Os desígnios da aritmética musical são insondáveis. Explico:
formações em que por mais que as parcelas sejam figuras relevantes e
inatacáveis sob o ponto de vista criativo, a sua articulação gera forças
contrárias que diminuem ou até anulam o melhor cômputo possível (Conhecemos bem
diversos exemplos de interações musicais negativas). Outras existem, porém, que
de formulação inusitada ou inesperada espoletam sinergias que confrontam estas
aritméticas, resultando o valor final superior à soma das partes (embirro,
confesso, com a expressão “supergrupo”). É isto que acontece no “Trio of Bloom”
(o nome da formação é muito adequado, já lá vamos) para o qual convergem o tecladista
Craig Taborn, o guitarrista Nels Cline e o baterista e percussionista Marcus
Gilmore, três artistas ousados, três vozes singulares que se movem à vontade em
diferentes tabuleiros do jazz mais aventureiro e de outras músicas criativas,
mais ou menos conexas. Taborn é amplamente reconhecido tanto como pianista
quanto como músico eletrônico, há quase três décadas, compondo e atuando em uma
ampla variedade de situações, incluindo jazz, rock e noise. Tocou e
gravou com figuras referenciais como Roscoe Mitchell, Wadada Leo Smith, Dave
Holland, Tim Berne, John Zorn, Chris Potter, Vijay Iyer e Kris Davis, entre uma
infinidade de outros. Conhecido sobretudo nos últimos 20 anos como guitarrista
dos Wilco, Nels Cline é um verdadeiro polímata da guitarra, cuja obra
abrange jazz, rock, punk e música experimental, tendo sido nomeado pela revista
Rolling Stone como um dos 100 guitarristas mais influentes de todos os tempos.
Lidera o trio Nels Cline Singers e os Nels Cline 4, tem um duo de
guitarras com Julian Lage e recentemente estreou o seu Consentrik Quartet,
com Ingrid Laubrock, Chris Lightcap e Tom Rainey, pela Blue Note. Marcus
Gilmore já trabalhou também com um vasto rol de músicos como Chick Corea,
Pharoah Sanders, Vijay Iyer, Robert Glasper, Flying Lotus, Herbie Hancock e Pat
Metheny, apenas para mencionar alguns. Esta é a primeira colaboração entre os
três músicos. O registo de estreia da formação acaba de ver a luz do dia pela
mão da Pyroclastic Records, editora fundada pela pianista Kris Davis em 2016.
Uma primeira colaboração que, de tão natural e apurada, mais parece o trabalho
de uma banda com trabalho contínuo. Uma química especial emerge entre Taborn,
Cline e Gilmore, que aqui exploram tanto zonas a que os associamos como outras
que desafiam as respetivas bolhas. A inspiração inicial para o trio veio do
produtor e poeta David Breskin, colaborador de longa data dos três músicos, que
imaginou que faíscas brotariam quando se encontrassem num projeto partilhado.
«Estou sempre à procura de maneiras de promover o intercâmbio e preencher
lacunas», explica Breskin. «Gosto de apresentar pessoas que podem admirar-se
mutuamente à distância, mas que nunca se cruzaram. Não sabia como soaria essa combinação,
o que é o aspeto mais emocionante para mim.» O Trio of Bloom remete para um
momento acontecido há quase quatro décadas, em 1987, com o lançamento de
Strange Meeting, o único álbum do trio Power Tools, que juntou o
guitarrista Bill Frisell, o baixista Melvin Gibbs e o baterista Ronald Shannon
Jackson. Esta formação, também instigada e produzida por Breskin, teve um
impacto formativo em muitos hibridizadores de estilos, incluindo Cline e Taborn.
«O precedente sem categorias, aberto e rock dessa música foi uma inspiração
muito libertadora para mim», refere Cline. O cardápio sonoro do Trio of Bloom é
amplo e incorpora elementos de um jazz mais vulcânico, do afrobeat e inputseletrônicos,
num fluxo que tanto pode ser pleno de vigor e energia ou de uma serenidade
planante. Taborn é mestre na criação de paisagens sonoras; com os seus riffs (Nota: frase musical curta, melódica ou harmônica, que se
repete ao longo de uma canção, criando sua identidade marcante, muito comum no
rock, blues e jazz), Cline injeta eletricidade e Gilmore aporta uma
camada rítmica em constante efervescência.
