Gravado no Festival FRIM, em Estocolmo, em 2024, este álbum
apresenta o Niklas Persson Trio. Mesmo antes de colocar o LP debaixo da agulha,
estamos curiosos porque somando-se ao fato de ser uma estreia da editora fora
da sua zona habitual, estes grupos nórdicos têm uma atividade intensa nos
clubes e festivais dos seus países, mas não são conhecidos fora desse circuito;
e é o caso deste trio que, durante anos, se encontrou regularmente para tocar na
casa do baterista Raymond Strid (que conhecemos bem de inúmeros grupos nórdicos
como o Trespass Trio, a Fire! Orchestra,
Guy-Gustafsson-Strid Trio, a Luso-Scandinavian Avant Music Orchestra).
Longe dos palcos e das expectativas, este trio foi
trabalhando e desenvolvendo a sua música, muito assente na ideia de três
discursos independentes, com personalidades próprias e ideias autônomas, que se
cruzam para acionar a magia da improvisação. Por esta razão, apesar de ser uma
estreia em disco a gravação soa tão madura e com tanta qualidade.
Começa por nos encantar o som do saxofone, seco e gravado à
antiga, com espaço e sem artifícios. O fraseado de Persson, um pouco como o de
Evan Parker, parece vir mais da prática de escalas da música oriental do que
das europeias. Repetições, insistências, notas curtas e insistentes, stacatto,
frases curtas.
O LP apresenta duas faixas — uma com 23 minutos e outra com
13 — que são, na verdade, um único corpo musical separado apenas pelas
exigências materiais dos LP’s. Ao longo
de pouco mais de meia hora, o trio cria um movimento contínuo e intenso, com o
saxofone a assumir um papel condutor, lançando ideias e mantendo a música viva
e inquieta. Não há momentos de repetições ou de estagnação por estarem à
procura, pelo contrário: a música avança com concentração plena, como se cada
frase abrisse caminho à seguinte, o grupo está ligado e é capaz de reagir ao
mesmo tempo, mudando de rumo em bloco, como se obedecessem a uma pauta.
Embora criada do instante (e – principalmente – de vários
anos a improvisarem juntos, o que claramente se sente), a música revela solidez
formal. O grupo tem um domínio raro da arquitetura global do discurso, evitando
os automatismos habituais da improvisação, essa curva previsível de acalmia,
ascensão e clímax (a “forma de kebab”, como Julien Desprez, por graça, chamou a
este cliché da música improvisada). O que permanece, do início ao fim, é uma
energia audível, sustentada pela interação sábia dos três e por uma ideia clara
de forma em movimento.
É curioso como, apesar de estarmos a falar de um trio
escandinavo, com esta forma de gravar e som, e com o modo como a bateria oscila
entre o tradicional e o abstrato e o saxofone claro e afirmativo, traz à
memória o som do jazz americano dos anos 60 e 70, como por exemplo no “Charles
Mingus Presents Charles Mingus” ou em “Black Beings do Frank Lowe” (sem com
isto querer dizer que há citações ou referências diretas, pois o grupo tem uma
identidade própria). Mesmo nos momentos de maior intensidade, há uma economia
de gestos e uma atenção constante à clareza e à concisão que impedem a música
de resvalar para a catarse americana.
A bateria de Raymond Strid funciona como eixo do discurso. O
contrabaixo de Patric Thorman sustenta o conjunto com discrição firme, enquanto
o saxofone de Niklas Persson oscila entre as propostas melódicas e a abstração.
A experiência acumulada dos músicos — e a tradição do jazz sueco e em
particular o modo como sempre lidou descomplexadamente com o free — fazem esta
música soar tão viva e ainda pertinente.
Editado numa tiragem limitada, o LP funciona simultaneamente como estreia mas também como afirmação de uma vontade de seguir por caminhos sólidos e por música que vale a pena, relembrando que o free jazz escandinavo continua a ser um território criativo e inovador.
Não conseguimos evitar tentar saber mais sobre o local onde
o concerto foi gravado: Teater Tribunallen. Que nome magnífico! A internet
diz-nos que é a casa de um coletivo teatral independente que se instalou num
antigo cinema, que foi sala pornográfica antes de ser clube cultural. Desde a
sua fundação, o Tribunalen assumiu-se como um teatro declaradamente político,
interessado em confrontar o poder, questionar decisões governamentais e
intervir nos grandes debates da sociedade sueca. Aqui está um local a não
perder numa visita à Veneza do Norte. Viva a Europa!
Faixas
1.Tungan
I Rätt Mun 23:12
2.Shanghajad
i Heby 13:01
Músicos: Niklas Persson— saxofone alto; Raymond Strid— bateria; Patric Therman— contrabaixo.
Fonte: Gonçalo Falcão (jazz.pt)

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