playlist Music

sábado, 8 de agosto de 2026

FÁBIO DE ALMEIDA – REQUIEM FOR A DRAGON (Dox Records)

Foi através de Hugo Carvalhais que descobrimos o saxofonista Fábio de Almeida. No disco “Ascetica (Clean Feed, 2022)”, o quarto volume da discografia do contrabaixista portuense, encontramos um músico que até então não tínhamos ouvido com a devida atenção. E, tal como foi Carvalhais que nos apresentou o baterista Mário Costa (que entretanto se afirmou como uma das mais originais e relevantes figuras do jazz nacional), também Almeida se começou por revelar através da música metódica e desconcertante do contrabaixista.

Fábio de Almeida, saxofonista tenor, compositor e improvisador, nasceu em Paris, cresceu entre Vila Real e o Porto e vive atualmente nos Países Baixos, na cidade de Tilburg. Ao longo do seu percurso, além da referida parceria com Carvalhais, tocou com João Martins (o baterista, que editou no ano passado Oxímoro), integrou o Phantom Trio (com Martins e Sérgio Tavares) e o grupo de fusão Pãodemónio (com Nuno Trocado, Ricardo Pinto e Marcelo Aires), além de colaborações com Marcelo D2, Teresa Cristina, Moacyr Luz e Orquestra Bamba Social, entre outros.

Para a sua estreia na condição de líder, o saxofonista edita através da Dox Records (baseada em Amesterdam) o álbum Requiem for a Dragon. Desde logo, a formação é pouco convencional: Sjoerd van Eijk nos sintetizadores e teclados; Stef Joosten no baixo elétrico; e Pedro Nobre na bateria. Também as composições, de linhas bem marcadas, com espaço para a improvisação, são distintivas: não são típicas do “jazz americano”, revelam antes outras direções: incorporam diferentes elementos (da clássica à eletrônica, cruzando geografias) para criar um universo muito próprio. Carregamos no botão play e o disco arranca com “Mark of the Wanderer”: um sintetizador retro-futurista (saído de um filme sci-fi dos anos ’70) a planar, sobre o qual o saxofone tenor entra com a maior tranquilidade. Almeida não ruge, nem tem essa necessidade. Nem tem a urgência de resolver, vai-se demorando.

Na segunda faixa, “Zilveren Cubus”, o quarteto começa por desenrolar um tema intrincado, abrindo espaço para Almeida depois se espraiar. “Kitsune Pulse” é marcado pelas atmosferas fantasmagóricas dos sintetizadores, incluindo um solo do baixo elétrico (Joosten), antes do grupo retomar as linhas do tema. “Mirror Maze” abre em arranque nervoso entre o piano e a bateria, até que o tema se estabiliza, com o piano a assumir-se como peça central. “Forever until it lasts” abre com a candura do tenor, a exprimir toda a melancolia. Em “Requiem for a Dragon” é o piano que se revela, com Sjoerd van Eijk a solar com elegância. E o disco encerra com “Carousel Renewal”, com mais processamento eletrônico, em crescendo.

A (ótima) capa do disco é uma ilustração do artista neerlandês Sancho que retrata um saxofonista em chamas. Apesar de visualmente muito boa, não será exatamente a representação mais fiel da música que está dentro da rodela. Almeida não será o mais fogoso; tem chama, e aplica-a convenientemente, mas não tem a urgência de exibição, que em alguns peca pelo exagero. Se em Portugal temos atualmente excelentes saxofonistas, diferentes registros e universos, um que se tem destacado particularmente (e com toda a justiça) é José Soares, que se desdobra entre mil projetos e em todos se afirma com economia e enorme expressividade. Também Almeida revela afinidades com o seu som — uma capacidade de expressão sem necessidade de puxar demasiado, saber conversar com tranquilidade e conseguir dizer tudo.

Para lá da voz instrumental do líder, o disco destaca-se pela variedade das cores, resultado da combinação instrumental e das opções estéticas da banda, onde se inclui, com preponderância, a eletrônica. O quarteto trabalha a música com clareza, equilíbrio e tensão, fazendo-a levantar do chão. Uma bela estreia discográfica.

Faixas

1.Mark of the Wanderer 09:45

2.Zilveren Cubus 06:59

3.Kitsune Pulse 04:51

4.Mirror Maze 07:44

5.Forever until it lasts 05:00

6.Requiem for a Dragon 06:05

7.Carousel Renewal 04:41

Músicos: Fábio de Almeida— saxofone tenor, eletrônica; Sjoerd van Eijk— sintetizadores, teclados; Stef Joosten— baixo elétrico; Pedro Nobre— bateria.

Fonte: Nuno Catarino (jazz.pt)

 

 

 

 

Nenhum comentário: