«Todos nós devemos lamentar o estado do mundo. Isso pode ser
parte integrante do ativismo.» As palavras são da escritora e acadêmica Kelley
Swain em artigo publicado recentemente no Guardian. O título do segundo álbum
do duo formado por Rodrigo Amado (nascido em 1964) e Chris Corsano (nascido em
1975), The Healing, aponta no mesmo sentido, remetendo para as ideias de restabelecimento
e regeneração, da reconciliação com os outros e com um mundo a enegrecer. «Está
ligado ao estado absurdo a que a humanidade chegou. Algo necessita urgentemente
de ser curado», começa por dizer o saxofonista à jazz.pt. «Não me refiro apenas
ao que acontece atualmente em Gaza, que nos deixa a todos, seres humanos, numa
situação de falha e embaraço, mas também aos rumos que a humanidade escolheu
para ditar o nosso dia a dia.» Amado vira-se para o capitalismo, enquanto
sistema político-econômico que determina o que acontece no nosso planeta e que
entende estar «falido, moribundo». «É urgente repensar o funcionamento da
humanidade, como um todo. E se o título remete para este estado das coisas,
remete também para o poder, frequentemente subestimado, da música como agente
de cura, regeneração e mudança», sublinha o músico lisboeta, apesar de ter não
ter pensado especificamente na música do duo como tendo esse poder, mas sim na
música em geral. O novo álbum colhe inspiração na espiritualidade pagã de um dos
seus autores/cantores preferidos: Bill Fay. Todas estas ligações surgem após a
música estar gravada, ideias e conceitos com que trabalha na pesquisa para a
construção da identidade de um álbum, incluindo a escolha da pintura de Rui
Moreira para a capa. Essa fase é, para si, crucial para uma adequada projeção
da música no futuro. Sucessor do registo de estreia da dupla, No Place To Fall,
editado há seis anos pela Astral Spirits, The Healing foi registado ao vivo na
Galeria Zé dos Bois (ZDB), em Lisboa, em setembro de 2016. Rodrigo Amado
recorda o concerto que lhe deu origem como mítico. «Ainda hoje, amigos ou
conhecidos me falam de lá terem estado e de como foi para eles uma experiência
especial e invulgar.» Nessa noite, a sala do aquário da ZDB estava completamente
cheia e a atmosfera fervilhava de excitação. «Muitas pessoas dançaram durante o
concerto», lembra o saxofonista. A ocasião era também especial pelo regresso de
Chris Corsano à capital portuguesa, um ano após a edição de “This Is Our
Language”, o primeiro álbum do quarteto que junta ambos a Joe McPhee e Kent
Kessler. «Nessa altura havia uma grande curiosidade sobre o que eu iria fazer a
seguir.» O primeiro disco da dupla tinha sido gravado dois anos antes e estavam
determinados a levar a música para o nível seguinte. E foi isso que fizeram. «A
música fluiu e o público empurrou-nos para a estratosfera. Foi verdadeiramente
especial.» A satisfação de ambos com o resultado guiou as decisões seguintes.
«Ambos gostamos da música e concordamos em editá-la, mas o projeto continuou a
ser “atropelado” por outras gravações. Houve longos períodos em que até me
esqueci dele, mas depois voltava a aparecer.» Finalmente, no ano passado, o
saxofonista decidiu que tinha de editar a gravação; ato contínuo, pensou que seria
interessante fazê-lo na sua própria editora, a European Echoes, em pouso
durante alguns anos. A ideia, revela Amado, foi criar uma série dedicada a
gravações de arquivo ou “perdidas”, «coisas que tenho e que sei que são
especiais, mas que, por alguma razão, nunca foram editadas.» Espera-se que esta
seja a primeira de várias a saírem da arca. Rodrigo Amado e Chris Corsano
conheceram-se por ocasião do primeiro concerto do quarteto This Is Our
Language, no Centro Cultural de Belém, em Lisboa. «Apesar de já nos termos
cruzado, entre festivais e vindas dele a Portugal, só o conheci verdadeiramente
no dia do concerto. O que aconteceu depois disso é história.» Quando pensou nos
músicos que queria para tocarem consigo nesta formação, logo pensou que Corsano
seria o baterista ideal para o projeto e o complemento perfeito para um
contrabaixista com as características de Kessler. A atenção no baterista foi
focada após escutar os duos com o saxofonista Paul Flaherty, em álbuns como “The
Hated Music (2000)” e “The Beloved Music (2006)”, e em colaborações de
free-rock com os Sunburned Hand of the Man, de Boston, e o guitarrista Ben
Chasny. E essa história resultou em três álbuns com o quarteto, dois em duo, e
em inúmeras aventuras, musicais e outras, na estrada, em digressões extensas,
sobretudo na Europa. Na memória conserva um concerto na sala DOM, em Moscou, e
uma digressão em Portugal, em que o baterista ficou infetado com Covid-19, logo
após o primeiro concerto na ZDB.O saxofonista também não escapou.
