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sábado, 3 de outubro de 2026

RAFAEL TORAL - TRAVELING LIGHT (Drag City)

A guitarra elétrica, recorde-se, nasceu no início da década de 1930, fruto das experiências de inventores e músicos que procuravam amplificar o som da acústica, para que pudesse sobreviver nas big bands e orquestras de jazz. Desde então é um instrumento que depende do processamento elétrico do som: amplificadores e pedais são parte indissociável da sua identidade, da sua história e da sua tradição.

A guitarra de Rafael Toral é, antes de mais, um meio de acesso ao som. O músico não a vê como um objeto com uma engenharia própria e com um repertório fixo de gestos e timbres - que deverá dominar tecnicamente para poder tocar, (mas também não os recusa) mas, em vez disso, como um gerador de possibilidades sonoras, uma máquina capaz de produzir multiplicidade.

O novo álbum de Rafael Toral, “Traveling Light” parte do som que já tinha desenvolvido no disco anterior (“Spectral Evolution”), mas propõe agora algo diferente: uma leitura pessoal de seis standards do jazz.

Usando o mesmo tipo de processamento do disco anterior, que transforma a guitarra numa espécie de orquestra que se move lentamente (lembrando a música orquestral do compositor John Luther Adams), Toral concretiza aqui uma ideia que antes se insinuava apenas como intenção. As canções escolhidas — “Easy Living”, “Solitude”, “Body and Soul”, “You Don’t Know What Love Is”, “My Funny Valentine” e “God Bless the Child” — surgem reconfiguradas num espaço entre o familiar e o desconhecido.

O disco começa com um som que recorda o canto de um pássaro, reminiscência do trabalho anterior, antes de a guitarra introduzir lentamente a progressão melódica da canção. Essas melodias, profundamente enraizadas na tradição jazzística, são aqui projetadas para um território novo: não desconstruídas, mas reconfiguradas sob outra lógica. Aumento da dimensão sonora de cada nota e expansão do tempo em que soa.

A escuta destas peças revela um “ciclo morfioso”, o abstrato serve a forma canônica, e esta, por sua vez, dissolve-se novamente na abstração. O resultado é uma música que soa simultaneamente terrena e extraterrestre: as harmonias conhecidas ganham contornos estranhos, as melodias afastam-se da sua função original e tornam-se ambientes sonoros autossuficientes. A música nunca é estritamente ambiental, pois está sempre dentro de uma forma melódica, mas ao mesmo tempo o contínuo sonoro leva-nos para esse tipo de sensação. A guitarra soa a uma grande orquestra em câmara lenta.

O compositor convida quatro músicos para solar em quatro dos temas, reafirmando assim a pertença da obra ao universo do jazz. José Bruno Parrinha oferece um solo tom waitsiano de clarinete em “Easy Living”; Rodrigo Amado, no saxofone tenor, aprofunda “Body and Soul”; Yaw Tembe, tal como Parrinha, usa um processo escuro no flugelhorn “You Don’t Know What Love Is”; e Clara Salero acrescenta leveza à flauta em “God Bless the Child”. Cada um destes gestos dialoga com o ambiente eletrônico e amplia a dimensão lírica do disco.

Na capa, regresso do tema dos aviões, um tema recorrente na obra de Rafael Toral (ex: “Sound Mind Sound Body”), mas desta feita presentes apenas enquanto memória deixada pelo rastro das suas luzes. O aparecimento das companhias low-cost prometeu uma democratização: pela primeira vez, o comum dos mortais podia voar, não em sonho, mas em tarifa. Mas, como em todos os pactos capitalistas, também aqui há um reverso: para que o voo seja “low”, o viajante tem de tornar-se leve. O título “Traveling Light” pode ser lido de vários modos. Sugere, antes de tudo, a arte de viajar leve. Partir sem bagagem, deixar o peso histórico para trás e seguir apenas com o som. Mas pode também significar uma luz que divaga.

“Traveling Light”, sugere algo análogo: viajar com o mínimo, libertando-se do peso do virtuosismo e da tradição para alcançar uma nova forma de estar em viagem e com isso uma nova maneira de ver o mundo. Aqui a viagem é para dentro música, revisitando torres Eiffel do jazz, através de um tempo, iluminação e carga diferente. Neste disco, as torres Eiffel, passam de razão a matéria para investigação.

É um disco sobe o tempo e sobre a luz. Pede ser ouvido num sistema que permita perceber as texturas e os detalhes dos sons. É música para quem gosta de ouvir música sem estar a fazer mais nada. É ao mesmo tempo transformação, referência e rutura.

Músicos: Rafael Toral— guitarra elétrica e processamento; Bruno Parrinha— clarinete; Rodrigo Amado— saxofone tenor; Yaw Tembe— flugelhorn; Clara Salero— flauta.

Fonte: Gonçalo Falcão (jazz.pt)

 

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