Antes de mais, fica a declaração de interesse: José Dias tem
sido colaborador da jazz.pt e em 2024 desenvolveu em parceria conosco a série
podcast Jazz Fest (que continua disponível). Sendo impossível assumirmos
absoluta isenção e imparcialidade, este texto terá uma função sobretudo
informativa e descritiva.
Guitarrista e investigador português, José Dias reside há
largos anos no Reino Unido e, desde 2013, vem consolidando uma discografia
sólida entre o jazz e a improvisação; confirmam-no os discos 360, Magenta, What
Could Have Been, After Silence (2 volumes), Live at SMUP, Correspondence (2
volumes em duo com Francesca Naibo) e Almost Like A Song (com Christopher
Hobbs). Em paralelo, tem desenvolvido vários estudos, realizou o documentário
Those who make it happen (curta-metragem) e publicou os livros Jazz In Europe:
Networking and Negotiating Identities (Bloomsbury, 2019) e Festa do Jazz (INCM,
2020). Em maio deste ano apresentou o projeto 25 em 25 / Revolução Portuguesa
Revisitada, uma encomenda do Consulado Português em Manchester para assinalar
os 50 anos da revolução de Abril; atuou no Manchester Jazz Festival num
quarteto inédito com Maria Fonseca (trompete), Juliana Mendonça (contrabaixo) e
Johnny Hunter (bateria). Mais recentemente, Dias juntou-se ao saxofonista
norueguês Petter Frost Fadnes num novo projeto em duo, Playing the Space, que
será apresentado ao vivo em várias cidades do Reino Unido nos meses de novembro
e dezembro, propondo «uma exploração da relação entre som, espaço e memória,
através de uma linguagem musical improvisada, crua e exploratória».
Este novo disco, “Strange Birds”, resulta de uma edição
conjunta da lusa Sintoma Records com a Elastic Stage. O álbum foi gravado em
Coventry por Dias ao leme de um quarteto: ao guitarrista juntaram-se a pianista
brasileira Ana Fridman e os britânicos Joshua Vadiveloo (contrabaixo) e Johnny
Hunter (bateria e glockenspiel (NT: é um instrumento de
percussão idiofone, composto por barras de metal afinadas e dispostas como um
teclado, que produz sons agudos, brilhantes e estridentes ao ser percutido por
baquetas). Segundo o guitarrista, este trabalho — o seu 10.º álbum –
explora, através da improvisação livre, as memórias de infância e as diferenças
culturais. Editado em versão digital (streaming) e vinil, as duas edições têm
alinhamentos diferentes. Na versão digital, o disco abre com uma suíte dividida
em três movimentos: começam por se destacar piano e a voz de Fridman,
acompanhados da pulsão rítmica; a guitarra só se assume a meio do tema; e
ouvem-se efeitos curiosos na parte final; no segundo movimento é o contrabaixo
quem abre, novamente com a voz em destaque e a guitarra a soar atmosférica; e o
ciclo inicial fecha num tema em que piano e guitarra assumem o desenho do tema.
“The Playground” soa a jogo de rato e do gato, com os instrumentos em contínua
(e acelerada) perseguição. Em “Ana’s Water Games” é o piano pingado que se
assume, em repetição minimal. O contrabaixo de Vadiveloo abre “Hedgy, Joshua's
Hedgehog”, depois com a voz a tomar conta. Em “José’s Scalextric F1 Set” é a
guitarra que define as linhas, enquanto que a fechar (“Johnny’s Legos”) é a
vertigem rítmica de Hunter que marca o tema. Sendo obra de guitarrista, não é a
guitarra que está ao centro: esta é uma música democrática, partilhada por
todos os intervenientes em doses equilibradas; e também não se adivinha o seu
destino, segue direções imprevisíveis.
Faixas
1 Three
Movements, Pt. 1 (feat. Ana Fridman, Joshua Vadiveloo & Johnny Hunter)
2 Three
Movements, Pt. 2 (feat. Ana Fridman, Joshua Vadiveloo & Johnny Hunter)
3 Three
Movements, Pt. 3 (feat. Ana Fridman, Joshua Vadiveloo & Johnny Hunter)
4 The
Playground
5 Ana's
Water Games
6 Hedgy,
Joshua's Hedgehog
7 Jose's
Scalextric F1 Set
8 Johnny's
Legos
Músicos: José Dias— guitarra; Ana Fridman— piano, voz; Joshua Vadiveloo— contrabaixo; Johnny Hunter— bateria, glockenspiel.
Fonte: Nuno Catarino (jazz.pt)

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