Omer Govreen é um jovem contrabaixista israelita sediado em
Amsterdam. Em crescente afirmação na cena europeia, temos tido a oportunidade
de o ouvir em Portugal em colaboração com músicos como o saxofonista José
Soares (de cujo quarteto é membro) ou o baterista João Pereira (com quem vem
formando aquela que julgo ser uma das mais promissoras seções rítmicas da atualidade).
Já com alguns álbuns editados na condição de colíder ou cocompositor, Govreen
dá agora um passo importante no seu percurso, com o lançamento do seu primeiro
álbum enquanto compositor principal e líder de banda, inscrevendo-se, assim, na
importante linhagem de compositores-contrabaixistas que tem marcado a história
do jazz.
O quarteto que ouvimos neste “All Things Equal” é o mesmo
que gravou “Maya (2022)”, também editado pela norte-americana J.M.I.
Recordings, em que a autoria das composições era repartida entre Govreen e o
vibrafonista esloveno Aleksander Sever. Completado por dois músicos holandeses,
o pianista Floris Kappeyene e o baterista Wouter Kühne, trata-se de uma
verdadeira banda de trabalho, irrepreensivelmente coesa. Gravado e produzido em
Nova-Iorque, o álbum apresenta um som de pendor americano, típico do jazz mainstream
moderno, com bastante compressão, mas a música que nele escutamos afigura-se
antes uma síntese de sonoridades americanas e europeias, residindo aí um dos
seus principais fatores de interesse. À primeira escuta, poderíamos cair na
tentação de destacar, por exemplo, o suingue de “For Granted” ou o lirismo de
“Comfort” como representando, respectivamente, uma vertente mais americana e
outra mais europeia, mas julgo que isso falharia, em grande medida, o alvo: a
referida síntese verifica-se a um nível mais profundo, atravessando a
totalidade da composição e do som do grupo.
Enquanto obra, este álbum é um bom exemplo de como o atual
renascimento do vinil tem beneficiado o panorama da edição discográfica,
promovendo o regresso de álbuns mais curtos e consistentes, pensados como um
todo, ao invés de meras coleções de temas. Com pouco menos de 33 minutos de
duração, parece ter sido, aliás, concebido como uma espécie de suíte,
constatando-se certas relações entre as suas sete partes: note-se, por exemplo,
as afinidades entre as faixas de abertura de cada um dos lados, “All Things
Equal” (A) e “Comfort” (B), sobretudo entre o tema da primeira e a coda da
segunda, em tons distintos, mas assentes em motivos e intervalos afins. Existe,
pois, um nexo que atravessa o álbum e nos compele a ouvi-lo sem interrupções,
algo para o qual a habilidade de Govreen a trabalhar com contrastes — quer
entre faixas, quer no seio de faixas particulares — também contribui.
Govreen revela-se, além disso, um harmonicista notável, tanto
ao nível da escrita como das suas próprias intervenções espontâneas. Se, por um
lado, o material melódico da maioria das composições nos soa relativamente
comum, estas apresentam, por outro, uma sofisticação harmônica assaz invulgar.
Sofisticação essa também patente sempre que ouvimos Govreen em primeiro plano,
como na breve peça para contrabaixo solo “Rivers (intro)” ou no solo que assina
na balada “Comfort”. Aliás, embora os seus contributos visem sobretudo o coletivo
— tal como acontece com os dos seus colegas, todos eles instrumentistas e
improvisadores de excelente nível —, talvez o principal destaque deste álbum
seja mesmo Govreen enquanto contrabaixista: com um som profundo e amadeirado,
um toque preciso e uma afinação excepcional, julgo existirem aqui indicações
suficientes de que estamos perante um músico com o potencial para se tornar uma
referência do contrabaixo jazz no século XXI.
Faixas
1 All
Things Equal
2 The
Pole/Call
3 For
Granted
4 Comfort
5 Rivers
(Intro)
6 Narrowing
7 Waiting
for Wouter
Músicos: Omer
Govreen— contrabaixo; Aleksander Sever— vibrafone; Wouter Kühne— bateria; Floris
Kappeyene— piano.
Fonte: João Esteves da Silva (jazz.pt)

Nenhum comentário:
Postar um comentário