E a surpresa é proporcional à curiosidade: em “Around You Is
a Forest”, Morgan abdica quase por completo do contrabaixo para usar um
instrumento virtual desenhado com o software SuperCollider (plataforma para
síntese sonora e composição algorítmica). O instrumento, batizado WOODS, foi
desenhado por Morgan para produzir timbres e padrões orgânicos, apesar da sua
progênie digital, com uma ressonância antiga que aglomera qualidades das
harpas-alaúdes da África Ocidental, das cítaras asiáticas, do cimbalom e da
marimba.
A relação do contrabaixista com a programação vem do berço:
o pai pertence à primeira geração de cientistas da computação e ensinou-o a
“brincar” com BASIC e a editar a programação do Sim City para aumentar o
terreno do jogo. Morgan gosta dessa dimensão do digital — poder editar, mexer
por dentro, e não apenas usar o programa.
O LP duplo traz nove temas, feitos por si, com sete músicos
— e um poeta — que aceitam dialogar com as gotas sonoras irregulares e
imprevisíveis do instrumento virtual, resultando numa música rítmica que soa
ritualista, generativa, como uma floresta. O sistema muta, em tempo real,
padrões melódicos pentatônicos simples, provenientes de canções populares,
gerando abstrações imprevisíveis. Morgan, o “hacker musical” deste processo,
concebeu-o como extensão do seu pensamento improvisacional: padrões que
ramificam como árvores, saltando entre ramos, como ele faz ao vivo.
O WOODS (acrónimo recursivo de “WOODS Often Oscillates
Droning Strings”) dispara pontos sonoros orgânicos que inspiram os músicos
(incluindo o próprio Thomas Morgan), tocando com a eletrônica num todo
convincente, sem soar “virtual”. É uma ponte entre a tradição acústica e o
código algorítmico do SuperCollider. No extenso booklet que acompanha os dois
LPs fala de «a universe of possibilities within their resource constraints(NT: um universo de possibilidades dentro de suas limitações
de recursos)». A capa é lindíssima: um objeto musical precioso.
O disco abre com a faixa-título e com o próprio Morgan a
solar: uma meditação de contrabaixo que nos introduz nesta floresta fantástica.
“Eddies”, com Dan Weiss na tabla, evoca afrobeat e as águas de riachos; ritmos
circulares como a água a contornar as rochas. “Dream Sequence”, duo com Craig
Taborn, é etérea: sons longos de sintetizador contrariam a irregularidade da
chuva de notas do WOODS, entre gravações de campo, chuva, grilos e vento.
A forma como cada músico lidou com este processo resulta em
nove peças muito diferentes. Nunca temos a sensação de repetição, que poderia
ter acontecido se tivesse sido sempre o mesmo instrumento ou o mesmo
procedimento – o instrumento e o humano contra o digital algoritmizado. “In the
Dark” são quase cinco minutos com Henry Threadgill em flautas, numa paisagem
escura construída a partir de várias camadas que grava sem ouvir a anterior. Em
“Through the Trees”, Gerald Cleaver, na bateria, acumula mutações minúsculas
sobre uma textura — é o mais próximo que chegamos do som do jazz mais
tradicional.
Destaco “Assembly of All Beings”, com Ambrose Akinmusire no
trompete, e “Rising From the West”, a faixa que coube ao seu companheiro
musical mais regular, Bill Frisell, na guitarra acústica e elétrica. Frisell
tenta levar a música para o seu terreno melódico, mas o WOODS puxa-a para outro
lado; termina com a guitarra ligeiramente saturada, sempre à procura do seu
lugar naquele contexto. Percebe-se que trabalhou a sério esta relação. O disco
fecha com “Here” com Gary Snyder a recitar o seu poema: voz falada, a perguntar
«basta estar aqui?».
O disco é muito interessante porque nos coloca neste mundo algoritmizado em plena improvisação, levando-nos para um lugar onde o jazz nunca tinha estado, sem cair na estética da música eletrônica. O som digital é tão reminiscente de instrumentos tradicionais que nunca o sentimos desligado da matéria acústica. É também uma reflexão sobre comunidade jazzística e isolamento: cada músico respondeu à chamada de Morgan à sua maneira, no seu espaço privado, sem se verem nem colaborarem no sentido humano.
O WOODS não é apenas um dispositivo digital, mas algo que
“tira o tapete”. “Around You Is A Forest” é um disco muito bonito e entrou na
lista dos melhores de 2025 da jazz.pt, com toda a propriedade. Cada peça é autônoma
mas encaixa num corpo coerente. Thomas Morgan leva o jazz para uma floresta
algorítmica, onde código matemático e intuição musical dialogam numa música
rítmica que parece saída de rituais ancestrais, como se fosse tocada por uma
comunidade tribal pacífica e alegremente isolada numa floresta.
Faixas
1.Around
You Is A Forest (Thomas Morgan) 05:06
2.Eddies
(Dan Weiss) 06:48
3.Dream
Sequence (Craig Taborn) 06:02
4.Through
The Trees (Gerald Cleaver) 16:07
5.In The
Dark (Henry Threadgill) 04:47
6.Assembly
Of All Beings (Ambrose Akinmusire) 09:08
7.Rising
From The West (Bill Frisell) 11:00
8.Murmuration
(Immanuel Wilkins) 08:36
9.Here
(Gary Snyder) 05:29
Músicos: Thomas Morgan— WOODS, contrabaixo; Ambrose Akinmusire— trompete; Gerald Cleaver— bateria; Dan Weiss— tabla; Craig Taborn— órgão Farfisa, Fender Rhodes, sintetizadores, gravações de campo; Henry Threadgill— flauta, flauta baixo; Bill Frisell— guitarra elétrica e acústica; Immanuel Wilkins— saxofone alto; Gary Snyder— voz.
Para conhecer um pouco deste trabalho, assistam ao vídeo
abaixo:
https://www.youtube.com/watch?v=lyNWK3eOlBo
Fonte: Gonçalo Falcão (jazz.pt)

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