Quando a saxofonista alto alemã Angelika Niescier explorou
pela primeira vez o jazz de Chicago, alguns anos atrás, unindo-se à
violoncelista Tomeka Reid no marcante “Beyond Dragons (Intakt, 2023)”, a
colaboração despertou algo inconfundivelmente eletrizante. Agora chega
"Chicago Tapes", gravado ao vivo no Transient Sound Studio. Aqui,
Niescier mergulha de cabeça na vertente mais profunda da improvisação da
cidade, reunindo um elenco de primeira linha extraído do núcleo criativo
inquieto dos artistas de Chicago que rompem fronteiras.
Niescier empunha seu sax alto ao lado de Dave Rempis, que
alterna entre o alto e o tenor com a destreza de um malabarista de fogo,
enquanto Nicole Mitchell contribui com linhas de flauta, que oscilam entre
sussurros etéreos e rugidos guturais. Jason Adasiewicz traz a atmosfera e seus
brilhos metálicos conferem à sessão um caráter de sonho febril que dilui a
fronteira entre ritmo e ambiência. Luke Stewart ancora o grupo no baixo com
dedilhados e o uso do arco que exercem uma gravidade magnética e serena,
enquanto Mike Reed conduz a bateria como um instigador incansável, mantendo o
ímpeto sem qualquer hesitação. Estes músicos são figuras de longa data da cena
de Chicago, profundamente enraizados em uma linhagem que vai do Art Ensemble of
Chicago às tradições da AACM, as quais pulsam em cada interação.
O álbum avança em alta velocidade: uma onda ininterrupta que
estimula os ouvidos e deixa o ouvinte sem fôlego, como se a música exigisse que
você apertasse o cinto para suas curvas fechadas repentinas e suas mudanças
arquitetônicas abruptas e irregulares. A faixa de abertura, "Rejoice,
Disrupt, Resist", irrompe com ímpeto furioso; Niescier e Rempis trocam
frases incisivas e percussivas sobre a propulsão implacável de Reed, em uma
peça que, por sua atitude desafiadora, soa quase punk. "Poranek"
segue como um exercício em trio que destaca o saxofone de Niescier, a flauta
extasiada de Mitchell e a percussão loquaz de Reed em um romance rítmico e
intenso, que parece ao mesmo tempo ancestral e futurista.
Momentos de engenhosidade surgem ao longo da obra, como o
vigoroso solo de baixo de Stewart em "SAMO (bsqt)", que invade a cena
como um convidado inesperado, porém bem-vindo, transformando a faixa em uma
explosão de 11 minutos repleta de flutter-tonguing (NT: é uma técnica de articulação usada em instrumentos de
sopro (madeiras e metais) que cria um efeito sonoro trêmulo ou
"roncado" [como um "frrrrr"]) e ideias expansivas. Nem
tudo, porém, é uma corrida desenfreada; "Great Horned Owl" oferece um
momento necessário de delicadeza camerística, com as baquetas de Adasiewicz
acomodando-se em um silêncio atmosférico antes que a próxima tempestade se
forme no horizonte.
"Fluxed" proporciona um deleite volátil e puro,
uma cascata de transformações que evidencia a profunda confiança e a escuta
telepática do grupo, ao passo que "Bouncin' the Ledge" divaga de
forma exuberante, com saxofones e flauta entrelaçados em uma dança liminar,
simultaneamente fantasmagórica e ancorada, culminando em uma série de gloriosos
arrebatamentos.
Niescier adapta sua voz incisiva e intransigente a esse
cenário com fluidez, sem atenuar sua força nem ofuscar seus colaboradores. O
resultado honra o legado do free jazz de Chicago, ao mesmo tempo que o
impulsiona com convicção e uma sensibilidade crua e moderna. Os
tradicionalistas podem ficar intrigados com a sonoridade desenfreada, mas é
justamente aí que reside a emoção: em tempos caóticos, por que a música deveria
se comportar de maneira polida?
“Chicago Tapes”
afirma-se como um documento audaz de sinergia transcontinental. A obra comprova
que Niescier não é apenas uma visitante dessa cena, mas uma catalisadora vital
de um dos grupos mais formidáveis da atualidade na cidade.
Faixas: Rejoice,
Disrupt, Resist; Poranek; SAMO (bsqt); Ext. 17; Great Horned Owl; Fluxed;
Bouncin' the Ledge; Perigeo; E Randolph Street.
Músicos: Angelika Niescier (saxofone alto); Jason Adasiewicz
(vibrafone); Nicole Mitchell (flauta); Mike Reed (bateria); Dave Rempis (saxofones
alto e tenor); Luke Stewart (baixo acústico);
Fonte: Glenn
Astarita (AllAboutJazz)

Nenhum comentário:
Postar um comentário