Em “Keepers of the Eastern Door”, o saxofonista Chris Cheek
lidera um conjunto de performances belamente executadas, ricamente melódicas e
criativamente selecionadas, que encontram o equilíbrio perfeito entre
encantamento e diversão. Cheek e seus companheiros de banda—Bill Frisell na guitarra,
Tony Scherr no baixo e Rudy Royston na bateria— oferecem uma mistura de
originais distintos de Cheek e interpretações inesperadas de obras de outros
artistas. As versões das músicas são retiradas de gêneros fora do repertório de
jazz e cancioneiro tradicional, e a banda as enriquece com novos arranjos,
tempos e ritmos atraentes. Cheek toca com uma modéstia cativante e um timbre
quente e bonito, qualidades que realçam o impacto do seu vibrato, usado com
parcimônia. O grupo lida com o material bastante variado com economia e paciência,
evocando claramente em diversas faixas os humores ou estados emocionais
sugeridos por seus títulos.
A primeira faixa, "Kino's Canoe", um original de Cheek
cujo título é inspirado no conto de Hemingway, "The Pearl", a
gravação começa com uma espécie de finta, através de uma performance mais
baseada em riffs (NT: frases musicais curtas e
repetitivas, formadas por notas, intervalos ou acordes, que servem como base ou
acompanhamento em uma música) e impulsionada pela batida que se segue. A
cativante faixa de abertura também se destaca pela maravilhosa fraseologia em
uníssono de Cheek e Frisell, cuja combinação consonantal, da qual um ou outro
às vezes se separa para um solo ou contramelodia, é uma característica
encantadora de várias faixas.
O ritmo diminui com a segunda faixa, "Smoke
Rings", um lado B antigo dos Mills Brothers, gravado posteriormente por
Henry Mancini. Cheek e Frisell dão à melodia reflexiva a atenção cuidadosa que
ela merece. Aqui e em outros momentos, a interpretação de Frisell dispensa os
efeitos e a engenhosidade textural, que frequentemente enriquecem suas
performances. Essa abordagem mais sóbria se encaixa perfeitamente no repertório
de Cheek.
A banda oferece duas interpretações respeitosas, porém
atualizadas, de obras corais de compositores historicamente significativos. Para
"O Sacrum Convivium!", composição de Olivier Messiaen de 1937, Cheek
recorre ao saxofone soprano e Frisell ao violão, escolhas instrumentais que
destacam a singularidade da obra na lista de faixas e sua sacralidade. Scherr e
Royston abrilhantam a apresentação com um suíngue de balada sutil e
inconfundível.
Em "Lost is My Quiet", a banda interpreta com
maestria a melodia melancólica e a letra da belíssima canção de amor perdido do
compositor barroco Henry Purcell. Cheek aumenta a urgência de forma suave,
porém eficaz, em seu segundo solo, que sucede um solo de Scherr, emocional e
tonalmente ressonante.
"On a Clear Day", a famosa canção-título do
musical de Lerner e Lane de 1965, é uma escolha mais convencional para uma
versão reinterpretada, mas a banda chama a atenção ao dar-lhe um ritmo
levemente funkeado. O refrão cativante de Scherr e o arranjo divertido de Cheek
combinam perfeitamente com o otimismo reverente da letra da música.
O início e o fim de "From Me to You" oferecem
interpretações diretas da melodia dos Beatles, intercaladas com solos concisos
e expressivos de Frisell e Cheek. Mas o solo de Cheek e o andamento, mais lento
que o dos Beatles, conferem a esta versão um caráter mais envolvente do que a
original.
A faixa título, "Keepers of the Eastern Door" um
apelido para o povo indígena Mohawk, começa com algumas batidas evocativas de
tambor de Royston. Essas características dão lugar a uma melodia atraente e
prolongada.
"Go on, Dear", a balada de encerramento, apresenta
belos solos de Cheek e Frisell. Aqui e em várias outras faixas, é gratificante
ouvir Royston complementar o tema e seus solos. Em sua doce frase final, Cheek
insere uma breve pausa que emoldura perfeitamente a nota final e acolhedora do
álbum — uma expiração reconfortante.
Com “Keepers of the Eastern Door”, Cheek e seus
colaboradores, exemplos de escuta sensível e execução responsiva, nos
presenteiam com uma gravação que prioriza a contenção, oferecendo a satisfação
de notas cuidadosamente escolhidas e frases cuidadosamente elaboradas.
Faixas: Kino’s
Canoe; Smoke Rings; O Sacrum Convivium!; On A Clear Day; Lost Is My Quiet; From
Me To You; Keepers Of The Eastern Door; Go On, Dear.
Músicos: Chris
Cheek (saxofone); Bill Frisell (guitarra elétrico); Tony Scherr (baixo); Rudy
Royston (bateria).
Para conhecer um pouco deste trabalho, assistam ao vídeo
abaixo:
https://www.youtube.com/watch?v=a9LfDwlM9AY
Fonte: David
Weiner (AllAboutJazz)

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