Foi através de Hugo Carvalhais que descobrimos o saxofonista
Fábio de Almeida. No disco “Ascetica (Clean Feed, 2022)”, o quarto volume da
discografia do contrabaixista portuense, encontramos um músico que até então
não tínhamos ouvido com a devida atenção. E, tal como foi Carvalhais que nos
apresentou o baterista Mário Costa (que entretanto se afirmou como uma das mais
originais e relevantes figuras do jazz nacional), também Almeida se começou por
revelar através da música metódica e desconcertante do contrabaixista.
Fábio de Almeida, saxofonista tenor, compositor e
improvisador, nasceu em Paris, cresceu entre Vila Real e o Porto e vive
atualmente nos Países Baixos, na cidade de Tilburg. Ao longo do seu percurso,
além da referida parceria com Carvalhais, tocou com João Martins (o baterista,
que editou no ano passado Oxímoro), integrou o Phantom Trio (com Martins e
Sérgio Tavares) e o grupo de fusão Pãodemónio (com Nuno Trocado, Ricardo Pinto
e Marcelo Aires), além de colaborações com Marcelo D2, Teresa Cristina, Moacyr
Luz e Orquestra Bamba Social, entre outros.
Para a sua estreia na condição de líder, o saxofonista edita
através da Dox Records (baseada em Amesterdam) o álbum Requiem for a Dragon.
Desde logo, a formação é pouco convencional: Sjoerd van Eijk nos sintetizadores
e teclados; Stef Joosten no baixo elétrico; e Pedro Nobre na bateria. Também as
composições, de linhas bem marcadas, com espaço para a improvisação, são
distintivas: não são típicas do “jazz americano”, revelam antes outras
direções: incorporam diferentes elementos (da clássica à eletrônica, cruzando
geografias) para criar um universo muito próprio. Carregamos no botão play e o
disco arranca com “Mark of the Wanderer”: um sintetizador retro-futurista
(saído de um filme sci-fi dos anos ’70) a planar, sobre o qual o saxofone tenor
entra com a maior tranquilidade. Almeida não ruge, nem tem essa necessidade.
Nem tem a urgência de resolver, vai-se demorando.
Na segunda faixa, “Zilveren Cubus”, o quarteto começa por
desenrolar um tema intrincado, abrindo espaço para Almeida depois se espraiar.
“Kitsune Pulse” é marcado pelas atmosferas fantasmagóricas dos sintetizadores,
incluindo um solo do baixo elétrico (Joosten), antes do grupo retomar as linhas
do tema. “Mirror Maze” abre em arranque nervoso entre o piano e a bateria, até
que o tema se estabiliza, com o piano a assumir-se como peça central. “Forever
until it lasts” abre com a candura do tenor, a exprimir toda a melancolia. Em
“Requiem for a Dragon” é o piano que se revela, com Sjoerd van Eijk a solar com
elegância. E o disco encerra com “Carousel Renewal”, com mais processamento
eletrônico, em crescendo.
A (ótima) capa do disco é uma ilustração do artista
neerlandês Sancho que retrata um saxofonista em chamas. Apesar de visualmente
muito boa, não será exatamente a representação mais fiel da música que está
dentro da rodela. Almeida não será o mais fogoso; tem chama, e aplica-a
convenientemente, mas não tem a urgência de exibição, que em alguns peca pelo
exagero. Se em Portugal temos atualmente excelentes saxofonistas, diferentes
registros e universos, um que se tem destacado particularmente (e com toda a
justiça) é José Soares, que se desdobra entre mil projetos e em todos se afirma
com economia e enorme expressividade. Também Almeida revela afinidades com o
seu som — uma capacidade de expressão sem necessidade de puxar demasiado, saber
conversar com tranquilidade e conseguir dizer tudo.
Faixas
1.Mark
of the Wanderer 09:45
2.Zilveren
Cubus 06:59
3.Kitsune
Pulse 04:51
4.Mirror
Maze 07:44
5.Forever
until it lasts 05:00
6.Requiem
for a Dragon 06:05
7.Carousel Renewal 04:41
Músicos: Fábio de Almeida— saxofone tenor, eletrônica; Sjoerd van Eijk— sintetizadores, teclados; Stef Joosten— baixo elétrico; Pedro Nobre— bateria.
Fonte: Nuno Catarino (jazz.pt)

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