playlist Music

sábado, 16 de maio de 2026

MAKAYA McCRAVEN – OFF THE RECORD (International Anthem / Nonesuch / XL)

A crítica, a especializada e a generalista, aprecia de sobremaneira a incursão de músicos de jazz nas eletrônicas. Muitas vezes ignorando que a música é mais importante que o suporte como foi construída. Eu explico: deveria ser totalmente irrelevante para a apreciação do crítico, se a obra é acústica ou eletrônica, se o músico é DJ ou produtor, se é novo ou velho, homem ou mulher. Mais, o próprio local onde é gravado um tema é também ele irrelevante. Se é uma boa malha, depois então investigue-se e escreva-se sobre tudo isto, mas assumir que, por exemplo, o jazz de um londrino é mais moderno e tem mais qualidade que o de um madrilenho, é provincianismo. Só a música interessa.

O baterista Makaya McCraven tem um atrativo inusitado porque além de ser baterista de jazz também é produtor e faz beats. Está na moda. Tal não deve influenciar o modo como ouvimos a música de McCraven. Nem para o bem, nem para o mal. Gostar de alguma coisa porque é popular é tão errado como deixar de gostar de alguma coisa porque é popular. O preconceito e a discriminação positiva andam enrolados e não se querem na cama com a isenção e a razoabilidade.

Makaya McCraven nasceu em Paris mas cresceu em Northampton, a cidade inglesa que deu ao mundo Thom Yorke e os Bauhaus. É filho de Stephen McCraven, um baterista de jazz que atuou entre outros com Archie Sheep e Yuseef Lateef, e da vocalista húngara Ágnes Zsigmondi, que teve algum sucesso na banda de música do mundo Kolinda. Quando jovem a família mudou-se para Massachusetts e foi lá, com amigos da escola de Amherst, que formou os Duck Cold Complex. Faziam um hip-hop jazz esperto e chegaram a abrir para Digable Planets e Wu-Tang.

Desde 2008, Makaya McCraven editou quase uma vintena de álbuns e se no início era o jazz que o fascinava, a partir de 2015, com “In the Moment” (e também com o respetivo disco de remisturas), resolveu que tal não lhe bastava. Embrenhou-se em mixtapes e na produção de beats, fez música de dança e produziu gente de outros universos. Em 2018 grava “Universal Beings”, onde trabalha com os londrinos Nubya Garcia e Shabaka Hutchings, de Chicago vem Junius Paul e Tomeka Reid, de Los Angeles vêm Anna Butterss e Miguel Atwood-Ferguson e de Nova Iorque. Brandee Younger e Dezron Douglas.

Entretanto remixou o último álbum de Gil Scott-Heron, “I’m New Here”. Gostando-se ou não da releitura, é preciso tomates para brincar com um clássico. Mais ainda porque a história ainda não lhe tinha atribuído essa classificação. É tudo muito recente: o disco de Gil Scott-Heron é de 2010, ele faleceu em 2011, Makaya faz “We’re New Again” em 2020. Em 2022 grava em modo mais convencional “In These Times”, com uma orquestra — demorou seis anos a trabalhar nas pautas para aquela gente toda. Foi um dos discos bem falados desse ano, dentro e fora do jazz.

McCraven lança agora, e de uma assentada, quatro EPs, que estão reunidos no duplo vinil “On The Record” — o disco foi editado numa colaboração entre as editoras International Anthem, Nonesuch e XL Recordings. São três editoras fundamentais para perceber o jazz deste século. Cada face do vinil corresponde a um EP e o mais antigo, “The PopUp Shop”, gravado em setembro de 2015, conta com Jeff Parker na guitarra, o vibrafonista Justefan e o baixista Benjamin J. Shepherd. Neste EP, e em quase todos os outros, McCraven além de tocar bateria, produz o material. E quando digo produz, digo intervem ativamente, em estúdio, na música que ouvimos. “Venice” (a cidade californiana onde foi gravado este concerto) abre com um Jeff Parker mandão, a conduzir um jazz de fusão numa guitarra simpática. Aqui, os detalhes de vibrafone soam a pormenores. Em “Imafan”, no entanto, é Justefan que leva a malta. Obviamente que tudo isto está sempre impregnado daquele beat característico de Makaya. Aquele dançável, sabem? Acho sempre notável o modo tranquilo como estes temas se desenrolam. Como se fossemos abrir a janela de manhã e tivesse bom tempo. Em “Los Gatos”, começa por ser o baixo de Shepherd a carregar, mas fica lá um retardamento de Jeff Parker do último tema. Mas será que fica? Ou seja, será que no concerto se ouviu assim? Ou foi Makaya que o deixou lá em trabalho de estúdio?! Percebe-se como a questão da pós-produção é importante. Acrescenta valor. Desmistifica a gravação ao vivo. “Sweet Stuff” é doce. Alegre e doce. Parece construído em cima de um sample. Não me interpretem mal, afirmo-o como sendo uma qualidade. Termina num solo de Parker, mas eu só ouço aquela bateria maluca de Makaya lá ao fundo.

