Não deve haver dúvidas quanto à posição de David Murray. Desde
a morte de Eddie Harris, ele é o melhor saxofonista tenor do jazz,
indiscutivelmente um dos líderes de banda mais prolíficos da era moderna. Ele
se destaca entre os poucos instrumentistas de sopro que trabalham para
redefinir a qualidade sonora de seus instrumentos. Ao analisar qualquer obra de
Murray, percebe-se que ele se define por uma paleta sonora altamente ambiciosa
e multitradicional, além de um emocionalismo arrebatador que revela sua
inteligência perspicaz. Ele é um alvo em movimento veloz, tão rápido, aliás,
que o ouvinte não percebe que é ele quem está na mira. A era do Octeto de
Murray, que se estende do início dos anos 1980 até os anos 2000, é um período
particularmente fértil para suas experimentações. “Hope Scope”, lançado
originalmente em 1991 e relançado em 2025 pela gravadora Black Saint, este
álbum introduz o pianista virtuoso Dave Burrell ao grupo, alterando
radicalmente a sonoridade, que já era bastante experimental. Em comparação com
o estilo vanguardista e performático dos ex-membros Anthony Davis e Curtis
Clark, Burrell se mostra reservado e dramaticamente intencional, uma banda tão
grande quanto a de Murray raramente soou tão intimista quanto em
"Ben", um drama sinuoso de blues envolvente dedicado a Ben Webster. O
piano avança com um ritmo contagiante, impulsionando a grandiosidade de Murray
e dos metais de Hugh Ragin e Rasul Siddik em arranjos únicos e vibrantes.
Seria uma omissão imperdoável não elogiar também o
trombonista Craig S. Harris. Sua composição "Same Places New Faces",
uma épica e pungente obra de bebop que, assim como "Alamode" de
Curtis Fuller na era Messenger, desenvolve plenamente o potencial do
instrumento para improvisações intensas, tão vertiginosas e desconcertantes
quanto suas contrapartes mais palatáveis. As frases se afogam em excessos
pantanosos, interrompidas apenas pelos grasnidos carnavalescos de Murray e
companhia, em uma provocação deliberada.
Se existe algo que define um bom líder de banda, é saber
onde e quando cutucar. Murray se encaixa perfeitamente, é claro. Nenhum artista
fica sem desafio em nenhuma faixa, por mais aparentemente monótona que seja a
composição, mas ele não cutuca, ele apunhala. Na faixa-título, uma masmorra
imponente construída a partir dos tremores aracnídeos de Wilber Morris, certos
trechos de saxofone podem soar grosseiros ao ouvinte, como um tolo
interrompendo uma conversa sem relação com o assunto. Ele é talvez até grosseiro,
levando a banda para divagações irrelevantes e ameaçando arruinar todo o som. Em
"Lester" e "Thabo", ele age como um agente desestabilizador
constante em uma ode que, de outra forma, seria comovente, catapultando-a para
uma estranha feiura, uma feiura que só enriquece a faixa por sua contemplação. O
octeto é formado pelos músicos mais iconoclastas e inteligentes do gênero,
aqueles tentados a se entregar indefinidamente a experimentos harmônicos, como
cientistas confinados em um laboratório por dias a fio. Murray injeta o mundo
de volta na música, temperando esses experimentos com o mistério e a vivacidade
tão necessários. Mesmo cerca de três décadas após o lançamento original, o
disco ainda conserva aquele aroma nauseante, mas necessário, a visão de grande
estudo e grande diversão em conjunto.
Faixas: Ben
(For Ben Webster); Same Place New Faces; Hope Scope; Lester (For Lester Young);
Thabo.
Músicos:
David Murray (saxofone tenor, clarinete baixo); Hugh Ragin (trompete); James
Spaulding (saxofone alto); Ralph Peterson (bateria); Rasul Siddik (trompete); Craig
Harris (trombone); Dave Burrell (piano, voz).
Para conhecer um pouco deste trabalho, assistam ao vídeo
abaixo:
https://www.youtube.com/watch?v=tWg7BWf_pNA
Fonte: Fran
Kursztejn (AllAboutJazz)

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