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sábado, 9 de maio de 2026

MIGUEL CALHAZ - CONTRA CANTOS VOL. 2 (JACC Records)

Contrabaixista de formação, cantor por vocação intrínseca, Calhaz tem uma técnica enorme no instrumento e usa-a toda em favor do bom-gosto e da música. Onde nada parece acontecer infundadamente apesar de — pressentimos — o que acontece ter muito de intuição e improviso, de um fluir interpretativo. Calhaz abre canções como quem abre janelas para deixar entrar o ar, ou como quem descobre um sublinhado num livro já lido.

Nasceu na Sertã e iniciou os estudos musicais aos na Filarmônica União Sertaginense. Licenciou-se em Educação Musical e em Contrabaixo/Jazz na Escola Superior de Música e das Artes do Espetáculo do Porto. É Mestre em Ensino da Música Jazz pela ESMAE e professor do Curso Profissional de Jazz e da Orquestra Geração na Escola Artística do Conservatório de Música de Coimbra. É aqui que se vê o 25 de abril: antes de 74, muito dificilmente um miúdo da Sertã poderia ter oportunidades de vir a aperfeiçoar-se num instrumento.

E este disco é um pouco sobre isso. “Contra Cantos Vol. 2” é feito de versões de canções de José Mário Branco, José Afonso, Fausto Bordalo Dias, Sérgio Godinho, Adriano Correia de Oliveira, José Niza, cantadas a contrabaixo e voz, como se fossem duas vozes. O contrabaixo faz um jogo singular com a voz humana, de contraponto, reforço ou mesmo polifonia; uma forma muito bonita de interpretação em que instrumento e voz humana parece um só em complemento. Calhaz não interpreta: respira-as com a voz e dedos.

Também não se trata de um revivalismo; esta música é atual, usa a liberdade do jazz para poder viajar pela estrutura melódica dos temas originais, nem sempre com os temas mais icónicos dos autores originais. “Endechas, a Bárbara Escrava” do disco “Cantares do Andarilho”, de José Afonso ou “Elogio Do Artesão” do Na Vida Real de Sérgio Godinho são bons exemplos destas escolhas menos evidentes, do songbook português.

Abertas ao tempo e à dúvida, há nestas versões a alma da canção portuguesa, mas também a liberdade do jazz e a transparência da folk. E a atitude de quem as toca com verdade ainda não baixou os braços; Calhaz, como muitos de nós, acha que é possível ter uma sociedade mais justa para todos e di-lo com música.

Cheguei tarde — confesso — a Miguel Calhaz. Venho com dois anos de atraso. Não o conhecia nem esta sua forma de canto livre — voz e contrabaixo. Este é o terceiro disco desta série que começou em 2023 com “Contra: Contempor​â​nea Tradi​ç​ã​o (JACC Records)” e evoluiu em “Contra Cantos Vol. 1, de 2024 (JACC Records)”. Atrasado, mas mesmo assim convicto que cheguei a um músico muito especial que criou uma forma musical singular, com delicadeza estrutural e versos desornamentados. Ao ouvi-lo, sentimos que aquela canção, ainda que conhecida, nunca tinha sido dita assim. Nunca se tinha revelado com daquela forma, com aquele cuidado. E isso é ouro moído.

Faixas

1.Do que um homem é capaz 05:27

2.A noite passada 04:34

3.Endechas a Bárbara escrava 02:24

4.Lembra-me um sonho lindo 04:17

5.As balas 04:01

6.Queixa das almas jovens censuradas 03:20

7.Elogio do artesão 03:56

8.Eu vou ser como a toupeira 03:36

9.Europa querida Europa 03:51

10.Cantar de emigração 04:32

11.Somos livres / Grândola vila morena - instrumental 03:50

Fonte: Gonçalo Falcão (jazz.pt)

 

 

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