Com “Song”, Sophie Agnel confirma seu lugar como uma das
pianistas mais estimulantes e inventivas do cenário europeu de improvisação. Embora
ela seja há muito tempo uma parceira formidável para nomes como John Butcher,
John Edwards e Steve Noble, aqui ela reforça seu valor como solista.
Porém, essa não é toda a história. O que confere à sessão
seu sabor peculiar é o recurso de enquadramento: uma voz gravada — a da soprano
Mauricette Millot cantando uma versão de 1958 da tradicional canção natalina
francesa "San Jousé m'a dit", na primeira e na última das sete faixas.
Falaremos mais sobre isso adiante, mas basta dizer agora que a programação
astuta demonstra outra das virtudes duradouras de Agnel: um senso refinado de
estrutura, mesmo nos cenários mais livres.
Como muitos outros, ela trata o teclado menos como um
instrumento fixo e mais como um gerador de ruído mutável, estendendo-se muito
além das preparações estáticas prescritas por John Cage para um terreno que
parece tátil, volátil e vivo. Porém, o que a distingue das demais não é apenas
a técnica, e sim a precisão com que situa os sons individuais e a sua
requintada calibração de contrastes. Basta ouvir e deleitar-se com as sutis e
nem tão sutis degradações da sonoridade característica do piano. Suas peças se
desdobram como poemas sinfônicos, sem restrições de forma, mas ricos em gestos
e implicações.
Em outros exemplos de organização astuta, Agnel alterna a
densidade entre os números. As gotas isoladas e as reverberações distorcidas de
"Song 2" pairam no domínio da contenção, enquanto a percussão
mecânica e implacável de "Song 3" é pura tensão e torque. Mesmo sem
recorrer às gravações de voz, ela cria camadas sonoras que evocam metáforas
vívidas e elementares: ondas oceânicas, tempestades distantes, zumbidos de
cigarras, batidas errantes de poltergeist (NT: é um
termo alemão que significa "espírito barulhento" [de poltern, fazer
barulho, e geist, espírito]. Refere-se a fenômenos sobrenaturais caracterizados
por ruídos inexplicáveis, movimentação de objetos, luzes piscando e quebras de
itens, sendo associado a entidades invisíveis que interagem fisicamente com o
ambiente). Por vezes, surgem como pulsações fragmentadas, outras vezes
geram uma névoa cintilante e envolvente.
O uso da voz de Millot acrescenta uma dimensão emocional
inesperada. Na faixa de abertura, a canção natalina surge como uma presença
espectral em meio a um chiado ambiente, ruídos e toques de teclado ressonantes.
Quando reaparece na faixa final, é uma entidade muito mais corpórea, que Agnel
inicialmente ignora com toques hesitantes, mas depois alinha gradualmente,
revelando a progressão harmônica subjacente, juntamente com batidas, dedilhados
e ecos, tudo sustentado mesmo quando a voz se dissipa, até que ela finaliza a
faixa com uma coda suave e cadenciada de dois acordes repetidos em uma
resolução silenciosa.
É um desfecho impressionante para um álbum com uma trama
revigorante — menos um clímax do que uma reconciliação — em um disco concebido
com rara atenção aos detalhes. Embora a música seja minimalista em sua
execução, ela é rica em ideias, e sua coerência reside na habilidade de Agnel
em moldar o tempo e a ressonância com foco inabalável.
Faixas: Song
1; Song 2; Song 3; Song 4; Song 5; Song 6; Song 7.
Fonte: John
Sharpe (AllAboutJazz)
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