Uma olhada na lista de faixas — com reinterpretações de
Stevie Wonder e Marvin Gaye e dois clássicos vocais da era do swing —
pode dar uma impressão errada. Sim, este é um álbum muito acessível e
comovente, mas é um jazz sério e sincero, com a marca pessoal de Orrin Evans
que o torna único. Blues, soul e gospel os sons dividem o palco aqui com
influências do swing, straight-ahead e avant-garde, o que
não surpreende, considerando a década em que Evans tocou com a Mingus Big Band.
O piano de Evans define o tom imediatamente, começando a
primeira faixa, "Dislocation Blues", com acordes de blues
entrecortados, e depois adicionando nuances harmônicas e elegância em poucos
compassos. O organista convidado Jesse Fischer envolve Evans num dueto
misterioso e ligeiramente dissonante, antes da entrada dos metais e do vocalista
Paul Jost. Ao longo de toda a obra, são os riffs (NT: é
um motivo musical curto, melódico ou rítmico, repetido ao longo de uma canção,
servindo como base harmônica principal, especialmente no Rock, Blues e Jazz)
com toque de blues e as harmonias incomuns de Evans, que impulsionam essa
música.
Dos quatro vocalistas do álbum, Lisa Fischer se destaca. Ao
interpretar "Overjoyed", a obra-prima vocal de Stevie Wonder, Evans
faz com que Fischer comece num andamento mais lento, acompanhado inicialmente
apenas por piano e o obbligato de trompete de Nicholas Payton. Fischer adota
uma abordagem lenta, grave e com influências de blues, mantendo-se um pouco
atrasado em relação ao tempo, enquanto a música cresce gradualmente e passa
pelas modulações características de Wonder.
Este é o quinto álbum de Evans com a Captain Black Big Band,
o primeiro com tantos vocais, e neste, os metais geralmente fornecem acentos,
floreios e solos, em vez de dominar os arranjos. Em "Hymn", os metais
são proeminentes, mas estão acompanhando Evans ou ele está dando suporte a
eles? Embora o som se torne grandioso em alguns momentos deste álbum, a música
geralmente soa intimista, uma qualidade sugerida pelo título escolhido por
Evans.
“Walk a Mile in My Shoe” usa "shoe" no singular e,
com isso, faz uma revelação pessoal: " Minha jornada musical está
intimamente ligada à minha jornada médica, e este disco é a minha forma de
abrir as portas para aquilo com que convivo há anos”, disse ele. " Eu uso
bengala porque nasci com neurofibromatose. Foi isso que o 'Elephant Man' teve,
mas, felizmente, afetou apenas minha perna/pé esquerdo. Fiz várias cirurgias, a
última quando tinha oito anos. Não tenho mais problemas neurológicos, mas
passei por diversas cirurgias reconstrutivas desde então"
Resiliência e persistência também caracterizam a carreira de
Evans, com mais de 30 álbuns lançados como líder, além de seu trabalho com o
The Bad Plus e como músico de apoio. Ele também ocupa um cargo docente na
Universidade Rutgers. Para dar visibilidade à sua música, ele criou seu próprio
selo, o Imani Records, que agora também distribui trabalhos de muitos outros
artistas e organiza o evento anual Imani Records Club Patio Jazz Day perto da
cidade natal de Evans, Filadélfia. Se este álbum serve de indicação, viajar
para Filadélfia para ver a Captain Black Big Band ao vivo no festival pode ser
uma ótima ideia.
Faixas: Dislocation
Blues; Sunday in New York; All That I Am; Blues in the Night; Hymn; Save the
Children; Overjoyed; Smoke Gets in Your Eyes; If.
Músicos:
Orrin Evans (piano); Josh Lawrence (trompete); Todd Bashore (saxofone alto);
Caleb Wheeler Curtis (saxofone); David Gibson (trombone); Reggie Watkins (trombone);
Vicente Archer (baixo); Madison Rast (baixo); Anthony Tidd (baixo); Anwar
Marshall (bateria); Mark Whitfield, Jr. (bateria); Sean Jones (trompete);
Nicholas Payton (trompete); Jesse Fischer (teclados); Lisa Fischer (vocal);
Bilal (vocal); Joanna Pascale (vocal); Paul Jost (vocal).
Fonte: Steve
Plever (AllAboutJazz)

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