Em 2023, numa viagem à Indonésia, o contrabaixista e
compositor Higino Andrade fez uma sessão de mergulho livre, tendo na ocasião
batido o seu recorde pessoal de profundidade. Ao longo dos 23 metros
descendentes, conta à jazz.pt, «apodera-se de nós um certo estado — um
sentimento de solitude, um silêncio grave e denso, a sensação de paragem no
tempo, uma leve embriaguez e um balanço entre controle e confiança.» O músico
madeirense, a residir há quase uma década em Berlim, encontra fortes
semelhanças entre este estado e o que ocorre quando mergulha no processo
criativo. Acaba de lançar o seu álbum de estreia em nome próprio, a que, nesta
lógica, intitulou “In Depth”, com selo da Timbre Melro Preto, braço editorial
da Associação de Jazz da Madeira - Melro Preto, fundada pelos irmãos Francisco
e Alexandre Andrade. Entende-o como «um convite à contemplação — do outro, da
obra e de si mesmo.» O processo de maturação pessoal e musical que conduziu a
este álbum não começou ontem, e reflete a sua trajetória e influências,
começando pela ilha onde nasceu, com as suas paisagens dramáticas e fecundas
tradições culturais. «”In Depth” é a minha tentativa de dar voz a esta música
da forma mais honesta e autêntica possível», sublinha. «Vejo o álbum como uma
paisagem escarpada e montanhosa — gosto de surpreender o ouvinte, tal viajante,
que ao virar a “esquina”, encontra um tema que contraste com o anterior e que o
deixe curioso e intrigado.» A primeira composição de “In Depth” remonta a 2016.
Fundado numa atitude jazzística que atravessa todo o disco, a música do trio —
que se completa com o pianista Nuno Filipe e o baterista Aaron Castrillo —,
elegante e cuidada, acomoda outras referências, em particular a tradição
clássica europeia, bem patentes em algumas das peças. Higino Andrade cresceu na
Camacha, vila madeirense onde a cultura e a tradição são fatores de união e
orgulho, e num ambiente familiar com muita música; havia discos, um tio
baterista e um outro cantor em grupos locais. «Tive sorte em haver uma extensão
do Conservatório [Escola das Artes da Madeira] na minha zona, com uma
constelação de professores de excelência vindos de vários cantos do mundo —
todo o meu trajeto profissional e pessoal está ligado a este primeiro fator.»
Começou pela guitarra clássica, teoria musical e contrabaixo clássico, tendo
terminado o curso profissional de guitarra enquanto participava no curso livre
de jazz em contrabaixo. Enquanto aluno do Conservatório, participou na
orquestra acadêmica e no intercâmbio Leonardo Da Vinci, o que lhe deu a
oportunidade de conhecer a escola de pop/jazz de Joensuu, na Finlândia,
experiência que lhe despertou o interesse pelas terras setentrionais da Europa.
Por esta altura, teve os primeiros contatos com o jazz nórdico e com formações
como o trio do precocemente desaparecido Esbjörn Svensson. Na Madeira, logo
começou a fazer vida profissional e a tocar em concertos locais. O ambiente
criativo que se vivia na ilha era pouco motivador e sobrevivia devido a um
pequeno grupo de resistentes que se dedicavam a esta música. Frequentou a
Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo (ESMAE) — onde estudou com Nuno
Ferreira e Abe Rábade — concluindo em 2015 o curso de contrabaixo. Do ambiente
acadêmico do Porto e das relações que nele brotaram, surgiu a oportunidade de
explorar Berlim, cidade que é para si «um vasto laboratório de matéria
artística» e que, devido a uma cultura de curiosidade e sentido de liberdade de
expressão, também se aprende «com os maus exemplos que têm o seu espaço na cena
cultural da cidade.» Da capital alemã destaca ainda o fato de haver não só
muitos artistas de todas as vertentes musicais, mas também muitos estúdios,
produtores, engenheiros de som, e, sobretudo, o «profissionalismo e seriedade
em fazer arte é um forte incentivo para cada um fazer a sua arte à sua maneira».
Foi imerso em todo este ambiente culturalmente fervilhante que nasceu “In Depth”.
Concluída a fase de composição, quis ir logo para estúdio, não sem antes ter
feito dois concertos com o trio para rodar o material e consolidar dinâmicas. O
álbum foi gravado ao longo de três dias intensos no estúdio Recpublica, um
antigo moinho agora renovado em Lubrza, na vizinha Polônia. «O primeiro para
preparação, o segundo para a gravação em estúdio do álbum, e o terceiro para a
gravação ao vivo do trio no grande salão, onde registramos os vídeos.»
Colaborações anteriores com a Associação Melro Preto fizeram com que a editora
demonstrasse desde cedo interesse em apoiar a gravação e editar “In Depth”. «É
para mim um grande orgulho fazer parte deste movimento», salienta o contrabaixista.
