O pianista japonês Masabumi Kikuchi (1939–2015) conquistou
reconhecimento graças aos álbuns lançados em seu próprio nome — mais de 30
discos — e ao trabalho com o baterista Paul Motian e o baixista Gary Peacock no
grupo Tethered Moon. Mas ele merecia mais. Ele era um artista singular que trabalhava
com uma dedicação inspirada, ainda que algo peculiar, típica de um músico de
ofício, até florescer na fase final de sua carreira com dois álbuns excelentes
pelo selo ECM Records: "Sunrise" (2009), um trabalho em trio com o
baixista Thomas Morgan e o baterista Paul Motian, e "Black Orpheus"
(2012), um álbum solo gravado ao vivo.
Nessa altura, sua carreira estava quase no fim (ele faleceu
de câncer de pulmão em 2015), e ele havia encontrado a sua voz. Ele executava
as notas de forma parcimoniosa e lenta. Era uma abordagem econômica, algo
semelhante ao trabalho de Paul Bley em “Open, To Love (ECM Records, 1972)”.
Suas peças improvisadas eram invocações. Suas interpretações dos clássicos eram
reveladoras.
Lançado postumamente em 2016, “Hanamichi: The Final Studio
Recording (Red Hook Records)” traz músicas de uma sessão de estúdio de 2013
produzida por Sun Chung, que fundou o selo Red Hook após dez anos de trabalho
na ECM Records. Foi uma sessão excelente, captando Kikuchi tocando quando já
havia alcançado a perspectiva que lhe permitia reduzir a música à sua pura
essência, um estilo taciturno, situado além do tempo e do compasso, que
possibilitava apreciar a beleza que ele estava criando.
Isso nos leva a “Hanimichi: The Final Studio Recordings Vol.
II”, gravado na mesma sessão que o primeiro Hanamichi. Esta sequência é tão
fascinante quanto a anterior, no uso de silêncios e na delicadeza do toque,
justapostos a rompantes de loquacidade, empregados com parcimônia, bem como em
sua sonoridade e harmonia etéreas.
Kikuchi apresenta quatro standards separados por três
improvisações angulosas e de contornos abruptos. Ele trata o Grande Repertório
Estadunidense como um bloco de argila maleável. "I Loves You Porgy"
parece mais uma improvisação do que uma releitura de um standard, com
fragmentos fugazes de melodia que a mantêm na órbita da familiaridade, ainda
que por pouco. "Manhã de Carnaval" é uma peça de beleza singular,
talvez melodicamente mais fiel ao original do que "Porgy", e "My
Ship", de Kurt Weill, possui uma grandeza serena. As improvisações possuem
uma qualidade de busca, impulsionada pela natureza curiosa de Kikuchi, que se
vale daquilo que ele chamava de "originalidade reclusa".
Kikuchi era pouco convencional. Sua música vinha de sua alma,
e sua alma era algo belo.
Faixas: Manhã
de Carnaval; Improvisation II; Alone Together; Improvisation III; I Loves You
Porgy; Improvisation IV; My Ship.
Fonte: Dan
McClenaghan (AllAboutJazz)

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