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sábado, 25 de julho de 2026

BEATRIZ NUNES / PAULA SOUSA / ANDRÉ ROSINHA - A CÉU ABERTO (Timbuktu)

Em abril 2021 surgia o álbum “À Espera do Futuro”. Foi um daqueles resultados diretos do lockdown pandêmico de 2020: fechados em casa, Beatriz Nunes (voz), Paula Sousa (piano) e André Rosinha (contrabaixo) compuseram temas originais e, mais tarde, juntaram-se para os interpretar. O disco afirmava o surgimento de um novo trio que, reunindo três músicos já com trabalho reconhecido, revelava uma música original, entre o jazz e a canção. Quase cinco anos mais tarde, a continuação chegou com o disco “A Céu Aberto (edição Timbuktu)”.

No novo disco encontramos um total de oito faixas, todos temas inéditos. Os três músicos dialogam e entrelaçam-se e, se a combinação instrumental poderia à partida parecer estranha, resulta com eficácia. A base das composições (cuja autoria é partilhada entre todos) é muito interessante, explorando diferentes abordagens, e o trio trabalha a interpretação com elegância e economia. Daqui resulta uma música suave, impregnada de nostalgia, na mais típica tradição portuguesa.

Na abertura, com o tema “Mini crime”, o trio exibe as credenciais: o piano de Sousa elegante e preciso, o contrabaixo-esteio de Rosinha, a voz de Nunes sem palavras (na mesma linha de Sara Serpa). Na música seguinte, já há palavras: “Miradouro” é uma narrativa contemporânea, em registro pessoal, que cruza referências geográficas da zona da Graça (Lisboa) e faz referência a terapia e problemas de vinculação (provavelmente a primeira música portuguesa que aborda diretamente estas questões).

O tema homônimo “A Céu Aberto” é um dos destaques do repertório e a voz de Beatriz, radiante, destaca-se. Belíssima, ousa frequentemente a exploração de agudos-limite, caminhando com tranquilidade na corda bamba — com risco, sem exibicionismo, uma expressividade controlada e profundamente musical. (E recordamos que em 2023, entre os dois discos deste trio, a cantora editou o seu Livro de Horas, em nome próprio.)

Assumindo centralidade, o piano de Paula Sousa é vibrante, numa música que, sendo aparentemente serena, nunca deixa de ser irrequieta. E o contrabaixo de Rosinha nunca é secundário, sempre em aceso diálogo instrumental. Perfeitamente alinhados, os três desenham uníssonos impressionantes, completamente engatados. E sobra espaço para inventividade pessoal, em solos. Este trio é um caso especial na cena jazz lusa. Aqui não encontraremos a pura essência de Beatriz Nunes, essa estará nos discos “Livro de Hora”s ou “Canto Primeiro”. Não estará a essência de Paula Sousa, que iremos encontrar nos álbuns “Nirvanix” ou “Valsa Para a Terri”. Nem a de André Rosinha, que encontraremos antes nos discos “Pórtico, Árvore ou Raiz”.

Não é um disco de afirmação individual nem de rutura. Tem ótimos temas, embora nem todos fiquem igualmente na memória. É um exercício de escuta mútua e de maturidade artística, onde três músicos superlativos colocam o coletivo acima do virtuosismo. Se estes já são figuras centrais da música nacional, juntos neste projeto trabalham uma música de refinado tricô, ancorada na tradição portuguesa. 

Faixas

1.Mini Crime 04:41

2.Miradouro 04:19

3.A Céu Aberto 03:30

4.Iaia 05:18

5.Duas Casas 03:24

6.Sudário Dior 03:37

7.Salto 04:09

8.Nó 03:25

 Músicos: Beatriz Nunes(vocal); Paula Sousa (piano); André Rosinha (contrabaixo).

Para conhecer um pouco deste trabalho, assistam ao vídeo abaixo:

https://www.youtube.com/watch?v=3oGs8isk8Jo

Fonte: Nuno Catarino (jazz.pt)

 

 

 

 

 

 

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