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sábado, 6 de junho de 2026

JOHN SCOFIELD / DAVE HOLLAND - MEMORIES OF HOME (ECM)

É hoje radicalmente diferente gravar um disco em casa, com músicos separados por continentes, do que passar anos a tocar juntos antes de entrar em estúdio. Tornou-se cada vez mais frequente que discos gravados à distância — polidos, montados ao computador — ganhem vida depois de lançados, em digressões onde, não raras vezes, nem sequer tocam os músicos que participaram na gravação. E frequentemente o resultado é penoso, como ficou evidente em vários concertos recentes de nomes como Amaro Freitas, Theon Cross, Nubya Garcia ou Kamasi Washington.

Scofield e Holland pertencem a outro tempo — um tempo de ensaio, de escuta prolongada, de maturação coletiva da música. “Memories of Home”, gravado em agosto de 2024, marca o fecho de um ciclo iniciado ainda antes da pandemia, em 2019, com uma semana de concertos no Blue Note, em Nova Iorque. A digressão europeia foi interrompida pela pandemia e retomada pós-Covid, com duas excursões europeias — a segunda das quais passou por Portugal em 2024 (Julho é de Jazz em Braga e pelo XJazz em Pedrogão Pequeno) — e só então os dois músicos entraram em estúdio para fixar em gravação aquilo que já tinha sido vivido, experimentado e selecionado plenamente no palco. De um conjunto mais alargado de temas trabalhados ao vivo, escolheram nove para este disco.

O resultado dessa forma “antiga” de fazer jazz é evidente: a música está-lhes entranhada no corpo, ainda quente na memória, sustentada por centenas de horas de palco. Os músicos conhecem-se intimamente, antecipam as reações um do outro, reconhecem os gestos mínimos, as respirações, as hesitações. Como disse Scofield no podcast da ECM: «we really learned the tunes! (NT: Nós realmente aprendemos as músicas!) »

“Memories of Home” não é um exercício de virtuosismo nem de afirmação técnica. Como explica Holland no mesmo podcast, o essencial aqui não é tocar, mas escutar: quando dois músicos se encontram nesse lugar de escuta profunda, a música flui como uma conversa entre velhos amigos. Não se trata de provar nada — trata-se de servir a música. E é aí que acontece a verdadeira magia: não nas notas isoladas, mas na comunicação que se estabelece entre elas.

«For me, a key thing is not so much to play, but to listen. And when you have two people doing that, and I think John and I approach music that way, it’s like sitting with an old friend and the conversation flows. (...) a kind of give-and-take happens, specially when you have a generous musician to play with, someone who’s not playing to prove how great they are; really serving the music. And then you get the best possible thing. To me that’s the magic — the conversation. The notes and the tunes are just the tools; what really matters is the communication that is going down. And when you are in that zone, the music almost takes care of itself. (NT: Para mim, o essencial não é tanto tocar, mas sim ouvir. E quando duas pessoas fazem isso, e acho que eu e o John abordamos a música dessa forma, é como sentar com um velho amigo e a conversa flui. (...) acontece uma espécie de troca, especialmente quando se toca com um músico generoso, alguém que não está tocando para provar o quão bom é; alguém que está realmente a serviço da música. E então você obtém o melhor resultado possível. Para mim, essa é a mágica — a conversa. As notas e as melodias são apenas as ferramentas; o que realmente importa é a comunicação que acontece. E quando você está nesse estado de espírito, a música quase se cuida sozinha

Dave Holland é uma referência incontornável na história do contrabaixo no jazz; Scofield, um dos guitarristas mais reconhecíveis do seu tempo. Há entre ambos um terreno comum sólido — nas referências históricas, como Miles Davis, com quem ambos tocaram, e numa linguagem musical construída ao longo de décadas. Essa cumplicidade torna o duo uno, orgânico, profundamente humano.

A opção radical por apenas dois instrumentos — guitarra e contrabaixo — cria uma sensação de proximidade quase doméstica. Sem bateria, a liberdade rítmica é total. Cada um propõe, desestabiliza, prolonga, e sabe que o outro está a ouvir, pronto a seguir mesmo quando o caminho técnico ou expressivo se afasta do previsível.

O resultado é uma música contida, reflexiva, onde cada nota parece escolhida com plena consciência, e cada silêncio é carregado de intenção. Não ouvimos apenas escolhas momentâneas — ouvimos escolhas atravessadas por mais de cinquenta anos de experiência acumulada. A seleção de temas reparte-se entre composições de ambos: cinco de Scofield e quatro de Holland, algumas resgatadas do passado, outras escritas de propósito para este contexto. O disco abre com “Icons at the Fair”, releitura de um tema de Scofield que radica em “Scarborough Fair”, de Paul Simon, e incorpora outro de Miles Davis. O tom dominante não é o da revisitação nostálgica, mas o da reinvenção: cada tema é revisto à procura de outros ângulos, outras possibilidades reveladas pela linguagem específica de cada um.

A guitarra de Scofield surge com rijeza voluntária que lhe reconhecemos, assumindo desalinhos e “imperfeições” como material expressivo. O contrabaixo de Holland é redondo, firme, profundamente ressonante. Por vezes expõem os temas em uníssono — “Mine(s) Are Blues” é um bom exemplo — para depois abrirem o campo interpretativo. Noutras, afastam-se propositadamente, como em “Memorette”, criando um espaço de tensão produtiva entre duas vozes polifónicas. Ouve-se a surpresa, a frescura, a curiosidade mútua ainda ativa.

A gravação apresenta o detalhe cirúrgico habitual da ECM. Nem toda a música fica bem com este tipo de som. Há discos em que sabe bem ouvir a sala, ou o espaço entre os músicos, como se tivessem a tocar na nossa sala; mas Manfred Eicher gosta de estar atento ao detalhe e à cor na captação do som. O som da guitarra de Scofield — frequentemente com ligeira saturação; o do contrabaixo, profundo e com corpo, sem artifícios. O modo como os dois instrumentos se “sentam” na gravação está perfeito.

Ouvimos, ao longo de todo o disco, a maturidade de dois mestres que pensam e tocam ao mesmo tempo. Não há virtuosismo gratuito, apesar de o formato o permitir. Não há demonstração. Há diálogo. Há uma conversa serena.

“Memories of Home” toca pela forma como dois músicos conseguem estar a contar a mesma história, ao mesmo tempo, sem se sobreporem e mantendo a clareza total na narrativa. Nos sons e nos silêncios.

Faixas: Icons at the Fair; Meant to Be; Mine Are Blues; Memorette; Mr. B (Dedicated to Ray Brown); Easy for You; You I Love; Memories of Home.

Músicos: John Scofield— guitarra elétrica; Dave Holland— contrabaixo.

Para conhecer um pouco deste trabalho, assistam ao vídeo abaixo:

https://www.youtube.com/watch?v=pkLwbdGhC_Y

Fonte: Gonçalo Falcão (jazz.pt)

 

 

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