Seria difícil para os ouvintes citarem outro artista além de
Dave Burrell que demonstre tamanha maestria em toda a trajetória do jazz, desde
suas origens no ragtime até seus territórios de vanguarda mais ousados. O
pianista, nascido em 1940, confere igual autenticidade às composições clássicas
de Jelly Roll Morton e à improvisação completamente livre. Sua discografia
abrange as obras de Thelonious Monk, Billy Strayhorn e Duke Ellington, enquanto
sua versatilidade se estende por calipso, reggae, stride piano, blues,
bebop e ópera.
Burrell deixou sua marca no revolucionário movimento New
Thing dos anos 1960, ao lado de Archie Shepp, Pharoah Sanders e Marion
Brown. Sua lendária colaboração com o saxofonista David Murray ao longo das
décadas de 1980 e 1990 permanece como parte do folclore do jazz.
Fundamental para a identidade artística de Burrell é
"Windward Passages", uma ópera que ele começou a escrever com a
libretista e esposa Monika Larsson em 1978. Ao longo de sua carreira, ele
retornou continuamente a esse material profundamente pessoal, gravando-o pela
primeira vez em carreira solo em 1979 para a Hat Hut Records e, posteriormente,
explorando-o com diversos parceiros.
Naquele mesmo ano, Burrell e o baterista Sam Woodyard
(1925-1988) — que impulsionou a Orquestra de Duke Ellington de 1955 a 1966 —
passaram três meses no Campagne Premiere, em Paris, trabalhando no material da
ópera. Há décadas que se especula sobre a existência desta gravação ao vivo da
residência deles, que teria sido mantida pela Horo Records até o fechamento da
gravadora e o desaparecimento das fitas. Felizmente, Burrell preservou uma
cópia cassete, que recebeu uma excelente remasterização aqui, permitindo
finalmente aos ouvintes vivenciar essa notável conversa musical.
O blues sonolento "On A Saturday Night" abre o trabalho,
com o piano contemplativo de Burrell acompanhado pelas escovinhas suaves de
Woodyard. A música vai ganhando força gradualmente através de passagens de
boogie-woogie que Pete Johnson teria apreciado. "A.M. Rag" demonstra
a técnica fulminante de Burrell e seu conhecimento enciclopédico de piano jazz,
reproduzindo as sincopações de Scott Joplin com velocidade e precisão de tirar
o fôlego.
A abordagem da dupla aos clássicos de Ellington-Strayhorn se
apresenta reveladora. Suas versões de "Lush Life" e
"Sophisticated Lady" recebem o tratamento reverente que essas
obras-primas merecem, enquanto "Embraceable You", de George Gershwin,
se beneficia de sua profunda compreensão do cancioneiro estadunidense. A
sensibilidade romântica de Burrell transparece em toda a obra, particularmente
em sua composição original "Sarah's Lament", que entrelaça a
sofisticação harmônica de Gershwin com o piano stride e elementos de blues.
“Windward Passages” conta a história da própria Burrell, uma
grande parte dela vivida no Havaí antes de se mudar para Boston e,
posteriormente, para Nova York. Ele combina de forma engenhosa sua herança
insular com as tradições musicais americanas em peças como "Punaluu
Pete" e "My Dog Has Fleas/Meneghune Messages", mesclando ritmos
insulares com ragtime e música sacra.
Esta gravação parisiense captura Burrell e Woodyard
refinando os elementos musicais, que definiriam a visão artística de Burrell
pelas próximas cinco décadas. Com o apoio magistral de Woodyard, o pianista
cristalizou os diversos fios que fazem de “Windward Passages” uma declaração
pessoal tão singular. A recuperação desta sessão perdida proporciona uma visão
inestimável de um dos mestres mais versáteis e subestimados do jazz num momento
criativo crucial.
Faixas: On
a Saturday Night; A.M. Rag; Lush Life (Strayhorn); Punaluu Peter; Sarah's
Lament; Stepping Out (or, Monday Night Death Rehearsal); Embraceable (Gershwin
/ Gershwin); Black Robert; My Dog Has Fleas / Menehune Messages; Sophisticated
Lady (Ellington).
Músicos: Dave
Burrell (piano); Sam Woodyard (bateria).
Fonte: Mark
Corroto (AllAboutJazz)

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