Thelonious Monk (1917-1982) disse-o com desconcertante
clareza: «Para onde vai o jazz? Não sei. Talvez para o inferno.» Nome
fundamental para a história do jazz, Monk, oriundo de Rocky Mount, na Carolina
do Norte, era, na primeira metade dos anos 1940, o pianista residente do
Minton's Playhouse, o lendário clube do Harlem que foi o principal laboratório
para as experimentações que culminaram na revolução do bebop. Pianista econômico
e preciso, costumava tocar dobrado sobre si próprio, com os dedos rígidos,
quais baquetas a percutir um tambor. De personalidade peculiar, excêntrico,
Monk não colhia os favores generalizados da crítica de então, embora excitasse
os mais atentos. Mas as suas harmonias angulares, dissonantes, as guinadas
melódicas e o ataque percussivo fizeram dele um nome fundamental para o que, a
partir de então, aconteceu no jazz. Todas estas peculiaridades fazem da música
de Thelonious Monk um substrato fértil para explorações criativas. Foi o que
aconteceu no projeto The Monkious, trio com dois-terços portugueses ― o
guitarrista Marcelo dos Reis e o contrabaixista Gonçalo Almeida ― e um-terço
alemão ― o baterista Philipp Ernsting ―, que acaba de editar o seu registo de
estreia, No Straight With Chaser, na JACC Records. A ideia central do projeto
passa por utilizar o legado de Monk para criar algo novo e singular. Os temas
do pianista servem não apenas como pontos de partida, mas sobretudo como
plataformas para improvisações em contexto livre e criativo, explorando um
vasto espectro de possibilidades sonoras que se afastam da rigidez formal. A
incessante procura por contextos mais abstratos confere à música do trio uma
dimensão exploratória, em que a tradição se cruza com a inovação. «Mais do que
revisitar Monk», começa por explicar Gonçalo Almeida à jazz.pt, «o grupo
centra-se na interação, em utilizar cada interpretação como espaço vivo de
diálogo, espontaneidade e experimentação coletiva.» O lado aventureiro do
empreendimento agrada também a Marcelo dos Reis: «Do ponto de vista pessoal, é
muito interessante abrir o leque de possibilidades em “hinos” do jazz que são
tão conhecidos do público em geral, e isso ficou sempre refletido pela reação
das pessoas, em todos os concertos que fizemos até hoje.» No início estava a
ideia de formar um trio de improvisação que não partisse de uma tábua rasa,
mais de algo reconhecível e enraizado na tradição. «Um dos nossos pontos de
referência foi o disco Standards, de Derek Bailey, no qual os temas servem como
matéria-prima para explorações fora do contexto idiomático do jazz. Dentro
desse espírito, sentimos que a música de Thelonious Monk seria ideal para essa
abordagem: por um lado profundamente marcada pela tradição, por outro lado
aberta a múltiplas possibilidades de reinvenção», sublinha o contrabaixista. O
que quiseram, corrobora o guitarrista, foi «pegar na música de um artista que
tanto admiramos pela visão que teve, e partir dessa visão para tocar livremente
sobre esta música.» «Na verdade, acho que é a interpretação correta para o
fazer». As composições atemporais de Thelonious Monk podem ser imensamente
elásticas, admitindo interpelações sob diferentes ângulos. «A própria música de
Monk já era “torcida” por si mesma, por o tempo ser irregular e pelos clusters
dissonantes. A partir daí, foi um dos motes para abordar este repertório desta
forma, pois já é convidativo para tal», diz Marcelo dos Reis. Gonçalo Almeida
exalta o lado único e, ao mesmo tempo, altamente reconhecível da música do
pianista. «A sua escrita e o seu modo de tocar transportam sempre algo de
inesperado, uma dimensão “fora da caixa” que o torna inconfundível. Não é por
acaso que tanto a sua música como o próprio reconhecimento da sua obra
demoraram a ser plenamente abraçados: trata-se de uma linguagem que não é
comum, que desafia convenções, mas que ao mesmo tempo reflete com enorme
clareza a originalidade e a visão pessoal.» A música de Thelonious Monk espelha
um espírito rebelde e criativo, que desafiou o facilitismo de um swing em
decadência, quebrou moldes e abriu uma miríade de novas possibilidades para o
jazz (Os polícias estavam vigilantes, mas, ontem como hoje, erraram o alvo:
anteviram, então, que o bebop significava o fim do jazz).
