A crítica, a especializada e a generalista, aprecia de
sobremaneira a incursão de músicos de jazz nas eletrônicas. Muitas vezes
ignorando que a música é mais importante que o suporte como foi construída. Eu
explico: deveria ser totalmente irrelevante para a apreciação do crítico, se a
obra é acústica ou eletrônica, se o músico é DJ ou produtor, se é novo ou
velho, homem ou mulher. Mais, o próprio local onde é gravado um tema é também
ele irrelevante. Se é uma boa malha, depois então investigue-se e escreva-se
sobre tudo isto, mas assumir que, por exemplo, o jazz de um londrino é mais moderno
e tem mais qualidade que o de um madrilenho, é provincianismo. Só a música
interessa.
O baterista Makaya McCraven tem um atrativo inusitado porque
além de ser baterista de jazz também é produtor e faz beats. Está na
moda. Tal não deve influenciar o modo como ouvimos a música de McCraven. Nem
para o bem, nem para o mal. Gostar de alguma coisa porque é popular é tão
errado como deixar de gostar de alguma coisa porque é popular. O preconceito e
a discriminação positiva andam enrolados e não se querem na cama com a isenção
e a razoabilidade.
Makaya McCraven nasceu em Paris mas cresceu em Northampton,
a cidade inglesa que deu ao mundo Thom Yorke e os Bauhaus. É filho de Stephen
McCraven, um baterista de jazz que atuou entre outros com Archie Sheep e Yuseef
Lateef, e da vocalista húngara Ágnes Zsigmondi, que teve algum sucesso na
banda de música do mundo Kolinda. Quando jovem a família mudou-se para
Massachusetts e foi lá, com amigos da escola de Amherst, que formou os Duck
Cold Complex. Faziam um hip-hop jazz esperto e chegaram a abrir para Digable
Planets e Wu-Tang.
Desde 2008, Makaya McCraven editou quase uma vintena de
álbuns e se no início era o jazz que o fascinava, a partir de 2015, com “In the
Moment” (e também com o respetivo disco de remisturas), resolveu que tal não
lhe bastava. Embrenhou-se em mixtapes e na produção de beats, fez música
de dança e produziu gente de outros universos. Em 2018 grava “Universal Beings”,
onde trabalha com os londrinos Nubya Garcia e Shabaka Hutchings, de Chicago vem
Junius Paul e Tomeka Reid, de Los Angeles vêm Anna Butterss e Miguel
Atwood-Ferguson e de Nova Iorque. Brandee Younger e Dezron Douglas.
Entretanto remixou o último álbum de Gil Scott-Heron, “I’m
New Here”. Gostando-se ou não da releitura, é preciso tomates para brincar com
um clássico. Mais ainda porque a história ainda não lhe tinha atribuído essa
classificação. É tudo muito recente: o disco de Gil Scott-Heron é de 2010, ele
faleceu em 2011, Makaya faz “We’re New Again” em 2020. Em 2022 grava em modo
mais convencional “In These Times”, com uma orquestra — demorou seis anos a
trabalhar nas pautas para aquela gente toda. Foi um dos discos bem falados
desse ano, dentro e fora do jazz.
McCraven lança agora, e de uma assentada, quatro EPs, que
estão reunidos no duplo vinil “On The Record” — o disco foi editado numa
colaboração entre as editoras International Anthem, Nonesuch e XL Recordings.
São três editoras fundamentais para perceber o jazz deste século. Cada face do
vinil corresponde a um EP e o mais antigo, “The PopUp Shop”, gravado em
setembro de 2015, conta com Jeff Parker na guitarra, o vibrafonista Justefan e
o baixista Benjamin J. Shepherd. Neste EP, e em quase todos os outros, McCraven
além de tocar bateria, produz o material. E quando digo produz, digo intervem
ativamente, em estúdio, na música que ouvimos. “Venice” (a cidade californiana
onde foi gravado este concerto) abre com um Jeff Parker mandão, a conduzir um
jazz de fusão numa guitarra simpática. Aqui, os detalhes de vibrafone soam a
pormenores. Em “Imafan”, no entanto, é Justefan que leva a malta. Obviamente
que tudo isto está sempre impregnado daquele beat característico de
Makaya. Aquele dançável, sabem? Acho sempre notável o modo tranquilo como estes
temas se desenrolam. Como se fossemos abrir a janela de manhã e tivesse bom
tempo. Em “Los Gatos”, começa por ser o baixo de Shepherd a carregar, mas fica
lá um retardamento de Jeff Parker do último tema. Mas será que fica? Ou seja,
será que no concerto se ouviu assim? Ou foi Makaya que o deixou lá em trabalho
de estúdio?! Percebe-se como a questão da pós-produção é importante. Acrescenta
valor. Desmistifica a gravação ao vivo. “Sweet Stuff” é doce. Alegre e doce.
Parece construído em cima de um sample. Não me interpretem mal, afirmo-o
como sendo uma qualidade. Termina num solo de Parker, mas eu só ouço aquela
bateria maluca de Makaya lá ao fundo.
