Consultas ao admirável mundo da inteligência artificial e aos
cartapácios que estoicamente resistem na estante não permitem dissipar
convenientemente todas as dúvidas. Mas parece seguro concluir que duetos
estáveis tuba-piano, num contexto jazzístico — tomado numa acepção abrangente e
não estereotipada —, são uma raridade, para não dizer uma inexistência prática.
Isso mesmo é confirmado à jazz.pt por Sérgio Carolino (nascido em 1973), um dos
mais reputados tubistas da atualidade e grande conhecedor do panorama global do
volumoso instrumento. «Até ao momento, não conheço nenhum duo tuba-piano que
desenvolva uma linguagem com ligação ao jazz e à improvisação.» Pois é essa a
singularidade do Duo XL, que junta Carolino ao pianista Telmo Marques (nascido
em 1963) e que acaba de editar o seu terceiro álbum, “Vibin”, na editora
japonesa Octavia Records. O novo registo é composto, como tem acontecido
noutras ocasião, por obras originais escritas e dedicadas ao tubista, mas desta
vez subordinadas a um conceito musical focado na linguagem e no fraseado
jazzísticos. «Muitos bons tubistas com formação acadêmica na área da música
erudita poderão encontrar neste trabalho, para além de um excelente repertório
original, uma motivação para aprender e desenvolver as suas capacidades
técnico-musicais, explorando a linguagem e o fraseado próprios da música de
carácter improvisado», refere Sérgio Carolino. «O disco também estimula a
descoberta de outras qualidades musicais no instrumento, como a sonoridade, o
espectro dinâmico e o alcance de registo.» O Duo XL conta com uma carreira
internacional, dezenas de apresentações e dois discos:” Portuguese Music for
Tuba & Piano”, de 2014, e “Game Over”, de 2022. O seu sucesso no Japão é
tal que por lá já tocaram para grandes audiências em Hamamatsu, Osaka e Tóquio;
o duo também já atuou na Islândia, Eslovênia, Espanha e, claro, em Portugal.
Muitos compositores portugueses já escreveram obras para o duo: António Pinho
Vargas, Bernardo Sassetti, Carlos Azevedo, Filipe Raposo; e também figuras
internacionais como Jean-Marie Machado, Didier Goret, Mico Nissim, David Dahlgren,
Jim Self, Jerry Grant, Howie Smith, Paul Terracini e Andrew Batterham, para
apenas mencionar alguns. Premiado internacionalmente em inúmeras ocasiões,
Carolino, alcobacense de nascimento e cidadão do mundo, tem um percurso notável
como tubista virtuoso, eclético, curioso, aventureiro. Quer como solista, quer
como docente, tem deixado uma marca viva por onde passa. Desdobrando-se numa
atividade tentacular, integra os magníficos TGB — com o guitarrista Mário
Delgado e o baterista Alexandre Frazão, com quatro títulos editados pela Clean
Feed —, para além de outras formações como o duo TUBAX Duo — com o saxofonista
Mário Marques —, o duo TUBAB (com o baterista/percussionista Jorge Queijo), R’B
& Mr. SC, The Postcard Brass Band, Surrealistic Discussion (com o acordeonista
João Barradas), Duo AR com Maria João, SubWoof3r, Tuba&Drums Double Duo com
o também tubista Oren Marshall, Tuba Trio — com Anthony Caillet (eufônio) e
François Thuillier (tuba) —, Conical Brass com o trompista francês Jeff Nelsen
e o Crossfade Ensemble do pianista e compositor Daniel Bernardes, seu
conterrâneo, entre muitos outros. É fundador e diretor artístico do Gravíssimo!
– Festival e Academia Internacional de Metais Graves de Alcobaça (a edição de
2025 acontece entre 26 e 29 de agosto). Natural do Porto, Telmo Marques é um
pianista, compositor e arranjador que tem cruzado diferentes universos
estilísticos com igual mestria. Concluiu o Conservatório Superior de Música do
Porto e formou-se em piano na portuense Escola Superior de Música e Artes do
Espetáculo (ESMAE). Concluiu um Mestrado em Artes na Roehampton University, no
Reino Unido, e um programa de Doutoramento em Música Computacional na
Universidade Católica Portuguesa. Como compositor, recebeu encomendas para
orquestra, solistas, música de câmara, música para teatro, documentários e
publicidade. O seu nome consta da ficha técnica de mais de uma centena de
gravações, nas várias vertentes da sua atividade. É docente na ESMAE e membro
integrado do CEIS20 - Centro de Investigação da Universidade de Coimbra.
