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quarta-feira, 3 de junho de 2026

MARIA SCHNEIDER – AMERICAN CROW (ArtistShare)

Há algo fascinante na maneira como Maria Schneider conta uma história. Seu álbum premiado de 2020, “Data Lords”, alertava para um mundo sendo dominado pela tecnologia e pelo big data. Foi de tirar o fôlego, repleto de composições inspiradas e talento musical excepcional. “Data Lords “ganhou o prêmio de Álbum do Ano da DownBeat tanto na votação dos leitores quanto na dos críticos em 2021, e Schneider foi nomeada Compositor e Arranjador do Ano. A Orquestra Maria Schneider também foi nomeada Grupo Musical de Grande Porte do Ano. A obra mais recente de Schneider, “American Crow”, serve como uma extensão de “Data Lords”. É um EP com duração aproximada de 30 minutos, com duas versões da faixa-título, e vale cada minuto de audição.

“American Crow” é uma composição que oferece uma mistura fascinante de cacofonia e silêncio, demonstrando "a toxicidade do nosso discurso social atual, que se degenerou em um nó impenetrável de raiva controlada", como afirma Schneider na "narrativa visual" que acompanha a obra no YouTube. Este “vídeo”, uma bela peça de filmografia, começa com uma citação do filósofo antigo Epicteto: “Temos dois ouvidos e uma boca para que possamos ouvir o dobro do que falamos”, algo que parece uma arte perdida. E essa é a verdadeira essência da visão de Schneider. Ela pede que a ouçam, compreendam e cuidem dela. Por meio de sua música, ela nos convida à união. Ela é uma força unificadora.

“American Crow” começa com força total desde o primeiro tempo, a banda tocando alto, a seção de trompetes imitando o grasnar dos corvos. A partir deste caos — e, aliás, até o caos soa belo nas mãos de Schneider — o clima da música se transforma em um lamento meditativo, com o comovente trabalho de trompete de Mike Rodriguez. Schneider, assim como seus ídolos anteriores, domina a arte de compor para cada um dos membros de sua banda, todos presentes no grupo há quase toda a sua trajetória de três décadas. Neste caso, é Rodriguez quem desfruta do papel de destaque. E sua interpretação, carregada de emoção, é simplesmente devastadora.

À medida que a peça se desenvolve, a orquestra aumenta gradualmente a intensidade. Saxofones estridentes aqui, trompetes ali, trombones reverberando lá embaixo. Johnathan Blake conduz a música na bateria.

Então a melodia vai se acalmando aos poucos, quase como pássaros num fio tagarelando, enquanto o trompete plangente de Rodriguez ressoa por cima. Os trombones ocasionalmente emitem um som grave e rouco. E então, o fim. Silêncio.

Além das duas versões de “American Crow”, o EP inclui outra faixa fantástica, uma regravação de “A World Lost” do “Data Lords”, mas em um estilo bem diferente, mais ao estilo Americana, característico do ”American Crow”. Esta peça serve como destaque para o guitarrista Jeff Miles. E é simplesmente arrasador. Julien Labro evoca um zumbido melancólico de acordeão, sobre o qual Miles brilha com bom gosto, melodia e audácia nos momentos certos. A música também conta brevemente com uma bela contribuição do piano de Gary Versace.

A embalagem também é primorosa. A arte da capa do álbum é muito legal, encomendada por Aaron Horkey, que é da cidade natal de Schneider, Windom, Minnesota. Vale muito a pena assistir ao vídeo.

A única coisa melhor do que ouvir este EP é ouvir a música ao vivo. Schneider tem apresentado a peça em seus shows recentes. Foi um dos pontos altos da apresentação da orquestra no último feriado do Labor Day Weekend (Dia do Trabalho), no Festival de Jazz de Detroit. Um bônus adicional foi observar o quanto ela e os membros de sua banda gostavam de tocar música.

A Maria Schneider Orchestra é uma das maiores alegrias do jazz atual. "American Crow" é a prova disso.

Faixas

1 American Crow – Mike Rodriguez, trumpet

2 A World Lost – Jeff Miles, guitar

3 field recording: American Crow vocalizations

4 American Crow Revisited (tomada alternativa) Composições de Maria Schneider

Músicos: Instrumentos de Palhetas: Steve Wilson, Dave Pietro, Rich Perry, John Ellis, Scott Robinson; Trompetes:Tony Kadleck, Greg Gisbert, NadjeNoordhuis, Mike Rodriguez;

Trombones:Keith O’Quinn, Ryan Keberle, Marshall Gilkes, George Flynn; Acordeão: Julien Labro; Guitarra: Jeff Miles; Piano: Gary Versace; Baixo: Jay Anderson; Bateria: Johnathan Blake.

 Para conhecer um pouco deste trabalho, assistam ao vídeo abaixo:

 https://www.youtube.com/watch?v=LLkCeVL7oTo

 Fonte: Frank Alkyer (DownBeat) 

 

 

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