“Hidden Out!” foi gravado em 2017 no prestigiado clube The
Hideout de Chicago. Um quinteto, sempre com Jeff Parker na guitarra e Marquis
Hill, mais nas eletrônicas que no trompete, ainda o saxofone e teclados de Josh
Johnson e o baixista Julius Paul. Na capa vemos Makaya em palco, não a tocar
bateria, mas atento a uma das máquinas da sua bateria. Pousada numa mesinha de
madeira, longe da nossa vista, a controlar. Este quinteto tocou durante meses
neste clube, as seis faixas são o resultado dessa residência. Isso mais o
trabalho de McCraven aos comandos da pós-produção, com edição, sobreposições e
tudo o mais que lhe possa ocorrer. Só ao quarto tema, “Awaze”, e por breves
segundos, ouvimos os dois metais do quarteto. Houve teclados e efeitos, retardamentos
e tudo aquilo que uma estação de áudio digital pode oferecer. Há um solo de
bateria sutilmente alterado que é uma delícia. No final, sei que o trompete de
Marquis Hill esteve em palco porque vejo fotos disso e leio nas entrevistas e
na ficha técnica. No entanto, não o ouço. Mesmo Josh Johnson, não o encontro no
seu sax alto mas sim nos teclados a que já nos habituou nos poderosos SML. É um
EP comandado por Makaya de forma exemplar, seja no papel da bateria em todos
esses temas, seja na pós-produção discreta e ainda assim incontornável.
Techno Logic é um objeto curioso porque se nota a evolução
de um trio. A acompanhar McCraven temos a tuba de Theon Cross e o cornetista
Ben LeMar Gay. Primeiro em Londres, 2017, depois em Berlim, 2024 e finalmente
em Nova Iorque já este ano. Começa dançável, com a tuba a fazer de baixo e
percebe-se logo o quanto Makaya avacalhou as fitas originais. No retardamento
de LeMar Gay certamente, mas mais ainda no modo como aquela tuba vem do chão.
Ou nos barulhinhos bons que ninguém certamente tocou ao vivo. E se tocou não é
certamente como nos soa agora em disco. Ainda bem que assim é. A música, esta
música, quer-se estimulante. Seja nos ritmos que pedem que nos mexemos, seja na
capacidade de nos surpreender com som fora da ficha técnica. A meio de Techno
Logic ocorre-me que, no site oficial de Makaya McCraven, ele aparece creditado
como “beat-scientist, drummer and producer”. Por esta ordem. Ouço
“Prime” e esse cientista do beat faz-me experimentar um breakbeat
esperto de três segundos singulares repetidos ao longo de 4 minutos. É uma arte
cruzar estes beats com aquele curto avacalho final. “Strikes Again”
parece um tema de jazz clássico, o que por esta altura já nos espanta, mas logo
se difunde em mais um beat cheio de balanço. Nesta faixa, entendo que a
repetição exaustiva do mesmo beat possa incomodar alguns, mas é o balanço
que interessa aqui. E quando se intelectualiza o balanço já se perdeu o que
importa.
Por fim, The People’s Mixtape é fruto de uma residência de
McCraven no Winter Jazzfest este ano. Um quinteto com Marquis Hill,
Junius Paul mais o vibrafone de Joel Ross e os sintetizadores de Jeremiah Chiu.
Começa numa demonstração da capacidade rítmica de McCraven. Como se fora um
comboio no apropriado “Choo, Choo”. Em “The Beat Up” segue a viagem mantendo a
velocidade. Rápido sem ser fugaz. Ross acompanha-o, mas quando o sopro de
Marquis Hill lança o tema, a velocidade diminui e entra um som mais suave. Sim,
ainda vamos depressa, mas está-se bem, é tudo tranquilo. Jeremiah Chiu, em modo
sintetizador dos 70’s, conduz-nos ao, algo previsível, destino. “What a life” é
mais escuro e algo sujo. Com mais pós-produção. Tem um cheirinho de old
school e relembra os tais Cold Duck Complex, de que Makaya fez parte
há 20 anos. Termina tudo isto com “Lake Shore Drive”, ainda em modo noturno,
mas com mais espaço. Estava até algo atmosférico antes de Makaya nos chamar de
volta à pista. Hill e Chiu, lá ao fundo, tentam trazer uma cor momentânea e
acaba no tal ritmo dançante a que Makaya já nos habituou ao longo da última
hora.
Há um processo curioso no modo como Makaya McCraven
trabalha. Grava uma improvisação, livre e ao vivo, com um conjunto de músicos.
Depois trabalha meticulosamente esse material em estúdio, o que algumas vezes
resulta num outro disco. Culminando na apresentação ao vivo deste último
material já com outro conjunto de músicos. Porque pessoas diferentes tocam
música diferente, o resultado é sempre uma surpresa, distanciando-se e
aproximando-se da longínqua gravação original. A abrir a edição em vinil, em “PopUp Shop”,
McCraven anuncia: «We are about to be making some stuff right here on the spot.
This is improvised music, spontaneous composition [NT: Vamos começar a criar algo aqui mesmo, na hora. Isso é
música improvisada, composição espontânea]» — estamos conversados.
Faixas
1-01 PopUp
Shop EP: YoYoYo Intro 0:30
1-02 PopUp
Shop EP: Venice 3:38
1-03 PopUp
Shop EP: Imafan 6:53
1-04 PopUp Shop EP: Los Gatos 3:58
1-05 PopUp
Shop EP: Sweet Stuff 6:38
1-06 Hidden
Out! EP: Battleships (apresentando Jeff Parker) 4:55
1-07 Hidden
Out! EP: Away 3:19
1-08 Hidden
Out! EP: Dark Parks (apresentando. Jeff Parker) 3:37
1-09 Hidden
Out! EP: Awaze (apresentando Josh Johnson) 4:16
1-10 Hidden
Out! EP: News Feed (apresentando Junius Paul) 4:47
1-11 Hidden
Out! EP: Braddas 2:18
2-01 Techno
Logic EP: Gnu Blue (apresentando Theon Cross & Ben LaMar Gay) 4:52
Músico: Makaya McCraven— composição, produção, bateria, percussão, eletrônica, teclados, sintetizadores, guitarra, vibrafone.
Fonte: Hugo Pinto (jazz.pt)

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