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sábado, 18 de abril de 2026

OTOMO YOSHIHIDE / CHRIS PITSIOKOS - UNCANNY MIRROR (Eleatic Records)

Chris Pitsiokos é um dos músicos criativos mais brilhantes da sua geração. É também um dos mais interessantes pensadores sobre música da atualidade (O seu artigo “Ornette Coleman and the Emancipation of the Individual”, por exemplo, é uma leitura fundamental). Cito a seguinte passagem de uma publicação sua numa rede social, que julgo ser da maior pertinência: «Muito daquilo que vejo programado em festivais é altamente derivativo do free jazz de meados ou finais dos anos 60, talvez da música dos anos 70 inspirada pela AACM ou da música improvisada “não-idiomática” europeia do início dos anos 70. Toda esta música é extremamente importante para mim e, ocasionalmente, toco nesses estilos. Mas, hoje, trata-se de música histórica altamente codificada. Pelo menos, tal como a vejo constantemente ser tocada em Berlim, em Nova Iorque, em festivais.»

Pitsiokos observava também que, paradoxalmente, estas músicas derivativas continuam a receber rótulos como “vanguarda” ou “experimental”, não obstante terem há muito deixado de constituir novidade. Ou seja, conceitos como jazz de vanguarda, livre improvisação ou música experimental, outrora denotadores de processos disruptivos (resultantes em música ainda por codificar), são hoje usados, em grande medida, para referir gêneros (ou subgêneros) já totalmente estabelecidos.

O caso da chamada livre improvisação [free improvisation] é particularmente gritante. Falo, claro está, no gênero derivativo da referida improvisação “não-idiomática” (que, afinal de contas, não é mais do que um idioma muito específico, com as suas convenções próprias) e não no processo de compor música em tempo real, transversal às mais variadas estéticas. Muita da livre improvisação que hoje se ouve tem, a meu ver, um valor artístico questionável, não apenas por ser derivativa, mas por cultivar aquilo que julgo ser uma forma de preguiça composicional. Tal preguiça nada tem que ver com o fato de essa música ser improvisada, mas antes com o modo particular como é improvisada (Existe música totalmente improvisada de um rigor composicional espantoso, tal como existe música totalmente escrita sem qualquer rigor composicional). Mais precisamente, verifica-se nela uma frequente desresponsabilização face às consequências dos gestos criativos: aquilo que acontece no presente pode não ter qualquer relação relevante com o que acontecera no passado nem com o que acontecerá no futuro, perpetuando-se, assim, um jogo espúrio meramente reativo, desprovido de uma visão de médio ou longo termo. Jogo esse — outrora associado a um importante movimento de anticomposição, mas hoje largamente esgotado — que vai continuando a ser tomado por “vanguarda”.

Neste contexto, a prática artística de Pitsiokos é uma lufada de ar fresco (o que confere ainda mais força às suas palavras). Nem 30 anos de idade tinha e editara já, pelo menos, duas obras-primas da música criativa contemporânea: o alucinante Paroxysm (2015), em duo com o músico electrónico Philip White, talvez um dos álbuns mais radicais das últimas duas décadas, e Silver Bullet in the Autumn of Your Years (2018), do seu quarteto CP Unit, verdadeira lição de como tradição e modernidade se podem, hoje, conjugar de modo a produzir algo nunca antes ouvido, ao mesmo tempo acessível e desafiante. E, mais recentemente, no solo Art of the Alto (2022), repensa, para o século XXI, os caminhos desbravados por Anthony Braxton mais de 50 anos antes. Faço questão de referir aqui estes álbuns, pois julgo não lhes ter sido ainda reconhecida a devida importância.

Nos últimos anos, Pitsiokos encontrou em Otomo Yoshihide um colaborador privilegiado. Figura-chave de vanguardas que, hoje, podemos já considerar históricas, Yoshihide não tem deixado de procurar reinventar-se ao longo do tempo. Uncanny Mirror, editado no ano passado pela Eleatic Records (selo do próprio Pitsiokos), é o mais recente testemunho dessa colaboração. Nele encontramos um conjunto de peças gravadas ao vivo em duas ocasiões distintas, mas próximas: um concerto no Café Oto, em Londres, e outro no festival Jazz Cerkno, na Eslovénia, ambos em maio de 2023. A mistura feita por Pitsiokos e a masterização de Carlos Quebrada contribuem também para a unidade sonora do álbum, sucessor de Live in Florence, editado pela Astral Spirits em 2020. À semelhança deste último, a música que nele ouvimos é experimental na verdadeira acepção da palavra. Isto é, mais do que um produto acabado, este álbum deve ser encarado como um apanhado de momentos de um processo de experimentação, através do qual Yoshihide e Pitsiokos têm procurado forjar uma linguagem comum. Linguagem essa que se constrói a partir de idiomas conhecidos (o noise, o free jazz, a livre improvisação ou o glitch), mas que, em geral, se encontra ainda por codificar.

Apesar de, por vezes, recorrer à guitarra, neste duo, Yoshihide serve-se sobretudo do gira-discos, instrumento que, como observa Levi Dayan numa recensão para a Dusted Magazine, emprega como um veículo de “puro som”, sendo a identidade dos discos utilizados imperscrutável. A gama sonora com que trabalha é, em todo o caso, considerável, constatando-se, pelo menos, três abordagens distintas (e uma série de variantes intermédias): o gira-discos ora tece panos de fundo sobre os quais o saxofone discorre, ora dialoga com este, enquanto entidade distinta, desenvolvendo vários tipos de contraponto; e existem ainda casos em que os dois instrumentos se fundem timbricamente. Por sua vez, Pitsiokos, que neste contexto se auxilia de um computador portátil, vai desde um discurso fraseado (radicado no free jazz) a explorações meticulosas de sons sem altura definida (uma das suas grandes especialidades), exibindo, seja qual for a abordagem, um controle notável do seu instrumento. As passagens mais interessantes — e não são poucas — tendem a ocorrer quando as fontes dos vários sons em jogo deixam de ser claramente identificáveis.

Como um todo, o álbum está também bem pensado, na medida em que nos dá a ouvir dois blocos de peças tendencialmente mais frenéticas e densas (as faixas 1-5 e 7-10), entrecortadas por uma faixa central mais lenta e espaçosa (6), em que Yoshihide desempenha sobretudo funções atmosféricas e Pitsiokos acaba abraçando, por momentos, o free jazz mais clássico, para em seguida o desconstruir. Em geral, as peças, que assumo serem totalmente improvisadas (embora isso não tenha grande importância), encontram uma terceira via muito promissora entre a livre improvisação preguiçosa a que me referia e as mais rigorosas formas contemporâneas de composição em tempo real, i.e., um equilíbrio — talvez ainda em fase experimental — entre coerência e imprevisibilidade.

Faixas

1.Original Glitch 06:06

2.Slow Glitch 03:44

3.Squeak 1 05:03

4.Old School 02:30

5.Dedicated to 06:55

6.Lava Flow 07:32

7.Wahoo! 04:00

8.Warming up in Cerkno 04:48

9.Schritt für Schritt 03:42

10.Squeak 2 04:56

Músicos: Otomo Yoshihide— gira-discos, guitarra; Chris Pitsiokos— computador portátil, saxofone alto.

Fonte: João Esteves da Silva (jazz.pt)

 

 

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