O trompetista e compositor Adam O’Farrill destila uma
mistura inebriante de inspirações em “For These Streets”, o lançamento de
estreia de seu novo octeto. Inspirando-se na música, na literatura e na
atmosfera dos anos 1930, o álbum reflete sua imersão na época — a prosa de
Henry Miller, Luzes da Cidade de Charlie Chaplin e os universos sonoros de
Stravinsky, Ravel, Carlos Chávez e Kurt Weill. Nenhum desses conhecimentos
prévios é necessário para apreciar a música, nem é mencionado na embalagem. Porém,
conhecê-los acrescenta uma camada de compreensão à hibridez jazz/não-jazz,
música de câmara/não-câmara que o conjunto alcança.
O'Farrill, parte de uma distinta linhagem musical — seu avô
é o maestro cubano Chico O'Farrill, e seu pai, o célebre pianista e maestro
Arturo O'Farrill — trilhou um caminho singular na música contemporânea. Sua voz
no trompete pode ser ouvida em projetos tão variados quanto a Afro Latin Jazz
Orchestra, o Anna Webber's Large Ensemble e álbuns da guitarrista Mary
Halvorson, do saxofonista Kevin Sun, da vibrafonista Patricia Brennan e do
saxofonista Rudresh Mahanthappa. Com três álbuns de jazz moderno em seu nome,
incluindo seu lançamento anterior, “Hueso (FOOD, 2024)”, O'Farrill tornou-se
conhecido por sua dinâmica execução que transita entre o interior e o exterior
do instrumento, além de sua visão composicional inovadora.
Para este projeto de octeto, ele reúne colaboradores já
conhecidos: Halvorson, Brennan, os saxofonistas Sun e David Leon, o trombonista
e eufonista Kalun Leung, o baixista Tyrone Allen II e o baterista Tomas
Fujiwara. A música é harmonicamente e ritmicamente complexa, mas o brilhantismo
de “For These Streets” reside em como essa complexidade é reservada aos
intérpretes. O ouvinte é convidado a entrar num universo sonoro exuberante,
peculiar e emotivo, que transmite uma sensação imediata e intuitiva. O grupo é
sutilmente conduzido pela regência de Eli Greenhoe, o que confere à música um
caráter espontâneo, porém coeso.
O álbum abre com "Swimmers", começando com um
diálogo introspectivo entre guitarra e baixo e um trompete discretamente
inquisitivo, desdobrando-se gradualmente em um labirinto pós-bop que demonstra
a destreza composicional de O'Farrill. No entanto, essas demonstrações
explícitas são a exceção. Com frequência, O'Farrill opta por nuances e
atmosfera. "Nocturno, 1932" é uma valsa lenta e melancólica,
interpretada com um toque de música de câmara. "Migration" utiliza o
contrabaixo como âncora, deixando os músicos à deriva em um contraponto
exploratório. "The Break Had Not Come" flutua numa névoa misteriosa e
onírica, moldada pelos efeitos de Halvorson e pelo brilho luminoso do vibrafone
de Brennan.
Um dos momentos mais marcantes do álbum surge com
"Streets", um dueto esparso e intimista entre O'Farrill e Halvorson
que se desenrola como uma troca improvisada de alto nível — ponderada,
coloquial e repleta de entendimento mútuo. Este espírito de imaginação coletiva
define o álbum.
“For These Streets” evoca um mundo — atemporal, surreal e
estranhamente familiar — onde composição e improvisação dançam juntas na sombra
e na luz.
Faixas: Swimmers;
Nocturno, 1932; Scratching the Surface of a Dream; Migration; Speeding Blots of
Ink; Streets; And So On; The Break Had Not Come; Rose; Late June.
Músicos:
Adam O'Farrill (trompete); Kevin Sun (saxofone tenor); David Leon (saxofone
alto); Kalun Leung (trombone); Mary Halvorson (guitarra); Patricia Brennan
(vibrafone); Tyrone Allen II (baixo); Tomas Fujiwara (bateria); Eli Greenhoe
(compositor / maestro).
Para conhecer um pouco deste trabalho, assistam ao vídeo
abaixo:
https://www.youtube.com/watch?v=qazqa65AY1k
Fonte: Mark Corroto (AllAboutJazz)

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