Na edição 2025 do Festival Porta-Jazz houve um concerto que
se destacou particularmente: o trio How Noisy Are The Rooms? juntava Alfred
Vogel (bateria), Joke Lanz (toca-discos) e Almut Kühne (voz) e, a par da boa
dinâmica coletiva, destacavam-se as capacidades da vocalista. O concerto acabou
por ser distinguido como um dos melhores do ano na votação anual da jazz.pt e
na altura escrevemos: «A voz de Almut Kühne destacou-se como um verdadeiro
acontecimento: livre, inventiva e profundamente consciente do processo
improvisacional, mostrou que o território vocal no jazz está longe de se
esgotar.»
A cantora, natural de Dresden (nascida em 1983) e radicada
em Berlim, juntou-se agora a dois músicos portugueses para formar um curioso
trio. Com o saxofonista João Pedro Brandão e o baterista Marcos Cavaleiro, dois
dos mais versáteis e criativos músicos da nossa terra, nasceu este projeto que
acaba de editar, através do Carimbo Porta-Jazz, a sua estreia discográfica: “Stones
and Seeds”. Neste disco começamos por ouvir o trio em diálogo improvisado, onde
as ideias se vão agregando. Kühne empresta a sua voz camaleônica, que vai
alternando de registros. As intervenções de Brandão são afirmativas e aqui,
além do habitual saxofone, serve-se ainda da flauta, do clarinete e do órgão.
E, na percussão, Cavaleiro é oportuno, atento e dialogante. Num encontro feliz,
os três músicos contribuem para uma música mutante, uma massa sonora que vai
crescendo e evoluindo com cada gesto e intervenção.
O primeiro destaque irá para a voz de Almut Kühne, que já
não será uma surpresa, mas é uma confirmação, não só pela riqueza e amplitude
de recursos que apresenta, mas sobretudo pela forma inteligente com que sabe
aplicar cada recurso em cada situação (e que encontrará paralelo nos trabalhos
de Mariana Dionísio e Vera Morais). É sempre um prazer ouvirmos Brandão, que se
desdobra entre a organização da associação Porta-Jazz e, artisticamente, entre
o Coreto, a Orquestra Jazz de Matosinhos ou o seu excelente Trama no Navio — e
gostávamos de ver mais trabalho autoral em nome próprio. Também Cavaleiro se
multiplica em parcerias e aqui ouvimo-lo de um modo mais livre e desassombrado.
O grupo luso-germânico revela uma permanente escuta ativa,
num jogo constante de ação e reação. Os músicos tiram-nos o tapete, lançam
novas luzes, despejam muitas ideias e, durante o tempo todo, trabalham uma
comunicação muito fluida. E daqui resulta uma música que vai atravessando
diferentes ambientes: é espectral, é exploratória, é desafiante. Esta música
não é fácil de ouvir, poderá não ser apelativa a todos os ouvintes. No tema
final, “Airwaves”, somos assombrados por sussurros fantasmagóricos: os agudos
do sax de Brandão e da voz de Kühne intersectam-se, deixando o ouvinte confuso
sem saber onde termina um e começa o outro. Este disco é uma verdadeira experiência
imersiva, onde assistimos, em tempo real, ao processo criativo de três músicos
em plena invenção.
Faixas
1.Stones
in rivers 08:19
2.Carried
by wind 05:02
3.Evasti
05:37
4.Seeds:
life not yet to come 05:19
5.Glasklar 02:52
6.Os círculos que desenhamos 07:13
7.Airwaves 02:42
Músicos: Almut Kühne (voz); João Pedro Brandão (flauta,
clarinete, saxofone, órgão); Marcos Cavaleiro (percussão).
Para conhecer um pouco deste trabalho, assistam ao vídeo
abaixo:
https://www.youtube.com/watch?v=uODFKhXwC7M
Fonte: Nuno Catarino (jazz.pt)

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