Gravado no Centro de Alto Rendimento Artístico (CARA), em
Matosinhos, “Vibin” é quase inteiramente constituído por música original
escrita para o tubista e para o duo, explorando as polinizações cruzadas entre
a linguagem jazzística, a música erudita contemporânea, o funk e até a pop,
tudo envolvido pelo manto do balanço que a tuba traz. «Trata-se de um
verdadeiro crossover de estilos musicais», realça o tubista. Sérgio Carolino
trabalha com alguns destes compositores há mais de 15 anos. «São amigos,
conhecem bem o meu percurso e a minha abordagem musical. Todos são artistas
ecléticos, com uma visão abrangente, alinhada com o meu conceito e filosofia no
mundo da música: abrangência e criatividade musical.» O trabalho da dupla, que
esbate fronteiras, tantas vezes artificiais, vai muito para além do
virtuosismo, transmitindo liberdade e paixão e equilibrando o rigor das
composições com a frescura das improvisações (a frescura das composições e o
rigor das improvisações também é válido). «Neste álbum, com o objetivo de
motivar outros tubistas a explorar uma linguagem jazzística, pedi aos
compositores que escrevessem todas as partes, incluindo aquelas que, em certas
secções, poderiam ser improvisadas. Isso permite maior clareza na compreensão do
texto musical e possibilita que mais músicos se interessem em interpretar estas
obras», explica Carolino. «No geral, embora cada compositor tenha a sua própria
linguagem e um conceito musical bem definido, todas as peças exploram os dois
instrumentos de forma virtuosa e orgânica, trazendo frescura, interesse na
audição e transmitindo sempre uma sensação de liberdade e fluidez musical.» A
obra inaugural, “Interplay II” — escrita em 1996 (a versão para tuba é de 2022)
pelo compositor norte-americano Jerry Grant (nascido em 1936) —, surge
segmentada em três partes e logo exponencia a interação entre os dois
instrumentos, integrando material angular com raízes no bebop. O “Prelúdio” tem
início sereno e melodia ampla, que a dado momento adquire outro vigor, para, no
final, tudo voltar à quietude; uma segunda parte, “Invention”, após a exposição
do tema-base, piano e tuba repartem papéis equitativos, explorando as suas
linhas até à sucinta reexposição final. “Aria”, a derradeira parte, denota
influências impressionistas e assenta num motivo repetitivo exposto pelo piano,
que a tuba vem indagar, instalando uma bela melodia, que ambos os instrumentos
desenvolvem. Encomendada por Sérgio Carolino ao compositor australiano Andrew
Batterham (nascido em 1968), “Salamander”, peça escrita em 2019, procura
retratar as qualidades míticas deste anfíbio, num dinâmico jogo
contrapontístico, de ações e reações, aproximações e distanciamentos, em
movimento permanente. Várias ideias musicais nascem e renascem de diferentes
maneiras, antes de um retorno à atmosfera funk original. Saída da pena de Telmo
Marques, “Tropia” — escrita em 2018 para trombone e piano, daí o título, e que
ganhou uma segunda vida na versão para tuba e piano, dedicada a Carolino —
começa com as notas solenes da tuba, expandindo-se de modo dinâmico e
expressivo, com explorações harmónicas, ritmos vívidos e um particular lirismo.
Os dois instrumentos alternam entre papéis principais e secundários, com
Carolino a convidar o piano a percorrer caminhos inusitados, nunca olvidando a bela
melodia, sublinhada por Marques com requinte harmónico e textural. Outra
encomenda de Carolino, “Frivol I Tease” — para tuba solo (ou trombone baixo) e
piano —, composição do norte-americano Jim Self (nascido em 1943), surge
dividida em dois andamentos contrastantes; o primeiro, intitulado “Modal I
Tease”, começa com uma breve introdução modal: segue-se um swing ameno, em
tempo de valsa, com uma figura estática do piano a encontrar a melodia de
Carolino. O motivo exposto na introdução da peça é retomado no seu ocaso. O
segundo andamento, dito “Complex I Tease”, abre espaço ao virtuosismo de ambos
os músicos, com o piano a colocar-se no centro e a tuba a gravitar ao seu
redor, num verdadeiro tour-de-force para Carolino. A fechar o álbum, “Blues for
Schubert”, do saxofonista e compositor suíço Daniel Schnyder (nascido em 1961)
— escrita para o seu NYC Trio, que se completa com David Taylor no trombone
baixo e o já desaparecido Kenny Drew Jr. no piano — peça que integra a suíte
Worlds Beyond, de 2002 — é, como o título da peça logo denuncia, um blues
inspirado pelo universo do compositor austríaco (sobretudo obras como Moments
Musicaux e Winterreise), marcado pela opulência do piano (por vezes vertida em
cascatas imprevisíveis), a que se junta uma bela melodia desenhadas pelo
saxofone soprano de Mário Marques e a tuba discreta, a pontuar. À maneira dos
blues do Delta do Mississípi, o resultado é um cadinho emocional onde cabem
tristeza, alegria, beleza e esperança. Sérgio Carolino e Telmo Marques
perseveram na sua missão de esbatimento de fronteiras entre universos musicais,
com excelência e paixão.
Músicos: Sérgio Carolino— tuba; Telmo Marques— piano; Mário
Marques— saxofone soprano em "Blues for Schubert".
Fonte: António Branco (jazz.pt)

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