Rodrigo Amado é um dos mais relevantes saxofonistas na cena
do jazz vivo e desafiante na Europa, desdobrando a sua atividade por diversas
formações e configurações instrumentais. Nos últimos anos ofereceu-nos álbuns
como “Refraction Solo (Live at Church of The Holy Ghost)”, editado em 2022, “Beyond
the Margins, de 2023”, do quarteto The Bridge — com Alexander von
Schlippenbach, Ingebrigt Håker Flaten e Gerry Hemingway —, o soberbo “La Grande
Crue”, em que ao trio The Attic (onde oficiam também Gonçalo Almeida e Onno
Govaert) se juntou a pianista francesa Eve Risser, e” The Invisible”, com Dirk
Serries e Andrew Lisle, ambos de 2024. Com fortes ligações às raízes, do free
jazz ao rock alternativo, do blues ao gospel, Chris Corsano é um músico tão
poderoso quão imaginativo, com uma abordagem criativa que pode ser vulcânica ou
incrivelmente detalhada, muitas vezes abstrata e angular, navegando com igual
à-vontade em contextos distintos. Não espanta que a afinidade com o saxofonista
atinja patamares elevados de intensidade e criação, e que os seus universos
musicais interajam de forma sinérgica, daí brotando algo verdadeiramente
especial. «Tocar em duo com Corsano representa uma situação de total confiança
com uma ausência de limites criativos. O fato de ser um baterista com uma
invulgar versatilidade deixa-me tranquilo sobre as inúmeras direções que a
música pode tomar», realça Rodrigo Amado. Abundantemente documentado na
história do jazz, o formato de duo saxofone-bateria é muito caro ao saxofonista,
dando exemplos de entre os que mais o marcaram, de John Coltrane/Rashied Ali a
Paal Nilssen-Love/Ken Vandermark, passando por Dewey Redman/Ed Blackwell, Evan
Parker/John Stevens, Jimmy Lyons /Andrew Cyrille, Sonny Rollins/Philly Joe
Jones, Anthony Braxton/Max Roach, e a lista continua. Tudo está no novo disco,
direta ou subliminarmente, filtrado e processado. O desafio, esse, é o mesmo de
sempre: a improvisação. «Comunicar, sem rede, reagindo em milésimos de segundo
aos impulsos que nos são alimentados pelos outros músicos; criar, através da
música, novos mundos, novos sentidos para aquilo que já conhecemos.» Escapando
a lugares-comuns e refutando conformismos que poderiam advir da relação
construída, Amado e Corsano perseveram na atração pelo risco, no gosto
insaciável pela descoberta de novos caminhos. A música que escutamos em The
Healing centra-se na interação livre, assente em estruturas mais ou menos
veladas, que evoluem de forma natural e espontânea. Na inaugural “The Healing
Day” — com os seus quase 24 minutos de duração — os dois músicos entram serenos
e num regime de estudo mútuo; não é preciso muito tempo para que a conversa
aqueça. Amado fica por momentos desacompanhado e muitos fantasmas são
convocados; Corsano joga exemplarmente com os pratos. Os dois prosseguem a
interação próxima, escutando-se a cada fração de segundo, agindo e reagindo, em
sucessivas vagas de intensidade variável. Emergem células melódicas,
micromotivos, que logo desaparecem ou se transformam em algo diferente. A
música permite que o silêncio se imiscue nos interstícios. Para logo pegar
fogo. O solo de Corsano espanta pelo tanto que acontece, injetando combustível.
A atmosfera muda quando o saxofonista deambula sem pressas, processando
referências em tempo real, que o baterista sublinha com figuras rítmicas
subtis, em crescendo até ao clímax controlado. “The Cry” assume mais um lado
profundamente espiritual, com o sopro a ser acolitado pelas percussões de
filigrana. A peça evolui tornando-se progressivamente mais densa, com os dois
músicos a não se afastarem muito um do outro. “Griot” é introduzida pelas
percussões ritualísticas, que nos transportam para espaço e tempo indefinidos;
o saxofone traz novas ideias que vão ganhando corpo, até à incandescência. No
final, tudo parece aludir à mais primordial das condições humanas. “Release Is
In The Mind” é poderosa e urgente exortação para que a verdadeira mudança
comece dentro de nós. The Healing acende o fogo da revolta contra o estado do
mundo.
Faixas
1.The
Healing Day 23:53
2.The
Cry 09:29
3.Griot
10:32
4.Release
Is In The Mind 05:18
Músicos: Rodrigo Amado— saxofone tenor; Chris Corsano— bateria.
Fonte: António Branco (jazz.pt)

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