Nuno Filipe e Aaron Castrillo são dois músicos que Higino
Andrade conhece bem. Com o pianista, também madeirense e a residir em Berlim,
manteve uma relação musical regular durante cerca de um ano. O sevilhano Aaron
Castrillo estudou no País Basco, frequentando depois o mestrado EUJAM em
Amesterdam (onde, refira-se, foi colega do vibrafonista Eduardo Cardinho). Ao
entrarem para estúdio, a música já estava toda escrita, embora em constante
adaptação. O processo de ensaios serviu para que cada músico, ao apor o seu
cunho pessoal, tornasse a música mais sua, equilibrando as dimensões individual
e coletiva nesta configuração “clássica” piano-contrabaixo-bateria. «Tenho uma
certa afinidade pelos instrumentos acústicos. Sinto conforto e humanidade nas
suas imperfeições», confessa o contrabaixista. Um dos aspectos da sua música
que mais releva é o equilíbrio, instável e complexo, entre composição e
improvisação. «No meu caso, o improviso, entendido como o solo, deve servir a
composição e a intenção musical. Não consigo imaginar Mozart, Bach ou Chopin
sentarem-se ao piano e não improvisarem. Até duvido que tocassem os seus temas
sempre da mesma forma.» Entre as principais influências no contrabaixo jazz
destaca três: Christian McBride, Carlos Bica (também ele fortemente ligado à
capital alemã, onde se radicou em 1994) e Dave Holland. Na erudita, diz admirar
Debussy, Schönberg, Poulenc, Bach e Stranvinsky, compositores que revisita. O
fato de, na clássica, as funções de compositor e de intérprete estarem mais
separadas, diz, «parece que culmina numa certa diluição do ego e a obra ganha
uma vida própria — um lugar luminoso na prateleira da eternidade.» Também o
cinema é fonte de inspiração muito presente no seu trabalho. «Apesar de todas
estas influências», realça Higino Andrade, «sempre habitou em mim uma voz de
resistência. Uma crença de que, em mim, há uma música só minha, uma visão
desfocada que só o tempo pode clarear.» Um dos traços principais da sua
abordagem musical — a que chama “direktsaft”, expressão alemã que se refere ao
sumo obtido apenas de fruta espremida — é a veia melódica. «A melodia, porém, é
um convite à intimidade — não é por acaso que melodia e poesia estão
historicamente conectadas». “In Depth” foi pensado para ser escutado
ininterruptamente do início ao fim. Sigamos a sugestão do autor (para depois a
subvertermos). A faixa inaugural, “In Doubt”, é uma miniatura de contrabaixo
solo, particularmente bem captada (é possível escutar as cordas, a madeira, as
respirações), que logra aclimatar o ouvinte à atmosfera do álbum. “Mazurka
(des)Encanto”, uma das peças mais recentes, foi escrita a pensar no trio de
piano. Somos envolvidos pela atmosfera melancólica, com traços da popular dança
reinterpretada por Chopin, temperados por elementos jazzísticos. Andrade pega
no arco e adita uma camada de solenidade. Inspirada nos tons avermelhados das
paisagens, rituais e tradições do sul e sudeste asiático, “Indian Red”, peça
fulcral do álbum, exponencia as virtualidades da triangulação, desenvolvendo-se
paulatinamente com os três músicos a entrelaçar as suas linhas e a adquirir
protagonismo à vez. “Pinnochio’s Spiritual Impressions” nasceu de uma conversa
com uma sobrinha de sete anos e da ideia de fazer um conto infantil que explorasse
as dimensões do “eu” — o “eu” que fala, o “eu” que ouve e o “eu” que observa.
Andrade pega de novo no arco para lançar a melodia graciosa, que o pianista
desenvolve e sublinha, com o baterista a fornecer substrato rítmico. Um longo
crescendo conduz a peça ao clímax. “Improv#1 Momentum” é um solo improvisado de
contrabaixo; Andrade explora linhas melódicas em arco, sobrepostas e
improvisadas sobre uma base rítmica em pizzicato. “Skardu” remete para o nome
de uma cidade paquistanesa e é memória de uma expedição em que Andrade
participou em 2021. Da interação apertada entre os três músicos, com o piano a
explanar motivos circulares, hipnóticos, qual banda sonora de um filme
imaginário, eleva-se o contrabaixo meditabundo, que lança um final otimista.
“Improv#2 Nocturne” é troca de frases entre pianista e contrabaixista. De
atmosfera mais enigmática, “Elogio a Sessuh Toyo” (referência ao pintor japonês
do século XV) é um dos momentos mais interessantes do álbum, alternando, de
forma súbita, momentos mais tensos com outros de grande delicadeza. Andrade
volta a recorrer ao arco numa peça que denota fortes influências nipônicas.
Castrillo demonstra uma especial sensibilidade na criação de texturas mais
planantes, sublinhada pela utilização de um gongo tradicional vietnamita.
“Schwarzdrossel” (melro preto, em alemão) encerra o álbum em tons festivos,
contando com as participações do saxofonista Francisco Andrade, do trompetista
Alexandre Andrade e do trombonista Xavier Sousa, num tributo a este “bando”
resiliente e ao seu serviço à arte e à música na Madeira. Revelando-se ao
mundo, Higino Andrade faz de “In Depth” um álbum interessante e que aguça o
apetite para o que já prepara.
Faixas
1.In
Doubt 01:00
2.Mazurka
(des) Enchanted 05:31
3.Indian
Red 06:31
4.Pinocchio’s Spiritual Impressions 04:58
5.Improv#1 Momentum 01:21
6.Skardu 06:40
7.Improv#2 Nocturne 01:34
8.Elogio a Sesshu Toyo 05:36
9.Schwarzdrossel 06:51
Músicos: Higino Andrade — contrabaixo e composição; Nuno Filipe— piano e Rhodes; Aaron Castrillo— bateria.
Para conhecer um pouco deste trabalho, assistam ao vídeo
abaixo:
https://www.youtube.com/watch?v=hqeUe07PM4Y
Fonte: António Branco (jazz.pt)

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