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sábado, 18 de julho de 2026

I LIKE TO SLEEP - SPECTRAL VIBES (All Good Clean Records)

Descobrimos os I Like To Sleep em 2020, com “Daydream”, o segundo disco do trio norueguês. Foi aí que a música começou a impor-se como uma presença distinta, difícil de classificar, e desde então temos acompanhado atentamente o seu percurso. Neste novo capítulo, o som surge mais sujo, mais denso: a ultrapassagem é mais agressiva, os pratos da bateria ganham aspereza e a música aproxima-se declaradamente do stoner rock. A banda, que assinala agora uma década de existência, edita o seu quinto LP pela editora de Trondheim, All Clean Good Records.

Quando gostamos de um grupo, muitas vezes não queremos que ele mude. Que cada disco seja igual ao anterior, com temas novos, mas que nos vá dando o prazer de ouvir a música que nos agradou no passado. Mas se a música for feita por músicos e não por IA, não funciona assim. Cada disco é diferente e a ideia é que as coisas mudem. O que inicialmente nos prendeu à música dos I Like To Sleep foi a forma singular como integraram o vibrafone num território onde o jazz se cruza frontalmente com o rock. Essa fórmula mantém-se viva, mas foi expandida noutras direções. O vibrafonista Amund Storløkken Åse assume hoje um papel mais central, alternando entre vibrafone amplificado, Mellotron, samplers e percussões, ampliando o espectro tímbrico do trio.

O baixo continua a ser o verdadeiro eixo da música: imponente, profundo, com uma presença que parece já inscrever-se num certo som nórdico (ex: Fire!, Bushmans Revenge). É ele que estrutura os temas, definindo tempo, pulsação e caráter. Há aqui uma lógica que remete para o funk, embora reinterpretada de forma mais matemática e rigorosa. O baixo, nas mãos de Nicolas Leirtrø, articula o corpo da música, ancora o balanço e afirma-se como instrumento melódico. É um organizador “visível”.

Entre as novidades deste disco está a participação de Mats Gustafsson em “Bed Robber” (o tema que mais se liga ao passado do grupo) e a inclusão de um quinteto de cordas — dois violinos, dois violoncelos e contrabaixo — que dialoga com o trio, acrescentando uma dimensão orquestral que contrasta com as distorções. Surgem harpas, o quinteto de cordas, a flauta, o Mellotrom.

Em “Spectral Vibes”, a música surge mais pesada e compacta, o rock assume maior protagonismo e o som do grupo ganha novas cores através da eletrônica e das cordas. Quem vem de “Daydream” reconhece aqui a origem deste caminho; quem chega agora encontrará um grupo que aposta em temas mais rápidos e intensos, atravessados por melodias cíclicas, assobiáveis e de uma delicadeza quase campestre. É o contraste entre essas formas bonitas e a sujidade do rock que dá à música dos I Like To Sleep um encanto raro e profundamente pessoal.

Os I Like To Sleep são aquilo que se poderia justamente chamar de powerjazz: cruzam o rock inteligente com o jazz, com um som muito próprio. “Peace and Power Jazz To People.” Dizem na contracapa do disco. Bem precisamos. De “peace” muito mais do que de “Power Jazz”, pois este enche-nos por uns tempos.

Faixas

1.Octopus 05:12

2.I LIKE TO SLEEP, Mats Gustafsson - Bed Robber 10:34

3.I LIKE TO SLEEP, Swamp Strings - Pause III pt. I 01:48

4.I LIKE TO SLEEP, Swamp Strings - Swamp Strings 01:24

5.I LIKE TO SLEEP, Mats Gustafsson - Swamp 05:27

6.I LIKE TO SLEEP, Swamp Strings - Pause III pt. II 01:01

7.Time To Get Up 06:55

8.Skagstad 06:26

Músicos: Amund Storløkken Åse— vibrafone amplificado, Mellotron, samplers, percussão; Nicolas Leirtrø— baixo, guitarra “perfurada”, percussão, contrabaixo; Øyvind Leite— bateria, percussão; Mats Gustafsson— flauta, saxofone tenor; Maja Langeteig— violino; Emilija Petrovska— violino; Live Smidt— violoncelo; Sigrid Angelsen— violoncelo

Fonte: Gonçalo Falcão (jazz.pt)

 

 

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