Da Teoria dos Conjuntos vem o diagrama de Venn, conceito muito útil para destacar semelhanças e diferenças entre grupos. A sobreposição entre as formas representa os elementos comuns (a interseção), e o espaço externo aquilo que não pertence a nenhum dos conjuntos. Apesar de estes três experimentadores nunca se terem encontrado, os seus respectivos círculos de atividade são vastos o suficiente para confundir qualquer tentativa de esquiçar um tal diagrama. Cline nunca tinha tocado com nenhum dos outros dois, em nenhum contexto; Taborn e Gilmore haviam partilhado o palco em algumas ocasiões em bandas lideradas por Chris Potter e Jakob Bro, mas nunca, para usar as palavras de Taborn, «numa interação criativa com a música um do outro». Então, quando Breskin aventou a ideia, acabou por ser uma decisão fácil para si. «Todos nós partilhamos a mais ampla gama de influências possíveis», prossegue Taborn. «Queria apoiar-me nelas, em vez de delimitar um determinado espaço. Estava muito ciente de como todos tocavam, então a verdadeira questão passou a ser qual seria a assinatura geral. Tentei deixar as possibilidades em aberto e abordar cada peça nos seus próprios termos». Também Cline partilha esta ideia: «O meu pensamento inicial foi uma combinação de entusiasmo e medo», disse. «Estes tipos são verdadeiros magos. Não sabia qual seria o modus operandi, mas encontramos muitos pontos em comum e afinidades partilhadas». O baterista também verbaliza as qualidades criativas dos outros dois. «O Nels tem um vasto conhecimento musical. O Craig toca a um nível muito elevado e também tem um conhecimento musical muito abrangente. É emocionante estar rodeado de pessoas assim, porque se aprende muito», acrescenta Gilmore. Breskin pediu a cada um dos três que trouxesse uma seleção de composições originais, novas e reaproveitadas, bem como uma versão que pudesse ser alvo de adaptação pelo trio. A abrir o álbum, a versão escolhida por Taborn, “Nightwhistlers” — original de Ronald Shannon Jackson, do álbum Eye On You (1980), a estreia da banda do baterista, Decoding Society — eleva os níveis energéticos ao vermelho, com a bateria de Gilmore a fornecer uma rotação elevada, a que se junta a eletricidade da guitarra multímoda de Cline. Se o tema se baseia num shuffle texano (Nota: é um ritmo de bateria enérgico e com suíngue, popularizado no blues texano por bateristas como Chris Layton) , aqui todo um cenário jazz-rock se abre diante de nós, com passagens mais ásperas a coexistirem com outras de uma luminosidade diáfana. “Unreal Light”, original do tecladista, envolve-nos numa atmosfera onírica e muito bela. Soam ecos longínquos de experiências floydianas do início doa anos setenta, como um curioso travo a África, numa mistura saudavelmente inclassificável. De uma beleza fantasmagórica, “Breath” tem as notas cristalinas de Taborn suportadas pelas texturas propostas pelo guitarrista e pela bateria delicada e prenhe de pormenores. Irresistível é “Queen King”, de Cline (que ecoa o riff de “King Queen”, do álbum “Initiate”, de 2010, dos Nels Cline Singers, produzido por Breskin), de novo impulsionada pelo balanço de Gilmore, a que o órgão de Taborn, deambulando livremente, acrescenta uma infinidade de novas cores; a guitarra traz um motivo que agita corpo e alma. A festa dura e dura. Gilmore sugeriu “Diana” — fruto da colaboração entre Wayne Shorter e Milton Nascimento no álbum “Native Dancer”, de 1975 — numa interpretação etérea que potencializa as possibilidades criativas do estúdio, com Taborn a tocar celesta, Cline a aportar loops telegráficos e Gilmore exemplar na afinação a cada mudança de rumo da peça (Gilmore referiu, a propósito: «É uma melodia realmente linda, mas é assustadora. Não se pode tentar melhorá-la, porque já é perfeita. Então, tivemos que torná-la diferente.»). Ao longo de dez minutos de improvisação livre, “Bloomers”, construída em diferentes camadas, com os efeitos de Taborn e Cline e os ritmos instáveis de Gilmore, hipnotiza e confunde real e imaginário, presente e futuro. Outro original do guitarrista, “Eye Shadow Eye” é um monumento melódico que Taborn introduz, e a qual guitarrista e baterista reagem com elegância e recato. O pianista traz o melodismo desafiante que é pilar da sua abordagem. A certo ponto, a peça muda de direção e ganha um viço quase rock’n’roll. Nervosa e urgente, “Why Canada”, outra peça de Taborn, espevita os sentidos num funk aguçado. Exercício que convoca os King Crimson e a Mahavishnu Orchestra, “Forge” assenta num motivo lento e arrastado, acumula uma tensão que acaba por nunca se dissipar verdadeiramente. Original do guitarrista norueguês Terje Rypdal — que encontramos no álbum “What Comes After”, lançado pela ECM em 1973 —, “Bend It”, a escolha de Cline para versão, traz consigo uma atmosfera misteriosa, com os três músicos a entregarem-se a complexos jogos interativos, agindo e reagindo a estímulos, sem perderem o fio de Ariadne. “Gone Bust” é curto epílogo de uma jornada caleidoscópica e revigorante.
Faixas: Nightwhistlers; Unreal Light; Breath;
Queen King; Diana; Bloomers; Eye Shadow Eye; Why Canada; Forge; Bend It; Gone
Bust;
Músicos: Nels Cline (guitarra elétrica, guitarras de 6 e 12
cordas, guitarra havaiana, baixo [4,10]); Craig Taborn (piano); Marcus Gilmore
(bateria).
Para conhecer um pouco deste trabalho, assistam ao vídeo
abaixo:
https://www.youtube.com/watch?v=fLwdsopTqR0
Fonte: António Branco (jazz.pt)

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