Nos últimos anos, Threadgill tem oscilado entre a escrita
para o seu grupo Zooid e grandes formações como The Other One ou o Double Up
Ensemble. “Listen Ship” situa-se num ponto intermediário: não é uma big band
nem um pequeno combo, mas uma constelação singular, onde a precisão orquestral
convive com o risco da improvisação.
Comecemos pela instrumentação, para que o leitor possa
formar uma imagem mental do som. “Listen Ship” é interpretado por um octeto
singular: quatro guitarras acústicas (Bill Frisell, Brandon Ross, Gregg
Belisle-Chi e Miles Okazaki), duas guitarras-baixo acústicas (Jerome Harris e
Stomu Takeishi) e dois pianos (Maya Keren e Rahul Carlberg). O som dominante é
o das guitarras (6 no total), num fraseado intrincado que evoca o “Salut für
Caudwell” de Helmut Lachenmann: não há hierarquias perceptíveis, mas sim
movimentos que se entrelaçam e se desfazem.
O disco é feito de dezessete peças, na sua maioria curtas,
em que a matéria-prima é o som acústico das guitarras e dos pianos, atravessado
pelo silêncio. São rabiscos sem intenções alfabéticas.
O material de composição nasce de diversos elementos; desde
logo das diferenças tímbricas entre instrumentos da mesma família, mas com
personalidades sonoras distintas: sopranos, archtops, flat-tops, baixos. Não se
trata apenas de somar instrumentos iguais, mas de explorar as variações que
emergem quando diferentes guitarras vibram em simultâneo, cada uma com a sua
assinatura tímbrica. Há uma vontade de testar combinações fora de qualquer
convenção idiomática.
Outro dos elementos fundamentais para a composição é o intervallic
system, um sistema que Threadgill tem vindo a desenvolver desde finais do
século passado. Tal como Morton Feldman explorava a importância do intervalo
entre notas tanto quanto a própria nota, também neste sistema cada músico (ou
grupo de músicos) recebe intervalos específicos em vez de escalas ou acordes. A
tarefa é explorar apenas essas distâncias, criando linhas melódicas e
contrapontos que resultam numa música simultaneamente restrita e infinitamente
aberta.
Por fim, o som acústico, que tem uma duração mais curta, e
esse fator também é usado como ferramenta estrutural: contrapontos quebrados,
ritmos dentados, a respiração do ataque e do seu rápido apagamento.
Este é um disco sobre o insólito e o inesperado. Algumas
peças duram menos de um minuto; outras estendem-se por quase oito. A única
constante é a mudança: gestos interrompem gestos, movimentos instalam-se para
depois se dissiparem.
Threadgill não toca em “Listen Ship”, mas está presente na
condução – feita de passos, respiração, balanços de corpo – constitui a
fundação rítmica da obra. Para os músicos, as partituras são mapas; o
verdadeiro território só se revela nos ensaios, quando o compositor guia,
explica e liga as partes, revelando a totalidade.
Para o ouvinte, “Listen Ship” é uma obra densa, de polifonia
assimétrica e, por vezes, confusa, com uma vontade de revelação: à medida que
se escuta, a mente procura coerências, constrói formas, encontra unidades mesmo
onde elas parecem não existir.
Aos 81 anos, Henry Threadgill continua criativo, inquieto e à procura de novas soluções musicais. Este disco confirma a dimensão de um legado que não olha para trás, mas que se expande à procura de uma música nova, ancorada no jazz, mas a apontar para territórios inexplorados.
Editado pela Pi Recordings, “Listen Ship” retoma uma
intuição ensaiada em 1994 (no álbum “Song Out of My Trees”) e pede
disponibilidade e entrega ao ouvinte. Pede vontade de embarcar num mundo
musical diferente. É música para quem gosta de viagens e não de destinos.
Faixas
1.A 01:10
2.B 02:20
3.C 01:10
4.D 03:57
5.E 03:33
6.F 02:02
7.G 01:31
8.H 06:23
9.IJ 01:21
10.L 07:03
11.M 01:56
12.N 01:04
13.O 00:48
14.P 01:12
15.Q 00:40
16.R 07:59
Fonte: Gonçalo Falcão (jazz.pt)

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