A guitarra elétrica, recorde-se, nasceu no início da década
de 1930, fruto das experiências de inventores e músicos que procuravam
amplificar o som da acústica, para que pudesse sobreviver nas big bands e
orquestras de jazz. Desde então é um instrumento que depende do processamento
elétrico do som: amplificadores e pedais são parte indissociável da sua
identidade, da sua história e da sua tradição.
A guitarra de Rafael Toral é, antes de mais, um meio de
acesso ao som. O músico não a vê como um objeto com uma engenharia própria e
com um repertório fixo de gestos e timbres - que deverá dominar tecnicamente
para poder tocar, (mas também não os recusa) mas, em vez disso, como um gerador
de possibilidades sonoras, uma máquina capaz de produzir multiplicidade.
O novo álbum de Rafael Toral, “Traveling Light” parte do som
que já tinha desenvolvido no disco anterior (“Spectral Evolution”), mas propõe
agora algo diferente: uma leitura pessoal de seis standards do jazz.
Usando o mesmo tipo de processamento do disco anterior, que
transforma a guitarra numa espécie de orquestra que se move lentamente
(lembrando a música orquestral do compositor John Luther Adams), Toral
concretiza aqui uma ideia que antes se insinuava apenas como intenção. As
canções escolhidas — “Easy Living”, “Solitude”, “Body and Soul”, “You Don’t
Know What Love Is”, “My Funny Valentine” e “God Bless the Child” — surgem
reconfiguradas num espaço entre o familiar e o desconhecido.
O disco começa com um som que recorda o canto de um pássaro,
reminiscência do trabalho anterior, antes de a guitarra introduzir lentamente a
progressão melódica da canção. Essas melodias, profundamente enraizadas na
tradição jazzística, são aqui projetadas para um território novo: não desconstruídas,
mas reconfiguradas sob outra lógica. Aumento da dimensão sonora de cada nota e
expansão do tempo em que soa.
A escuta destas peças revela um “ciclo morfioso”, o abstrato
serve a forma canônica, e esta, por sua vez, dissolve-se novamente na
abstração. O resultado é uma música que soa simultaneamente terrena e
extraterrestre: as harmonias conhecidas ganham contornos estranhos, as melodias
afastam-se da sua função original e tornam-se ambientes sonoros
autossuficientes. A música nunca é estritamente ambiental, pois está sempre
dentro de uma forma melódica, mas ao mesmo tempo o contínuo sonoro leva-nos
para esse tipo de sensação. A guitarra soa a uma grande orquestra em câmara
lenta.
O compositor convida quatro músicos para solar em quatro dos
temas, reafirmando assim a pertença da obra ao universo do jazz. José Bruno
Parrinha oferece um solo tom waitsiano de clarinete em “Easy Living”; Rodrigo
Amado, no saxofone tenor, aprofunda “Body and Soul”; Yaw Tembe, tal como
Parrinha, usa um processo escuro no flugelhorn “You Don’t Know What Love Is”; e
Clara Salero acrescenta leveza à flauta em “God Bless the Child”. Cada um
destes gestos dialoga com o ambiente eletrônico e amplia a dimensão lírica do
disco.
Na capa, regresso do tema dos aviões, um tema recorrente na
obra de Rafael Toral (ex: “Sound Mind Sound Body”), mas desta feita presentes
apenas enquanto memória deixada pelo rastro das suas luzes. O aparecimento das
companhias low-cost prometeu uma democratização: pela primeira vez, o
comum dos mortais podia voar, não em sonho, mas em tarifa. Mas, como em todos
os pactos capitalistas, também aqui há um reverso: para que o voo seja “low”, o
viajante tem de tornar-se leve. O título “Traveling Light” pode ser lido de
vários modos. Sugere, antes de tudo, a arte de viajar leve. Partir sem bagagem,
deixar o peso histórico para trás e seguir apenas com o som. Mas pode também
significar uma luz que divaga.
“Traveling Light”, sugere algo análogo: viajar com o mínimo,
libertando-se do peso do virtuosismo e da tradição para alcançar uma nova forma
de estar em viagem e com isso uma nova maneira de ver o mundo. Aqui a viagem é
para dentro música, revisitando torres Eiffel do jazz, através de um tempo,
iluminação e carga diferente. Neste disco, as torres Eiffel, passam de razão a
matéria para investigação.
É um disco sobe o tempo e sobre a luz. Pede ser ouvido num
sistema que permita perceber as texturas e os detalhes dos sons. É música para
quem gosta de ouvir música sem estar a fazer mais nada. É ao mesmo tempo
transformação, referência e rutura.
Músicos: Rafael Toral— guitarra elétrica e processamento; Bruno
Parrinha— clarinete; Rodrigo Amado— saxofone tenor; Yaw Tembe— flugelhorn; Clara
Salero— flauta.
Fonte: Gonçalo Falcão (jazz.pt)
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