Marcelo dos Reis tem seguido uma trajetória diversificada
nos terrenos férteis do jazz de pendor mais livre e da improvisação
relacionada, desdobrando o seu trabalho por múltiplos projetos, como Open
Field, The NAP, Chamber 4, Frame Trio, Fail Better!, In Layers, Turquoise
Dream, Pedra Contida e, mais recentemente, Flora, com o contrabaixista Miguel
Falcão e o baterista Luís Filipe Silva. Em 2024, ofereceu-nos o solitário
Life... Repeat!!!. Radicado em Roterdam desde 2002, Gonçalo Almeida tem
construído um tentacular corpo de trabalho, em diferentes contextos e
configurações instrumentais, integrando projetos como The Selva, Albatre,
Ritual Habitual, Spinifex, Lama, ROJI e Sonitus Missarum. O seu rol de
colaborações impressiona. Os anos mais recentes trouxeram duetos com o
contrabaixista belga Peter Jacquemyn, oficiante do mesmo instrumento, e com o
organista Bart van Dongen, nos Tabula Sonorum Organum; integra o trio The Attic
(com o saxofonista Rodrigo Amado e o baterista Onno Govaert) e o liderado pelo
trompetista Luís Vicente. Em 2024, editou o notável “States of Restraint”, com
a trompetista Susana Santos Silva e o percussionista Gustavo Costa. Conhecemos
o trabalho de Philipp Ernsting sobretudo do power-trio Albatre (com o mesmo
Almeida no contrabaixo) e nas várias frentes da colaboração que mantém com o
saxofonista português Hugo Costa (não esquecer The Art of Crashing, de 2022).
Ao revisitar Monk, o trio The Monkious não pretende recriar a sua música tal
como ela é originalmente, mas sim dialogar com ela, inspirados pela ousadia e
pela forma como desbravou territórios de liberdade e invenção no jazz. Este
propósito está vertido no próprio título que escolheram para o álbum, que joga
com as palavras do tema “Straight, No Chaser” ― que dá título ao sexto álbum de
estúdio de Monk, lançado em 1967 ―, sintoma de um desejo de levar por diante um
exercício de respeitosa subversão. «É música de Monk, mas subvertida,
transformada, reconstruída, “torta”», diz Almeida. Ao mesmo tempo, o título
acende também uma dimensão satírica, olhando com humor e distanciamento para o
domínio por vezes demasiado sério e académico que tende a marcar certos
circuitos do jazz. «O nome do álbum funciona como uma homenagem a Monk e à sua
rebeldia, mas também como uma afirmação da nossa vontade de subverter a
tradição e de a reinterpretar de forma livre e original», sublinha o
contrabaixista. Reis alinha: «A ideia é também abordar este universo do jazz de
uma forma mais relaxada e não tão fechada nas mudanças, e a variação no título
representa totalmente a nossa abordagem à música do Monk, que é tocada de uma
forma “não clássica” e com uma ideia mais abstrata, como um whisky velho, mas
aqui cortado com Coca-Cola.» (Nota para o notável trabalho gráfico de Joana
Monteiro.) Marcelo dos Reis e Gonçalo Almeida salientam a naturalidade de todo
o processo: «Debatemos algumas ideias de como devíamos pensar a interação,
abordagem, melodias e harmonias, e mesmo improvisando livremente, nunca
esquecer o mundo onde estamos», refere o guitarrista. «Optamos por tocar e
dissecar esses temas de forma a provocar o já referido encontro entre a música
de Monk e a improvisação livre», complementa Almeida. «Esse trabalho acabou por
se desenvolver de maneira espontânea e, em muitos momentos, até mesmo
divertida, o que tornou o desafio menos um obstáculo e mais uma oportunidade de
descoberta.» Gravado ao vivo no Salão Brazil, em plena baixa de Coimbra, no
início de 2023, No Straight With Chaser é um verdadeiro tributo ao imenso
legado de Thelonious Monk, dispensando formaldeídos e outros conservantes. O
trio entrega-se a seis clássicos absolutos do universo monkiano; a abrir a
função, “Monk’s Dream” deixa entrever a melodia-base, exposta telegraficamente,
com os três instrumentos numa articulação apertada, alternando centralidades
(não se leia protagonismos). “Epistrophy” também expõe o célebre motivo
principal (que emerge a espaços) para logo tergiversar noutras direções. Reis
explora diferentes técnicas, Almeida é um contrabaixista imprevisível e
Ernsting um exemplo de contenção consequente. Os três músicos convergem para um
final mais abstrato. Mote dado, “Well You Needn’t” mostra-os em ruminações
ziguezagueantes, sempre procurando acrescentar pontos ao conto inicial. “Bemsha
Swing” desenvolve-se num crescendo de intensidade até tudo regressar a uma
enigmática serenidade. A relojoaria de “Evidence” exponencia os níveis de
interação entre os vértices do triângulo instrumental. Em “Blue Monk” o grupo
explora até às entranhas uma das mais emblemáticas composições do pianista: o
guitarrista liga-se à eletricidade e ora se aproxima ora se afasta do motivo
central, que, a espaços, emerge claríssimo; Almeida pega no arco, aportando uma
camada difusa, e Ernsting toca com impressionante sensibilidade. Passados
alguns segundos após terminada a última peça do alinhamento, confirmamos a
suspeita: uma faixa-bônus, escondida, que corresponde ao bis do concerto e que
contém todos os temas tocados anteriormente, numa sumária recapitulação de
efeito surpreendente. Todo o jazz, a todo o tempo, deveria ser assim.
Faixas
1.Monk's
Dream 05:46
2.Epistrophy
08:14
3.Well
You Needn't 06:24
4.Bemsha
Swing 05:28
5.Evidence
09:15
6.Blue
Monk 14:13
Músicos: Philipp Ernsting— bateria; Gonçalo Almeida— contrabaixo; Marcelo dos Reis— guitarra elétrica.
Fonte: António Branco (jazz.pt)

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