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segunda-feira, 14 de setembro de 2026

DAVID MURRAY – HOPE SCOPE (Black Saint)

Não deve haver dúvidas quanto à posição de David Murray. Desde a morte de Eddie Harris, ele é o melhor saxofonista tenor do jazz, indiscutivelmente um dos líderes de banda mais prolíficos da era moderna. Ele se destaca entre os poucos instrumentistas de sopro que trabalham para redefinir a qualidade sonora de seus instrumentos. Ao analisar qualquer obra de Murray, percebe-se que ele se define por uma paleta sonora altamente ambiciosa e multitradicional, além de um emocionalismo arrebatador que revela sua inteligência perspicaz. Ele é um alvo em movimento veloz, tão rápido, aliás, que o ouvinte não percebe que é ele quem está na mira. A era do Octeto de Murray, que se estende do início dos anos 1980 até os anos 2000, é um período particularmente fértil para suas experimentações. “Hope Scope”, lançado originalmente em 1991 e relançado em 2025 pela gravadora Black Saint, este álbum introduz o pianista virtuoso Dave Burrell ao grupo, alterando radicalmente a sonoridade, que já era bastante experimental. Em comparação com o estilo vanguardista e performático dos ex-membros Anthony Davis e Curtis Clark, Burrell se mostra reservado e dramaticamente intencional, uma banda tão grande quanto a de Murray raramente soou tão intimista quanto em "Ben", um drama sinuoso de blues envolvente dedicado a Ben Webster. O piano avança com um ritmo contagiante, impulsionando a grandiosidade de Murray e dos metais de Hugh Ragin e Rasul Siddik em arranjos únicos e vibrantes.

Seria uma omissão imperdoável não elogiar também o trombonista Craig S. Harris. Sua composição "Same Places New Faces", uma épica e pungente obra de bebop que, assim como "Alamode" de Curtis Fuller na era Messenger, desenvolve plenamente o potencial do instrumento para improvisações intensas, tão vertiginosas e desconcertantes quanto suas contrapartes mais palatáveis. As frases se afogam em excessos pantanosos, interrompidas apenas pelos grasnidos carnavalescos de Murray e companhia, em uma provocação deliberada.

Se existe algo que define um bom líder de banda, é saber onde e quando cutucar. Murray se encaixa perfeitamente, é claro. Nenhum artista fica sem desafio em nenhuma faixa, por mais aparentemente monótona que seja a composição, mas ele não cutuca, ele apunhala. Na faixa-título, uma masmorra imponente construída a partir dos tremores aracnídeos de Wilber Morris, certos trechos de saxofone podem soar grosseiros ao ouvinte, como um tolo interrompendo uma conversa sem relação com o assunto. Ele é talvez até grosseiro, levando a banda para divagações irrelevantes e ameaçando arruinar todo o som. Em "Lester" e "Thabo", ele age como um agente desestabilizador constante em uma ode que, de outra forma, seria comovente, catapultando-a para uma estranha feiura, uma feiura que só enriquece a faixa por sua contemplação. O octeto é formado pelos músicos mais iconoclastas e inteligentes do gênero, aqueles tentados a se entregar indefinidamente a experimentos harmônicos, como cientistas confinados em um laboratório por dias a fio. Murray injeta o mundo de volta na música, temperando esses experimentos com o mistério e a vivacidade tão necessários. Mesmo cerca de três décadas após o lançamento original, o disco ainda conserva aquele aroma nauseante, mas necessário, a visão de grande estudo e grande diversão em conjunto.

Faixas: Ben (For Ben Webster); Same Place New Faces; Hope Scope; Lester (For Lester Young); Thabo.

Músicos: David Murray (saxofone tenor, clarinete baixo); Hugh Ragin (trompete); James Spaulding (saxofone alto); Ralph Peterson (bateria); Rasul Siddik (trompete); Craig Harris (trombone); Dave Burrell (piano, voz).

Para conhecer um pouco deste trabalho, assistam ao vídeo abaixo:

https://www.youtube.com/watch?v=tWg7BWf_pNA

Fonte: Fran Kursztejn (AllAboutJazz)

 

 

 

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