“Hidden Out!” foi gravado em 2017 no prestigiado clube The Hideout de Chicago. Um quinteto, sempre com Jeff Parker na guitarra e Marquis Hill, mais nas eletrônicas que no trompete, ainda o saxofone e teclados de Josh Johnson e o baixista Julius Paul. Na capa vemos Makaya em palco, não a tocar bateria, mas atento a uma das máquinas da sua bateria. Pousada numa mesinha de madeira, longe da nossa vista, a controlar. Este quinteto tocou durante meses neste clube, as seis faixas são o resultado dessa residência. Isso mais o trabalho de McCraven aos comandos da pós-produção, com edição, sobreposições e tudo o mais que lhe possa ocorrer. Só ao quarto tema, “Awaze”, e por breves segundos, ouvimos os dois metais do quarteto. Houve teclados e efeitos, retardamentos e tudo aquilo que uma estação de áudio digital pode oferecer. Há um solo de bateria sutilmente alterado que é uma delícia. No final, sei que o trompete de Marquis Hill esteve em palco porque vejo fotos disso e leio nas entrevistas e na ficha técnica. No entanto, não o ouço. Mesmo Josh Johnson, não o encontro no seu sax alto mas sim nos teclados a que já nos habituou nos poderosos SML. É um EP comandado por Makaya de forma exemplar, seja no papel da bateria em todos esses temas, seja na pós-produção discreta e ainda assim incontornável.

Techno Logic é um objeto curioso porque se nota a evolução de um trio. A acompanhar McCraven temos a tuba de Theon Cross e o cornetista Ben LeMar Gay. Primeiro em Londres, 2017, depois em Berlim, 2024 e finalmente em Nova Iorque já este ano. Começa dançável, com a tuba a fazer de baixo e percebe-se logo o quanto Makaya avacalhou as fitas originais. No retardamento de LeMar Gay certamente, mas mais ainda no modo como aquela tuba vem do chão. Ou nos barulhinhos bons que ninguém certamente tocou ao vivo. E se tocou não é certamente como nos soa agora em disco. Ainda bem que assim é. A música, esta música, quer-se estimulante. Seja nos ritmos que pedem que nos mexemos, seja na capacidade de nos surpreender com som fora da ficha técnica. A meio de Techno Logic ocorre-me que, no site oficial de Makaya McCraven, ele aparece creditado como “beat-scientist, drummer and producer”. Por esta ordem. Ouço “Prime” e esse cientista do beat faz-me experimentar um breakbeat esperto de três segundos singulares repetidos ao longo de 4 minutos. É uma arte cruzar estes beats com aquele curto avacalho final. “Strikes Again” parece um tema de jazz clássico, o que por esta altura já nos espanta, mas logo se difunde em mais um beat cheio de balanço. Nesta faixa, entendo que a repetição exaustiva do mesmo beat possa incomodar alguns, mas é o balanço que interessa aqui. E quando se intelectualiza o balanço já se perdeu o que importa.

Por fim, The People’s Mixtape é fruto de uma residência de McCraven no Winter Jazzfest este ano. Um quinteto com Marquis Hill, Junius Paul mais o vibrafone de Joel Ross e os sintetizadores de Jeremiah Chiu. Começa numa demonstração da capacidade rítmica de McCraven. Como se fora um comboio no apropriado “Choo, Choo”. Em “The Beat Up” segue a viagem mantendo a velocidade. Rápido sem ser fugaz. Ross acompanha-o, mas quando o sopro de Marquis Hill lança o tema, a velocidade diminui e entra um som mais suave. Sim, ainda vamos depressa, mas está-se bem, é tudo tranquilo. Jeremiah Chiu, em modo sintetizador dos 70’s, conduz-nos ao, algo previsível, destino. “What a life” é mais escuro e algo sujo. Com mais pós-produção. Tem um cheirinho de old school e relembra os tais Cold Duck Complex, de que Makaya fez parte há 20 anos. Termina tudo isto com “Lake Shore Drive”, ainda em modo noturno, mas com mais espaço. Estava até algo atmosférico antes de Makaya nos chamar de volta à pista. Hill e Chiu, lá ao fundo, tentam trazer uma cor momentânea e acaba no tal ritmo dançante a que Makaya já nos habituou ao longo da última hora.

Há um processo curioso no modo como Makaya McCraven trabalha. Grava uma improvisação, livre e ao vivo, com um conjunto de músicos. Depois trabalha meticulosamente esse material em estúdio, o que algumas vezes resulta num outro disco. Culminando na apresentação ao vivo deste último material já com outro conjunto de músicos. Porque pessoas diferentes tocam música diferente, o resultado é sempre uma surpresa, distanciando-se e aproximando-se da longínqua gravação original. A abrir a edição em vinil, em “PopUp Shop”, McCraven anuncia: «We are about to be making some stuff right here on the spot. This is improvised music, spontaneous composition [NT: Vamos começar a criar algo aqui mesmo, na hora. Isso é música improvisada, composição espontânea]» — estamos conversados.

Faixas

1-01 PopUp Shop EP: YoYoYo Intro 0:30

1-02 PopUp Shop EP: Venice 3:38

1-03 PopUp Shop EP: Imafan 6:53

1-04 PopUp Shop EP: Los Gatos 3:58

1-05 PopUp Shop EP: Sweet Stuff 6:38

1-06 Hidden Out! EP: Battleships (apresentando Jeff Parker) 4:55

1-07 Hidden Out! EP: Away 3:19

1-08 Hidden Out! EP: Dark Parks (apresentando. Jeff Parker) 3:37

1-09 Hidden Out! EP: Awaze (apresentando Josh Johnson) 4:16

1-10 Hidden Out! EP: News Feed (apresentando Junius Paul) 4:47

1-11 Hidden Out! EP: Braddas 2:18

2-01 Techno Logic EP: Gnu Blue (apresentando Theon Cross & Ben LaMar Gay) 4:52

 Músico: Makaya McCraven— composição, produção, bateria, percussão, eletrônica, teclados, sintetizadores, guitarra, vibrafone.

Fonte: Hugo Pinto (jazz.pt)

 

 

Nenhum comentário: