Trabalhando diligentemente em sua própria zona expressiva
marginal, o complexo operístico “Trillium” de Anthony Braxton, impossível de
categorizar — nascido nos anos 80 — atingiu um novo ápice com o lançamento de
uma poderosa gravação ao vivo e em estúdio de sua épica obra de quatro horas, “Trillium
X (PMP; 453:37)”. Embora esta seja a sexta ópera de seu ciclo contínuo, a
execução precisa e convincente de “Trillium X” pela Orquestra de Performance
Musical de Praga (PMP), regida por Roland Dahinden, parceiro de longa data de
Braxton, marca um momento triunfante.
A tempo do 80º aniversário de Braxton, uma caixa especial
com oito CDs inclui tanto a estreia mundial de 2023, em Praga, quanto uma
gravação de estúdio feita em Darmstadt, na Alemanha. O documento é a melhor
manifestação até agora da aventura operística de Braxton, uma década depois de
ele ter terminado de escrever a ópera em 2014.
A escala importa aqui. Braxton segue o exemplo de seus
heróis criadores de telas gigantescas, Richard Wagner, famoso pelo ciclo de
quatro óperas do Ring Cycle, e Stockhausen, cuja série de óperas Licht,
onde "quanto maior, melhor", chegou a 29 horas de duração. Para o
público, o compromisso com a experiência completa de X pode ser transformador. Com
a mentalidade correta, a experiência total do ouvinte com a obra épica de
Braxton se transforma em um reino hipnótico que expande o tempo e a mente, em
grande escala.
Musicalmente, X opera em uma linguagem pós-moderna entre
tonalidade e atonalidade, em um estilo vagamente inspirado pelo serialista
Alban Berg, cujas óperas Wozzeck e Lulu fizeram parte da obsessão de Braxton
pela ópera por volta dos 40 anos. Em X, os cantores, uniformemente
impressionantes e dedicados, frequentemente interpretam seus textos sinuosos em
uma espécie de formato de canção-falada no estilo singspiel (NT: é um gênero de drama musical alemão, considerado um tipo
de ópera, caracterizado pela alternância entre diálogos falados e números
musicais como árias, canções e conjuntos, com tramas geralmente cômicas ou
românticas, muitas vezes com elementos de fantasia, como em "A Flauta
Mágica" de Mozart, sua obra mais famosa). O ambiente geral de
intensidade intelectual e cerebral é periodicamente pontuado por doses de
humor, ora banais, ora bizarras: "se isto é uma ovelha, eu sou George
Washington", "e aí, gata!?" e "no futuro, todos vão adorar
a indústria da gaita de foles... Estou aberto ao brilho, mas primeiro as coisas
mais importantes".
Piadas internas também aparecem, como na frase bem colocada
"X marca o lugar", "considerando tudo, acho que o diretor fez um
ótimo trabalho" e "o que temos aqui é um caso de certeza
idiomática". O senso de humor subestimado de Braxton está intacto e é
usado de forma astuta ao longo de X.
Como estrutura narrativa, X segue um caminho sinuoso e
decididamente não linear, com comentários espirituosos inseridos em um libreto elaborado.
A "narrativa" se transforma, passando de um navio pirata no mar,
liderado pela capitã Helen (interpretada com maestria por Eva Esterkova), para
um confronto com robôs malfeitores que subvertem o sistema financeiro
(pressagiando cibercrimes da IA?). O Act III retrata um casamento triplo entre
ladrões de banco, e o Act IV transita das forças bélicas da Casa Branca para um
local de orgia. Vários colapsos acontecem ao longo do caminho.
De certa forma, a proposta da ópera de mesclar texturas
surreais de ficção científica, fluxo associativo livre, linguagem metafísica e
surpreendentes referências à cultura pop evoca paralelos com o clássico romance
de Robert Heinlein, "A Lua é uma Amante Cruel (The Moon is a Harsh
Mistress)", que faz referências à proto-inteligência artificial, e com as
óperas experimentalistas e lúdicas com a linguagem de Robert Ashley,
"Perfect Lives" e "Now Eleanor's Idea". Mas a marca
registrada de Braxton, como criador musical e pensador rebelde, nunca está
longe da superfície.
O jazz, como tal, surge sorrateiramente, com uma breve
improvisação de saxofone no início do segundo ato, a inserção da pianista
Hildegard Kleeb interpretando uma composição já existente de Braxton e, no
terceiro ato, "Three Sisters", uma aparição repentina de um segmento
fugaz e um tanto embriagado de big band. Este último aspecto evoca o
espírito aventureiro e desconstruído das big bands do projeto Creative
Orchestra Music de Braxton, que remonta à década de 1970. Em outra
referência cruzada, uma variação vertiginosa da "Wedding March" de
Lohengrin, que encerra o Ato III, presta uma homenagem um tanto embriagada a
Wagner.
A vasta paisagem sensorial de X atinge um ponto final
estranhamente gracioso, à medida que uma onda atonal de som se transforma
suavemente em um tema cíclico melancólico para cordas graves, passando para um
clarinete solo que se desvanece. O tema de 21 notas retorna à introdução da
ópera, de forma semelhante à estrutura de frases que vão da última à primeira,
presente em Finnegans Wake, de James Joyce.
X é um mundo onírico e lógico em si mesmo, um lugar para se
perder por algumas horas, como Wagner, mas estritamente de acordo com as regras
de ordem e exploração de Braxton.
Faixas
1.Anthony
Braxton: Trillium X: Act 1 (Prague) - Act 1: Voyage to the New Worlds (Prague)
01:02:13 vídeo
2.Act 2:
Robots versus Humans (Prague) 43:37
3.Act 3:
The Three Sisters (Prague) 47:17
4.Act 4:
Four Disasters (Prague) 01:17:25
5.Act 1:
Voyage to the New Worlds (Darmstadt) 59:17
6.Act 2:
Robots versus Humans (Darmstadt) 41:24
7.Act 3:
The Three Sisters (Darmstadt) 47:09
8.Act 4:
Four Disasters (Darmstadt)
Fonte: Josef Woodward (DownBeat)

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