Qualquer cinéfilo de carteirinha dirá que o enredo não é
realmente o mais importante, ou, como costumava dizer o estimado crítico Roger
Ebert, a questão não é "sobre o que um filme trata, mas como ele trata o
assunto". Esta é uma lição que Kristoffer Rosing-Schow e o grupo The
Counterfictionals realmente levaram a sério. Suas obras são em grande parte
inspiradas no mundo do cinema, mas essas fontes específicas são apenas pontos
de partida. O objetivo de cada obra não é o filme ou cena específica em que ela
se inspira, mas sim como ela evoca o clima e a essência emocional que a
permeiam.
Na sequência do caleidoscópico “No Hay Banda (Good Music,
2019)”, o sexteto volta a tecer uma série de noirs de jazz sombrio e
fascinante, embora desta vez o trabalho se incline mais para o impressionismo
do que para as referências específicas. Por exemplo, o conceito por trás da
faixa de abertura é um filme hipotético que nunca foi feito. A obra tece um
melodrama fantasmagórico de um dia chuvoso com theremin (NT: é um dos primeiros instrumentos musicais eletrônicos,
inventado em 1920 pelo russo Léon Theremin, famoso por ser tocado sem qualquer
contato físico. O músico controla o volume e a frequência [notas] movendo as
mãos ao redor de duas antenas metálicas, produzindo um som etéreo e
fantasmagórico), cordas delicadamente dedilhadas e guitarra fora de
fase, sob um trecho livre de James Joyce, e a experiência não se torna menos
imersiva pelo fato da fonte ser (bem) ficcional. É perfeitamente fácil imaginar
toda essa coleção como uma minissérie de fitas gravadas para algum projeto de
cinema de arte da era de ouro, perdidas atrás de uma caixa de madeira empoeirada
na sala de edição.
Assim como inúmeras outras partituras, " An Imcomplete
Encyclopedia Of GentleEmotions " está repleta de uma paleta de timbres que
vai muito além do básico de piano, guitarras e instrumentos de sopro. A tensão
de uma trágica história de amor/não-amor de Quentin Tarantino é retratada em um
lamento fúnebre com clarinete melancólico e um toque de melódica, adicionando
uma pitada de drama à la Ennio Morricone. Para retratar os personagens
principais de "Quero Ser John Malkovich" sentindo-se perdidos e à
deriva, uma linha central de piano acompanha a música, enquanto o ambiente ao
redor gradualmente se torna menos estranho, passando de sinos inquietos para
flauta e saxofone mais calmos (embora uma onda etérea de theremin ainda
persista até o final). As emoções aqui podem não ser sempre tão suaves, afinal,
embora um belo e, em sua maior parte, reconfortante tango cigano baseado em uma
das mais belas histórias de amor dos anos 90 (se não de todos os tempos) seja
suficientemente tranquilizador para mostrar que o título do álbum se encaixa
perfeitamente.
Se há algo que falta em “Encyclopedia” em comparação com o
álbum de estreia da banda, é uma dose ocasional de leveza. Deixando de lado
essa canção de amor emocionante, o álbum permanece consistentemente assombroso
e melancólico, não em busca de um drama óbvio, mas para encarar esses temas,
muitas vezes agridoce, com a honestidade que merecem. Quando a música se
encerra com uma homenagem hipnótica a dois mestres do misterioso, a banda trata
o real como chave para o irreal, demonstrando que uma composição atmosférica bem
elaborada pode fazer com que um simples clarinete e cordas soem tão misteriosos
quanto qualquer artifício eletrônico. Com a duração ideal de um LP, esta é uma
obra que parece terminar surpreendentemente rápido, mas — como acontece com
muitos dos filmes mais bem elaborados — está repleta de detalhes e com muitas
camadas surpreendentes a serem descobertas.
Faixas: Poems
and Rain; Norm Gunderson's 3-Cent Stamp; Beatrix and Bill; Puppet; The White
Lodge.
Músicos:
Kristoffer Rosing-Schow (saxofone alto); Tove Sørensen (baixo); Bjorn Heeboll
(bateria); Maja Romm (guitarra); Jeppe Zacho (clarinete); Henriette Groth (piano);
David Kerns (narração [1]); Sune Wedam (trombone baixo [1]); Martin Fabricius (vibrafone
[1, 5]); Anders Banke (flauta, clarinete baixo [4, 5]).
Fonte: Geno
Thackara (AllAboutJazz)

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