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segunda-feira, 13 de julho de 2026

HENRY THREADGILL - LISTEN SHIP (Pi Recordings)

Nos últimos anos, Threadgill tem oscilado entre a escrita para o seu grupo Zooid e grandes formações como The Other One ou o Double Up Ensemble. “Listen Ship” situa-se num ponto intermediário: não é uma big band nem um pequeno combo, mas uma constelação singular, onde a precisão orquestral convive com o risco da improvisação.

Comecemos pela instrumentação, para que o leitor possa formar uma imagem mental do som. “Listen Ship” é interpretado por um octeto singular: quatro guitarras acústicas (Bill Frisell, Brandon Ross, Gregg Belisle-Chi e Miles Okazaki), duas guitarras-baixo acústicas (Jerome Harris e Stomu Takeishi) e dois pianos (Maya Keren e Rahul Carlberg). O som dominante é o das guitarras (6 no total), num fraseado intrincado que evoca o “Salut für Caudwell” de Helmut Lachenmann: não há hierarquias perceptíveis, mas sim movimentos que se entrelaçam e se desfazem.

O disco é feito de dezessete peças, na sua maioria curtas, em que a matéria-prima é o som acústico das guitarras e dos pianos, atravessado pelo silêncio. São rabiscos sem intenções alfabéticas.

O material de composição nasce de diversos elementos; desde logo das diferenças tímbricas entre instrumentos da mesma família, mas com personalidades sonoras distintas: sopranos, archtops, flat-tops, baixos. Não se trata apenas de somar instrumentos iguais, mas de explorar as variações que emergem quando diferentes guitarras vibram em simultâneo, cada uma com a sua assinatura tímbrica. Há uma vontade de testar combinações fora de qualquer convenção idiomática.

Outro dos elementos fundamentais para a composição é o intervallic system, um sistema que Threadgill tem vindo a desenvolver desde finais do século passado. Tal como Morton Feldman explorava a importância do intervalo entre notas tanto quanto a própria nota, também neste sistema cada músico (ou grupo de músicos) recebe intervalos específicos em vez de escalas ou acordes. A tarefa é explorar apenas essas distâncias, criando linhas melódicas e contrapontos que resultam numa música simultaneamente restrita e infinitamente aberta.

Por fim, o som acústico, que tem uma duração mais curta, e esse fator também é usado como ferramenta estrutural: contrapontos quebrados, ritmos dentados, a respiração do ataque e do seu rápido apagamento.

Este é um disco sobre o insólito e o inesperado. Algumas peças duram menos de um minuto; outras estendem-se por quase oito. A única constante é a mudança: gestos interrompem gestos, movimentos instalam-se para depois se dissiparem.

Threadgill não toca em “Listen Ship”, mas está presente na condução – feita de passos, respiração, balanços de corpo – constitui a fundação rítmica da obra. Para os músicos, as partituras são mapas; o verdadeiro território só se revela nos ensaios, quando o compositor guia, explica e liga as partes, revelando a totalidade.

Para o ouvinte, “Listen Ship” é uma obra densa, de polifonia assimétrica e, por vezes, confusa, com uma vontade de revelação: à medida que se escuta, a mente procura coerências, constrói formas, encontra unidades mesmo onde elas parecem não existir.

Aos 81 anos, Henry Threadgill continua criativo, inquieto e à procura de novas soluções musicais. Este disco confirma a dimensão de um legado que não olha para trás, mas que se expande à procura de uma música nova, ancorada no jazz, mas a apontar para territórios inexplorados.

Editado pela Pi Recordings, “Listen Ship” retoma uma intuição ensaiada em 1994 (no álbum “Song Out of My Trees”) e pede disponibilidade e entrega ao ouvinte. Pede vontade de embarcar num mundo musical diferente. É música para quem gosta de viagens e não de destinos.

Faixas

1.A 01:10

2.B 02:20

3.C 01:10

4.D 03:57

5.E 03:33

6.F 02:02

7.G 01:31

8.H 06:23

9.IJ 01:21

10.L 07:03

11.M 01:56

12.N 01:04

13.O 00:48

14.P 01:12

15.Q 00:40

16.R 07:59

 Músicos: Henry Threadgill (condução); Bill Frisell— guitarra acústica; Brandon Ross— guitarra acústica soprano; Gregg Belisle-Chi— guitarra acústica; Miles Okazaki— guitarra acústica; Jerome Harris— guitarra baixo acústica; Stomu Takeishi— guitarra baixo acústica; Maya Keren— piano; Rahul Carlberg— piano.

Fonte: Gonçalo Falcão (jazz.pt)

 

 

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