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sábado, 1 de agosto de 2026

NIKLAS PERSSON TRIO - LIVE AT TEATER TRIBUNALEN (Discreet Music)

Gravado no Festival FRIM, em Estocolmo, em 2024, este álbum apresenta o Niklas Persson Trio. Mesmo antes de colocar o LP debaixo da agulha, estamos curiosos porque somando-se ao fato de ser uma estreia da editora fora da sua zona habitual, estes grupos nórdicos têm uma atividade intensa nos clubes e festivais dos seus países, mas não são conhecidos fora desse circuito; e é o caso deste trio que, durante anos, se encontrou regularmente para tocar na casa do baterista Raymond Strid (que conhecemos bem de inúmeros grupos nórdicos como o Trespass Trio, a Fire! Orchestra, Guy-Gustafsson-Strid Trio, a Luso-Scandinavian Avant Music Orchestra).

Longe dos palcos e das expectativas, este trio foi trabalhando e desenvolvendo a sua música, muito assente na ideia de três discursos independentes, com personalidades próprias e ideias autônomas, que se cruzam para acionar a magia da improvisação. Por esta razão, apesar de ser uma estreia em disco a gravação soa tão madura e com tanta qualidade.

Começa por nos encantar o som do saxofone, seco e gravado à antiga, com espaço e sem artifícios. O fraseado de Persson, um pouco como o de Evan Parker, parece vir mais da prática de escalas da música oriental do que das europeias. Repetições, insistências, notas curtas e insistentes, stacatto, frases curtas.

O LP apresenta duas faixas — uma com 23 minutos e outra com 13 — que são, na verdade, um único corpo musical separado apenas pelas exigências materiais dos LP’s.  Ao longo de pouco mais de meia hora, o trio cria um movimento contínuo e intenso, com o saxofone a assumir um papel condutor, lançando ideias e mantendo a música viva e inquieta. Não há momentos de repetições ou de estagnação por estarem à procura, pelo contrário: a música avança com concentração plena, como se cada frase abrisse caminho à seguinte, o grupo está ligado e é capaz de reagir ao mesmo tempo, mudando de rumo em bloco, como se obedecessem a uma pauta.

Embora criada do instante (e – principalmente – de vários anos a improvisarem juntos, o que claramente se sente), a música revela solidez formal. O grupo tem um domínio raro da arquitetura global do discurso, evitando os automatismos habituais da improvisação, essa curva previsível de acalmia, ascensão e clímax (a “forma de kebab”, como Julien Desprez, por graça, chamou a este cliché da música improvisada). O que permanece, do início ao fim, é uma energia audível, sustentada pela interação sábia dos três e por uma ideia clara de forma em movimento.

É curioso como, apesar de estarmos a falar de um trio escandinavo, com esta forma de gravar e som, e com o modo como a bateria oscila entre o tradicional e o abstrato e o saxofone claro e afirmativo, traz à memória o som do jazz americano dos anos 60 e 70, como por exemplo no “Charles Mingus Presents Charles Mingus” ou em “Black Beings do Frank Lowe” (sem com isto querer dizer que há citações ou referências diretas, pois o grupo tem uma identidade própria). Mesmo nos momentos de maior intensidade, há uma economia de gestos e uma atenção constante à clareza e à concisão que impedem a música de resvalar para a catarse americana.

A bateria de Raymond Strid funciona como eixo do discurso. O contrabaixo de Patric Thorman sustenta o conjunto com discrição firme, enquanto o saxofone de Niklas Persson oscila entre as propostas melódicas e a abstração. A experiência acumulada dos músicos — e a tradição do jazz sueco e em particular o modo como sempre lidou descomplexadamente com o free — fazem esta música soar tão viva e ainda pertinente.

Editado numa tiragem limitada, o LP funciona simultaneamente como estreia mas também como afirmação de uma vontade de seguir por caminhos sólidos e por música que vale a pena, relembrando que o free jazz escandinavo continua a ser um território criativo e inovador.

Não conseguimos evitar tentar saber mais sobre o local onde o concerto foi gravado: Teater Tribunallen. Que nome magnífico! A internet diz-nos que é a casa de um coletivo teatral independente que se instalou num antigo cinema, que foi sala pornográfica antes de ser clube cultural. Desde a sua fundação, o Tribunalen assumiu-se como um teatro declaradamente político, interessado em confrontar o poder, questionar decisões governamentais e intervir nos grandes debates da sociedade sueca. Aqui está um local a não perder numa visita à Veneza do Norte. Viva a Europa!

Faixas

1.Tungan I Rätt Mun 23:12

2.Shanghajad i Heby 13:01

Músicos: Niklas Persson— saxofone alto; Raymond Strid— bateria; Patric Therman— contrabaixo.

Fonte: Gonçalo Falcão (jazz.pt)

 

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