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sábado, 30 de maio de 2026

JOSÉ DIAS - STRANGE BIRDS (Sintoma / Elastic Stage)

Antes de mais, fica a declaração de interesse: José Dias tem sido colaborador da jazz.pt e em 2024 desenvolveu em parceria conosco a série podcast Jazz Fest (que continua disponível). Sendo impossível assumirmos absoluta isenção e imparcialidade, este texto terá uma função sobretudo informativa e descritiva.

Guitarrista e investigador português, José Dias reside há largos anos no Reino Unido e, desde 2013, vem consolidando uma discografia sólida entre o jazz e a improvisação; confirmam-no os discos 360, Magenta, What Could Have Been, After Silence (2 volumes), Live at SMUP, Correspondence (2 volumes em duo com Francesca Naibo) e Almost Like A Song (com Christopher Hobbs). Em paralelo, tem desenvolvido vários estudos, realizou o documentário Those who make it happen (curta-metragem) e publicou os livros Jazz In Europe: Networking and Negotiating Identities (Bloomsbury, 2019) e Festa do Jazz (INCM, 2020). Em maio deste ano apresentou o projeto 25 em 25 / Revolução Portuguesa Revisitada, uma encomenda do Consulado Português em Manchester para assinalar os 50 anos da revolução de Abril; atuou no Manchester Jazz Festival num quarteto inédito com Maria Fonseca (trompete), Juliana Mendonça (contrabaixo) e Johnny Hunter (bateria). Mais recentemente, Dias juntou-se ao saxofonista norueguês Petter Frost Fadnes num novo projeto em duo, Playing the Space, que será apresentado ao vivo em várias cidades do Reino Unido nos meses de novembro e dezembro, propondo «uma exploração da relação entre som, espaço e memória, através de uma linguagem musical improvisada, crua e exploratória».

Este novo disco, “Strange Birds”, resulta de uma edição conjunta da lusa Sintoma Records com a Elastic Stage. O álbum foi gravado em Coventry por Dias ao leme de um quarteto: ao guitarrista juntaram-se a pianista brasileira Ana Fridman e os britânicos Joshua Vadiveloo (contrabaixo) e Johnny Hunter (bateria e glockenspiel (NT: é um instrumento de percussão idiofone, composto por barras de metal afinadas e dispostas como um teclado, que produz sons agudos, brilhantes e estridentes ao ser percutido por baquetas). Segundo o guitarrista, este trabalho — o seu 10.º álbum – explora, através da improvisação livre, as memórias de infância e as diferenças culturais. Editado em versão digital (streaming) e vinil, as duas edições têm alinhamentos diferentes. Na versão digital, o disco abre com uma suíte dividida em três movimentos: começam por se destacar piano e a voz de Fridman, acompanhados da pulsão rítmica; a guitarra só se assume a meio do tema; e ouvem-se efeitos curiosos na parte final; no segundo movimento é o contrabaixo quem abre, novamente com a voz em destaque e a guitarra a soar atmosférica; e o ciclo inicial fecha num tema em que piano e guitarra assumem o desenho do tema. “The Playground” soa a jogo de rato e do gato, com os instrumentos em contínua (e acelerada) perseguição. Em “Ana’s Water Games” é o piano pingado que se assume, em repetição minimal. O contrabaixo de Vadiveloo abre “Hedgy, Joshua's Hedgehog”, depois com a voz a tomar conta. Em “José’s Scalextric F1 Set” é a guitarra que define as linhas, enquanto que a fechar (“Johnny’s Legos”) é a vertigem rítmica de Hunter que marca o tema. Sendo obra de guitarrista, não é a guitarra que está ao centro: esta é uma música democrática, partilhada por todos os intervenientes em doses equilibradas; e também não se adivinha o seu destino, segue direções imprevisíveis.

Faixas

1 Three Movements, Pt. 1 (feat. Ana Fridman, Joshua Vadiveloo & Johnny Hunter)

2 Three Movements, Pt. 2 (feat. Ana Fridman, Joshua Vadiveloo & Johnny Hunter)

3 Three Movements, Pt. 3 (feat. Ana Fridman, Joshua Vadiveloo & Johnny Hunter)

4 The Playground

5 Ana's Water Games

6 Hedgy, Joshua's Hedgehog

7 Jose's Scalextric F1 Set

8 Johnny's Legos

 Músicos: José Dias— guitarra; Ana Fridman— piano, voz; Joshua Vadiveloo— contrabaixo; Johnny Hunter— bateria, glockenspiel.

Fonte: Nuno Catarino (jazz.pt)

 

 

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