playlist Music

terça-feira, 9 de junho de 2026

SOPHIE AGNEL - SONG (SOPHIE AGNEL) [Relative Pitch Records]

Com “Song”, Sophie Agnel confirma seu lugar como uma das pianistas mais estimulantes e inventivas do cenário europeu de improvisação. Embora ela seja há muito tempo uma parceira formidável para nomes como John Butcher, John Edwards e Steve Noble, aqui ela reforça seu valor como solista.

Porém, essa não é toda a história. O que confere à sessão seu sabor peculiar é o recurso de enquadramento: uma voz gravada — a da soprano Mauricette Millot cantando uma versão de 1958 da tradicional canção natalina francesa "San Jousé m'a dit", na primeira e na última das sete faixas. Falaremos mais sobre isso adiante, mas basta dizer agora que a programação astuta demonstra outra das virtudes duradouras de Agnel: um senso refinado de estrutura, mesmo nos cenários mais livres.

Como muitos outros, ela trata o teclado menos como um instrumento fixo e mais como um gerador de ruído mutável, estendendo-se muito além das preparações estáticas prescritas por John Cage para um terreno que parece tátil, volátil e vivo. Porém, o que a distingue das demais não é apenas a técnica, e sim a precisão com que situa os sons individuais e a sua requintada calibração de contrastes. Basta ouvir e deleitar-se com as sutis e nem tão sutis degradações da sonoridade característica do piano. Suas peças se desdobram como poemas sinfônicos, sem restrições de forma, mas ricos em gestos e implicações.

Em outros exemplos de organização astuta, Agnel alterna a densidade entre os números. As gotas isoladas e as reverberações distorcidas de "Song 2" pairam no domínio da contenção, enquanto a percussão mecânica e implacável de "Song 3" é pura tensão e torque. Mesmo sem recorrer às gravações de voz, ela cria camadas sonoras que evocam metáforas vívidas e elementares: ondas oceânicas, tempestades distantes, zumbidos de cigarras, batidas errantes de poltergeist (NT: é um termo alemão que significa "espírito barulhento" [de poltern, fazer barulho, e geist, espírito]. Refere-se a fenômenos sobrenaturais caracterizados por ruídos inexplicáveis, movimentação de objetos, luzes piscando e quebras de itens, sendo associado a entidades invisíveis que interagem fisicamente com o ambiente). Por vezes, surgem como pulsações fragmentadas, outras vezes geram uma névoa cintilante e envolvente.

O uso da voz de Millot acrescenta uma dimensão emocional inesperada. Na faixa de abertura, a canção natalina surge como uma presença espectral em meio a um chiado ambiente, ruídos e toques de teclado ressonantes. Quando reaparece na faixa final, é uma entidade muito mais corpórea, que Agnel inicialmente ignora com toques hesitantes, mas depois alinha gradualmente, revelando a progressão harmônica subjacente, juntamente com batidas, dedilhados e ecos, tudo sustentado mesmo quando a voz se dissipa, até que ela finaliza a faixa com uma coda suave e cadenciada de dois acordes repetidos em uma resolução silenciosa.

É um desfecho impressionante para um álbum com uma trama revigorante — menos um clímax do que uma reconciliação — em um disco concebido com rara atenção aos detalhes. Embora a música seja minimalista em sua execução, ela é rica em ideias, e sua coerência reside na habilidade de Agnel em moldar o tempo e a ressonância com foco inabalável.

Faixas: Song 1; Song 2; Song 3; Song 4; Song 5; Song 6; Song 7.

Fonte: John Sharpe (AllAboutJazz)

 

Nenhum comentário: