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sábado, 14 de março de 2026

KATE GENTILE / INTERNATIONAL CONTEMPORARY ENSEMBLE - b i o m e i.i (Obliquity Records)

O conceito New Brooklyn Complexity foi cunhado por Vijay Iyer nas notas de programa que escreveu para o álbum “Abiding Memory (2024)”, do jovem compositor-pianista Phillip Golub, para caracterizar um “microgénero emergente” que vem definindo muita da mais avançada música oriunda da atual cena nova-iorquina. Mais especificamente, Iyer refere-se a uma «amálgama particular de escrita ultramoderna e improvisação vanguardista, […] igualmente propensa a subdivisões rítmicas irregulares e balanços intensos.» Num artigo intitulado “Give Me a Complex”, em que retoma o conceito, Ethan Iverson identifica dois dos principais precursores desta corrente, Tim Berne e Steve Coleman: o primeiro associado a uma vertente mais aberta, com ligações ao free jazz, à música clássica contemporânea ou ao rock, o segundo a uma vertente mais estrita em termos formais, que parte sobretudo das músicas da diáspora africana.

Kate Gentile é, hoje, uma das principais representantes da vertente berniana da New Brooklyn Complexity (NBC). Compositora-baterista, cofundou, com Matt Mitchell (outro nome maior desta corrente), a editora Obliquity Records, cuja linha gráfica parece inclusive aludir à da lendária Screwgun de Berne, apresentando, em todo o caso, uma linguagem própria (desenvolvida por Gentile). Musicalmente, passa-se algo análogo: não obstante as manifestas influências bernianas, a Obliquity — a par do trabalho de Gentile e Mitchell editado pela Pi Recordings — tem vindo a definir todo um novo capítulo da NBC.

Em termos composicionais, b i o m e i.i, editado em 2023, é o trabalho mais arrojado (e, diria, relevante) de Gentile até a data. Trata-se de uma longa suíte de 13 partes, que ora alterna entre passagens escritas intrincadas e outras mais abertas, de cariz exploratório, ora sobrepõe camadas contrastantes — por exemplo, uma composta por elementos predeterminados, outra por elementos espontâneos. A escrita é marcada por muito contraponto, ostinatos, linhas melódicas labirínticas e, claro, polimetrias, ecoando referências tão variadas quanto Stravinsky, Messiaen, Zappa, Berne ou até um certo metal. Já o material espontâneo soa simultaneamente livre e disciplinado.

Em termos estéticos, b i o m e i.i pode ser visto como um álbum primo de “A Pouting Grimace (2017)”, de Mitchell, algo que, uma vez mais, as suas respectivas capas sugerem. Mas, enquanto o álbum de Mitchell se mantém ainda no limiar da NBC (ou, se quisermos, do jazz contemporâneo), o de Gentile extravasa-o largamente, assumindo-se em pleno como uma obra de música clássica contemporânea. Em particular, a ligação do primeiro à linguagem (e às sonoridades) do jazz é mais evidente, incluindo, por exemplo, linhas de contrabaixo. E, apesar de preservar uma certa dimensão atlética, típica da NBC, o segundo é uma obra primariamente camerística, exímia na sua gestão de timbres instrumentais, texturas ou espaços. Por outras palavras, “A Pouting Grimace” é um álbum de NBC que incorpora elementos da clássica contemporânea, ao passo que “b i o m e i.i.” é um álbum de clássica contemporânea que incorpora elementos da NBC. Mas, tomados em conjunto, estes dois álbuns contribuem para uma tarefa comum: partindo, respectivamente, do jazz contemporâneo e da clássica contemporânea, “A Pouting Grimace” e “b i o m e i.i” estilhaçam por completo as fronteiras muitas vezes erigidas entre estes dois mundos, continuando, nesse sentido, o legado dos músicos criativos da AACM.

Em “b i o m e i.i,” o fator-chave reside porventura no papel desempenhado pela bateria de Gentile no seio de um grupo de câmara, constituído por músicos do International Contemporary Ensemble, igualmente proficientes a interpretar partituras e a compor em tempo real. Em termos de sonoridade, ora cria um contraste vincado, remetendo para outras músicas (como o prog, o metal ou a NBC), ora se alinha com os restantes instrumentos, assumindo uma linguagem de percussão contemporânea. Paralelamente, em termos rítmicos, ora requer aos seus colegas que apertem os cintos, ora lhes permite navegar com maior liberdade. Este último aspecto é decisivo para a originalidade da proposta: na tradição jazzística, onde o investimento no rigor (e, ao mesmo tempo, na descontracção) a nível rítmico é consideravelmente maior do que na tradição clássica, é com frequência o baterista que assume um papel comparável ao do maestro; ora, aqui, ouvimos um grupo de câmara clássico dirigido (a partir de dentro) por uma bateria! Além disso, não tenho memória de uma obra tão bem-sucedida no que toca à integração de polimetrias características da NBC num contexto clássico.

Cada parte da suíte tem como título um termo inventado por Gentile, por sua vez correspondente a um elemento de um universo ficcional por si imaginado. (Nas notas de programa do álbum, encontramos um conjunto de definições — e respectivas ilustrações — de cada um desses termos.) Ora, também o equivalente sonoro desse universo constitui, a meu ver, uma manifesta novidade. E, mais importante ainda, uma novidade deveras convincente: se, hoje, podemos considerar “A Pouting Grimace” um dos álbuns mais relevantes da década transata, prevejo que o mesmo se possa vir a dizer de “b i o m e i.i.” a respeito da presente.

Faixas

1.drobe 04:01

2.ikbii 03:23

3.oergn 05:53

4.bippf 03:08

5.flibb 03:46

6.chorp 03:18

7.nionine 04:40

8.vlimb 04:08

9.xooox 04:38

10.moons 04:03

11.shorm 04:21

12.drode 04:58

13.isth 02:34

Músicos: Kate Gentile— bateria, percussão; Isabel Lepanto Gleicher— flauta, piccolo; Jennifer Curtis— violino; Joshua Rubin— clarinete, clarinete baixo; Rebekah Heller— fagote; Ross Karre— vibrafone, percussão; Cory Smythe— piano

Fonte: João Esteves da Silva (jazz.pt)

 

 

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