Uma energia crepitante permeia “Continental Divide”, como se
o próprio álbum atravessasse placas tectônicas, com a música mudando e
explodindo sob os pés como uma tempestade geológica em plena floração. O
saxofonista Tony Malaby e o trompetista Josh D. Reed, mestres do caos
controlado, lideram este quarteto exploratório com linhas cruas, porém
precisas, em meio a urgências, reflexões e, ocasionalmente, meditações
transcendentes. A banda mergulha de cabeça no free jazz, criando
paisagens sonoras espontâneas, porém coesas, que parecem tão vastas e
imprevisíveis quanto a característica geográfica que o título evoca, embora
talvez com mais brasa e, consideravelmente, menos neve.
Os saxofones tenor e soprano de Malaby oscilam entre
explosões furiosas de som e momentos de introspecção assombrosa, como um
profeta alternando entre revelação divina e meditação profunda. Cada membro da
banda complementa sua intensidade com um compromisso igualmente feroz com o
desconhecido, criando uma expedição musical que faria Lewis e Clark parecerem
caminhantes casuais. A interação entre a seção rítmica é particularmente
impressionante, pulsando, agitando e muitas vezes desmantelando qualquer noção
de estabilidade com a precisão de um relojoeiro especialista desmontando o
próprio tempo.
O álbum inicia com a tumultuosa "Break Off", uma peça
que inicia com tons esparsos antes de explodir em uma tempestade de
improvisação coletiva, como se os instrumentos estivessem envolvidos em um
debate animado sobre qual direção tomar a bússola musical. Ron Coulter (cujos
polirritmos poderiam de fato iluminar um sismógrafo e possivelmente fornecer
energia a uma pequena cidade) e o baixista Matt Smiley formam um duo dinâmico, fornecendo
uma base mutável para os voos tempestuosos dos solistas.
"Running Line" começa com as notas vibrantes do
sax tenor de Malaby, construindo em direção a um redemoinho, enquanto consegue
injetar momentos de clareza, semelhante a um raio de sol cortando nuvens de
tempestade e contrariando as linhas grosseiras de Reed. Coulter adiciona um
elemento nítido por meio de rimshots (NT: é um
golpe de "golpe de aro", que é uma técnica que consiste em tocar
determinado tambor de maneira que a baqueta, no momento do ataque, vá de
encontro ao aro e o centro da pele do tambor ao mesmo tempo, reproduzindo assim
um som mais encorpado e volumoso) rápidos que pontuam o caos como pontos
de exclamação em um manifesto.
"Click Drag" surge movimentado, porém produtivo,
com os acodes circulares de sax soprano de Malaby, acentuado com tons melódicos
amplamente calmantes. "Hook Set" materializa-se com as vozes
sussurradas do trompetista, as linhas de baixo minimalistas com o arco de
Smiley e os padrões de tom assimétricos do baterista. A música é caracterizada
pelas declarações isoladas dos músicos, que se fundem em um ápice, embora eles
se desviem e se reagrupem como alpinistas encontrando vários caminhos para o
pico.
Tal como o seu homônimo, “Continental Divide” marca um
momento decisivo onde os afluentes musicais convergem e divergem de forma
espetacular. O trimestre cria um álbum que mapeia novos territórios musicais
ousados, ao mesmo tempo que homenageia as forças que os esculpiram. No auge de
sua arte, esses músicos criaram algo raro: música que ignora as fronteiras que
traçamos em torno dos gêneros, desafiando-nos a seguir onde o horizonte nos
leva.
Faixas: Break
Off; Variant; Dead Drift; Running Line; Anti-Reverse; Click Drag; Backlash;
Hook Set; Slip Shot; Topaz; Hackle.
Músicos:
Tony Malaby (saxofones tenor e soprano); Matt Smiley (baixo); Ron Coulter
(bateria); Josh D. Reed (trompete)
Fonte: Glenn
Astarita (AllAboutJazz)
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