O conceito New Brooklyn Complexity foi cunhado por Vijay
Iyer nas notas de programa que escreveu para o álbum “Abiding Memory (2024)”,
do jovem compositor-pianista Phillip Golub, para caracterizar um “microgénero
emergente” que vem definindo muita da mais avançada música oriunda da atual
cena nova-iorquina. Mais especificamente, Iyer refere-se a uma «amálgama
particular de escrita ultramoderna e improvisação vanguardista, […] igualmente
propensa a subdivisões rítmicas irregulares e balanços intensos.» Num artigo
intitulado “Give Me a Complex”, em que retoma o conceito, Ethan Iverson
identifica dois dos principais precursores desta corrente, Tim Berne e Steve
Coleman: o primeiro associado a uma vertente mais aberta, com ligações ao free
jazz, à música clássica contemporânea ou ao rock, o segundo a uma vertente mais
estrita em termos formais, que parte sobretudo das músicas da diáspora
africana.
Kate Gentile é, hoje, uma das principais representantes da
vertente berniana da New Brooklyn Complexity (NBC). Compositora-baterista, cofundou,
com Matt Mitchell (outro nome maior desta corrente), a editora Obliquity
Records, cuja linha gráfica parece inclusive aludir à da lendária Screwgun de
Berne, apresentando, em todo o caso, uma linguagem própria (desenvolvida por
Gentile). Musicalmente, passa-se algo análogo: não obstante as manifestas
influências bernianas, a Obliquity — a par do trabalho de Gentile e Mitchell
editado pela Pi Recordings — tem vindo a definir todo um novo capítulo da NBC.
Em termos composicionais, b i o m e i.i, editado em 2023, é
o trabalho mais arrojado (e, diria, relevante) de Gentile até a data. Trata-se
de uma longa suíte de 13 partes, que ora alterna entre passagens escritas
intrincadas e outras mais abertas, de cariz exploratório, ora sobrepõe camadas
contrastantes — por exemplo, uma composta por elementos predeterminados, outra
por elementos espontâneos. A escrita é marcada por muito contraponto,
ostinatos, linhas melódicas labirínticas e, claro, polimetrias, ecoando
referências tão variadas quanto Stravinsky, Messiaen, Zappa, Berne ou até um
certo metal. Já o material espontâneo soa simultaneamente livre e disciplinado.
Em termos estéticos, b i o m e i.i pode ser visto como um
álbum primo de “A Pouting Grimace (2017)”, de Mitchell, algo que, uma vez mais,
as suas respectivas capas sugerem. Mas, enquanto o álbum de Mitchell se mantém
ainda no limiar da NBC (ou, se quisermos, do jazz contemporâneo), o de Gentile
extravasa-o largamente, assumindo-se em pleno como uma obra de música clássica
contemporânea. Em particular, a ligação do primeiro à linguagem (e às
sonoridades) do jazz é mais evidente, incluindo, por exemplo, linhas de contrabaixo.
E, apesar de preservar uma certa dimensão atlética, típica da NBC, o segundo é
uma obra primariamente camerística, exímia na sua gestão de timbres
instrumentais, texturas ou espaços. Por outras palavras, “A Pouting Grimace” é
um álbum de NBC que incorpora elementos da clássica contemporânea, ao passo que
“b i o m e i.i.” é um álbum de clássica contemporânea que incorpora elementos
da NBC. Mas, tomados em conjunto, estes dois álbuns contribuem para uma tarefa
comum: partindo, respectivamente, do jazz contemporâneo e da clássica
contemporânea, “A Pouting Grimace” e “b i o m e i.i” estilhaçam por completo as
fronteiras muitas vezes erigidas entre estes dois mundos, continuando, nesse
sentido, o legado dos músicos criativos da AACM.
Em “b i o m e i.i,” o fator-chave reside porventura no papel
desempenhado pela bateria de Gentile no seio de um grupo de câmara, constituído
por músicos do International Contemporary Ensemble, igualmente proficientes a
interpretar partituras e a compor em tempo real. Em termos de sonoridade, ora
cria um contraste vincado, remetendo para outras músicas (como o prog, o metal
ou a NBC), ora se alinha com os restantes instrumentos, assumindo uma linguagem
de percussão contemporânea. Paralelamente, em termos rítmicos, ora requer aos
seus colegas que apertem os cintos, ora lhes permite navegar com maior
liberdade. Este último aspecto é decisivo para a originalidade da proposta: na
tradição jazzística, onde o investimento no rigor (e, ao mesmo tempo, na
descontracção) a nível rítmico é consideravelmente maior do que na tradição
clássica, é com frequência o baterista que assume um papel comparável ao do
maestro; ora, aqui, ouvimos um grupo de câmara clássico dirigido (a partir de
dentro) por uma bateria! Além disso, não tenho memória de uma obra tão
bem-sucedida no que toca à integração de polimetrias características da NBC num
contexto clássico.
Cada parte da suíte tem como título um termo inventado por
Gentile, por sua vez correspondente a um elemento de um universo ficcional por
si imaginado. (Nas notas de programa do álbum, encontramos um conjunto de
definições — e respectivas ilustrações — de cada um desses termos.) Ora, também
o equivalente sonoro desse universo constitui, a meu ver, uma manifesta
novidade. E, mais importante ainda, uma novidade deveras convincente: se, hoje,
podemos considerar “A Pouting Grimace” um dos álbuns mais relevantes da década
transata, prevejo que o mesmo se possa vir a dizer de “b i o m e i.i.” a
respeito da presente.
Faixas
1.drobe
04:01
2.ikbii
03:23
3.oergn
05:53
4.bippf
03:08
5.flibb
03:46
6.chorp
03:18
7.nionine
04:40
8.vlimb
04:08
9.xooox
04:38
10.moons
04:03
11.shorm 04:21
12.drode 04:58
13.isth 02:34
Músicos: Kate Gentile— bateria, percussão; Isabel Lepanto Gleicher— flauta, piccolo; Jennifer Curtis— violino; Joshua Rubin— clarinete, clarinete baixo; Rebekah Heller— fagote; Ross Karre— vibrafone, percussão; Cory Smythe— piano
Fonte: João Esteves da Silva (jazz.pt)

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