É raro descrever uma gravação de áudio como corajosa, mas é
exatamente isso que o mais recente lançamento do Silke Eberhard Trio
representa: ousadia, destemor e uma originalidade inabalável. “Being-A-Ning”, o
quinto álbum do grupo, empresta seu título de "Rhythm-A-Ning", de
Thelonious Monk, homenageando o gigante do jazz e dando continuidade à
convenção de nomenclatura temática do trio. Os álbuns anteriores — "Being
(2008)" e "What A Beauty Being (2011)" pela Jazzwerkstatt,
seguidos por "The Being Inn (2017)" e "Being The Up And Down
(2021)" pela Intakt — exploraram a natureza elusiva do "ser"
através da improvisação destemida e de ideias composicionais incisivas.
Eberhard, saxofonista alto conhecida por seu timbre
expressivo e espírito aventureiro, compôs nove das dez faixas do álbum. Sua
escrita é audaciosa, intelectualmente rigorosa, mas emocionalmente impactante. Ela
sempre se inspirou em inovadores ousados, como Charles Mingus, Eric Dolphy e
Ornette Coleman, cuja influência pode ser sentida na energia espontânea e na
elasticidade estrutural do trio. Mais contemporaneamente, sua abordagem se
alinha à de Steve Lehman e Steve Coleman, ambos saxofonistas alto que utilizam
sistemas rítmicos complexos e estruturas inovadoras sem perder a essência
humana da música.
Considere "What´s In Your Bag", que se desenvolve
como uma demonstração matemática avançada, densa, calculada, mas profundamente
satisfatória. "New Dance" aproveita essa energia com uma propulsão
funk, enquanto "Sao" mostra o baterista Kay Lübke liderando com uma
pulsação insistente, sinos e texturas que levam Eberhard e o baixista Jan Roder
aos limites de seus vocabulários sonoros. Roder e Lübke são mais do que
acompanhantes, são cúmplices, enfrentando os desafios composicionais de
Eberhard com garra e precisão.
Até mesmo os momentos que ameaçam se acalmar — como a balada
"Golden Fish" — são repletos de surpresas. O trio emprega frases com
início e parada abruptas e desconstruções sutis, que desestabilizam a
trajetória esperada de uma balada de jazz. A faixa-título é uma surpresa
astuta, canalizando não Monk, mas o timbre suave do saxofone alto da banda de Charles
Mingus e a facilidade melódica do quarteto de Dave Brubeck, tudo filtrado pela
sensibilidade angular e destreza rítmica do trio.
“Being-A-Ning” é uma declaração ousada de um trio que
prospera no risco, provando que o jazz aventureiro ainda pode soar fresco,
enraizado e intensamente vibrante. Não é apenas corajoso: é essencial ouví-lo.
Faixas: What's
In Your Bag; Golden Fish; Sao; Hans Im Glück; New Dance; Stranger Bossa;
Being-A-Ning; Lake; Die Urwald II; Rubber Boots.
Musicos: Silke
Eberhard (saxofone); Jan Roder (baixo); Kay Lübke (bateria);
Fonte: Mark
Corroto (AllAboutJazz)






