo Smith
volta a trazer para esta gravação o lado mais poético da sua abordagem musical.
O seu som é invariavelmente sóbrio e sereno, mas nele arde um fogo contido,
quer nas passagens de tom mais épico, quer nas de uma beleza avassaladora (o
uso que faz da surdina é inesquecível). Não esqueçamos que o seu padrasto era
um bluesman do Delta, e esse espírito nunca esteve longe da sua forma de tocar,
mesmo quando se adentra por domínios mais exploratórios. Um aspeto particular
que Courvoisier partilha com o trompetista é que ela própria evoluiu para se
tornar uma personalidade musical única, inconfundível, que combina o rigor da
música erudita (clássica ou contemporânea) com a espontaneidade da improvisação
e o fogo inextinguível do free jazz. A amplitude do seu vocabulário e a
exploração total que faz que do piano enquanto instrumento de possibilidades
virtualmente infinitas fazem dela um caso muito sério na música do nosso tempo.
Para além do facto de a pianista operar totalmente em tempo real,
característica que vem da sua prática desde a infância, quando experimentava o
piano nas alturas em que os pais estavam fora de casa: «Se ouço um som na minha
cabeça que precisa de ser temperado ou quero algo mais picante, faço uma
preparação instantânea», diz. «Ligava o
rádio e imitava todos os sons. Experimentava todos os objetos que encontrava em
casa.» Todo este modus operandi, assente numa curiosidade aguçada, está bem
patente em “Angel Falls”: «Com Wadada, sinto que estamos a criar no momento e
sinto algo muito alegre. Somos como crianças.» O que impressiona não é a
exibição técnica, mas o apuradíssimo sentido de recato e contenção que ambos
partilham, ao escutar-se mutuamente, a negociar e resolver. “Olo’ Upnea and
Lightning”, a maravilhosa peça que abre a jornada, começa com Courvoisier a
propor notas sacadas às entranhas do piano preparado, a que Smith responde com
a sua sonoridade etérea e cristalina, numa espécie de oração. O diálogo
desenvolve-se sempre no limiar de um silêncio magnânimo que deixa tudo em
aberto. “Naomi Peak” é mais nervosa, com a pianista a trazer para a mesa aquele
ataque mais percussivo que lhe reconhecemos, prenhe de notas em torvelinho;
Smith serpenteia, ora sublinhado o vigor e a intensidade, ora contrastando com
uma calmaria encharcada em blues. Em “Whispering Images” é o trompetista quem,
com recurso à surdina, dá o mote para uma peça delicada, sussurrada como o
próprio título já deixava antever, mas que poderia, de igual modo, ter
subvertido. O seu som é de uma serenidade que move montanhas. Courvoisier
complementa com um pianismo muito rico em subtilezas melódicas, jamais óbvias.
“A Line Through Time” é outro monumento à tranquilidade, com os dois músicos a
cruzarem linhas de uma beleza poderosa. De contornos mais abstratos, “Vireo
Bellii” (pássaro cinzento e canoro que migra entre uma zona de reprodução no
oeste da América do Norte e outra onde inverna na América Central) mostra as
notas esparsas de Courvoisier a serem realçadas pelas deambulações consequentes
do trompetista. A peça que dá título ao álbum é desenvolvida com precisão de
relojoeiro, cada som no sítio certo, sem adiposidades. A linha melódica
desvela-se fascinante; Courvoisier e Smith atingem aqui o zênite de uma
sofisticada interação musical. Em “Sonic Utterance”, as cascatas de notas
avançadas pela pianista aliam-se ao trompete de Smith, que aqui recorre
novamente à surdina para acrescentar outras cores. “Kairos”, a fechar, mostra
como a pianista é exímia a explorar as potencialidades do seu instrumento,
construindo uma atmosfera serena. “Angel Falls” encerra momentos de uma beleza
indescritível.
Faixas
1.Olo'Upnea
and lightning 08:36
2.Naomi
Peak 06:22
3.Whispering
Images 05:51
4.A Line
Through Time 07:30
5.Vireo
Bellii 08:52
6.Angel
Falls 10:43
7.Sonic
Utterance 04:33
Fonte: António Branco (jazz.pt)

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