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quinta-feira, 1 de outubro de 2026

DAN ROSENBOOM – COORDINATES (Orenda Records)

“Coordinates” é uma declaração artística madura e plenamente realizada do compositor, arranjador e virtuoso do trompete Dan Rosenboom. É um esforço enorme em vários sentidos. Por meio de um conceito imersivo centrado tanto no som como personagem quanto nas relações abstratas entre estruturas numéricas aplicadas ao tempo e ao balanço, Rosenboom criou um autorretrato que conecta diversos aspectos singulares de sua personalidade musical. O álbum reúne 28 dos melhores artistas musicais de Los Angeles, empregados em uma série de combinações pouco convencionais que permitem às composições explorar uma ampla gama de timbres instrumentais e atmosferas.

Desde 2014, Rosenboom está à frente do selo Orenda Records que, além de abrigar muitos de seus próprios lançamentos, conta com um catálogo de projetos de mente aberta e que transitam por diversos gêneros, vindos de todos os Estados Unidos e do exterior. Muitos destes mesmos músicos participam de “Coordinates”, incluindo colaboradores de longa data como o saxofonista Gavin Templeton, o pianista Joshua White, o trombonista Ryan Dragon, o tecladista Jeff Babko e o clarinetista Brian Walsh. No entanto, Rosenboom ampliou consideravelmente a formação neste projeto ao incorporar percussão mista, um quarteto de cordas, um septeto de metais e cerca de meia dúzia de solistas convidados. Como resultado, a visão de Rosenboom apresenta sua maior diversidade, com referências à música de câmara moderna, trilhas sonoras de cinema, música folclórica do Leste Europeu, technical death metal (NT: é um subgênero do death metal focado em altíssima habilidade instrumental, estruturas musicais complexas e velocidade extrema), rock progressivo e avant-jazz. Além disso, seu interesse por conceitos da mitologia, da numerologia e da astronomia desempenha um papel crucial na concepção desta música.

As "coordenadas" mencionadas no título e em cinco das nove faixas que compõem a obra marcam aspectos distintos da mente musical de Rosenboom. Ao ouvir as peças, é possível imaginar diversos locais que proporcionam uma experiência sensorial avassaladora. Há uma sensação extremamente vívida de profundidade e ambientação presente em cada uma delas. Embora muitas das características marcantes de Rosenboom (solos virtuosísticos, melodias extensas densas e angulares, intensidade crescente do conjunto) estejam presentes ao longo da obra, nuances sutis de sua abordagem se manifestam com maior liberdade em “Coordinates”, graças à instrumentação ampliada. Em particular, há uma dimensão cinematográfica na maneira como ele emprega a textura e o desenvolvimento de motivos, o que evidencia tanto a sua habilidade como compositor e curador sonoro quanto a sua destreza como um verdadeiro acrobata instrumenta. Assim como Anthony Braxton ou Karlheinz Stockhausen, a escrita de Rosenboom permite que suas obras sejam ouvidas como partes de um todo maior. De alguma forma, a estética que ele alcança em “Coordinates” consegue coexistir sendo austera e suingante na mesma medida. Qualquer estado de alteração mental em que o ouvinte possa estar ao assimilar os temas densos é bem equilibrado pelo caráter visceral e pela excelente execução de cada faixa.

O álbum começa com a faixa "Prisms, Mirrors, Portals", minimalista e vagamente ameaçadora, uma introdução meditativa que permite uma respiração breve, porém profunda, antes de mergulhar de cabeça no turbilhão que compõe o restante do disco. Grande parte da música se estrutura em torno de uma seção rítmica central formada pelo guitarrista Jake Vossler, pelo baixista Jerry Watts Jr. e pelo baterista Caleb Dolister, uma base que se mantém consistentemente pesada e ágil do início ao fim. Ao longo do caminho, as coisas ganham um ar peculiar ("Coordinate 1: Many Worlds, Many Dances"), distorcido ("Coordinate 2: Apophis") e ameaçador ("Oracles"), chegando até a ser relaxantes em alguns momentos ("Josephine's Dream"). Cada peça é envolvente e multidimensional, mesmo antes de o ouvinte considerar o nível extraordinário de destreza instrumental, que desafia os limites do possível, e a inventividade demonstrados por Rosenboom e seus colaboradores. Alguns destaques incluem os uníssonos de sopros graves e densos entre Walsh e Jon Stehney na faixa "Old Ghosts", bem como a performance explosiva e intensa de viola de Lauren Elizabeth Baba, inspirada na Mahavishnu Orchestra, em "Coordinate 4: Nemesis". A faixa de encerramento do conjunto, "Coordinate 5: Hyperion", é um hino instrumental que dispensa declarações solistas em favor de uma profunda afirmação final coletiva, permitindo a Rosenboom apresentar a totalidade de suas visões e estabelecer firmemente a relação entre todas as outras peças.

O último som de “Coordinates” é uma resposta contínua e persistente da guitarra fortemente distorcida de Vossler. Isso serve como um clímax perfeito para toda a sonoridade anterior, com uma sensação de atordoamento que faz imaginar como seria disputar todos os 15 rounds contra um campeão dos pesos-pesados. Trata-se de um conjunto inegavelmente impressionante de músicas meticulosamente elaboradas e estilisticamente diversas. É um gesto artístico arrebatador de Rosenboom, ambicioso, fantástico e, além disso, simplesmente divertido do início ao fim de sua duração enxuta de 41 minutos.     

Faixas: Prisms, Mirrors, Portals; Coordinate 1: Many Worlds, Many Dances; Coordinate 2: Apophis; Josephine's Dream; Coordinate 3: Syzygy; Coordinate 4: Nemesis; Oracles; Old Ghosts; Coordinate 5: Hyperion.

Músicos: Dan Rosenboom (trompete); Jake Vossler (guitarra); Jerry Watts Jr. (baixo); Caleb Dolister (bateria); Jeff Babko (sintetizador); Gloria Cheng (piano); Joshua White (piano); Wade Culbreath (percussão); Petri Korpela (percussão); Katisse Buckingham (flauta); Gavin Templeton (saxofone alto); Nicole McCabe (saxofone alto); Brian Walsh (clarinete); Jon Stehney (fagote); Laura Brenes (french horn); Katie Faraudo (french horn); Steve Suminski (trombone); Ryan Dragon (trombone); Steve Trapani (trombone baixo); Doug Tornquist (tuba);Wade Culbreath (vibrafone e marimba); Petri Korpela: (percussão, gongos, metallics, tamborim, shakers, conchas); Gavin Templeton (saxes alto e barítono); Jacqueline Kerrod ( harpa); Lauren Elizabeth Baba (viola); Miguel Atwood-Ferguson (violino elétrico de 5 cordas): Michael Valerio (contrabaixo);The Lyris Quartet [Alyssa Park (violino); Shalini Vijayan (violino; Luke Maurer (viola0; Timothy Loo (cello)].

Para conhecer um pouco deste trabalho, assistam ao vídeo abaixo:

https://www.youtube.com/watch?v=qh77Ip8SfOs

Fonte: Max Kutner (AllAboutJazz)

 

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